14.11.12

Existe alimento infantil?





Existe alimento infantil?


O único alimento infantil produzido pela natureza se chama leite materno. Depois do desmame, os pequenos passam a se alimentar com comida comum a todos os humanos. O que muda é o preparo. Legumes amassadinhos, papinhas de fruta, carne desfiada, mingau de cereal.

Em todos os tempos, em todas as culturas, sempre foi assim. Isto é, até chegar na nossa vez.

Os pais e mães de hoje convivem com uma realidade inédita na história humana. A “comida infantil” inventada pelo marketing da indústria alimentícia. Entra em cena um extenso cardápio de “alimentos” anunciados como práticos para a mamãe e mais aceitos pelos pequenos: sopa pronta, nuggets, bisnaguinhas, bolinhos, biscoitos, petit suisse, macarrão instantâneo, leite fermentado, lanches de microondas, sucos e néctares (em pó, concentrado e de caixinha), refrigerantes, preparados à base de leite, cereais matinais, achocolatados, salgadinhos, combos de fast food, embutidos etc. Isso sem falar nas balas, pirulitos e outras guloseimas.

Observe que nenhum desses produtos é invenção da natureza. Todos são criação da indústria alimentícia que calculou, sabidamente, que uma família consumiria mais se tivesse que comprar alimentos diferentes para os adultos e para as crianças. Isso se chama criar nichos de venda, segmentar o mercado consumidor.

A criatividade da publicidade torna tudo ainda mais confuso. Começamos a realmente acreditar que criança tem mesmo que comer comidas mais fofinhas, doces, coloridas, acompanhadas de brinquedos e personagens. E confiamos que essas comidas são seguras para darmos aos nosso filhos.

O problema é que esses alimentos costumam ser pobres nutricionalmente. Enchem barriga, mas não nutrem como deveriam um corpo em desenvolvimento. Pior ainda, atrapalham por serem ricos em aditivos, conservantes, sódio, açúcar, gordura e farinha refinada.

Resumindo, os alimentos que o marketing transformou em comida para criança podem fazer mal aos pequenos. Além de criarem péssimos hábitos alimentares que dificilmente serão abandonados na vida adulta. E hábitos ruins fazem um bem danado para o mercado de comida pronta.

Estudos hoje apontam que esse problema se torna ainda maior nas classes mais pobres. Com o aumento da renda, os pais estão sendo seduzidos pelo doce canto da indústria. E festejam poder colocar na mesa produtos que antes eram exclusividade das classes média e alta. O problema aqui é que não sobra dinheiro para os alimentos que complementam essa dieta pobre. Frutas, legumes, peixes, raízes, grãos e cereais integrais não entram no cardápio. Pesquisadores alertam para uma geração de brasileirinhos obesos e mal nutridos.

Não podemos condená-los. Neste nosso Brasil das diferenças, a publicidade conseguiu transformar comida industrializada em símbolo de status. Comprá-los é poder dar aos filhos tudo “de bom e do melhor”. É não deixar a garotada “passar vontade”. É realizar o sonho de uma vida “prática” e “moderna”.

Comida pronta faz de mim e dos meus filhos alguém de valor. Com diabetes, pressão alta, colesterol, intestino preso e acima do peso. Mas, enquanto estiver dando para comprar o biscoito recheado deles, está tudo bem.



Esse texto foi publicado originalmente no blog do Movimento Infância Livre de Consumismo

1.11.12

Planejamento Familiar




Planejamento Familiar

Nunca foi boa em planejar viagens. Deixava tudo pra última hora. Sabia que isso irritava amigos e familiares, além de ser uma atitude de risco. Mas achava que, com crianças, fazer planos era ainda mais arriscado.

E desse jeito viajandona ia levando a vida e os passeios. Na véspera resolvia, enfiava filhos, papagaio e violão no carro e partia. 

Até que este ano, resolveu tomar uma atitude premeditada. Decidiu com um mês de antecedência que iria para Florianópolis.

Trinta dias de antecedência era tanto tempo que precisou racionalizar internamente a atitude: o semestre estava quase acabando, os filhos iam faltar uns dias na escola mas eram bons alunos e mereciam um descanso, a passagem de avião comprada antes era mais barata, 2012 poderá ser o último ano de suas vidas... 

Estava imensamente feliz consigo própria. Para dar conta dos preparativos arrumou até uma agendinha, onde anotava "comprar biquini", "avisar escola", "comprar passagem de ônibus para o aeroporto", "depilar", "contratar cuidador para a gata". 

Até que a uma semana do embarque, vem a notícia: os dois filhos, pela primeira vez, haviam ficado de recuperação. O mais velho em três matérias. O outro em uma. As provas, como era de se prever, eram exatamente na semana da viagem. 

A mãe bufa e contém os ímpetos assassinos com uma taça de vinho. Mais calma, vai conversar com os filhos. 

"O que houve?" 

"Decidi sentar no fundão. Não deu muito certo, né...", foi a explicação do mais velho. 

"Eu achei que tinha zerado a prova, mãe, juro!", disse o menor, na linguagem de quem passa por todas as fases e arrasa no videogame. 

A mãe decide que este problema não lhe pertencia. Era deles. "Escutem. As passagens estão compradas. Eu e seu pai vamos de todo jeito. Resolvam com a escola e vocês irão com a gente. Se não resolverem, ficam para fazer a prova." 

"Como assim?!" esperneiam. "Tá maluca?! Você tem que ligar lá e falar com a coordenadora!" 

"Não ligo! Ligaria se fosse doença ou outro motivo grave. Mas sem vergonhice não é problema meu. É de vocês. Querem ir pra Floripa, resolvam." 

"Você vai fazer isso com a gente?!" 

"Eu! De jeito nenhum. Quem fez isso com vocês foram vocês mesmos. Assumam e se virem." 

Por dentro, ela cruzava os dedos e torcia. "Deixar os fidamãe com quem? Mudar a data também não dá. Comprei passagens do tipo 'impossível remarcar - a senhora quer que desenhe?' Será que ligo para a escola escondida?"

Para piorar, os meninos esperneavam diariamente, implorando para a mãe intervir. Mas ela decidiu manter-se firme. Além de confiar no sevirômetro deles, achava que havia ali uma preciosa lição a ser aprendida. 

Os dias foram passando, a viagem se aproximando e nada. Até que faltando 2 dias para o embarque o mais velho chega em casa pulando: "Conseguimos! A coordenação liberou para a gente fazer as provas noutro dia." E completa, cutucando o irmão: "Ufa, dessa vez achei que a gente tinha rodado! Você viu a cara da coordenadora quando a gente falou com ela? Nunca imaginei que ela fosse topar!" 

Enquanto os dois se afastam, a mãe senta para relaxar. Santa coordenação! A viagem da família estava salva. Podia seguir com os planos. Que daqui para frente voltariam a ser poucos. 

Esse negócio de planejar com antecedência é estressante demais. Como alguém consegue viver assim?




29.10.12

"O QUE VOCÊ FEZ COM MINHA MÃE?!"






"O QUE VOCÊ FEZ COM MINHA MÃE?!"

É uma dessas mães que fazem ativismo na rede. Sua última brigada foi contra o consumismo no Dia das Crianças.

Inspirada pelas ideias de suas fieis companheiras virtuais, planejou um dia mais significativo, que celebrasse a infância com brincadeiras ao ar livre, piquenique e atividades familiares. Qualquer coisa para tirar o foco da garotada da montanha de presentes.

O grande dia chegou e junto veio uma chuva torrencial. Lamentou o fato de São Pedro não ter apoiado a iniciativa tão louvável das mães.

