4.12.13

Mãe, você é incompetente.




Mãe, você é incompetente.

Você não vai conseguir parir. Mas não se preocupe, médicos treinados e maternidades equipadas tirarão esse bebezinho da sua barriga num piscar de olhos, sem correr risco de você atrapalhar o parto ou o final de semana da equipe. 

Você não vai conseguir amamentar. Mas não se preocupe, multinacionais da maior idoneidade produzem mamadeiras e fórmulas sensacionais, que alimentarão seu bebezinho até melhor que essas suas tetas. 

Você não vai conseguir cuidar da família e da carreira. Mas não se preocupe. Uma extensa rede de babás, berçários e escolinhas darão café da manhã, almoço, banho, janta e colo, para que seu filho cresça feliz e você não perca o foco. 

Você não vai ter tempo para fazer comida caseira. Mas não se preocupe, nas prateleiras das melhores casas do ramo você encontrará potinhos de comida pronta tão deliciosa, que seu bebê nem vai perceber que não foi preparada na sua cozinha. 

Você não vai conseguir convencer seu filho a comer alimentos saudáveis. Mas não se preocupe. Os sucos de caixinha são a pura fruta. Os biscoitos não tem gordura trans. As redes de fast food agora servem frutinhas. Bolos prontinhos são praticamente como os da vovó. E não há deficiência alimentar que um bom copo de achocolatado não corrija. 

Você não vai conseguir entreter seu filho. Mas não se preocupe. Canais infantis, aipodi, aipedi, aibuque, uí, ds, ps e atividades extra-curriculares de A a Z ocuparão todo o tempo do seu pequeno sem que você consiga entediá-lo. 

Você de vez em quando vai tentar fazer as coisas de outro jeito. Mas não se preocupe. Parentes, especialistas, profissionais e palpiteiros vão ajudá-la a recuperar o bom senso, criticando-a, enchendo-a de temores, chamando você de louca, antiquada e imprudente. 

Porque, mãe, hoje é tudo muito mais fácil. O mundo evoluiu e a maternidade precisava acompanhar. Para que sofrer, não é mesmo? 

E você ainda pode pagar no crédito, débito ou boleto.




Imagem tirada daqui.




21.11.13

O lanche no lixo




O lanche no lixo

O menino começou a devolver a merenda sem comê-la. A mãe estranhou. Normalmente ele era morto de fome, mas o lanche, preparado com tanto carinho, estava voltando intacto.

As desculpas habituais "eu tava sem fome", "quis jogar bola no recreio" não colaram. Uma observação atenta e ela percebeu que o adolescente estava com vergonha de levar lanche de casa. Abrir a mochila e enfrentar o olhar da galera diante de um sanduba no pão integral ou de uma fruta, para ele era a morte. Queria comer os salgados da cantina, como os demais colegas. 

A mãe, do tipo natureba econômica, argumentou que o lanche que ela fazia era muito mais saudável que o da cantina e, além disso, ela e o marido suavam para pagar a escola particular. Lanche da cantinha era um luxo para os dias em que o despertador falhava e não dava tempo de preparar nada.

Um empaca daqui, o outro dali e, passados seis meses de lanches devolvidos, a mãe desiste. 

"Olha, não vou mais fazer lanche pra você. Os ingredientes estão aqui. Se quiser merenda, prepare você mesmo. Mas não gasto mais tempo e dinheiro pra acabar tudo no lixo." 

O menino deu de ombros e, para agonia da mãe, cursou o restante do ano sem levar merenda. 

No ano seguinte, o garoto entrou para o ensino médio. Saiu da escola particular e foi para a pública. 

Depois de alguns meses, ele chega com a novidade. 

"Mãe, começaram a dar lanche seco de graça na escola." 

"Que legal! E o que é lanche seco?" 

"Bolinho pronto, bolacha recheada, suco de caixinha. Mãe...é ruim demais! Não consigo comer. Será que você me faz um daqueles seus lanches naturais?" 

A mãe abraçou o menino e só faltou soltar rojão. 

No dia seguinte, acordou cedo e preparou um sanduíche com todo carinho. Pão integral, patê de frango desfiado com coalhada seca, azeite, cenoura ralada, uma folha de alface, pimenta do reino e voilá! 

