29.12.10

Reinventar para viver.


Reinventar para viver.

Recebi este email de um garoto de 74 anos que em 2010 resolveu dar um novo sentido à própria vida.

Depois de uma vida dedicada ao ensino universitário num grande centro urbano, este menino foi aposentado meio que compulsoriamente. Para ele, que sempre afirmou que ia trabalhar até morrer, foi um baque. Reergueu-se decidido a mudar o rumo da vida. E reinventou-se para viver.

Entro no meu tradicional módulo ofilaine até fevereiro, mas deixo a mensagem dele publicada na página de abertura do Ombudsmãe, para que todos nós, principalmente eu mesma, a tenhamos como exemplo de que sempre é tempo de rever a vida. E que não é preciso muito para torna-la ainda mais significativa e bela.

Que venha 2011! 


"Alguns de vocês me enviaram cartão de natal, desejando-me boas festas e um ano novo pleno de realizações. 

Os cumprimentos de boas festas eu agradeço e retorno com votos dobrados ou aumentados ao infinito.

O ano novo pleno de realizações... na minha idade é um pouco utópico. Mas eu agradeço todos os dias ao Criador do Universo:

1 – por estar com vivo;
2 – por estar vivo e com saúde (algumas unhas  encravadas, as vezes uma bronquite ligeira, umas dores nas juntas, mas... tudo passageiro);
3 – por estar vivo, com saúde e com disposição para trabalhar (menos com “coisas das Universidades”);
4 – por estar vivo, com saúde, com disposição para trabalhar e plantando árvores por aí (filhos já os fiz; livro já escrevi, árvores estou plantando);
5 – falando com ELE, nos meus murmúrios e confabulações íntimas, prometo-LHE que plantarei, no ano de 2011, no mínimo 20.000 árvores (Guanandi, de preferência), florestando uma área inóspita, com muitos aclives e declines e erma até de pássaros;
6 – prometo-LHE que naquele pedaço de chão, montanhoso e cheio de água nos seus vales, também plantarei ipês (rosa, branco e amarelo) e acácia, para atrair e alimentar abelhas;  salpicar os vales com frutas de todos os tipos, para atrair os pássaros (pequenos, médios e enormes);
7 – que mandarei criar galináceos (caipira, garnisé e d’angola) – criados soltos e livres – para, além de usufruir dos ovos, também alimentar os lobos-guarás, que lá são abundantes;
8 – deixarei que permaneçam  na área, todas as seriemas, companheiras e amigas, gritonas e famintas eternas, grandes aliadas no combate às cigarras, gafanhotos, cobras e insetos diversos;
9 – também deixarei – e serão tratados com carinho – os tamanduás, inimigos mortais das formigas, que por lá são abundantes;
10 – prometo, também, que ao redor da casa – um ranchinho a beira chão:
A – será plantado um pomar com frutas diversas, mormente as exóticas e mantida uma horta, de preferência orgânica. Tudo para servir aos amigos que lá forem;
C – ao longo da alameda da entrada plantar duas fileiras de flamboyant “que deverão florir na primavera”, enfeitando os céus e alegrando nossos espíritos com suas flores vermelhas carregadas;
D – toda a área deverá receber grama Esmeralda, para que o seu verdor deleite os olhos e serene a alma de quem ali estiver;
D – manter no alto da serra toda a vegetação de cerrado, principalmente as “frutas de lobo”, as gabirobas e os marolos.

Em troca, o  que peço para ELE?
Que me deixe usufruir deste pequeno mundo multicolorido por mais algum tempo. Só isso!
Você acha que estou pedindo muito?

Feliz ano novo."

Foto: Kevin Omara

14.12.10

Mães pro Futuro



Conheci a Ana Cláudia, do Futuro do Presente, há 3 anos, quando resolvi parar de alugar o ouvido de parentes e amigos e comecei a expor minhas opiniões no blog.

Para uma blogueira virgezinha como eu, foi como conhecer a garota rodada do colégio. A mulher é um furor. Bloga, cuida de 4 hominhos, cachorros e quintal, promove listas de discussão na rede, grupos de ativismo, tem uma pequena empresa de produtos conscientes, participa de encontros de blogueiros, foruns educativos, tuita, feicebuca, orkuta, manda email, organiza blogagens coletivas, conhece um monte de gente na rede, enfim...é "O Cara" das mães que blogam.

Aprendo muito com ela. Por isso, qual não foi minha surpresa, quando essa pessoa cheia de tempo ocioso (rs!) resolve inventar um selinho "Mães pro Futuro", mesmo assumindo que é "cafona e ultrapassado" (a Ana é assim, não tem medo de ser feliz) e escolhe quem pra dar o primeiro?

A Ombudsmãe que vos escreve! E que agora tá se achando, já que foi aceita pra entrar pra turma da garota popular do colégio.

Fiquei emocionada com o carinho da Ana e com a escolha do Ombudsmãe pra inaugurar o selo. Em se tratando do futuro, é uma responsabilidade e tanto!

Mas agora, me resta a difícil tarefa de escolher outra blogueira para repassar. Dureza...vou tomar um Dreher. Os blogs de mães melhoram a cada dia e tem muuuuuuuita coisa boa na rede. Escolher uma é fazer injustiça com muitas outras. Estamos vendo nascer na rede um movimento grande de mães que questionam e refletem. Mães que perguntam: "tem mesmo que ser assim?".

Mas a escolha tem que ser feita. Assim, ordena la reina Ana. Para facilitar, resolvi basear minha escolha em mães que vão além de blogar e promovem ações multiplicadoras da transformação materna e social.

Acabei escolhendo 3 mães, que é pra espalhar bem o selinho e fazer nossa panelinha crescer rapidamente: a Vanessa Anacleto, do "Mãe é tudo igual", a Carolina Pombo, do "What Mommy Needs" e a Perola Boudakian, do "Mamãe Antenada".

A Vanessa é outra blogueira master incasável. Tem vários blogs, o "Mãe é tudo igual" onde sempre publica entrevistas com especialistas sobre assuntos diversos envolvendo a maternidade, o "Fio de Ariadne" sobre literatura, onde promove inúmeras blogagens coletivas e, como se não bastasse acaba de escrever um livro, o Culpa de Mãe, um tema com o qual estamos pouco familiarizadas (rs!).

A Carolina escreve no What Mommy Needs e é uma mãe que fuça. Sempre tem algo legal para indicar, um texto, um evento, participa da Escola Virtual de Pais e coloca muito bem suas opiniões de psicóloga e pesquisadora caleidoscópica.

E a Perola é outra mãe que me tira o fôlego. Escreve no Mamãe Antenada, onde se considera uma radical livre (adorei!), no Pé na Cozinha, onde promove a alimentação caseira saudável, é batalhadora do ECA, o Estatuto da Criança e do Adolescente, dá consultoria para grupos pró parto natural e aleitamento, e de quebra me dá bronca por que dou muito colo pra quem não consegue amamentar.

As regras da brincadeira, vocês pegam diretamente com a dona Ana, clicando aqui.

Mil perdões a quem ficou de fora. Mas se saio por aí dando selinho pra todas, vão me chamar de Hebe Camargo.

Um beijão e obrigada, Ana!


8.12.10

Epidemia de TDAH ou um sistema educacional doente?





Quem está interessado no debate sobre a "epidemia" de TDAH, deve assistir a estes dois vídeos de palestras do Sir Ken Robinson, autor britânico e consultor em educação.

Ele expõe da maneira leve e bem humorada a relação existente entre a atual onda de medicar crianças com um sistema educacional que não funciona mais.

Se o vídeo entrar sem legenda, clique no menu "cc" para ativá-la. Alerto que ela está literal demais, o que por vezes atrapalha o entendimento, mas com um comprimidinho de Ritalina, você vai conseguir se concentrar e assistir! Rs!!!!!!

E se demorar pra carregar, minimize a página, vá namorar um pouco e quando voltar, assista sem as interrupções chatíssimas do Youtube. Vale a pena! Sua visão sobre crianças levadas da breca nunca mais será a mesma.

P.S1: O blogger cortou um pedaço da lateral dos vídeos. Não tenho noção de como ajustar. Se isso também aconteceu no seu monitor, clique duas vezes sobre os vídeos e assista diretamente no Youtube.

P.S2: Publiquei apenas a segunda parte da palestra, no vídeo 2. Caso você se interesse em assistir a palestra toda (é muito boa!), clique aqui: http://www.youtube.com/watch?v=yFi1mKnvs2w

6.12.10

Rita Lee ao invés de Ritalina.



Rita Lee ao invés de Ritalina.

Esta matéria foi enviada pela Renata, do Pipocando, uma mãe que, como muitas de nós se mantém firme na resistência.

É um alerta para o uso cada vez mais frequente da Ritalina como supernanny de farmácia para crianças. No Brasil já são vendidas 2 milhões de caixas ano.