Depois da 19ª rodada de mímica e jogos de tabuleiro, decidiram fazer um passeio. A garotada sugeriu boliche e lá foram eles ao único da cidade: o do shopping.

Esqueceu-se que em dia de chuva, ainda mais num feriado, um mico chamado King Kong invade os centros de compra e não poupa ninguém.

Depois de rodarem 125km para achar uma vaga e atravessarem todo o estacionamento debaixo de d'água, descobrem que a fila do boliche era de duas horas. "No mínimo", ressalta a simpática mocinha da recepção.

Imaginaram que o cinema estaria o mesmo furdúncio. Decidem dar meia volta e voltar pra casa.

No caminho o pai para pra abastecer. A mãe comenta que está com vontade de comer um chocolate. Os filhos se olham surpresos. A mãe querer um doce era algo inédito na vida deles. O formigão da família sempre foi o pai. Aproveitam o momento único e entram com ela na lojinha.

Amadora em questões açucaradas ela pede ajuda aos filhos para escolher o chocolate. O mais velho lhe mostra um tabletão. Ela aceita. O do meio sugere outro. Ela pega. O caçula apresenta mais um. Bota sem titubear na cesta.

Os meninos continuam pasmos. Fazem um último teste: "Podemos levar dois pacotes de bala? Está em promoção: dois por 5 reais."

Quando a mãe topa, o mais velho arranca os pacotes de bala da mão dela, encara-a firmemente e diz em tom desafiador: "ONDE ESTÁ MINHA MÃE?! O QUE VOCÊ FEZ COM ELA?"

Os outros dois cruzam o braço e fazem o mesmo: "É...DEVOLVA NOSSA MÃE!"

E o Dia da Crianças que não teve sol, nem piquenique, teve açúcar e muitas gargalhadas.




23.10.12

Aprendendo a trocar na escola.




Aprendendo a trocar na escola.

A primeira Feira de Trocas de Brinquedos da escola do meu filho começou estranha. Não pelas crianças, mas pelos adultos. Estavam meio tensos, inseguros, sem saber o que iria acontecer. "Será que vai ter briga, tumulto, confusão?".

Sentimentos compreensíveis. A troca é a transação mais presente na história humana, mas nossa geração desaprendeu essa prática. Tudo o que temos foi comprado.

Hoje, as Feiras de Troca estão voltando como uma forma mais consciente e, por que não, econômica, de dar um novo destino aos objetos que não queremos mais.

Como uma das mães que propôs a atividade para a escola, fui convidada a comparecer para orientar a garotada. De posse do microfone, veio o frio na barriga: "Orientar o quê? Se nem eu sei direito como faz?".

Na hora me lembrei das experiências compartilhadas pela internet com outras mães que participaram de feiras semelhantes e improvisei as dicas: "Olhem o que interessa, conversem com o dono do brinquedo e façam suas propostas." Foi só. 

A feira começou e o que aconteceu naquele espaço surpreendeu a todos. Foi um aprendizado do início ao fim. Para eles e para nós. 

O burburinho e a movimentação eram os de um mercado alegre e dinâmico. As crianças negociavam com autonomia e determinação. Iam de um lado a outro fazendo suas ofertas. Negócio fechado, saiam felizes, exibindo orgulhosas com seu novo brinquedo. Negócio recusado, corriam atrás de outra oportunidade. O clima amistoso foi a primeira coisa que chamou nossa a atenção. Nada de tumulto, de arrancar o brinquedo da mão do dono, de brigar. O respeito mútuo sempre presente na escola transpareceu nas relações. 

Claro que aconteceram conflitos. A menina que se magoou porque a melhor amiga não quis a oferta dela. O garoto que quis o brinquedo de volta depois de trocado e emburrou porque não conseguiu. O grupo de garotas que disputou com afinco uma boneca ainda na caixa. O pequeno que ficou aborrecido com as críticas dos amigos ao brinquedo simplesinho que ele escolheu. Em todos eles, os educadores intervieram só quando necessário, por entenderem que eram oportunidades preciosas e únicas de aprendizado. 

E quanto aprendizado! Uma professora se aproximou de mim com lágrimas nos olhos. Tinha testemunhado uma aluna que tem muita dificuldade em dizer não, recusar uma oferta ruim para o seu par de patins. Achou aquilo uma conquista ímpar na vida daquela criança. Outra viu a garota que quer agradar a todos, ter que escolher um entre os vários pretendentes ao seu brinquedo. Teve o menino apegado, que voltou para casa com seu velho brinquedo, por não conseguir se desfazer dele. E o desapegado, que não quis nada em troca e preferiu doar seu balde de Lego. 

E as crianças que não trouxeram brinquedo? Até elas nos deram lições. Foi combinado que ao final da troca, caso sobrassem brinquedos, elas poderiam escolher um. Mesmo assim, participaram alegremente das negociações, ajudando seus amigos. Ao final, sobraram vários brinquedos e praticamente todas puderam ficar com um. Ninguém reclamou que quem não trouxe não devia participar. Pelo contrário, muitos festejaram que o colega também conseguiu um brinquedo. 

Saí da escola refeita. Como pode um evento tão rápido e despretensioso concentrar tanto aprendizado?!

Estava ansiosa para retornar depois do almoço para o evento com as turmas da tarde. Mas meu filho mais velho machucou o dedo no futebol e passamos a tarde no pronto-socorro. Me dei conta que vida de mãe também é uma eterna troca. Nesse dia, abri mão da desejada Feira da tarde em troca de um necessário gesso. 

Quem foi mesmo que disse que as trocas não fazem mais parte da nossa vida?


P.S: Cometi o pecado mortal de não citar a supermãe e parceira na idealização do mundo, Silvia Schiros. Felizmente, o papel virtual permite edições. Silvia, valeu ter sua companhia em mais essa aventura!


Morte aos chatos.




Morte aos chatos.

Os ecologistas que me desculpem, mas se tem uma espécie que precisa ser extinta, é a dos chatos.

O eterno chato. Aquele que, num banquete romano, dizia que achava absurdo atirarem pessoas para os leões e todos pensavam: "Ai meus Deuses, lá vem o chato."

Naquele tempo, quem quisesse encontrar um chato, era só ir ao setor de cumbucas de barro do mercado. O chato nunca usava as de chumbo, pois desconfiava que faziam mal à saúde. Se tem uma coisa que chato sabe fazer é desconfiar.

Queria ver o povo revirar os olhos? Era só o chato começar a falar que o negócio de importação de mão de obra negra para trabalho escravo tinha que acabar. E não adiantava argumentar que a economia precisava do setor, que ia causar desemprego nos estaleiros e nas fábricas de chicotes, que ia faltar gente pra tocar os engenhos e abanar as sinhás acaloradas. O chato respondia que ia surgir uma nova ordem mundial e essa era a dica pra você sair de fininho porque o papo ia ficar insuportavelmente chato. Ô gente que viajava na banha! (Naquele tempo, não tinha maionese.)

A principal característica do chato é que ele não desiste. Bobeou, lá vem ele cutucando: "Por que mulher não vota? Por que gay não casa? Por que nossas terras são nossas e a dos índios não são deles? Quem é mais bicho: o animal ou o homem que o maltrata? Por que empregada doméstica pode até lavar nossa privada mas não usa o mesmo banheiro que o patrão? Por que anúncio de bebida alcoólica tem regra mas de cerveja não? Por que eu não consigo ter meu nenê de parto normal? Por que não dá pra pedalar sem correr risco de vida? Por que um político rouba milhões e não acontece nada, mas um moleque com um baseado pode ir pra cadeia? Por que a propaganda é direcionada ao meu filho se sou eu que compro? Por que a escola só ensina decoreba?". É uma chatice sem fim.

