8.4.13

Arcangela



Arcangela

No parapeito do navio, Arcangela se debruça e chora.

Chora por sua bela Itália, enorme no peito e cada vez mais pequenina no horizonte. 

Chora por ser mulher e ter que acompanhar seu homem a uma terra distante, feita mais de sonhos do que de chão. 

Chora pela mãe, impedida de embarcar por um mal súbito de pele e pelo abraço longo que teme ter sido o último que deram nessa vida. 

Chora pela saudade em forma de carta e pelos meses que levarão para que as notícias atravessem o oceano.

No parapeito do navio, Arcangela se debruça e chora. 

Chora pela filha que ainda não teve e pela sua inescapável sina de mulher que dará luz, lavará, coserá e alimentará a vida. 

Chora pelos netos que ajudará a criar como se fossem os filhos queridos que Dio irá lhe negar. 

Chora pelo marido que nunca encontrará pepitas de ouro nas ruas da terra prometida. Nem depois de varrê-las, cuidadosamente, no emprego de gari que arrumará após fugir da escravidão da fazenda de café.

Chora pelo destino ter decidido que, ao invés de continuação, sua vida seria o ponto de partida de uma nova trama na imensa tapeçaria da vida. 

No parapeito do navio, Arcangela se debruça e chora. 

Suas lágrimas se misturam ao mar salgado pelo pranto de outras milhares de mulheres, que também precisaram se apoiar ao ver suas vidas desaparecerem aos poucos, engolidas pelo imenso azul do Mediterrâneo.



3 comentários:

Paula disse...

Tais, lindo, lindo, lindo. Tocante, emocionante. Amei. Obrigada querida por lembrar e descrever com tanto sentimento as mulheres que nos fizeram.

Priscila Blazko disse...

Comovente. E lindo.
Abraço,
;)

Anônimo disse...

E eu chorei lendo...Piu bello!

Um grande abraco,
Marianna