Adorei a especialista em psiquiatria da Unicamp chamada para comentar o fenômemo. "Os efeitos da Ritalina são devastadores...eu não descarto que existam crianças portadoras de patologias, mas nem para essas eu receitaria Ritalina."

Aí a reporter pergunta: "O que a senhora receitaria?"

"Rita Lee" responde a Doutora e me conquista para sempre.

O pior disso tudo é que a droga está sendo dada para enquadramento de crianças na escola. Reflexo de uma sociedade definitivamente sem parâmetros. A escola para no tempo - numa sociedade em transformação é uma das instituições mais resistentes a mudanças - e crianças são drogadas para se adaptarem a um sistema educacional que, claramente, não funciona mais.

Com a anuência dos pais que temem que o filho fique para trás. Que seja rotulado. Que dê problema. Que cause transtornos. Que seja ele mesmo.

E com o aval de muitos médicos que, com absoluta certeza, nunca pisaram numa sala de aula. Portanto, ao invés de dizerem: "Mãe, mas a escola do seu filho é um pé no saco e ele tem toda razão de estar desatento" ou "Mãe, na idade dele não parar quieto é absolutamente normal, mude do apartamento para uma casa e frequente mais o parque", ou então "Mãe, nem a senhora está prestando atenção ao que eu falo, como quer que seu filho seja atento?"...ao invés de dizerem isso (e um milhão de coisas mais), eles sacam o bloco de receitas e táá dááá, lá vai a mãe pra farmácia convencida de que um pouquinho de química fará muito bem para aquele pequeno.

Seria triste, muito triste, se não fosse um crime.

27.11.10

Procuro uma escola que dê jeito no meu filho.


Procuro uma escola que dê jeito no meu filho.

Um equívoco muito comum é a escolha da escola ser feita para "dar jeito" na criança. Canso de ouvir mães justificarem a matrícula em uma instituição linha dura porque o filho precisa de mais disciplina.

E junto com essa explicação, praticamente todas se queixam que vivem sendo chamadas pela escola por conta da rebeldia ou da indisciplina dessas crianças. Bilhetes, advertências, birras, malcriações, bronca em reuniões de pais, acabam virando parte do pacote.

Conclusão que se chega: o filho é mesmo impossível.

Leda me conta que, cansada de tanto ser chamada, avisou a escola: "Não me chamem mais. Ele é assim, vocês conhecem, resolvam." E assim o problema deixou de existir. Apenas para ela, é claro.

Rafael, o filho da Leda, é um menino extremamente ativo, desses com o bicho carpinteiro. Ao mesmo tempo, é um menino curioso, arrojado e explorador. Se mete no meio do mato, trepa em árvore, faz clubinho e passa o tempo todo na rua inventando coisas.

O erro de Leda foi escolher a escola focando nos defeitos do filho ao invés das qualidades. Podia ter escolhido uma escola que valorizasse o lado curioso dele. Uma escola que não o obrigasse a ficar o tempo todo sentado, que o deixasse pesquisar, explorar e contribuir com a dinâmica da classe com o que tem de melhor. Uma escola que o fizesse se sentir aceito e útil, do jeito que ele é.

Na escola linha dura que ele foi matriculado, acabou rotulado como o aprontador. E, como todos os rótulos, Rafael assumiu integralmente o papel. Entope vasos sanitários, briga, joga coisas no telhado. E dá-lhe sanções para ver se o menino se enquadra e fica quieto na carteira.

Já Tamires, a filha da Carla, não tem problemas comportamentais. Mas não é do tipo acadêmico. É distraída, prefere praticar esportes e participar de atividades lúdicas, do que ficar debruçada em cadernos. Para dar "jeito" nisso, a mãe optou por uma escola que dá bastante matéria e tarefa.

Hoje surta com a dificuldade que é fazer a menina estudar. A menina, esperta como é, aproveita a fama negativa para demonstrar toda sua má vontade em casa e na sala de aula. Numa outra escola, mais estimulante e comedida com relação à quantidade de tarefa e de matéria, a menina talvez fosse outra criança e quem sabe até, se sentisse mais estimulada a aprender.

Que fique claro. Não estou defendendo aqui a educação livre e inconsequente, a tal "solta de mais" que os pais tanto temem. Crianças precisam de limites. Mas limites que sirvam para conduzir e não para limitar. E isso, bons educadores sabem fazer porque estudam para ser educadores e não militares.

A valorização dos nossos filhos, começa em casa. Da próxima vez que os problemas comportamentais deles nos tirarem o sono, vamos sacudir a cabeça e tentar focar naquilo que eles tem de melhor. E dali para frente, buscar resgatar a criança maravilhosa que está se perdendo em meio a tantas críticas.

A escola precisa ser nossa parceira neste resgate.

22.11.10

Jabá sem fins lucrativos - Caixa de Brincar





Jabá sem fins lucrativos - Caixa de Brincar

Adriana poderia ser como todas nós, mães que tentam, mas deu a sorte de ter o Paulão como filhote.

Paulão nasceu sem imunidade nenhuma (lembra do Menino na Bolha de Plástico?) e precisou se submeter a um transplante de medula óssea ainda bebê. Durante o longo e extremamente árduo processo, Adriana vestiu a capa, largou casa, carreira, vida própria e tudo o mais que costumamos levar na bagagem e lutou como uma leoa pela vida do filho.

Sairam dessa todos vivos, saudáveis, mas a Dri em especial desenvolveu um senso extremamente apurado para os momentos curtidos entre pais e filhos. Esteja onde estiver, nunca a vi desperdiçar um.

Desse dom que ela acabou adquirindo, veio uma idéia simples e muito criativa. Produzir kits de atividades para pais e filhos fazerem juntos. Nascia a Caixa de Brincar, nome que o próprio Paulo escolheu para as caixas que a mãe monta e testa sempre com ele antes de colocá-las a venda.

As Caixas são bem artesanais, montadas a mão, com o maior carinho. E não vem com nenhum brinquedo pronto. Só com coisas de fazer: bijuterias, panetone, massinha caseira, salãozinho de beleza, ferramentas (de verdade!), pipas, hortas etc. A Dri vai inventado e testando. Já produziu até uma Caixa de Fazer Livros em Casa e outra de Texturas (com deliciosos carimbos feitos de aniz).

Para conhecer mais sobre a história da Dri e do Paulo, o endereço do blog do Paulão é http://paulovinha.blogspot.com.

O endereço do site da Caixa de Brincar é www.caixadebrincar.com.br A Adriana também monta caixas personalizadas e lembranças não açucaradas para festas infantis.

13.11.10

"O filho da minha amiga lê melhor que o meu."


"O filho da minha amiga lê melhor que o meu."

A armadilha das comparações no processo de alfabetização.



BARALIO (baralho), PRAPO (trapo), QUIEJU (queijo), LEFATE (elefante).

Juju tem 7 anos e meio. Estas foram suas anotações em uma ficha de jogo de tabuleiro preenchida com uma letrona maiúscula, meio torta e imprecisa. Juju é meu terceiro filho e o último deles a passar pelo processo de alfabetização.

Eu poderia cair no equívoco comum de compará-lo a outras crianças. Felizmente, a maternidade múltipla me concedeu o bônus extra de compreender que cada filho tem seu processo único de aprender a ler e a escrever. Essas comparações servem apenas para nos encher de orgulho. Ou de angústia. E não ajudam em nada a criança.

Tem criança interessada desde muito cedo em aprender letras e números. E bem pequenas começam a aproximação com a alfabetização. Outras não estão nem aí para esse código estranho e demoram muito mais pra serem engajadas no processo de aprendizagem. Tem criança que prefere correr e pular do que sentar e escrever. Outras são tão criativas que, quando se vê, fizeram um lindo desenho e nenhuma letra sequer. Cada uma tem seu ritmo, seu dom, sua habilidade e personalidade.

Cabe ao educador identificar o processo de cada uma e conduzi-las respeitando o ritmo individual. E acalmar eventuais pais que aparecem chorando com uma cebola escrita com s.

Aí, fica a pergunta: se não dá pra comparar, como avaliar? A melhor avaliação é manter um registro da evolução da própria criança. Algumas escolas fazem portifólios onde vão arquivando alguns trabalhos ao longo do ano. Se a escola do seu filho não faz esse registro, os pais podem fazê-lo guardando alguns trabalhos em ordem cronológica. Ao avaliarmos estas pastas, conseguimos dimensionar o ponto de partida daquele pequeno indivíduo no início do ano e até onde ele avançou ao término do período. Assim a comparação é feita com ele mesmo. É um sistema muito eficiente, inclusive, para avaliarmos a escola. Ao longo do tempo, a criança tem, obrigatoriamente, que apresentar progressos. Se os trabalhos de março pouco se diferenciarem dos de agosto, por exemplo, acenda o sinal de alerta e procure saber o que está havendo. Vale ressaltar: não se trata de nota e, neste caso, comparar a evolução das notas não ajudará em nada. Ignore-as e foque no conteúdo.