Quando o chato é da família - não se iludam, toda família tem um - temos que desenvolver técnicas avançadas para escapar deles nas festas. Levantamos para pegar uma cerveja mesmo com o copo cheio, convidamos para cantar parabéns, engasgamos com um caroço de azeitona e fugimos dali na maca da ambulância.

Agora duro mesmo é quando o chato surge na forma de filho.  Há relatos de exemplares de 1,20m dessa espécie que dizem que não querem um par de tênis novo porque o que eles tem ainda está ótimo. Há os que obrigam o pai a usar o cinto de segurança.  Os que choram diante do leitãozinho assado. E outros que cheiram o hálito da mãe, tornando-se legítimos representante da patrulha antifumo instalados dentro da nossa própria residência. Aliás, êta patrulha chata!

Já houve casos de chatos de espinha na cara que repreendem os pais em pleno almoço de domingo quando estes clamam por políticas mais rígidas para coibir a migração nordestina. Direito de ir e vir...tem coisa mais pentelha?

Na sala de aula, então, ninguém merece! Pior que um chato na família é um chato atrapalhando a aula com tanta perguntação: "Para que serve a trigonometria na prática?" E tente responder que serve para ele passar de ano, que a chata-mór, a mãe, aparece no dia seguinte pra reclamar do professor.

Temos que tomar muito cuidado com os chatos. Eles parecem poucos. Mas se multiplicam feito coelhos e perturbam de tal maneira que, se não ficarmos atentos, acabam conseguindo mudar as coisas. E as coisas não precisam mudar. Elas são do jeito que são. Nossos pais nos criaram desse jeito e olha só, deu certo! Somos ótimos!

Por isso, digo: "Morte aos chatos". E antes que algum chato apareça aqui cheio de nhenhenhém, explico que é morte no figurativo. Não quero que os chatos sejam atirados aos leões, mesmo porque até isso eles conseguiram mudar.

Esse mundo está ficando mesmo muito chato!


Ninguém melhor do que Rosa Parks para ilustrar este texto. Quem sabe da história vai entender. Quem ficou curioso, clique aqui.

18.10.12

Escolas que pensam.





Escolas que pensam. 

Me emociono todas as vezes que vejo educadores pensando fora do quadradinho do livro escolar e se abrindo para a vida.

Essa semana, fui tocada pela reflexão dos educadores da EMEI Guia Lopes.

EMEIS são escolas de educação infantil. Se pensarmos na hierarquia vigente, os profissionais que nela atuam são o chão da pirâmide, os menos reconhecidos e valorizados. Muitas vezes, até por si próprios. Infelizmente, permanece fortemente enraizada em nosso País a noção de que a criança pequena precisa de "tia" e não de educador.

Tias são queridas e carinhosas. Mas seu lugar é em casa e não numa escola. Hoje sabe-se que existem habilidades a serem desenvolvidas na primeira infância, fundamentais para a vida adulta, que exigem conhecimento, formação e autonomia. Requer Professores. Com P maiúsculo, orgulhosos de sua profissão, cientes da sua importância e da imensa responsabilidade que é formar um pequeno ser humano.

Por esse motivo, me impactou a carta que a EMEI Guia Lopes publicou na internet. Trata-se de um manifesto dos educadores daquela instituição contra a Novela Carrossel, do SBT.

Aos invés de atuarem como tias e acharem lindinhas as imitações que as crianças fazem dos personagens ou, ainda pior, cruzarem o braço e se omitirem com as eternas desculpas "é muito ruim, mas os pais deixam…as crianças adoram…fica chato dizer não", os profissionais daquela escola resolveram conhecer melhor o assunto, refletir sobre ele, formar uma opinião e agir. Agir como educadores comprometidos com a profissão que escolheram, fazendo valer sua autoridade no assunto e sua autonomia como conhecedores do desenvolvimento humano.

Torço para que a atitude se espalhe e que mais e mais escolas ganhem coragem para se manifestar sempre que identificarem na sociedade algo que prejudique ou favoreça a formação de seus alunos para a vida coletiva. Com firmeza, serenidade, boa argumentação e sem medo ou preguiça de nadar contra a maré.

Nenhuma escola conseguirá ensinar seus alunos a pensar e agir com autonomia se, antes de tudo, seus professores não fizerem o mesmo.

Segue o manifesto que inspirou esse texto. Ele foi originalmente publicado neste linque, com o título: Um Carrossel de Preconceito e Discriminação.


CARTA ABERTA EM REPÚDIO À NOVELA CARROSSEL


A Escola Municipal de Educação Infantil “ Guia Lopes” comprometida com ações que valorizem as diferenças e tonifiquem a autoestima de todas as crianças com idade de 3 a 5 anos através do combate a qualquer ação que dissemine o racismo, o preconceito e a discriminação na infância torna público o repúdio à novela Carrossel, veiculada diariamente pelo SBT ( Sistema Brasileiro de Televisão). Trata-se de uma novela dedicada ao público infantil que se passa em uma pretensa escola , com supostas profissionais da educação em que alunos personificam os mais variados estereótipos e vivenciam situações inaceitáveis nas quais a criança negra é frequentemente humilhada, a beleza e a superioridade da criança branca são enaltecidas, as crianças com sobrepeso são ridicularizadas e o espírito competitivo é levado ao extremo. A cada episódio, uma das crianças é exposta às ações do grupo que planeja situações vexatórias seguindo um enredo que reforça tudo o que nós combatemos e acreditamos deva ser combatido. Cirilo, um menino negro, pobre, e de boa índole é apaixonado por Maria Joaquina, menina branca, rica e cheia de soberba. Para ilustrarmos a perversidade existente nas relações entre as crianças da pretensa “Escola Mundial”, citamos o episódio em que um grupo de garotos resolve convencer Cirilo que, para conquistar Maria Joaquina, seria necessário comprar um tônico para ficar bonito. Cirilo, sendo uma criança com baixa autoestima, pega as moedas de seu cofrinho e compra a milagrosa loção feita por seus “colegas”.
São evidentes os efeitos nefastos da insensibilidade, do desconhecimento do universo infantil e do desrespeito à dignidade a que todos temos direito. Várias de nossas crianças têm verbalizado o seu descontentamento em serem negras e o desejo de mudar sua cor de pele, enquanto outras formam grupos impenetráveis de “Marias Joaquinas”, negando-se a usar o uniforme e estabelecendo competições de roupas e acessórios. Atentas a estas manifestações, estamos trabalhando para mobilizar a atenção da comunidade de pais e docentes para que sejamos, todos, criteriosos e críticos em relação à programação infantil a que ficam expostas nossas crianças.


Gestão Escolar e Equipe Docente da EMEI GUIA LOPES.


Pode interessar também ler o texto da mãe Debora Regina Magalhães Diniz "Porque não deixo meus filhos assistirem Carrossel", publicado no blog do Infância Livre de Consumismo.

Imagem compartilhada daqui: http://veerle.duoh.com/belgiangraphicdesign/detail/thoughts



16.10.12

O plin, plin na nossa mesa.





O plin, plin na nossa mesa.

É inocente acharmos que a educação alimentar de nossos filhos é responsabilidade apenas dos pais ou das merendeiras das escolas. Há tempos, ela vem sendo dividida com os meios de comunicação que, através de comerciais muito persuasivos, ensina-os desde a mais tenra idade a consumir produtos que trazem mais benefícios à saúde do mercado do que à saúde humana.