Entregou o lanche ao menino e torceu para reação dos amigos da nova escola não ser negativa. Temia que, se fosse zoado, a vergonha voltasse a dominá-lo. Agora com o agravante dele ter acesso gratuito ao universo de porcarias industrializadas e recheadas que a família sempre evitou. 

Aguardou ansiosa a volta do filho e a primeira coisa que perguntou foi se ele tinha gostado do lanche.

"Tava uma delícia. Mas você não vai acreditar…uma amiga me pediu uma mordida, depois outra e roubaram meu lanche! Saíram andando com ele na cara dura! Falaram pra amanhã eu levar seu lanche pra galera toda." 

A mãe deu risada. Graças à garotada mundo real da escola pública, o lanche caseiro estava de volta à cena. 
E em grande estilo. 



Foto retirada do My Recipe Magic. 

11.11.13

A namorada da filha do Sílvio.




A namorada da filha do Sílvio.

O garoto se aproxima da mãe com cara de aflito.

"Mãe, segunda-feira vai ter balada teen no Puxadinho. O Thiago me convidou. Eu posso?"

Pela expressão do garoto, a mãe percebe que ele queria muito ir e temia mais ainda que os pais não permitissem.

"Balada teeen numa segunda-feira?"

"Estamos nas férias, lembra? Deixa mãe, todos os meus amigos vão. E eu nem vou ter que pagar os 25 reais da entrada porque o bar é da namorada da tia do Thiago. Ela coloca nosso nome na lista."

O menino continua explicando. Não ia ter álcool, maior de 18 anos não entra etc, etc, etc. Mas a mãe, a partir daí, só vê os lábios dele se movendo e não presta atenção em mais nada. Estava focada na descoberta da namorada, com A no final, da filha do Sílvio, amigo da família e avô do Thiago.

Antes que transparecesse o que ia na mente, trata de encerrar o assunto com a resposta padrão para todas as situações saia justa da maternidade compartilhada: "Vou falar com seu pai."

Demora pouco para se dar conta do que havia acontecido. E acha graça de de si mesma. Se considerava toda aberta para a pluralidade da vida e do amor. Tinha ajudado a apedrejar Feliciano. Mas quem era verdadeiramente desligado dessas questões era o filho e não ela. Aos 14 anos, o garoto demonstrou absoluta naturalidade diante das opções da tia do amigo. A única preocupação dele era se ia ou não à balada. Naquela hora, sente vontade de ser igual ao menino.

Mais tarde, ela conversa com o marido.

"Vai ter uma balada teen, segunda-feira, no Puxadinho e nosso filho quer ir. Foi o Thiago quem convidou. O bar é da namorada da tia dele e ela coloca os nomes dos dois na lista. Acho que podíamos deixar. O esquema parece tranquilo, não servem ácoo..."

O marido a interrompe.

"O quê? A filha do Sílvio é sapata?!"

A mãe dá um sorriso e desiste de ir adiante com o assunto. Sabia por experiência própria que, a partir dali, não seria mais ouvida. Se afasta devagarinho para avisar o filho que ele iria à balada.

Enquanto caminha pela sala, escuta o marido murmurando do sofá:

"A filha do Sílvio?! Não acredito!"


6.11.13

"Filho, se vira."





"Filho, se vira." 



O menino sai da escola bravo e muito agitado. 

"Mãe, me tira dessa escola! Me tira dessa escola, já!" 

"Nossa! O que aconteceu?!" 

"Eu não aguento mais uns meninos da minha classe. O Fulano e o Beltrano ficam me zoando! Mãe, me põe noutra escola, hoje!" 

O mãe fechou os olhos por alguns segundos. Sempre havia sido muito solidária com as queixas do menino, conhecia seus problemas de relacionamento, mas dessa vez não sabia como reagir. Respirou fundo, seguiu sua intuição e a fala veio como se estivesse tomada por outro ser. 

"Filho, senta aqui e preste muita atenção no que vou dizer. Eu e seu pai já fizemos tudo o que podíamos pra te ajudar com os amigos da escola. Já conversamos com professora, com coordenadora, te trocamos de escola o ano passado, tornamos a falar com professoras e coordenadoras dessa nova escola, juntamos a turma pra um cinema, convidamos amigos pra brincar em casa. Você está lembrado disso tudo?" 

O menino cruza os braços emburrado. 

"Tô." 