Tenho uma amiga que notou que o filho, de 8 anos, matriculado em escola particular de uma grande rede, passou um ano sem evoluir em quase nada. E no boletim só vinha notão. Ao término do ano, ela o mudou de escola e houve uma retomada significativa no desenvolvimento do menino. Sinal que o problema não era dele e sim da instituição.

Voltando ao Juju, matriculado em uma escola construtivista, ele concluiu o infantil sem saber ler ou escrever (mas pleno de outras habilidades importantíssimas). Algumas crianças da classe dele já liam com fluência. Nunca me preocupei pois tinha clara noção de que é apenas ao final do terceiro ano do fundamental que se encerra o ciclo inicial da alfabetização. O Juju tinha tempo e eu e meu marido decidimos respeitá-lo. No primeiro ano, seus trabalhos iniciais mostram rabiscos e bolinhas ao invés de letras, o que é normal, mas o comportamento da pessoinha indicava um total desinteresse em sair disso. Tivemos sorte dele ter uma professora experiente, calma e segura, que já tinha sido a mestra de outro filho meu (e cujo processo de alfabetização foi completamente diferente do irmão). Conversamos e ela nos orientou sobre alguns procedimentos para ajudá-lo em casa, na hora da tarefa (que nessa escola...Aleluia Senhor!...dura 10 minutos pra ser realizada).

Aos poucos, e tortura free, a ficha foi caindo e Juju está terminando o ano escrevendo em maiúscula como descrevi no primeiro parágrafo. Também já lê, espontâneamente, palavras soltas em jornais, embalagens, fachadas de loja e está muito mais interessado. Comparado ao que ele sabia no início do ano, é uma evolução imensa! Estou muito feliz e tranquila com as conquistas do meu pimpolho. Mesmo sabendo que na mesma sala já tem criança escrevendo em cursiva e lendo livrinhos. Sei que logo, logo, inevitavelmente, Juju chegará lá. E nem ele, nem nós, vamos sofrer durante a jornada.

9.11.10

Estão fumando droga na casa do vovô.


Estão fumando droga na casa do vovô.

As crianças entram na sala aos berros:

"Mãe! Achamos droga na casa do vovô!"

A mãe, que descansa no sofá, abre só um dos olhos. O suficiente para ver um baseado na palma da mão de um deles.

"Droga, mãe! Droga! Alguém tá fumando droga na casa do vovô!"

A mãe dispara com aparente calma:

"Isso parece droga, mas não é. É o cigarro caipira da fantasia da tia Lola. Sabe a festa caipira da chácara? Ela vai fantasiada e todo caipira tem um cigarrinho destes na orelha."

As crianças olham incrédulas pra mãe. De repente, disparam atrás da tia Lola.

"Tia Lola, tia Lola, achamos droga na casa do vovô! Droga, tia Lola! Alguém tá fumando droga aqui!"

Na frente do computador, tia Lola segura a respiração diante da mãozinha gorducha que acena com um baseado. Atrás deles vem sua irmã, a mãe das crianças, repetindo a explicação da festa caipira. Uma sobrancelha erguida e a história se confirma.

As crianças entregam o cigarrinho pra tia e se afastam mudas. Aparentemente, frustradíssimas pelo insucesso da descoberta.

Mais tarde, as irmãs se encontram na varanda.

"Você acha que eles acreditaram?"

"Só se tiverem herdado a retardice da mãe deles...fala sério! Olha, eu não tenho nada com a sua vida. Você é maior, responsável e blá, blá, blá..., mas vê se na próxima arruma uma desculpa melhor. Fantasia de caipira, na minha idade?! Tá me achando com cara de Dona Marisa?"

E as duas quase caem da varanda de tanto rir.

31.10.10

Salvando o Debate




Salvando o Debate

Candidato Serra; "A minha primeira pergunta vai para a candidata Dilma e é sobre as propostas dela para a educação."

Candidata Dilma: "Se eleita, vou fazer a transposição das nossas crianças para um país com excelentes escolas públicas, a Finlândia. Vou fazer isso abrindo uma grande passagem no oceano Atlântico."

Candidato Serra: "Isso não funcionaria, além de ser caro e anti-ecológico. No meu governo, eu farei melhor. Transformarei todos os nossos brasileirinhos em Finlandeses, através de um grande programa de colocação de ar condicionado nas escolas, da quebra da patente de descolorantes capilares e da distribuição de lentes de contato azul."

Candidata Dilma: "O candidato demonstra que não conhece os desejos do brasileiro. Brasileiro não quer parar de suar, ter cabelo louro e olho azul. Brasileiro quer ser Hexa! No meu governo farei a gestão participativa da Seleção Brasileira e todos os brasileiros poderão ser técnicos. Direto do boteco, qualquer um poderá opinar, escalar e até suspender jogadores mal educados."

Candidato Serra: "Bem se vê que a senhora não entende nada de futebol. Muito menos dos desejos dos brasileiros. O maior desejo do brasileiro é peito e bunda. Pois no meu governo criarei o silicone genérico, para que toda brasileira possa fazer rebolation sem fazer feio."

Candidata Dilma: "Quero deixar claro que sou contra essas intervenções que desvalorizam a mulher e a transformam em objeto. As mulheres de hoje não precisam de rebolation para serem valorizadas. Precisam é de mais galãs na novela das oito. Vocês repararam como os galãs estão em extinção? Eu farei um projeto de preservação dos galãs, inclusive com reprodução em cativeiro, através do apoio voluntário de qualquer brasileira, com ou sem rebolation, que queira participar!"

Candidato Serra: "Novamente a senhora apela para o populismo chulo. Novela, galã, isso é coisa do passado. O Brasil precisa se modernizar. O meu governo terá um programa de embelezamento geral da população através do Vale-Salão de Beleza, similar ao Vale-Alimentação que criei quando fui ministro. Também farei o Vale-Daslu para fomentar o mercado de luxo. E o Vale-Desodorante que será distribuído junto com o Vale-Transporte."

Candidata Dilma: "É tanto vale que nem sei mais qual era o assunto que estávamos discutindo. Eu vou simplificar. Reunirei tudo num grande programa chamado Vale Tudo."

...

Qualquer coisa e, sem dúvida, o espetáculo das eleições desse ano teria sido menos constrangedor. Qualquer coisa.



22.10.10

Sutis diferenças.


Sutis diferenças.

Na casa da praia, o filho de 3 anos se aproxima meio de esgueio com o vidro de Berotec na mão. “Bebi isso.”

A mãe surta. O filho explica que achou na mala e bebeu. Ela liga pro pediatra, que manda fazê-lo vomitar e correr para o hospital. Recomenda água com sal pra provocar vômito.

A mãe prefere meter o dedo na guela e virar o moleque de ponta cabeça. O vômito vem rápido. Mais rápido ainda eles chegam ao pronto-socorro. Marido, mulher e 3 filhos.

O médico faz cara de surpreso. Já apareceram vários bebedores por ali. De Berotec era o primeiro. Tira os batimentos cardíacos, coça o queixo, observa. Como tinham feito vomitar, achava que o melhor era observar. Manda-os de volta pra casa com a missão de controlar os batimentos cardíacos do menino. Se subir até 140 ou 150 deveriam voltar ao hospital.

O marido sai do PS aliviado. “Vamos pra praia?”

A mãe olha espantada. O marido explica que observar pode ser em qualquer lugar. Na praia, pelo menos ia ser mais divertido.

No banco de trás, a mãe tira a pulsação do menino 3 vezes até chegar em Itamambuca. Os batimentos começavam a subir.

Eles se instalam num canto calmo. Os meninos correm pro mar. Ela senta tensa. O pai procura uma cerveja e aconselha: “Relaxa, ele tá bem. Olha como brinca. Não vai acontecer nada.”

A mãe levanta pra pegar os batimentos. 130, 136, 140, 148... “vão bora pro hospital.”

O marido a acalma. “Não precisa...disso aí não passa. O batimento subiu porque ele está se movimentando. E você deve estar contando errado. Fica fria. Trouxe amendoim?”

A mãe não sabe o que faz. Tira o pulso do menino de novo. 148...148...148...140...135...128...120...

Ela senta na cadeira aliviada. Dá um gole na cerveja do marido. No guarda sol ao lado uns surfistas acendem um baseado.

Tem vontade de ir lá dar uns conselhos praqueles mocinhos: "Usem sempre camisinha."

15.10.10

Tarefas e provas abusivas. Seu filho é vítima?



Tarefas e provas abusivas. Seu filho é vítima?

Martim estuda numa escola que passa uma grande quantidade de tarefa todos os dias. O tempo necessário para resolvê-la é, em média, 3 horas diárias. Se ele se dedicar. Se não se dedicar, a mãe reza o terço, coloca as barbas de molho e cancela tudo que tem pra fazer no restante do dia. Além disso, ele tem que ler (a pulso) um livro de cerca de 100 páginas todo mês. E fazer provas periódicas, com capítulos e mais capítulos para estudar, fora as anotações do caderno e os materiais paradidáticos.