Assim, assistimos impotentes nossos filhos crescerem sob o bombardeio de mensagens que pregam que refrigerante é felicidade, fast food é para se amar muito, tomar suco em pó é uma atitude que salva o planeta.

Por mais que controlemos, por mais que optemos por uma dieta saudável, por mais que falemos “não” e desliguemos a TV, é impossível evitar que estas mensagens atinjam os pequenos e acabem fazendo parte da sua formação. Elas estão por todos os lugares e são repetidas à exaustão, como mantras da vida moderna.

O problema é grave. Crianças são seres vulneráveis. Suas mentes, ainda em formação, não distinguem fantasia de realidade. Elas acreditam nos adultos. Acreditam no discurso publicitário. Essa vulnerabilidade não é invenção de pais superprotetores, cientistas radicais ou educadores idealistas. É estabelecida nos Artigos 226 e 227 da nossa Constituição. Que também estabelece que protegê-las é dever da família, sociedade e do Estado. Isto é, o comprometimento com o bem estar e a formação das futuras gerações de brasileiros não é só dos pais e sim de toda a nação.

A alimentação é um dos principais elementos para este bem-estar. Hoje temos conhecimento suficiente para afirmar que grande parte das doenças pode ser evitada com uma dieta mais saudável. Doenças que afetam o desenvolvimento cognitivo, que afastam o trabalhador do serviço, que invalidam pessoas em idade produtiva e que, inevitavelmente, acabam cobrando sua fatura do setor público. Portanto, a alimentação deveria ser tratada como estratégica para a soberania nacional e defendida com a mesma intensidade com que o mercado defende seus interesses.

Os meios de comunicação, na sua maioria concessões públicas, jamais poderiam ser usados para deseducar todo um povo. O problema se torna ainda mais grave quando, além das crianças, vemos os pais também serem atingidos por mensagens enganosas, como a da maionese industrializada que se diz tão boa como o azeite de oliva, do catchup que afirma ser como comer tomate in natura, do tempero pronto cheio de sódio e glutamato que deixa o feijão ou o arroz “iguaizinhos ao da vovó″ ou do achocolatado que oferece “nutrição completa” para os filhotes chatinhos para comer.

Há os que defendam que não cabe ao Estado intervir neste processo, pois os consumidores têm o direito de escolha. Contudo, para haver escolha, tem que haver informação. Informação clara e transparente. Não é o que temos hoje. As informações, quando chegam, são distorcidas e duvidosas. Confunde-se propositalmente os benefícios do suco em caixinha com os da fruta. Biscoito com fonte de vitaminas e sais minerais. Macarrão instantâneo com comida caseira.

Os pais são os guardiões da infância. Os filtros. Quando eles são deseducados, a infância fica ainda mais desprotegida.

Como pais temos que lidar com temas que não fizeram parte das preocupações das gerações que nos antecederam: obesidade, doenças metabólicas, sedentarismo infantil e puberdade precoce são apenas alguns deles. Estamos confusos, frustrados e ávidos por construir novas referências que nos sirvam de guias por estes novos tempos.

Ao cobrarmos do Governo uma atuação mais efetiva em defesa dos pequenos, regulamentando com rigidez a publicidade infantil, não queremos tutela. Queremos que o Estado cumpra seu papel em defesa do cidadão diante dos interesses de grandes conglomerados, reequilibrando as relações. E que a proteção da infância seja integral, como estipulam as leis do nosso País.

Este texto foi publicado originalmente na Redenutri e republicado em comemoração ao Dia Mundial da Alimentação no blog do Movimento Infância Livre de Consumismo.

A ilustração foi retirada do site: http://drawception.com/viewgame/8CzRThssP7/my-little-pony-the-horror-version/

9.10.12

Perguntem às crianças.




Perguntem às crianças.

As crianças elaboram hipóteses geniais para entender o universo que as cerca. Fico imaginando como seria o mundo se não as condicionássemos desde a mais tenra idade a pensar só dentro da caixa.

Conversando sobre isso com uma educadora, soube que existe uma técnica para incentivar a curiosidade e o espírito investigativo que consiste em reverter a pergunta. Assim, quando uma criança nos questiona algo, ao invés de respondermos de pronto, dizemos: "o que você acha?".

Depois de ouvirmos a hipótese infantil, que deve ser levada a sério e jamais julgada certa ou errada, o assunto pode se encerrar naturalmente ou, se a dúvida persistir, sugerimos: "como podemos descobrir?".

A partir daí parte-se para as pesquisas, as experiências, as trocas de estratégias a lá Dr. House no Mundo de Bickman. Quando a resposta chega, ela foi construída de dentro para fora e não imposta pelo adulto.

A ideia é não formar donos de opinião e sim curiosos. Pessoas sem medo de imaginar, errar, trilhar caminhos diferentes. E que são capazes de pensar por si próprias.

Eu ainda não consigo chegar nesse nível de abstração diante de uma pergunta. Volta e meia me pego dando "aulas". Mas quando fico quieta e observo, aprendo tanto, que sofro só de pensar que um dia posso não mais conviver com crianças.


TPM

"Mano, já aconteceu com você da sua mãe ficar brava do nada? Tipo…você tá ali, parado e ela vem com uma cara de monstro e te destrói?"

"Claro, um monte de vezes"

"Então, isso é TPM."

"TPM? Que é isso?"

"Temporada Para Matar. Toda mulher tem."

Fábio, 10 anos e Enzo, 9 anos.


AQUECIMENTO GLOBAL

"Eu acho que o aquecimento global é um fenômeno natural. Ninguém acredita quando eu digo, mas é. Minha mãe diz que a febre é a defesa do corpo quando tem alguma doença. E que a gente não deve abaixar a febre para não atrapalhar a nossa defesa. Então, aquecimento global é a defesa da Terra. A Terra percebeu que alguma coisa não vai bem e esquentou. Uma hora ela vai se curar e a temperatura volta a abaixar."

Lucas, 13 anos


"π"

"Mãe, hoje eu aprendi o valor de Pi."

"É mesmo?! E qual é?"

"É um número infinito, mas arredonda pra 3,14."

"E para que serve o Pi?"

"Ah, serve para muitas coisas…(pensa um pouco)…porque o pi é infinito, e infinito é muito, muito mesmo. Então quando você quer xingar alguém, xingar muito, você diz "Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii". É para isso que serve."

Carlos, 12 anos

Pensativo da autora: E eu consegui finalmente entender para que serve o π.


26.9.12

A melhor piada da propaganda.




A melhor piada da propaganda.

Publicitários, ouvimos falar que os senhores reclamaram que estão sendo vítimas de bullying. 

Sabemos que as piadas fazem sucesso na publicidade, mas dessa vez não deu pra rir. 

Bullying sofremos nós, seres humanos comuns, ao sermos ameaçados de ficar invisíveis se não comprarmos o carro da marca que vocês anunciam. 

Bullying é ser mãe e ter que engolir muda o desaforo de ser chamada de Coca-Cola em rede nacional, como se esse fosse o mais supremo dos elogios. 

Bullying é sermos obrigados a ter axilas claras e hidratadas, cabelos sempre lisos e sedosos e um corpo que não exala odor por 48 horas. 

Bullying é sermos convencidos que só podemos sair às ruas com proteção. Solar, antibactericida e contra insetos. 

Bullying é ter que consumir bebida alcoólica para ser da turma, pegar mulheres e curtir a balada.

Bullying é aprendermos desde criança que só beija quem tem dentes brancos, brilhantes e hálito american fresh power plus

Bullying é ter que engolir comida de isopor para ganhar um brinquedinho. 

Bullying é sermos obrigados a fingir que acreditamos que os bancos são nossos melhores amigos.