"Então, nossa parte, eu e seu pai cumprimos. Agora, filho, está na hora de você cumprir a sua. Se vira, porque você não vai mudar de escola. Se esforce para se enturmar. Você é um menino querido e esperto. Tenho certeza que logo vai estar cheio de amigos. Agora é com você." 

O menino olhou com estranheza para a mãe. Depois abaixou a cabeça e seguiu pensativo o resto do caminho até a casa. 

A mãe respeitou o silêncio. A bola estava com ele, isso tinha ficado claro e, naquele momento, qualquer outra palavra viraria sermão. 

No peito um fiozinho de angústia quis se formar, mas a leoa, aquela que rosna para que a cria se afaste e aprenda a caçar, rugiu alto e o fiozinho se desfez.

5.9.13

Meu filho, seu aluno. Seu filho, meu aluno.




Meu filho, seu aluno. Seu filho, meu aluno.

Minha irmã, educadora que atua na formação de professores, me conta que sua filhota, de 5 anos, lhe pediu que arrumasse emprego na escola onde ela estuda. Ela repete a justificativa da menina:

"Assim, você vai ser minha professora. E eu vou ser sua aluna querida. Vou ser sua ajudante, vou pegar coisas pra você no armário, vou tirar xerox, apagar a lousa, sentar no seu colinho na hora da roda, passear no recreio de mãos dadas com você...nós vamos poder ficar juntinhas o tempo todo!"

O lado educadora da minha mana explica: "Identifiquei nessa fala dela algo muito significativo...ela começa a perceber que há um espaço onde ela deixa de ser filha e passa a ser aluna. Olha que legal!"

"Legal? Eu achei que ela estava era com saudade de você", comentei.

Minha irmã sorri: "Numa análise superficial parece isso mesmo. Mas na verdade ela está é relutante em perder o status de filha. Filhos ocupam uma posição privilegiada em nossas vidas. São o centro de nossas atenções e por mais que aprontem, jamais deixarão de ser nossos filhos. Já na escola, eles ocupam um lugar igual a todos os demais. O bom e velho 'mais um na multidão'. Lá eles precisam se esforçar para manter as relações."

Eu brinco: "Que interessante! Vai ver é por isso que em casa eles se comportam de um jeito e na escola de outro, completamente diferente!"

"Sim! Porque são socializações diferentes. Em casa eles podem bater, fazer birra, invadir espaços que não são deles, aprontar o que for. A relação pais e filho está garantida. Chamamos essa socialização de primária. Já na escola, a coisa muda de figura. Eles começam a entender que o comportamento deles interfere na relação com o outro. E que as relações não são perenes, como no lar. É a socialização secundária. Uma não substitui a outra. Pelo contrário, elas se complementam e são fundamentais para o desenvolvimento do futuro adulto."

"Nossa! Mas tem muita mãe relutante em deixar seus filhos virarem alunos, não?", digo.

Ela dá risada. "Até eu! Soltar nossos bichinhos é difícil. Vê-los magoados porque o melhor amigo não os quer mais, porque não serão as noivas da quadrilha ou porque não foram os primeiros a serem escolhidos para o time. São coisas que jamais deixaríamos acontecer na nossa jurisdição!"

Eu complemento: "Temos ganas de ir à escola e dizer uma verdades...'Como assim? Meu bebê é só mais um nessa instituição?! Você está querendo me dizer que essa criatura especial, ultradotada e eleita pelos Deuses para ser minha, é igual aos demais?!'"

Interrompemos para dar risada.

Minha irmã brinca: "Acho que as escolas deveriam promover a socialização secundária das mães, que tal? Matricule seu filho e participe do curso que a ensinará a deixar seu filho virar aluno, sem lágrimas ou sofrimento."

"Pois é...ia facilitar muito a vida da escola. E a nossa também. Já pensou? 'Opa esse problema é do seu aluno. Resolvam aí porque eu sou só mãe e se já está difícil dar conta do meu filho, que dirá do seu aluno'", concluo.

"'Meu filho, seu aluno. Seu filho, meu aluno.' É bom isso, hein? Vou usar esse mantra com meu grupo de professores."

"Tudo bem, eu cobro baratinho".

"E eu pego sem pedir. Sou sua irmã e nossa socialização é primária. Fica esperta."




*Cena da escola do filme "Procurando Nemo", da Disney-Pixar.