Beatriz faz duas provas semanais. E, semestralmente, um provão com 120 perguntas. Ultimamente deu pra não se dedicar muito e este fato levou a coordenadora a classificá-la como "portadora de uma auto-estima alta demais". Segundo o diagnóstico sui generis da profissional, a garota não liga para o desempenho e como isso não interfere na sua vida social, ela não se dedica como deveria.

Martim tem 10 anos e Bia tem 9. São crianças na mais tenra idade sendo submetidas a um volume de informação e cobrança que poucos adultos aceitariam. E, aparentemente, esse tem sido um fato generalizado em muitas escolas.

Esta semana soube de uma instituição de ensino que faz simulados ao sábado, no mais fiel estilo cursinho pré-vestibular. Para crianças a partir de 7 anos! A mãe justifica: é para eles irem se acostumando. Com o massacre da serra elétrica, só pode ser.

Outra passa cópia rotineiramente para que as crianças se acostumem a escrever bastante! Se funcionasse todos os copiadores de livros dos conventos da Idade Média teriam virado Camões.

Gente, pára! Infância só se tem uma. E passa rápido. É absurdo acharem que um menino ou uma menina terá mais vantagem na vida porque passou a infância sendo forçado a se debruçar sobre livros e cadernos. Muito pelo contrário. Essas crianças dão sinais claros de cansaço e desânimo. Se isso já acontece aos 9 anos, imagine aos 20!

Se você desconfia que o volume de tarefa ou de provas da escola do seu filho está excessivo ou é motivo para ele estar cansado, desatento ou desmotivado, procure a escola. Provavelmente eles vão arrumar mil justificativas e talvez seu filho receba um diagnóstico tão criativo como o que deram para a menina Bia. Não engula. Insista. Tarefa não tem que ser excessiva. Nem chata. E criança não precisa de fazer prova toda semana para ser corretamente avaliada. Simulado então, nem pensar! Eu mesma teria que ser amarrada a uma cadeira pra fazer uma prova com 120 perguntas.

A quantidade de tarefa tem que ser adequada à faixa etária. Respeitando sempre o nível de concentração que na infância ainda não está totalmente desenvolvido. As avaliações idem.

Mais que isso é incompentecência educacional e que me perdoem escolas que arrotam pedagogês e que na verdade torturam crianças (e os pais por tabela) com suas práticas obsoletas de moldar a disciplina via uma enorme quantidade de tarefas.

Criança não é burro de carga.

Publiquei há algum tempo um texto mais poético relacionado a esse tema. Caso se interesse em ler, clique aqui.

7.10.10

Que escola você busca para seu filho?



Que escola você busca para seu filho?

Existem escolas onde Eva aprende a ler vendo a uva. Em outras, Eva caça formigas, faz um formigário, observa, registra e quando vê já está lendo e escrevendo.

Existem escolas onde as crianças aprendem arte pintando figuras xerocadas. Noutras, escovas, vassourinhas e rodinhos viram pincéis que, mergulhados em tinta, cobrem o chão, paredes e tudo o mais que a imaginação, e não o tamanho do papel, mandar.

Existem escolas que dividem as turmas em fortes, médios e sem chance. Noutras, alunos, funcionários e educadores são colocados no mesmo espaço, para mostrar que todos são igualmente importantes e que o calor humano é muito mais gostoso que a frieza da competição.

Tem escolas onde as crianças pesquisam a vida do ilustríssimo Fulano de Tal. Noutras, elas também pesquisam sobre o Profeta Gentileza e aprendem que não adianta ser ilustre se não se sabe ser gentil.

Tem escolas que ensinam a andar na linha pontilhada para despertar a disciplina. Outra botam os pequenos pra andar sobre plástico bolha para despertar os sentidos.

Tem escolas monitoradas por câmera e bedéu. Noutras, olhos surreais de Salvador Dali espiam através dos vitrais de estranhas catedrais de papel.

Tem escolas brancas, limpas e imaculadas. E escolas onde os alunos mergulham sem medo na sopa da vida para descobrir que sem amebas, fungos e bactérias não há digestão. Não há gente. Não há Terra. Não há vida.

Tem escolas onde se aprende que o leite vem da vaca. Noutras, estuda-se a vida do homem do campo, do homem da cidade e que um depende do outro para que o leite que sai da teta da vaca chegue na caixinha de achocolatado.

Tem escolas cheias de certezas absolutas. E outras cuja única certeza é seguir experimentando.

Eu sei que escola quero para meus filhos. E você?

P.S: escrevi este texto em homenagem à Feira do Conhecimento da Escola Moppe, de São José dos Campos. Quem visitou sabe que não há exagero nas minhas palavras. Nem jabá para que eu as publique. A Feira deste ano foi muito grande, dinâmica e peço desculpas aos espaços que não couberam neste texto. A todos os educadores, profissionais e diretores da escola, meu emocionado agradecimento por acreditarem que é possível fazer um ensino diferente.

4.10.10

Princesas.



Princesas.

Era uma vez, Dilma e Marina, duas princesinhas que viviam sob a proteção do senhor seu pai, o Rei Lula. Um dia, a princesa Dilma foi reclamar com o Papi que a princesa Marina estava embaçando a construção do lago no jardim do palácio.

- Pô, Papi...só porque vai afundar umas árvores e incomodar uns bagres...manda ela largar de ser chata, Papi!

O Papi, que nunca escondeu quem era sua favorita, deu a maior bronca na Marina, que magoou, botou meia dúzia de saias até o joelho na trouxinha e abandonou o palácio.

Depois disso o Papi chamou Dilma e disse com sua voz grossa de rei:

- Dilminha, venha cá minha filha. Eu estou ficando velho e preciso de alguém pra cuidar do reino, no meu lugar. Minha escolhida é você.

Dilma deu pulinhos de alegria, mas como era uma mocinha séria, logo perguntou:

- Mas, Papi...quem vai cuidar da nossa casa? O palácio não pode ficar abandonado!

- Chama Erenice, a criada.

Dilma ficou feliz com o sábio conselho de seu pai. Erenice, a criada, era seu braço direito e fazia tudo do jeitinho que a patroa gostava.

Agora Dilma podia sair tranquila em campanha pelo reino. Antes de partir, um último real conselho:

- Filha, procura aquele feiticeiro japa que deu jeito na Marta. Ele vai te deixar uma belezura!

A magia do feiticeiro era poderosa. Dilma ficou irreconhecível. E durante a campanha o Papi teve de esclarecer:

- Companheiros, essa é a princesa que indico para ficar no meu lugar. Como assim "quem é ela?". É a Dilminha, pô! A preferida do meu castelo. A única com culhão pra botar ordem nesta p....de reino.

O Rei Lula era famoso por falar a linguagem do povo, para horror de uma ou outra súdita cansadinha.

E quando tudo parecia um céu vermelho e estrelado para princesa repaginada, eis que Marina ressurge das cinzas do desmatamento da floresta amazônica.

-Marina! Não acredito que você vai me trair.

- Quem me traiu foi você, Papi! E eu também tenho direito à sucessão do reino!

Dilma começou a chorar, mas o Papi a acalmou.

- Filha, quem liga pra meia dúzia de bagres? Se acalme, princesa, que este reino está dominado. O povão tá tudo comigo. Até pagodeiro eu consigo eleger pra senador.

E prosseguiram em campanha, certos da vitória que já era festejada por companheiros de todo o reino.

O que eles não sabiam, era que no palácio as coisas não iam tão pianinho como Dilma gostava. Erenice tinha um filho, um menino mimado e ganancioso, que logo montou um esquema de propina para o fornecimento de salsichas, cachaça e farinha para a cozinha real.

O esquema estava indo muito bem, obrigado. Até que um alcaguete contou pra imprensa, que viu aí a deixa pra puxar o tapete persa da real princesa.

Os súditos que liam uma tal revista Veja ficaram muito desapontados. Principalmente os que estavam fora do esquema. E o muxoxo foi geral.

A pobre princesinha esperneou tanto que quase estragou o novo penteado:

- Pessoal, mas o que eu tenho a ver com o filho da criada?!

E o papi emendou:

- Erenice pisou na bola. Podia ter sido a funcionária do mês, com foto na cozinha e tudo. A imprensa também pisou na bola. Afinal, como dizia minha pobre mãezinha analfabeta: roupa suja se lava na casa civil. E não em capa de jornal.

Os dias foram passando, a eleição se aproximando. Os súditos foram às urnas e, para surpresa de todos, tinha mais gente preocupada com os bagres e com os trambiques do filho da criada do que supunham os marqueteiros reais.

O final dessa história é que Dilminha não se elegeu no primeiro turno. Agora vai ter que derreter a maquiagem em cima de palanque por mais um mês, numa disputa corpo a corpo com outro inimigo do palácio, o Sr. Burns, patrão do Homer Simpson.