Bullying é nos barrarem no treino se não estivermos barbeados com três lâminas que fazem tcha tcha tchum. 

Bullying foi ter aguentado, durante décadas, grandalhões dizendo que inalar fumaça e soprá-la na cara dos outros era uma decisão inteligente. 

Bullying é rirem da lancheira dos nossos filhos porque nela não entra bolacha recheada, refrigerante, pseudosuco ou salgadinho de milho trânsgênico. 

Bullying é ficar gordinho, ter pressão alta, colesterol e pré-diabetes porque ninguém conta pra nossa mãe que aquilo que ela vê na TV pode ser moderno e prático, mas também pode fazer mal. 

Bullying é nos passarem a cola errada e nos fazerem confundir azeite de oliva com maionese industrializada. 

Para terminar, bullying é sacanear os pares. E nunca fomos pares para os senhores. 

Portanto, façam um favor a si próprios: não saiam por aí chamando a tia e vertendo lágrimas de crocodilo porque ninguém acredita na sua choradeira. 

Argumentem, defendam seus interesses, mas poupem-se do ridículo.


13.9.12

Hum, hum...sei...

Vídeo divertidíssimo do Mamatraca sobre as informações que as mães recebem hoje. Melhor mesmo rir muito disso tudo.

P.S: no Blogger saiu cortado. Melhor assistir direto no saite do Mamatraca. Assim vc pode fazer elogios rasgados diretamente às autoras. Clique aqui.

10.9.12

Salvem os meninos.




Salvem os meninos.

Concordo que os contos de fada tinham que mudar. Não cabe mais no mundo moderno uma menina ser condenada a ficar no porão limpando cinzas enquanto espera o príncipe encantado aparecer com um sapatinho de cristal para salvá-la. Ou aquela outra que ronca 100 anos enquanto o seu moço não vem. Ou a que foi expulsa da casa do pai, sofre uma tentativa de assassinato, se perde na floresta e quando acha abrigo na casa de 7 homenzinhos, a primeira coisa que faz é uma bela faxina.

Tá certo, certíssimo, as coisas tinham mesmo que evoluir.

Mas, como mãe de menino, registro aqui o meu protesto pelo rumo que as coisas estão tomando: estão detonando com os príncipes!

No Shrek ele virou um boçal, mais preocupado com o cabelo do que com a princesa. Com isso ela acaba trocando-o por um ogro que solta pum e arrota em público. Não consigo imaginar nada mais romântico.

No Enroladas, ele virou um ladrãozinho, com um senso bem dúbio do que é certo ou errado. Príncipe que não conhece o lado do bem é como fada que não sabe fazer magia.

No Encantada ele é um tonto. Tão tonto que as meninas todas torcem pra que a princesa fique com o "outro". Que também é meio tonto, mas é mais gostosão. A mulheradinha anda esperta.

Na Barbie Mosqueteiras a coisa fica ainda mais vexaminosa. Princesas de maquiagem, vestido rosa e salto alto empunham espadas e…protegem o príncipe! Pode? Tem cabimento tamanha humilhação?

No último episódio desta conspiração anti-pelos no peito e músculos, a princesa do Valente, linda com seus cachos vermelhos e iluminados, é apresentada a três pretendentes tão sem graça, bobos e sem talento que achei que ela acabaria ficando com o urso malvado, que devia ter um bafo péssimo, mas parecia ser um partido bem melhor do que qualquer um daqueles três.

Do jeito que a coisa anda, daqui a pouco teremos contos de fadas sem príncipe. Para que colocar na história um estrupício desses, que só serve para, para…para que mesmo serve um príncipe? Bastam as princesas, lindas, cheirosas, espertas, inteligentes, corajosas, guerreiras, com cabelos impecáveis e axilias que nunca transpiram. Afinal de contas, se antes o que elas mais queriam era o amor e o castelo, nem sempre nesta ordem, hoje elas só precisam de uma carreira, uma boa babá, uma manicure e um vibrador. 

Se eu fosse príncipe, faria greve. Dedicaria todo meu amor ao cavalo branco. Que é fiel, está sempre ao lado deles e, melhor de tudo, é mudo. 

Escritores, roteiristas e contadores de história, escutem esse apelo de mãe: salvem os príncipes! Um reino governado só por estrógeno nem bruxa malvada aguenta. Coloquem umas pitadas de testosterona no roteiro e vamos equilibrar essa parada. 

Ou, logo, logo, coloco a depilação e da chapinha dos meus meninos na conta dos estúdios Disney.


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24.8.12

Santa (e desejada) ignorância.



Santa (e desejada) ignorância.

Logo cedo, recebo pelo Feicebuque a informação que a Nestlé tem estratégias advanced master de engajamento de pediatras.
  
Repasso o linque para umas pessoas que trabalham com saúde e nutrição e logo uma delas me cochicha virtualmente que alguns fabricantes de alimento tem estratégias tão escusas, que o aliciamento de pediatras é brincadeira de criança.

E me descreve com detalhes o duvidoso o trabalho de alguns "profissionais" da área que tem metas mercadológicas a atingir, como qualquer balconista. 

Depois vou ao mercadinho aqui do bairro para comprar tortilhas para comer com guacamole. Tortilhas nacionais (traduzindo: salgadinho com nome chique para não dar crédito ao fabricante). Pego o pacote e logo vejo a informação que é feito com milho transgênico. Procuro uma alternativa e TUDO na prateleira tem o famigerado T.

NÃO VOU DISCUTIR SE FAZ BEM OU MAL. Mas acho um abuso eu não ter opção. O meu direito de ter uma arma é garantido. Mas nada garante meu direito de querer comer milho comum.

Chego em casa e meu menino me mostra orgulhoso a camiseta da formatura da turma dele do 9º ano do fundamental. No peito, a ilustração clássica da evolução humana, do macaco ao...andarilho do uísque Johnnie Walker! Ele tem 14 anos.

Fecho os olhos e me lembro do artigo de um desses pensadores moderninhos que tentam imitar o Paulo Francis, chamando de "fascista" todas as formas de controle como, por exemplo, do uso indiscriminado de antibióticos. O fiel depositário da lucidez humana vai além desmerecendo os indignados e mandando as mães pararem de reclamar e cuidarem melhor das crias.

Nessa hora, me deu vontade dar um soltar um VÁ PRA PUTA QUE O PARIU do tamanho do bonde que temos que engolir diariamente.

Só não o fiz em respeito sincero às mães e às putas. 

E quem reclamar que acabei este texto com uma piada manjada, ganha uma camiseta da trajetória humana terminando em birita. 

Ilustração: Maitena, na capa do livro "Mulheres Alteradas 2", editora Rocco.


16.7.12

Com a palavra, as MÃES

Compartilho texto inédito que publiquei no blog Infância Livre de Consumismo.
Meu carinho sincero a todas as mães que, como eu, estão com a casa deliciosamente cheia de crianças.

Adoro as férias!