28.8.13

Mercado Negro




Mercado Negro


O menino, de dez anos, sai da escola excitado.

"Mãe, hoje vendi quatro cartelas de chiclete pros meus amigos! Comprei por um real na padoca e vendi por dois reais. Lucrei quatro reais, mãe!"

"Ué, mas não tem uma regra que não pode vender coisas na sua escola?"

"Mercado negro, mãe. Mercado negro!"

Sem saber como reagir, a mãe decide dar corda para entender melhor a situação.

"E ninguém dedurou você?"

"Só vendo pros bico fechados. Os X9 da sala estão fora do negócio! Sabe a Fulana e o Sicrano, aqueles que contam tudo pra professora?..."

"Sei..."

"...então, combinamos de ninguém deixar eles saberem."

"Caraca! To impressionada com essa história! Então, deu tudo certo?"

"Deu...só tive problema com a Beltrana."

A mãe logo pensa que filha de peixe, peixinho é. A mãe da menina, sua amiga, é uma grande ativista anticonsumismo infantil, batalhadora da alimentação saudável na cantina, defensora da ética e abominava a venda de doces na escola.

"Com a Beltrana! É mesmo? Aposto que ela tentou te convencer a parar com as vendas, né?"

"Não, mãe! Ela ameaçou me caguetar se eu não desse quatro chicletes de graça para ela."

"Jura?! Você está falando sério?! E o que você fez?"

"Dei o que ela pediu! Quatro chicletes de graça. E ela jurou que além de guardar segredo, vai me ajudar a vender entre as meninas."

A mãe não sabia se gargalhava ou chorava. Por hora, achou melhor aumentar o volume do rádio. À tarde ligaria pra amiga. Ou isso será que isso é coisa de X9?

Já não sabia mais nada.



26.8.13

O pote do palavrão.




O pote do palavrão. 


A situação na casa estava preocupante. A criançada falava palavrão o tempo todo. E não havia pito ou conversa que desse jeito naquela tropinha boca suja. 

Preocupada com o rumo das coisas, a mãe propôs um jogo. 

Toda vez que alguém falasse um palavrão, seu nome seria anotado num papelzinho e depositado num pote estrategicamente colocado sobre a estante, ao alcance de todos. 

Ao final de sete dias, os nomes seriam contados. E os participantes teriam que pagar um real para cada vez que seu nome fosse para o pote. Resumindo: haveria uma multa de um real por nome feio falado naquela semana.

As crianças adoraram a proposta, mas questionaram para quem iria o dinheiro. Houve um debate e ficou combinado que a grana seria gasta em um passeio em família, a ser escolhido por quem menos pontuou, ou seja, o mais boca limpa da casa. 

Foi uma semana engraçada. Em meio às atividades, de repente, alguém dizia: "Opa! Falou palavrão!" E corria anotar o nome do infrator no papelzinho. 

O infrator berrava de longe: "Não vale! Eu disse 'é soda'! Soda não é palavrão, cacete! Opa, eu não falei 'cacete'. Eu disse tapete!"

Ao término de uma semana, a família se reuniu para fazer a abertura do pote. Dividiram-se as funções. Um cantava os nomes em voz alta, outro anotava os pontos. 

Contagem encerrada, o responsável pela cobrança deu o resultado: cada criança deveria pagar entre dois e oito reais. Já papai e mamãe, juntos, deviam mais de 70 reais. 

Ao abrir a carteira, a mãe quis xingar, mas conteve-se. 

Aparentemente, o objetivo do jogo havia sido atingido. 



*Imagem do filme: "A Christmas Story".




3.8.13

O papa no inferno e uma mãe no paraíso.




O papa no inferno e uma mãe no paraíso.


Aos pais que pediram a censura da Divina Comédia,

Quando a professora dos nossos filhos solicitou a leitura da Divina Comédia, do Dante Alighieri, festejei. Não sei se pelo livro em si, um clássico, escrito por um dos maiores autores da humanidade, ou pelo fato de nossos filhos estudarem numa instituição pública e a professora não subestimá-los, indicando um livro que, definitivamente, é para os fortes. 

Como muita coisa na vida, minha excitação não contagiou meu filho. O fato do livro ter sido escrito há mais de 700 anos foi motivo para desmotivá-lo. Sem nem virar a capa, achou-o velho e chato. E congelou nisso.