Nesta altura, o papi senta-se no trono e avalia: uma criada e uma amante de árvores atrapalharam o caminho estrelado de minha escolhida. Uma esposa de olho roxo derruba meu candidato favorito ao senado. Quer saber, quem manda eu me meter com a mulherada. Na próxima eleicão, eu só quero príncipes! Alguém aí liga pro Aécio que eu preciso trocar uma idéia com aquele rapaz.

28.9.10

Mamãe Wilma Flintstone




Mamãe Wilma Flintstone

"Ô mãe, de novo parar pra perguntar?! Não conhece GPS, não?"

"Mãe, sabia que tem uma placa escrito "Sem Parar" no pedágio? Por que você não vai nela?"

"Mãe, por que nosso telefone tem fio?"

"Ô Mãe, qué isso?!!! Cartão de orelhão?! Que mico! Me dá logo um celular!"

"Mãe, o que aconteceu com o microondas que a gente tinha na cozinha? Vai me dizer que agora vou ter que esquentar água no fogão?"

"Mãe, ficar olhando pra janela é um saco. Quando vamos ter um carro com TV no banco de trás?"

"Mãe, meu amigo tem I-Phone, Wii, Play 3, MP11 e eu aqui com esse Play 2 quebrado. Tá certo isso?"

"Mãe, vamos a pé? Tá maluca?! Sabia que a gente tem um carro parado na garagem!"

"Mãe, me pede qualquer coisa...menos pra jogar lixo na composteira que eu morro de nojo!"

"Mãe, por favor, por favor, por favor...manda uma bolachinha na minha lancheira! Não precisa ser recheada, mas tem que ser comprada."

"Mãe, eu sou o único do planeta que viu Avatar sem ser 3D!"

17.9.10

Meu filho vai pra guerra.


Meu filho vai pra guerra.

Houve um tempo em que os filhos eram tirados novinhos da proteção dos pais e criados para virar guerreiros.

Crescidos e bem treinados eram enviados para as guerras sem fim, de uma antiguidade onde tudo se resolvia a golpe de espadas.

Muitos não retornavam. Os que conseguiam, traziam nas bolsas os prêmios da vitória. E no corpo as marcas das luta: cicatrizes, mãos amputadas, pernas mancas.

Hoje em dia, para a alívio das mães, nossos filhos não são mais confiscados no berço em defesa da pátria. Mas nem por isso deixarão de guerrear. E com nosso apoio e estímulo.

Preparamos nossos filhos desde a mais tenra idade para a batalha da vida moderna. Queremos que eles sejam bilingues, que estudem nas melhores escolas, que façam esportes, informática, música, artes, kumon, simulados etc. Para quê? Para terem mais chances de vencer uma outra guerra. A guerra do mercado. Onde só sobrevivem os mais preparados. E dá-lhes preparação. Não queremos criar perdedores!

Daí, um dia, eles partem pra luta. Enfrentam competição desumana, superiores autoritários, convivem com o facão do RH dia e noite nos seus pescoços, comem mal, dormem pouco, sofrem com as explosões na bolsa de valores e com os tiroteios da vida corporativa, não tem tempo para ver os amigos.

Os anos passam e quem vence exibe o carrão lustroso, a parafernália raitéc, o quiosque do churrasco, a cozinha de aço inox, o armário repleto de roupas que não dá pra se usar numa vida. Trazem nas carteiras os cartões de crédito que financiam os prêmios da vitória. E no corpo, as marcas da luta: sobrepeso, estresse, pressão alta, diabetes, insônia, inapetência sexual, tabagismo, alcoolismo, dependência química, solidão, consumo compulsivo, filhos carentes...só para citar alguns dos males dos guerreiros e guerreiras de hoje.

Como as mães de antigamente, os receberemos sempre de braços abertos, cheias de alegria e festa. E no fundo do peito a agonia de quem sabe que o preço da luta é alto demais.

Me pergunto se as mães da antiguidade de vez em quando também questionavam: "Filho meu, essa guerra à qual você tanto se dedica, é mesmo em benefício de quem?"

11.9.10

O consumismo infantil na (dis)versão da Veja.



O consumismo infantil na (dis)versão da Veja.

Parei de assinar a Veja quando me dei conta que me aborrecia muito com o "jornalismo" tendencioso de tal revista. Pagar para ser irritada semanalmente pela Abril, chama-se masoquismo e esta prática ainda não faz parte do meu repertório de esquisitices.

De lá pra cá, só leio a Veja nos consultórios odontológicos e no banheiro de algum parente. Não compro nem na banca, pois a irritação geralmente já vem com a capa.

Nessas lidas eventuais, a Veja nunca decepciona. Sempre defende abertamente seu peixe. Foi assim quando detonaram o construtivismo. Alguém me diga se uma empresa que VENDE um sistema de ensino apostilado (o Sistema Ser de Ensino) tem a isenção necessária para criticar outra proposta educacional? Ainda mais uma proposta educacional que não convive bem com apostilas.

Agora eles publicam uma matéria sobre o consumismo infantil. Dizendo que é tudo balela, é claro. Opa! Folheiem a Veja e me digam: quem mantém a revista? Os anunciantes. Os publicitários. E os otários (nós que lemos). Alguém acha que a Veja iria fazer uma matéria isenta sobre este tema? Claro que não!

O texto detona abertamente os movimentos em favor de um maior controle da publicidade para crianças. E para isso coloca as opiniões de vários "especialistas": anunciantes, publicitários, um governante, pais e crianças escolhidas a dedo para confirmar a opinião da Veja sobre o assunto. Mas em nenhum momento, coloca a opinião do especialista do outro lado! Cadê o Alana? Cadê os pesquisadores das universidades, cadê os educadores e os pais que borbulham na internet preocupadíssimos com esse assunto. Não aparece ninguém. É a modalidade "jornalismo de um lado só".

A única pesquisa citada é a do grupo Turner, que também é um conglomerado de mídia que vive de anúncios. Uia!

Mas o que mais irrita são os clichês, que abundam no texto. A tal da frase: "não se pode criar os filhos numa redoma" é repetida por todos os entrevistados. É muita pretensão dessa turma achar que controlar a lixarada que eles despejam diariamente sobre nossas crianças é querer criá-los numa bolha. Relô senhores e senhora Veja! Redoma é onde as crianças estão hoje. Uma redoma onde eles ficam presos e são submetidos diariamente ao bombardeio de mensagens de consumo. Compre, tenha, peça, implore, faça regime, transe, seja descolado, compre mais um pouco...afastá-los o mínimo que seja disso é botar na redoma?! Ou deixar entrar ar fresco na mente?

Outro clichezão irritante é dizer que o melhor controle é o dos pais. Então, senhores, proponho que vocês criem um fundo para a manutenção de um dos pais na residência. Pois com os pais lá fora, jambrando pra pagar o cartão de crédito, quem controla o que as crianças assistem é o Sílvio Santos, o Cartoon Network e sabe-se lá quem.

Na minha opinião de mãe irritadinha, na mão dessa turma é que não dá pros nossos filhos ficarem. É tudo lobo mau disfarçado de quebradores de redoma.

Veja, por enquanto, continuaremos a nos ver só no dentista.



Clique aqui para ler a carta enviada pelo Alana à Veja em protesto pelo teor da matéria.


Foto: richard.heeks

3.9.10

Salvem a natureza contanto que ela não cubra minha vista.




Salvem a natureza contanto que ela não cubra minha vista.


Queridos vizinhos do condomínio de cima,

Recentemente ficamos sabendo que vocês tem autorização da Prefeitura para arrancar todos os Sansões do Campos que ficam do lado de cá do muro que nos separa.

Estamos tristes. Muito tristes.

Ficamos menos humanos, sempre que uma árvore cai. E são centenas de árvores que dessa vez cairão, mesmo que disfarçadas sob o nome de "cerca viva".

Não sabemos quem plantou os Sansões que hoje atrapalham a vista das suas varandas e "suja" com folhas sua trilha de caminhada.

Mas sabemos que do lado de cá, um morador generoso capinou com enxada e suor uma longa trilha sob a sombra deliciosa dos Sansões que vocês querem arrancar. (Curiosa é a vida...o que para uns é um incômodo, para outros é benção). Coloquei a foto aqui para vocês verem e os convido a caminhar por ela antes que desapareça ao ronco da motosserra.

Ficamos sabendo também que vocês não planejam apenas cortar os Sansões. O plano é exterminá-los com veneno. Um veneno de última geração, garantem vocês. Mas, cá entre nós, isso existe? Lembrando que, além de estarmos em área de manancial, por ali circulam bicho do mato e bicho homem. Se a saúde dos sapos, tatus e gambás não importa, considerem pelo menos a dos nossos meninos.

Uma boa poda lhes devolveria a vista. Preservaria nossa trilha. E os espinhos do Sansão continuariam a oferecer excelente proteção contra invasores. Não queremos muito de vocês. Apenas que considerem a opinião de quem vive do outro lado do seu muro. Preservem os Sansões. E a nossa amizade.

Assim quando seus filhos olharem pela varanda, vocês poderão explicar que aquilo que eles aprendem na escola sobre preservar a natureza, começa no nosso quintal.