Com a palavra, as MÃES


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2.7.12

Carta aberta ao Conar



Carta aberta ao Conar
Duas recentes medidas do Conar referentes aos abusos da publicidade voltada para as crianças nos deixaram preocupados e ainda mais descrentes da atuação deste órgão com relação à proteção da infância.
A primeira foi a decisão de sustar a campanha da Telessena de Páscoa por anunciar para o público infanto-juvenil um produto que só pode ser vendido para maiores de 16 anos (de acordo com regulamentação da SUSEP). A segunda foi a advertência dada pelo Conar à Ambev, com relação ao ovo de páscoa de cerveja da Skol.
Ambas atitudes do Conar seriam dignas de aplausos - se tivessem sido tomadas quando as campanhas publicitárias estavam no ar, na Páscoa, em março. Mas o Conar só agiu em junho, quando as campanhas já não eram mais veiculadas.
Com isso, não houve nenhum impedimento para que a mensagem indevida da Telessena atingisse impunemente milhões de brasileirinhos e que a Ambev promovesse bebida alcoólica através de um produto de forte apelo às crianças. A advertência à Skol é ainda mais ineficaz, pois não impede que no próximo ano, produto semelhante seja oferecido.
O Movimento Infância Livre de Consumismo vê nessas decisões a comprovação de que o atual sistema de autorregulamentação praticado pelo mercado publicitário brasileiro é lento, omisso e ineficiente. Fato ainda mais grave quando se trata da defesa do público infantil.
Por isso, exigimos que a publicidade infantil sofra um controle externo como todas as atividades empresariais. Reiteramos nossa postura de que, sem leis e punição, jamais teremos uma publicidade infantil mais ética.
Nós, mães e pais, exigimos respeito à infância dos nossos filhos e solicitamos que estas duas atuações não constem dos autos do Conar como casos de sucesso. Contabilizar pareceres dados depois que as campanhas saíram do ar, como exemplo da firme atuação do Conar, é propaganda enganosa. E isso contraria o tal Código de Autorregulamentação que os publicitários insistem em tentar nos convencer que funciona.
(Este texto faz parte de uma blogagem coletiva proposta pelo Movimento Infância Livre de Consumismo juntamente com blogs parceiros. Este movimento é composto por pais e mães que desejam uma regulamentação séria e eficiente da publicidade voltada para crianças. Para saber mais acesse: http://www.infancialivredeconsumismo.com.br)

29.6.12

Pais serão ouvidos em Audiência Pública sobre a publicidade infantil.



Coletivo de pais será ouvido em Audiência Pública sobre regulamentação de publicidade infantil


Texto de Natalie Catuogno, publicado originalmente no blog Infância Livre de Consumismo.
Pais e mães que defendem a regulamentação da publicidade infantil serão ouvidos pela primeira vez na Câmara no dia 3 de julho. A audiência da qual o grupo participará é parte dos trabalhos da Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Casa, que está analisando o PL 9521/01, que trata justamente de regulamentar a propaganda dirigida às crianças.
O coletivo Infância Livre de Consumismo (ILC), que reúne os pais pró-regulamentação, requereu a participação quando ficou sabendo da audiência, e o pedido foi acolhido pelos membros da comissão. “Os pais nunca tinham sido ouvidos pelos parlamentares que discutem os rumos desse projeto. Entendemos a importância dessa ausculta, pois é uma forma democrática de a sociedade participar. É fundamental nossa participação nesse momento da elaboração do documento”, explica Mariana Machado de Sá, uma das fundadoras do grupo.
Também participarão desse debate o Instituto Alana, o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC), a Associação Nacional de Defesa da Cidadania e do Consumidor (ANADEC), a Associação Nacional dos Centros de Defesa da Criança e do Adolescente (ANCED), a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão além de organizações que representam o mercado.
Coletivo ILC
Em três meses de atividades, o ILC já tem mais de cinco mil seguidores no Facebook e ganhou apoios importantes, como o do Instituto Alana, da Aliança pela Infância e do Idec, e de teóricos da comunicação como Telma Vinha, Edgard Rebouças, Laurindo Leal Filho e Venício Lima.
O objetivo do grupo é socializar informações sobre os danos provocados pela publicidade dirigida às crianças e os impactos na vida das famílias, da sociedade e no meio ambiente. Além disso, gera aprendizado sobre as possibilidades de regulamentação da propaganda dirigida à infância.
Contato: Natalie Catuogno 11 8523-3091
Este é um momento importante. Histórico: é a primeira vez que os pais sentarão na mesa e serão ouvidos. É uma audiência PÚBLICA e todos serão bem vindos. Nossa representante está muito preparada para mostrar o lado dos pais: as dificuldades, os dilemas, as realidade.
Quem puder compareça: Câmara de Deputados, 03/07/12, 14h.

25.6.12

Meu filho vai viajar com a escola.




Meu filho vai viajar com a escola.

Seu filhote vai fazer um passeio com a escola? Então leia e descubra em qual perfil de mãe você se encaixa:

Mãe Tchauzinho - aquela que aguarda na escola até a partida do ônibus para poder se despedir, abanar a mão e mandar beijinho. É comum vê-la enxugando uma lágrima enquanto o ônibus some no horizonte.

Mãe Defensora Pública – sabe quanto custam os ingressos de todas as atrações, o preço do transporte e da alimentação. Faz as contas e descobre que a escola cobra bem mais do que precisava pelo passeio. Contata as demais mães e organiza um movimento para reduzir os preços.

Mãe Elma Chips– manda o lanche que a escola pediu e um extra pra garotada comer no busão. É a mais odiada pelo pessoal da limpeza.

Mãe Mochileira – apesar dos avisos da escola para não mandar mochila no dia do passeio, obriga a filha a levar uma mochilinha com pelo menos uma muda de roupa. Ignora os protestos da menina e ainda dá um jeito de enfiar toalha, capa de chuva, escova de dentes e um par de galochas na bagagem.

Mãe Pé da Letra – vê a filha da Mãe Mochileira embarcando com bagagem de mão e quer saber por que o filho dela não foi autorizado a também levar uma troca de roupa. A explicação da professora não convence e ela lamenta ser a certinha que sempre segue as regras.

Mãe Não Vi o Bilhete – manda o filho para a escola sem nada do que foi pedido para o passeio. Depois corre feito uma louca para trazer tudo antes que o ônibus parta. Seus filhos costumam roer unhas.

Mãe Manual – faz uma lista de recomendações, imprime e entrega para o filho, auxiliar, professora e motorista. Ao término do passeio descobre que usaram as folhas no campeonato de aviãozinho de papel.

Mãe Que Excursão? – as amigas precisam sempre lembra-la que vai ter passeio e que aquele é o último dia para entregar a autorização e pagar. É comum ela ser vista na secretaria implorando por uma prorrogação no prazo.

Mãe Inquisidora – descobre que um adulto foi estúpido com algumas crianças durante o passeio. Organiza um movimento para pedir a cabeça, os olhos e o fígado do rapaz no STM, o Supremo Tribunal Maternal.

Mãe Fome Zero – a escola pede um lanche reforçado e a mãe manda um suprimento da Organização Mundial da Saúde capaz de alimentar todo um acampamento de refugiados de guerra, por cerca de 10 dias.

Mãe Globonews – é ávida por notícias sobre o passeio. Entra no site, liga no acampamento, manda torpedos para os professores e, de hora em hora, consulta a secretaria da escola para saber se o busão já retornou e se está tudo bem.

Mãe Batedor – não autoriza os filhos a viajarem no ônibus com a escola. Prefere leva-los de carro, dirigindo atrás do busão. Os filhos fingem que estão dormindo quando os colegas que estão no ônibus acenam e fazem caretas para eles

Mãe que não dá nenhum trabalho para a escola no dia do passeio – é o pai.

Foto: Scott Sommerdorf, The Salt Lake Tribune

18.6.12

"Mãe, briguei na escola"



O menino chega em casa suado e agitado. Mal entra e dispara com os olhos marejados: "Mãe, briguei na escola." Não consegue continuar. As comportas se abrem e ele solta o choro contido. As lágrimas escorrem pelas bochechas sujas.

A mãe olha para ele com atenção. "O que aconteceu?"