Tentei de todas as formas encorajá-lo, mas tudo o que eu dizia parecia dar a ele ainda mais argumentos para rejeitar a leitura. 

Na semana passada, como um milagre, tudo mudou. Meu filho voltou para casa empolgadíssimo, contando que vocês se reuniram com a professora para exigir que ela mudasse o livro. Alegaram que a obra é inadequada, pois Dante ofende a Igreja. "Mãe, me falaram que o cara coloca o Papa no inferno!".

Podia aproveitar esse meu espacinho para argumentar que o livro foi escrito há mais de 700 anos e de lá pra cá muita água benta rolou; que é um dos maiores clássicos da humanidade; que cai no vestibular; que o Index Católico não funciona mais; que agradeço a preocupação, mas cada um que cuide da própria perdição; e etc. Podia desfiar o rosário, porém, com certeza, vocês ouviram muitos desses argumentos da própria professora, que manteve-se firme e não mudou o livro. Abençoada essa mulher! 

O objetivo deste texto é outro. Escrevo para agradecê-los. Vocês conseguiram o que nem eu, nem a professora conseguimos! Agora meu filho está superdeterminado a ler a obra prima do Dante! E faz questão que seja no texto original, para não perder nem um detalhe. 

Vocês são mesmo danados, hein! 

Do fundo do meu coração, obrigada!





23.7.13

"Filho, escolha bem seu mau exemplo."




"Filho, escolha bem seu mau exemplo."


Mãe e filhos assistem à entrevista do Giba, do volei, para um programa esportivo. 

O repórter pergunta sobre o episódio do dopping e Giba esclarece que consumiu cannabis de forma recreacional, foi pego, virou notícia e se arrepende muito, pois por ser um atleta famoso, era exemplo de conduta para muitos jovens. 

O caçula entra na sala: "Pessoal, marcaram a luta revanche do Anderson Silva! Vai ser em dezembro!"

O mais velho complementa: "Que armação!"

A mãe questiona? "Armação? Como assim?"

"A luta que o Anderson Silva perdeu foi armada. Ele perdeu de propósito para marcar a revanche. Ele vai ganhar muita grana com essa segunda luta." 

Indignada, pra variar, a mãe argumenta: "Não acho que foi armada. Acho que ele perdeu e inventaram essa história de armação para não ficar ruim pro lado dele. O povo infelizmente acha melhor um trambiqueiro do que um perdedor."

"Que isso, mãe! O próprio Anderson Silva riu quando o repórter perguntou se era armação. Você acha que ele ia dar aquela risadinha se a luta fosse séria?" 

A mãe se afasta pensativa. Aparentemente, o próprio lutador estava alimentando os boatos. E se foi mesmo armação, o atual ídolo da luta é um farsante. Mas, se tiver perdido de verdade, está ensinando aos seus jovens fãs que não há vergonha em fingir. Vergonha é perder." 

Foi fazer o almoço pedindo aos anjinhos da guarda para orientarem os filhos. Na hora deles escolherem um mau exemplo, que escolham o do Giba.

3.7.13

"Pais omissos é o caralho!"


 

"Pais omissos é o caralho!"

Disseram que não sabemos dar limite aos nossos filhos.

E eles invadiram o Congresso, desmascararam a Fifa e mandaram a Globo tomar no cu.

Disseram que os mimamos demais e damos tudo que eles pedem.

E eles espernearam até conseguir abaixar a tarifa do ônibus, derrubar projetos de lei duvidosos e movimentar a reforma política.

Disseram que não ensinamos o respeito à autoridade.

E eles não abaixaram a cabeça nem com bala de borracha, bombas de gás lacrimogêneo e de efeito moral.

Disseram que somos ausentes.

E eles compareceram.

Nos chamaram de desatentos.

E eles atraíram a atenção do mundo inteiro.

Falaram que era absurdo famílias desestruturadas, pais veados e mães sapatas criarem uma criança.

E eles gritaram que absurda é intolerância e a homofobia.

Nos acusaram de sermos frouxos por educarmos sem bater.

E eles gritaram pela não violência.

Previram que essa geração não teria futuro.

E eles devolveram que um futuro como o nosso, eles não fazem questão alguma de ter.

Da próxima vez que alguém nos apontar o dedo e ditar regras sobre como criar nossos filhos, apontemos outro. O do meio.

E sigamos de cabeça erguida.