E que a linda vista não foi recuperada às custas do total desprezo para com sentimentos dos seus vizinhos. Garanto que, dessa forma, ela será ainda mais encantadora.

30.8.10

Esse não é o meu filho.



Esse não é o meu filho.

O menino de 7 anos entrega pra mãe o bilhete da professora. Os olhinhos repletos de medo e lágrimas.

A mãe, empregada doméstica que estudou só até o ginásio, pára de fazer a sopa para ler: "Mãe, seu filho é desatento, apático, desmotivado e irmão de autista. Favor encaminá-lo a um especialista."

A mãe senta-se na mesinha da cozinha. Agora é ela quem está engasgada e com vontade de chorar. Olha para o menino assustado. Chama-o para perto de si.

"Amanhã, vou na escola falar com sua professora. Vou dizer para ela que vamos rasgar esse bilhete porque ela errou de criança. Eu não conheço este menino que ela escreveu aqui. Este não é o meu filho. A única coisa que ela acertou foi sobre seu irmão. Mas sobre você...tá tudo errado. Vou falar para ela prestar mais atenção e ver que você não é nada disso."

O menino dá uma risada gostosa: "Jura, mãe? Você vai falar pra ela que não sou eu?! Rá, rá...nós vamos mostrar pra ela, né, mãe!"

"Claro que vamos. Apático, desatento...nã, não. Eu não conheço essa criança. Amanhã, você senta bonitinho na sala de aula e mostra para ela que esse menino não é você. Agora, come sua sopa."

Abraçou o menino, tirou o cabelo da sua testa e depois de lhe servir um prato de sopa quentinha, foi espremer limão para fazer limonada.


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MANIFESTAMOS PELO ATIVISMO ANÔNIMO E INCANSÁVEL DAS MÃES. MÃES QUE BRIGAM POR UMA ESCOLA MELHOR, MAIS HUMANA E SIGNIFICATIVA; PÚBLICA OU PRIVADA.

Manifesto pelas Mães. www.grupocria.com.br

24.8.10

Amamentar não é um ato de amor - parte 2.



Na semana da amamentação, que aconteceu no início de agosto, o texto "Amamentar não é um ato de amor", voltou a ser tema de algumas discussões na rede.

Agradeço a todas a mães, como a Pérola - do Mamãe Antenada, a sensibilidade com que colocaram novamente em debate a ligação entre amamentar e amar.

Amamentar é um ato de amor? Claro que é. Assim como muitos outros. Ninar, acalentar, consolar, dar um banho gostoso, fazer shantala, preparar uma comidinha caseira, tocar, proteger...todos são atos de amor. Mas nenhum deles tem hoje a mesma dimensão que a amamentação ocupa na mente e no coração das mães da nossa sociedade.

Por isso mesmo, a Vera Pileggi Vinha, minha mãe, quando estava nos últimos anos de uma vida dedicada ao estímulo ao aleitamento, foi contra usar este apelo como tema das campanhas pró-amamentação.

Por quê? Porque ela identificou que este apelo tinha dois efeitos devastadores: enchia de ansiedade as mulheres inexperientes de uma sociedade cada vez mais distante da naturalidade de se dar o peito. E torturava as mães que, por algum motivo, não conseguiam amamentar.

Sua última cruzada foi colocar-se na contramão deste tipo de apelo e afirmar que amor pode ser dado de inúmeras formas. Pais, avós, mães adotivas transbordam amor, sem que jorre sequer uma gota de leite de seus peitos. Garantir uma maternidade mais "amorosa" para quem é bem sucedida em amamentar era, no ponto de vista dela, injusto e cruel com as demais.

Seu objetivo era acalmar as mães e mostrar aos especialistas e comunicadores que não se aleita com tranquilidade quando se carrega no peito o peso de amar a mais ou a menos seu filhote.

Amamentar é optar pelo melhor alimento, dizia ela. Amar é outra história. E misturar as coisas é complicar o que a natureza fez simples.

Concluo com 2 exemplos que vivenciei nos últimos anos:

A primeira mãe, psicóloga, sem parentes na cidade, chegou na minha casa arrasada. Seu bico rachou de uma maneira tão dolorida que tanto o pediatra como as conselheiras do Projeto Casulo, de São José dos Campos (excelente grupo de estímulo ao aleitamento) recomendaram que ela parasse de amamentar por uns dias, até o bico cicatrizar. Quando ela voltou a amamentar, cerca de 2 semanas depois, o bebê passou a recusar seu peito. Quando ela me procurou, estava ferida na alma. Se sentia rejeitada, impedida de dar-lhe amor, culpando-se por não ter conseguido aguentar a dor e manter o bebê no peito naquelas duas semanas. Cada tentativa de dar o peito virava um embate, com o bebê e a mãe nervosos, irritados e ambos chorando muito. Torturada, a mãe questionava o desenvolvimento afetivo, a questão da oralidade, da troca amorosa etc. A situação emocional evoluiu a um ponto que o ginecologista prescreveu-lhe antidepressivos. E o bebê acabou completamente desmamado aos 2 meses.

A segunda mãe, empregada doméstica, tem a sorte de carregar o DNA baiano de ir levando a vida da forma com que ela se apresenta. Seu bebê convulsionou no berçário e acabou ficando internado em observação também por 2 semanas, sendo alimentado com mamadeira. Mesmo assim, essa mãe conseguiu amamentar seu filho até 1 ano. Fiquei curiosa e quis saber como ela fez para introduzir o aleitamento, sozinha em casa, 15 dias depois do parto. "Ué, se ele não mamasse ia morrer de fome. No começo ele não queria. Mas eu insisti, insisti, até ele pegar. Chorava, eu punha no peito...não tinha dinheiro pra comprar leite, não! Uma hora ele entendeu e pegou." E ri, tranquila.

E vocês, queridos leitores e fãs do aleitamento, também entenderam?

Sugestão de leitura:

Debate sobre a amamentação no grupo Cria


"Manifestamos pelo direito de amamentar a cria, sem ser pressionada por profissionais da saúde mal formados ou parentes bem intencionados, a substituir por mamadeira, o alimento que só o seu peito pode dar." Assine!
www.grupocria.com.br

18.8.10

Escola emburrece.


Escola emburrece.

O uso das marcas da Coca-Cola, McDonald's e Objetivo nas apostilas de uma escola cara de São Paulo, acendeu recentemente o discurso sobre o estímulo ao consumismo na sala de aula.

Segundo a matéria da Folha Online, os educadores envolvidos foram logo sacando o argumento padrão nº 1 contra pais que questionam: "não se pode criar um filho numa redoma". Como se estudar numa escola cara, recheada de tênis de marcas, aipodes, aifones, aimeubolso e aiminhasantapaciência, fosse mantê-los numa bolha anticonsumo. Querer que, ao menos no material didático, marcas não fiquem desfilando na frente das crianças é ser superprotetor? Me poupem.

Mas vamos voltar para o conteúdo da apostila. Vou ser sincera: não me preocupei tanto com o apelo consumista que, obviamente, está presente de forma vergonhosa na atividade. O que me chocou foi a pobreza do exercício! Os pais pagam mil reais por mês e a escola tem a cara de pau de dar um exercício daquele nível gráfico e intelectual para as crianças?!

Lamentável, em todos os sentidos. Se o objetivo era estimular as associações, apostiladores, olhem ao redor: o mundo é muito mais que ligar o logo da Coca a uma latinha!

E, o pior, é pra educação infantil! Estamos pagando pra que nossos filhos pequeninos sentem-se em uma cadeira, abram uma apostila e relacionem lanchonete com McDonalds! É tão pouco, tão limitante! Melhor, muito melhor é deixá-los num parque, livres pra associar céu nublado com chuva. Chuva com enxurrada. Enxurrada com barquinhos de papel. Barquinhos de papel com jornal. Jornal com leitura. Leitura com aprendizado. E aprendizado com afaste Ó Senhor o cérebro do meu filho das apostilas que ele não lhes pertence!

Meus parabéns pra mãe que questionou a escola! Temos mesmo que questionar. Questionar muito e não engolir o argumento da redoma. Na bolha vive quem acha que um exercício daquele nível é educação de qualidade.

10.8.10

Meu pai quer plantar árvores.


Meu pai quer plantar árvores.

Meu pai tem 74 anos e aposentou-se recentemente. Poderia, com louvor, calçar o chinelo e esperar na sombra o bondão passar.

Mas quem o conhece sabe que isso dificilmente aconteceria. Este homem que passou a vida toda na urbanidade, resolveu plantar árvores. Não uma ou duas. Hectares de árvores.

No momento, procura terras para começar sua plantação de Guanandi. Uma árvore de lei, considerada em extinção, protegida desde os primórdios pela Coroa portuguesa e que leva uns 18 anos pra dar algum retorno ao plantador.

"Pai, tem certeza? É nisso mesmo que você quer se meter?"