"Eu estava em cima da árvore. Um menino me provocou, disse que eu subia na árvore feito um elefante e eu respondi que ele nem conseguia subir. Eu desci da árvore e ele me deu um chute no peito, com a chuteira de trava." 

O choro volta forte. Ele ergue a camiseta para mostrar as marcas que haviam ficado na pele.

"Nossa! E o que você fez? Chamou um adulto?", pergunta a mãe, condoída.

"Não. Dei um murro na cara dele e saiu sangue do nariz dele...mas, mãe, eu me defendi, foi ele que veio para cima de mim!"

A mãe não sabe o que dizer. É contra a violência, mas o menino bateu nele e pelas marcas, bateu forte. Como ensinar a não violência e ao mesmo tempo motivá-lo a se defender? 

"Filho, não tinha um adulto para você chamar?"

"Nem deu tempo, quando ele veio me bater eu tive que me defender, mãe. Dei o soco e ele parou. Ele ficou o mó assustado quando viu o sangue."

"Ele chorou?"

"Até eu chorei, mãe."

"Algum adulto apareceu para apartar a briga?"

"Apareceu, mas bem na hora me chamaram para eu ir embora. Acho que vão mandar a gente pra coordenação amanhã."

Confusa, a mãe resolve fazer o que todas as mães da humanidade faziam até serem inventados os livros de auto-ajuda - seguir os instintos. E nesses assuntos de chute na cria os instintos são praticamente inconfessáveis. Ela abraça o menino enquanto diz: "Filho, que chato! Vem cá vem, eu não queria que você brigasse, mas você fez bem em se defender. Não podia deixar ele continuar batendo em você."

O menino relaxa e diz valente: "Não, mesmo! Esse aí não vai mais vai me bater."

A mãe engata um discurso padrão sobre ele não aceitar mais provocações, evitar briga, não deixar as coisas chegarem a este ponto, mas no fundo, estava satisfeita, bem satisfeita, por ele ter se virado. Agora era aguardar. Um nariz sangrando por um murro era prenúncio de B.O. Se a escola não a chamasse, provavelmente os pais do menino a procurariam.
Mãe de agressor é a criatura mais crucificada da sociedade e dificilmente ela sairia dessa sem um puxão de orelha.

Enxuga os olhos do filho e toma uma decisão. Por hora, não procuraria a escola e nem ninguém. A briga foi deles e eles aparentemente resolveram. Não da melhor maneira, mas da maneira que conseguiram. Aguardaria os próximos capítulos.

No dia seguinte, ela espera ansiosa a volta do menino, que chega excitado: "Mãe, a Kátia (coordenadora) chamou nós dois. Eu falei pra ela: 'eu só fiz legítima defesa...ele me bateu, eu me defendi. Foi legítima defesa!' Ela viu que eu estava certo e deu advertência só para o outro menino. Ele nem abriu a boca. Ficou olhando para baixo, emburrado."

A mãe se perguntou onde o menino aprendeu a falar assim. Ficou imaginando a cara da coordenadora, diante do encontro de Dom Casmurro com o Law and Order.

Resolveu relaxar. Se alguém viesse conversar já saberia o que dizer. Foi legítima defesa. E mantenha seu filho longe do meu. 

Caso encerrado.

5.6.12

Educar não tira férias



Educar não tira férias

Na praia, a menina de 5 anos pede um queijinho. A mãe compra e antes de entregar dá uma mordidinha.

Ao ver o queijinho mordido, a menina reclama e começa a choradeira.

Mãe e tia tentam, mas nada resolve: o queijinho ainda não mordido da tia não serve, um novo queijinho nem pensar, deixa pra lá e come seu queijinho – surto! O projetinho de gente queria o queijinho dela, mas sem a mordida.

Os berros vão ficando mais insistentes e como não havia solução, a família opta por ignorar. A mãe termina de comer o queijinho, os irmãos correm para o mar e a tia abre uma revista.

Ao ver que a gritaria não estava funcionando, a menina resolve mudar de tática. Pega um palito de queijinho e espeta com força as costas da mãe.

A mãe fica muito brava, mas consegue se controlar e dá o recado: “Estou vendo que você está nervosa e muito brava com o que aconteceu com seu queijinho, mas você não pode machucar ninguém por isso. Se acontecer de novo, nós vamos embora da praia.”

A menina senta emburrada na areia. Mas assim que a mãe dá as costas, ela levanta e a espeta novamente.

A mãe dá a ordem: “Pegue seus brinquedos que estamos indo para casa.” A menina pergunta pelos irmãos. A mãe explica que eles vão continuar na praia com a tia. Quem vai embora é ela e a mamãe. Diante dessa tremenda injustiça, a menina decide berrar ainda mais alto e se joga na areia.

“Eu avisei você. Não podemos agredir as pessoas nem quando estamos com muita raiva. Você me agrediu. Vamos para a casa e fim”.

A casa ficava a pelo menos um quilômetro e elas estavam a pé. Arrastar uma menina pesadinha e ainda por cima jogando o corpo toda hora na areia não é fácil. Uma cena e tanto para os demais banhistas, mas a mãe ignora os olhares e só para quando chegam na casa.

Ao ouvir a história perguntei: “Que malinha! Jura que você saiu da praia? Mas o dia não estava lindo?”

A resposta foi uma das lições mais bonitas sobre a arte de criar uma criança: “Claro que preferia ter ficado na praia. Mas antes de ser uma mulher de férias, eu sou mãe. E ser pai ou mãe significa educar. Disso, não temos como tirar férias. E nada é mais importante. Eu podia ter dado uma palmada e resolvido de forma muito mais imediata. Mas como vou ensiná-la a não agredir, agredindo-a? Me sacrifiquei, mas ensinei algo valioso a minha filha. Não poderia perder esta oportunidade de educá-la nem por um dia maravilhoso de sol.”

Pensei nas inúmeras vezes que surtei, para conseguir ver meu programa ou ter um pouco de sossego e engoli seco. Nessa noite, fui dormir pensativa. 

Imagem do site: www.photographytips.com

30.5.12

Nossos filhos e a avaliação escolar - Parte I



Nossos filhos e a avaliação escolar - Parte I

Uma vez ouvi de um estudante sueco que lá eles não colam nas provas. Na época revirei os olhos. Para uma universitária como eu, nascida em um país da turma do fundão, não colar soava como o cúmulo da inocência escolar.

O estudante completou: "Colar é enganar a si mesmo. Por que você faria isso?"

Essa frase ecoou anos na minha cabeça até que eu pudesse entendê-la. Mais ainda, pudesse entender porque lá eles pensam assim e aqui achamos que estamos apenas enganando o professor ou o sistema.

Para compreendê-la, precisei primeiro de abrir mão de alguns conceitos errôneos e preconcebidos. Confesso que levei anos para entender que não se trata de um povo puro, correto, íntegro versus a malandragem gersoniana brasileira. Não somos coladores natos, nem enganadores desde a mais tenra idade. Somos muito mal avaliados! O sistema de avaliação da maioria das nossas escolas nos estimula a tentar burlá-lo.

Explico: avaliar é diagnosticar. Pensando assim, o estudante sueco tinha razão: quem enganaria um diagnóstico? Não colamos no exame de sangue ou na chapa do pulmão. Não sabotamos um exame de ultrassom. Sabemos que se tratam apenas de ferramentas para o médico descobrir se estamos em boa saúde ou nos prescrever o que fazer para recuperá-la. Servem também de indicadores para estabelecer o antes e o depois e visualizar a  evolução do tratamento.