Foto tirada daqui: http://heroisbadernistas.tumblr.com


25.6.13

O gigante adormece na escola.




O gigante adormece na escola. 

A reportagem mostra o prédio da escola onde um aluno entrou armado. E depois o da delegacia para onde ele foi levado. Não consegui distinguir qual era um e qual era outro.

São nestes prédios cinzentos e cheios de grades, com mais cara de presídio do que centros do saber, que educamos nossa garotada para a vida em sociedade.

E o que acontece com as paredes não difere muito do que acontece em sala de aula.

Se perguntam, querem tumultuar.

Se questionam, estão desautorizando o professor.

Se não querem ficar na sala, são vagabundos.

Se não conseguem ver sentido na lição, são desinteressados.

Se erram, são sem noção.

Se não aprendem, tem déficit de atenção. 

A indisciplina é tratada como violência. 

A rebeldia como caso de polícia. 

A criatividade como afronta.

A opinião dos alunos sobre esta instituição, ironicamente criada para eles, pouco ou nada conta. 

Quando querem falar, são ridicularizados, calados ou ignorados. 

Quando gritam, são contidos com sanções e advertências. 

Não há espaço para manifestações. Para se dizer o que pensa. Para participar das decisões. 

Controlam por onde eles circulam, quantas vezes vão ao banheiro, o que pregam nas paredes. 

Não é permitido que se apropriem de um espaço que, por direito, é deles. 

Em compensação, o fracasso - esse sim - é deles. Só deles. E de suas famílias, desestruturadas, omissas e ausentes. 

Num País onde submissão é ensinada com tanta eficiência em escolas públicas e privadas, não me surpreendo que o gigante tenha demorado tanto para acordar. 

Me surpreendo que um dia ele tenha acordado.



21.5.13

Mães, pintos e maisena.



Mães, pintos e maisena.

Depois de uma tarde deliciosa com a molecada escorregando no sabão, o amigo do filho grita:

"Tia, uma formiga picou o meu pinto. Tá ardendo muito! Eu quero ligar pra minha mãe!".

Experiente na arte de receber coleguinhas, a dona da casa dá o fone pro garoto. Ligar imediatamente pra mãe é um direito garantido a todo pequeno visitante.

A conversa foi breve e o menino desligou muito contrariado.

"Eu quero que minha mãe venha aqui ver o meu pinto…" Ele reduz o tom de voz e evita olhá-la no olho: "…mas ela disse que é para eu mostrar para você antes."

O menino ensaia abaixar o calção, mas não tem jeito. Aos 11 anos, não é mais pra qualquer mulher que se mostra o dito cujo.

Ela tenta relaxá-lo: "Você está com vergonha? Não tem problema. Quando quiser que eu olhe, me avise."

O menino liga novamente pra mãe. A conversa dessa vez é mais longa: "Mas mãe, eu ainda quero dormir aqui…mas você tem que vir aqui ver o meu pinto…tá ardendo muito, não sei se tenho que ir pro hospital…"

A negociação dura alguns minutos. Ao desligar, o menino muito envergonhado, abaixa a bermuda e exibe o polêmico orgão para avaliação da dona da casa.

A anfitriã ajoelha, examina de perto e diz com cara de especialista: "Isso não é picada. Seu pipi tá assado. Você deve ter se assado no sabão. Vamos passar um pouco de maisena e você vai ver como melhora."

Minutos depois o menino retorna sorridente: "Tia, tô bem melhor. Vou falar pra minha mãe que não precisa mais vir."

No dia seguinte, quando a outra mãe vem buscar o filho, elas abrem um vinho.

"Amiga, quando ele me ligou eu não acreditei! Tinha aproveitado que ele ia dormir aqui e combinado de sair. Não era possível que uma formiga fosse estragar minha tão precisada balada!"

"Tadinho, ele estava tão envergonhado! Como você fez pra convencê-lo a me mostrar?"

"Ué, falei o óbvio. 'Para de frescura e mostra logo pra tia. Porque se tem uma coisa que ela já viu muito na vida é pinto!'"

"Nossa, você falou isso pra ele?! Tá certo que é verdade, eu mas jamais poria dessa forma…ainda mais para uma criança."

"Tô falando dos seus 3 filhos. Relaxa, flor! E manera no vinho."