"Filha, certeza absoluta." Ele responde com o entusiasmo de um surfista que descobriu uma praia deserta de ondas perfeitas. "Eu me vejo caminhando por entre as alamedas de árvores. Quero encher pastos e pastos com Guanandi. E vou colocar um pouco de Acácias também, pra ter flores, abelhas e produzir mel."

Quando escuto o carinho com que meu pai fala de suas árvores, só me ocorre que ser filha desse homem é um privilégio. E um constante aprendizado.

Vá em frente, pai. Plante seus guanandis. Encha os pastos carecas do sul de Minas com sua alegria de viver, que essa, meu velho, não tem preço e a colheita é imediata.

P.S.: Ia publicar esse texto no Dia dos Pais, mas se o fizesse no prazo, meu pai duvidaria da autoria.

3.8.10

Desinibidos e desavisados - a exposição adolescente na rede.

Desinibidos e desavisados - a exposição adolescente na rede.

A avó me conta, com um riso meio constrangido, que o neto está fazendo sexo virtual. A namorada pede que ele tire a roupa diante da uébicam e diz que está toda "molhadinha".

O neto tem 14 anos e a namorada 13. E os pais não sabem direito o que fazer, além de instalar filtros no computador.

Não ia publicar este texto. Achei invasivo demais. Incômodo. De uma intimidade que não me pertence. Até que li, domingo passado, a matéria do Estadão sobre a preocupante onda de exposição adolescente na internet. E depois saiu matéria no Fantástico.



É um assunto que ainda vai dar muito o que falar. Porque é grave e o fenômeno só cresce.

Entendo a curiosidade dos adolescentes. Já fui uma e também tive vontade de tirar fotos nuas. Necessidade de me sentir sexy. Mas era num tempo em que nossas fotos, no máximo acabavam numa caixa de sapato no guarda roupa. Há uma cena hilária no filme "Doidas Demais", em que a Goldie Hawn e a Susan Sarandon, já senhoras, encontram uma caixa de polaróides cheias das fotos dos pênis de todos os astros do rock com quem transaram nos tempos em que eram jovens tietes profissionais.

Mas como tudo nessa década, a leveza se foi.

Na internet, essa necessidade de auto-afirmação sensual vira um espetáculo público, visto por milhares de pessoas. E nossos filhos, que entram cada vez mais cedo na categoria "adolescente", não entendem as consequências disso.

Sou mãe de 3 meninos, um deles, com idade próxima à do neto da avó constrangida. Tenho pensado muito no problema. E começo a achar que entregar um computador na mão de um menor, é como entregar um carro. Só com muita supervisão. Eles até sabem operar. Mas não tem noção da responsabilidade.

E como "maiores responsáveis" temos que ir além. A mãe do garoto, não leva o caso adiante, porque o garoto esgoela e diz que prefere morrer a passar essa vergonha.

Imagino se a vergonha de ter a mãe se "metendo" na história é maior ou menor que ter que contar para os pais que sua jovem namoradinha engravidou. Ou de ter a sala de aula toda rindo do seu pipi tortinho.

Se eu fosse a mãe do menino, além de botar limites, tirar o computador do quarto e fazer marcação cerrada, tocaria a campainha da casa da garota e contaria aos pais dela o que está acontecendo. Precisamos agir em bloco. Se o problema persistisse, levaria o caso a uma delegacia. Os menores de idade não podem se responsabilizar por seus atos. Mas pai e mãe são maiores e responsáveis legais pelos filhos. Perante a justiça e perante a vida.

Acho que o assunto também deve entrar para a pauta das escolas. Em casa temos o peso da moralidade excessiva (pelo menos é o que nossos filhos acham). Um educador teria um acesso mais fácil ao grupo. É tema para um rico debate em sala de aula. Com jovem falando para jovem.

Já começo a ter saudade do tempo em que me preocupava com a gordura trans no biscoito recheado.

24.7.10

O que vai no seu pão?


O que vai no seu pão?

Chico é o que o povo dos Pampas chama de "mal domado". Uma pessoa que segue a vida orgulhosamente desencaixada dos padrões sociais vigentes e esperados. Tive a sorte de ser sua vizinha e a felicidade de, aos poucos, ir virando sua amiga.

Um dia, comentei com ele minha frustração por minha máquina de pão estar quebrada e ele exclamou com aquele ar de superioridade de quem nunca comprou na Polishop: "Mas ninguém precisa de uma máquina para fazer pão!".

"Isso porque você nunca experimentou os tijolinhos que faço a mão", respondi resignada.

"Eu te ensino. Não tem segredo". E um sábado à tarde, Chico aparece em casa, com um saquinho de fermento, um pouco de linhaça e toda a paciência de quem está determinado a transformar uma oleira em padeira.

A primeira lição: "Pão é basicamente farinha, água e fermento. Os outros ingredientes você coloca se quiser."

A lição foi ótima e rendeu dois lindos pães de trigo integral com centeio que em nada lembravam os meus temidos tijolos.

A partir daí, me senti segura pra me aventurar pelos caminhos da panificação manual. Tenho feito pão, massa de pizza e qualquer dia desses derivo para as esfihas, tortas e...sonho...macarrão caseiro. Me aguardem.

Mas não escrevi este texto pra contar sobre meus recém descobertos dons culinários e sim sobre um pão italiano fresco que compramos outro dia na padaria do Carrefour Bairro, que fica bem ao lado da casa do meu pai. Casca grossa crocante, miolo mole, cheiroso. Um pão que enche os olhos, a boca saliva e que eu tenho certeza absoluta que nunca serei capaz de fazer.

Estava tudo indo muito bem, até que caí na besteira de ler os ingredientes no rótulo (influência de uma outra vizinha).

Depois dos esperados farinha, sal, açúcar e fermento, vieram emulsificante diacetil tartarato de mono diglicerideos, enzima alfa amilase, acido ascorbico, azodicarbonamida, estabilizante esteres de acido diacetil tartarico, mono diglicerideos de acidos graxos, estearoil 2 lactil lactato de calcio e po lisorbato 80.

Tenho certeza que o Carrefour vai dizer que é tudo inócuo, absolutamente seguro e aprovado pelo FDA, Anvisa, Globo Reporter e FIFA. Mas precisa ter tudo isso no pão?

Na hora me lembrei da aula do Chico: "Pão é essencialmente farinha, água e fermento". E afeto, talvez. Deve ser isso que o Carrefour tentou desesperadamente acrescentar.

Viva os mal domados!

20.7.10

Solo fértil.


O apoio dado ao Manifesto pelas Mães superou de longe nossas expectativas. Já contamos com mais de 500 assinaturas e a campanha está só no começo.

Quando retornarmos das férias – leia-se: a molecada voltar pra escola e a gente reconquistar aquelas preciosas horas de teclado e introspecção, faremos um novo e bem mais amplo esforço de divulgação.

Mas antes de tudo, queremos agradecer às mães e pais queridos, sinceros e parceiros que, logo de cara, abraçaram a causa. Seus comentários nos emocionaram e deram força pra que a gente retorne em agosto com todo o pique.

No site do Grupo Cria, estamos lincando todos os blogs que estão ajudando a divulgar o Manifesto. Mas como a internet é uma colcha de retalhos - com muito fuxico e tricô - alguns blogs podem ter escapado da nossa atenção. Se isso aconteceu com o seu, nos mande um email e o incluiremos na lista.

Boas férias, luz e curtam muuuuuito seus filhotes em casa. Sejamos mães, com orgulho!

Até agosto!

30.6.10

Você não é incompetente. Você é mãe.









Quatro amigas blogueiras e eu resolvemos nos reunir num sonho meio quixotesco. Valorizar a maternidade.

Começamos com a publicação de um Manifesto pelas Mães, que reune tudo o pensamos e também o que aprendemos nestes anos de muita troca com as mães incríveis que frequentam a blogosfera.

Acreditamos que estamos diante de um novo momento. De uma nova geração de mulheres, mais feministas do que nunca, mais cientes do que jamais foram de seu papel e do seu enorme valor.

O Manifesto é apenas um começo de um trabalho que pretendemos desenvolver de reconhecimento da importância da mãe e da família para a construção de uma sociedade mais justa, mais humana, mais responsável.

Ele foi redigido com o cuidado intenso de valorizar a maternidade nos seus diferentes formatos. Nenhum é melhor que o outro. Todas somos mães, fazemos o nosso melhor e queremos ser valorizadas!

Essas imagens são parte da campanha de lançamento do Manifesto pelas Mães. Clique sobre elas para ampliá-las.

Clique aqui se quiser baixar ou assistir em slideshow.

Leia também: Consciência Materna, do blog O Futuro do Presente.

23.6.10

A professora me chamou.


Tenho um filho "bom". Todas nós temos. Mas o meu é muuuuito bom. Daí eu ter estranhado quando a professora dele me chamou pra uma conversa.

Fui meio ressabiada. O que meu filho meigo, responsável, inteligente e lindo de morrer poderia estar fazendo de errado?