Aliviada, a dona da casa propõe um brinde. À Santa Maisena, salvadora das baladas e protetora das mães vividas.

"Amém!"

Foto: Red Chick, de Rey Nocum 


16.4.13

O cisco e a trave.





O cisco e a trave. 


Um israelense me contou sobre a vida dos árabes em território judeu: "A gente está se lixando para o que eles fazem entre eles. Não estamos nem aí se eles se espancam, se matam, se acabam. Se é entre eles, nossa polícia não se mete. Não perdemos tempo com esse povo. Eles não são gente, são animais."

Fiquei chocada com a sinceridade do relato. E, com um ufanismo que geralmente nos acomete quando nos afastamos da pátria amada, pensei que pelo menos nesse assunto o meu País estava acima do dele.

Foi Cida, empregada doméstica crescida na periferia de Osasco, que me fez ver que, enquanto eu apontava para o cisco no olho do meu amigo israelense, deixei de ver a trave enterrada até o fundo do meu.

Estávamos preparando o almoço quando a cozinha foi invadida pela campanha contundente da Rádio Bandeirantes pelo fim da maioridade penal. Vinha com a chancela do próprio governador de São Paulo, defendendo a mudança na lei.

Cida para de lavar a louça, olha pela janela e solta: 

"Engraçado…na favela sempre aparece um morto. É tiro no peito, na cabeça, queimadura, estrangulamento…ninguém liga. 

Morri de pena desse moço que foi assassinado na porta do prédio por causa de um aifone. Você viu na televisão?! Ele já tinha dado o celular pro bandido. Imagina matar alguém por tão pouco! Mas na favela, a vida vale menos ainda. O irmão do meu marido foi assassinado por causa de cento e cinquenta reais. E a polícia nem investigou. Até hoje não sabemos quem matou. 

Eles estão querendo reduzir a idade pra ir preso, mas do jeito que está, pode abaixar pra dezesseis anos que nós vamos ver os de quinze dando tiro. E se reduzir pra quatorze, vamos ver os moleques de doze dando tiro. Daqui a pouco, vamos colocar criança na cadeia e o problema vai continuar. 

No jornal de domingo eles botaram as fotografias dos rapazes que foram assassinados por menor de idade. Só puseram dos bairros de rico. Se fossem colocar os mortos da favela, ia encher tantas páginas que não ia sobrar espaço pras notícias. 

Eu tenho muito respeito e entendo a dor que a mãe desse moço deve estar sentindo, mas ninguém apareceu pra entrevistar minha sogra quando o Cláudio morreu. Ninguém fez passeata pelo fim da violência. O governador e a rádio não pediram pra mudar lei nenhuma. Foi só mais um favelado que morreu assassinado. 

Parece que a gente é bicho." 

O feijão nesse dia não ficou tão gostoso. Talvez fosse melhor continuar cega.


8.4.13

Arcangela - Mulheres que me fizeram.





Arcangela - Mulheres que me fizeram.


No parapeito do navio, Arcangela se debruça e chora.

Chora por sua bela Itália, enorme no peito e cada vez mais pequenina no horizonte. 

Chora por ser mulher e ter que acompanhar seu homem a uma terra distante, feita mais de sonhos do que de chão. 

Chora pela mãe, impedida de embarcar por um mal súbito de pele e pelo abraço longo que teme ter sido o último que deram nessa vida. 

Chora pela saudade em forma de carta e pelos meses que levará para que ela atravesse o oceano.


No parapeito do navio, Arcangela se debruça e chora. 

Chora pela filha que ainda não teve e pela sua inescapável sina de mulher que dará luz, lavará, coserá e alimentará a vida. 

Chora pelos netos que ajudará a criar como se fossem os filhos queridos que Dio irá lhe negar. 

Chora pelo marido que nunca encontrará pepitas de ouro nas ruas da terra prometida. Nem depois de varrê-las, cuidadosamente, no emprego de gari que arrumará após fugir da escravidão da fazenda de café.

Chora pelo destino ter decidido que, ao invés de continuação, sua vida seria o ponto de partida de uma nova trama na imensa tapeçaria da vida. 


No parapeito do navio, Arcangela se debruça e chora. 

Suas lágrimas se misturam ao mar salgado pelo pranto de outras milhares de Arcangelas, que também precisaram se apoiar ao ver suas vidas desaparecerem aos poucos, engolidas pelo imenso azul.