A professora começou a reunião cautelosa. Nada mais natural quando se está diante de uma mãe palpiteira e metida a publicar na internet suas verdades sobre educação. Mas eu não estava ali como blogueira e sim como mãe. Achei melhor ficar quieta e ouvi-la.

E escutá-la não foi fácil. Meu filho bom, aparentemente, estava com problemas. E eu não estava percebendo.

Podia ter invertido o jogo. E faria isso facilmente. Botar a culpa nela, na escola, na preparação das aulas, no excesso de videogame e de açúcar na dieta infantil. Podia ter achado tudo um exagero.

Mas na minha frente estava uma pessoa genuinamente preocupada com meu pequeno. Apenas com ele. E não com a disciplina da sala. Nem com a performance da sua didática. O problema do meu filho era sutil e podia facilmente ser carregado na mochila para os anos seguintes. Mas ela teve olhos para enxergá-lo. E o cuidado de me chamar para que eu visse também.

Guardei a luva de box na bolsa e saí de lá comprometida a rever algumas coisas em casa. Ficar mais próxima, atenta. O básico. O feijão com arroz que, quando se é filho do meio, nem sempre se tem. Mas sempre se sente.

Hoje acho que a conversa com a professora foi uma das coisas mais significativas que me aconteceram no semestre. Não foi fácil. Mas foi necessária. Uma hora de conversa franca foi suficiente para estabelecer entre nós uma relação de confiança que durará para sempre.

Sou imensamente grata por ela ter me chamado.

18.6.10

A dieta do Papai do Céu para uma vida longa e feliz.


A dieta do Papai do Céu para uma vida longa e feliz.
Recebi uma matéria sobre o risco dos protetores solares. Agora estão redimindo o sol!

Calma, antes que você saia por aí botando a criançada para virar camarãozinho, leia a matéria e tire suas próprias conclusões. Sugiro até que discuta com um dermatologista da sua confiança.

Clique aqui para ler

Para quem não lê inglês, o resumo é que alguns protetores tem substâncias que penetram na pele, entram na corrente sanguínea e podem provocar alterações hormonais ou fazer com que um tumor se desenvolva mais rapidamente. Alguns dizem que os benefícios superam os riscos. Outros acham que o consumidor deveria ser informado para exercer seu direito de escolha.

A matéria conclui dizendo que é preciso haver cautela na exposição solar e, quem quer opções seguras, deve ficar na sombra, usar camisa de manga longa e chapéu.

Já redimiram a manteiga, o abacate, o café. O chocolate, vilão das espinhas, virou elixir da longa vida. O ovo, pobrezinho, já foi tão malhado que hoje as galinhas deveriam ser indenizadas. Agora é o astro rei que retorna soberano!

Percebi um padrão nisso tudo. As coisas que estão sendo redimidas, são as que a natureza fabricou. Portanto, daqui pra frente, vou virar adepta da Dieta do Papai do Céu: "foi o Papai do Céu que fez? Então come, meu filho. Come que não faz mal."

Papai do Céu não bota corante, não acrescenta benzoato, não usa gordura vegetal hidrogenada, sabores "idênticos" ao natural (alguém me explica esse truque pra não dizer artificial?), conservante INS sabe lá que número. Papai do Céu só usa embalagem sem bisfenol e que vira adubo em questão de dias. Produto do Papai do Céu não precisa de aprovação da Anvisa e há milhares de anos vem sendo testado em insetos, animais, humanos.

Papai do Céu me botou nesse mundo pra vivê-lo e não pra ter medo dele.

Daqui pra frente, não quero saber do que não posso. Eu posso tudo. E quando alguém me disser que alguma coisa faz mal, vou perguntar se quem falou foi o Papai do Céu ou a Seleções do Reader's Digest.

Na dúvida, fico com Ele.

31.5.10

Duas mães.


Duas mães.

O filho pequeno se queixou que havia uma regra na classe que o aborrecia muito. Não podia mais trocar lanche com o colega. E morria de vontade de fazê-lo. A mãe explica que se ele era contra uma regra, deveria manifestar sua opinião e tentar mudá-la.

Depois de discutirem estratégias, resolvem escrever um bilhete a ser encaminhado à professora. O pequeno dita, a mãe escreve. Ambos assinam.

O bilhete, chega às mãos da professora, que resolve lê-lo em voz alta para a turma. Percebe que a insatisfação com a tal da regra era generalizada. Faz uma votação e os baixinhos derrubam a proibição por unanimidade. A troca de lanche estava liberada, dentro de novas regras combinadas ali mesmo.

O menino volta para casa exultante. Tinha se manifestado e conseguido uma vitória significativa contra algo que discordava. Mãe e filho comemoram a conquista.




Na outra casa, a menina conta, feliz da vida, que agora podia trocar o lanche. A mãe se aborrece. É daquelas que fazem questão de uma alimentação saudável e tinha plena consciência que a filha, sempre que podia, burlava para descolar uma bolacha recheada, um salgadinho de pacote, um suco de caixinha bem açucarado.

A proibição da troca de lanche tinha sido perfeita para garantir que sua pequena comesse o bolo caseiro, a fruta, o pão integral que ela preparava com carinho. Agora vinha essa novidade!

Quis saber o que houve e a filha conta que um amiguinho levou um bilhete reclamando da regra e a professora mudou-a. A mãe se indigna, só podia ter sido obra de uma mãe adepta da porcaria. Vai atrás do nome da outra mãe e quando descobre não acredita! Logo ela, sua amiga, parceira de convicções e de trocas de receitas de biscoito de aveia!

Pega o telefone e liga para saber os motivos da outra. Elas conversam, cada uma explica seu lado. Chegam a um impasse. Tem que haver democracia, mas bolacha Trakinas, não dá! É caso de corte marcial. Dão risada.



Moral da história: em tempos de pais atuantes, não queira ser professora.

25.5.10

A culpa é da mãe.




A culpa é da mãe.

Quando eles são bebês e choram pedindo colo, a culpa é sua porque acostumou mal.

Quando eles comem errado, a culpa é sua por não ensinar a comer direito.

Quando saem mulambos, a culpa é sua porque não vê como as crianças estão vestidas.

Se saem arrumadinhos demais, a culpa é sua por não deixá-los a vontade.

Se vão mal na escola, a culpa é sua por não acompanhar.

Se xingam, você não bota limite.

Se sentem sono, faltou disciplina.

Se apareceu cárie, você deixou comer porcaria.

Se resfriou, é porque você deixa andar descalço.

Se dão piti, falta pulso.

Se a doença rescindiu, você não cuidou direito.

Se pegou o carro escondido é falta de impôr respeito.

Se engravidou a namorada, é porque você não colocou juizo no feijão.

Aí um dia, por incrível que pareça, eles sobrevivem a nós e crescem. Viram gente grande. Lindos, donos dos próprios narizes, funcionários de bancos, pais e mães de família, autores de novela.

E quando você acha que, finalmente, a vida começa a lhe fazer justiça e a reconhecer sua participação positiva no processo, eles resolvem deitar no divã e fazer análise.

E a culpa, será toda sua.

10.5.10

Maridos e presentes, a saga continua.


Para quem deu risada no ano passado, com o texto sobre presentes de marido para o Dia das Mães (os comentários são mais engraçados ainda), prepare-se pois, eles se superam a cada ano.


A primeira mãe, no seu Santo Dia, ganhou uma faca. Não era uma faca qualquer. Era uma faca artesanal, francesa. Meio faca, meio canivete. Excelente para uma réplica de Ramba chique. Olhou para o marido com cara de interrogação. Quem colecionava facas daquele tipo era ele. Depois de um tempo veio a explicação. Ele tinha se deparado com uma oferta incrível. Mas a loja só vendia o conjunto com 3 unidades. Ele arrumou alguém que comprasse 1 delas. A outra ficou com ele. E a terceira, ele deu pra ela no Dia das Mães.

Ela respirou fundo e aguardou. No Dia dos Pais, comprou-lhe uma panela de pressão. A amiga alertou:

- Ele vai te dar uma panelada na cabeça!

A resposta veio rápida:

- Ele que tente! Eu tenho uma faca!


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A segunda mãe já tinha ficado a ver navios no seu Dia. Esse ano, resolveu "lembrá-lo".

- O dia das mães é daqui a 2 semanas...já escolheu meu presente?

- O dia das mães é daqui a 1 semana...o que vou ganhar?

Na véspera, foi mais sutil:

- O dia das mães é amanhã...tá lembrado de alguma coisa?

O marido resolve sair com o filho mais velho. Volta 4 horas depois com um tênis poderoso no pé. Tinha um sorrisinho maroto nos lábios.

No dia seguinte, a rainha do lar acorda e fica esperando a homenagem.

Os filhos se aproximam, a abraçam e o marido entrega o presente. Ela abre. Era um brinde do shopping center, trocado com a nota fiscal do tênis que ele comprou pra ele.

A casa caiu. Ainda bem que não era uma faca.