A avaliação escolar deveria ser isso. Uma forma de professores e alunos identificarem pontos positivos e fracos no aprendizado de cada estudante e, assim, planejar intervenções e acompanhar o desenvolvimento.

Um aluno bem avaliado, fica sabendo com clareza seus méritos, conquistas e o que precisa melhorar. E da mesma forma que um doente não sai do consultório do médico só com a notícia que anda mal do estômago, ficando para si próprio a tarefa de curar-se, o aluno com uma dificuldade de aprendizagem tem que saber, ao final da avaliação, o que ele e a escola farão para recuperar os problemas identificados e manter as conquistas positivas.

Assim, a avaliação deixa de ser uma mera classificação, uma ferramenta para passar ou não de ano, ou mesmo um instrumento de controle comportamental e se torna algo fundamental na vida escolar. Algo tranquilo, que não precisa ser temido, nem é motivo de sabotagem. Porque não serve para "ferrar", apontar quem são os "Yes!", os "Ufa!" e os "Top, Top, Top" da sala. O saber do professor é valioso e restringir sua avaliação a isso, é muito, muito pouco!

Outra coisa muito interessante - neste novo paradigma de avaliação, erros não são vistos como fracasso, burrice, desatenção ou preguiça. Erros são indicadores valiosos de pontos que precisam ser melhor trabalhados, não só pelo aluno, mas também pelo professor. É o colesterol alto que exige uma dieta mais saudável por parte do paciente e um acompanhamento mais próximo por parte do médico, inclusive, com a revisão das práticas que não estão funcionando. Ponto. Sem dramas, sem terrorismo, visando a promoção da saúde e não a derrocada do paciente. 

Aí entra o segundo ponto - quais instrumentos são usados para avaliar nossos filhos? Quais os ultrassons, os exames de sangue, as ergométricas do ensino? O mais comum no Brasil é a prova.
Mas, será que somente através da prova, o professor consegue ter um diagnóstico preciso do aprendizado?

O que você acha? Se preferir, comente e escreveremos juntos a continuação dessa conversa.

11.5.12

Onde, senão na escola?



Onde, senão na escola? 

O "paraíba vagabundo" vira um brasileiro como eu

A "bicha que merece uns tapas" se transforma apenas num cara diferente de mim

O "neguinho safado" vira ser humano e meu mano

Perco o medo de quem é diferente e com isso viramos todos iguais



Onde, senão na escola? 

Deixo de temer quem não teme o meu Deus

A palavra "nosso" ganha um significado muito além do que ensina a gramática

Descubro que nem toda mulher apanha como a minha mãe

Aprendo outras formas de resolver problemas sem ser "enfiando a mão na fuça daquele filho da puta"



Onde, senão na escola?

Entendo que escutar é tão importante como falar

Descubro que tenho uma voz e aprendo a usá-la

Deixo de ser o filho especial e passo a ser só mais um aluno

Observo que o comportamento que tenho em casa nem sempre funciona com meus colegas e professores e com isso mudo.



Se não é na escola, onde é? 

Alguém sabe responder?







9.5.12

Meu filho come com as mãos.


Meu filho come com as mãos.


Meu filho adora botar os dedinhos na comida. Catar os grãozinhos de arroz, os pedacinhos de bife, as florzinhas de couve-flor, a poeirinha da farofa.



Já tentei fazê-lo usar os talheres, mas vi que ele não sentia tanto prazer e nem comia tão bem como quando se alimentava com as mãos.



Decidi então jogar fora o manual da mãe aplicada e deixei-o seguir comendo no módulo um, dois, três indiozinhos.



Mais tarde descobri que uma das maiores especialistas em desvio alimentar infantil, a Dra. Gill Harris, recomenda deixar que os pequenos comam com as mãos desde o primeiro momento em que se introduz os alimentos, para que sintam a textura, a temperatura, se dessensibilizem e percam o medo dos alimentos.



Os talheres estão sempre ali pertinho sobre a mesa. Mas é com os dedinhos que ele vai esvaziando o prato e enchendo a barriguinha.



O curioso é que aos poucos, ele foi entendendo por si próprio que há lugares em que esse ato não é apropriado. Em restaurantes, por exemplo, ele usa os talheres. E outro dia voltou da casa do amigo contando:



"Na casa do meu amigo tem uma regra que não pode comer com a mão".



"Nossa, e como você fez?"



"Usei o garfo". 
E fez silêncio para logo em seguida despejar: 



"Mas, mãe, que tortura! Eles só serviram comida que é uma delícia de comer com a mão!"



Caímos na risada. E fomos para a cozinha fazer um lanchinho. Que foi devidamente devorado com os dedos da mão, senhor capitão!



E que as vovós não nos vejam!






*imagem: http://www.calvin-and-hobbes.org/

12.4.12

Levante a mão quem não é consumista.



Levante a mão quem não é consumista.

Hoje é dia de blogagem coletiva materna sobre a Infância Livre de Consumismo.

Escolhi não falar sobre a influência da publicidade na formação dos pequenos. Na página do ILC no Feicebuque e nos textos já publicados há informações preciosas sobre esse tema.
Para mim, o que mais preocupa nessa louca relação consumo x criança x família é que nós, pais de hoje, somos consumistas.

Somos talvez a primeira geração de pais formados desde muito pequenos para consumir. Me lembro que a geração que veio antes da minha, tinha uma relação completamente diferente com as coisas. O papel de presente era guardado para embrulhar novos pacotes. Nenhum pote de vidro ia para o lixo. Os livros eram encapados com carinho para serem usados novamente no ano seguinte. Comida era caseira. Fomos aprendendo aos poucos a usar caldo Knorr, o Arisco e outros aditivos industriais. Refrigerante era só no domingo e olhe lá, mas para comprar tinha que levar o casco. Água vinha do filtro de barro.

Eu não estou de saudosismo, mesmo porque resgatei na minha vida quase todas essas práticas. Estou querendo mostrar que algo aconteceu de uma geração para outra para que as coisas mudassem. Somos a geração do consumo, do descarte, do desperdício. Nossos filhos consomem mais açúcar numa festinha de aniversário do que todo um império da antiguidade podia consumir em meses. Tem mais sal num saquinho de salgadinho do que provavelmente no salário de um soldado romano. Nossos banheiros  guardam mais produtos de beleza higiene pessoal do que um harém das mil e uma noites. Muitos com a validade vencida sem terem sido usados.

Não somos culpados. Ninguém nunca pensou nas consequências que esse comportamento traria para o planeta, para nós mesmos e para a formação das futuras gerações. Ao contrário. Comprar sempre foi motivo de orgulho, status, poder. Um prazer estimulado incessantemente nas telas das TVs, nas fotos inebriantes das revistas, nos prédios opulentos dos centros de compra, nos estacionamentos das empresas. Comprar, para muitos de nós, é razão de viver.

Reverter essa situação levará muito tempo. Mas é imperativo. Não voltaremos nunca ao que faziam nossos antepassados. Mas temos que formar uma nova geração de seres humanos conscientes de seu papel enquanto consumidores no bem estar de si próprios e na preservação do planeta. Temos que desassociar consumo de modo de vida. De fonte de felicidade. De oba oba inconsequente.

Achar que os pais sozinhos dão conta de mudar esse processo é não ter noção da dimensão do problema e de como ele está enfronhado na nossa vida. É se aproveitar de quem também é vítima.

Nós, pais, precisamos de menos dedos apontados e de mais parcerias. 

Família, escola, governo, meios de comunicação, fabricantes, igreja, celebridades , comércio, publicitários etc. Todos precisam atuar para que novos modelos sejam apresentados à sociedade e padrões de consumo distintos do nosso se formem. 

Se cada um assumir sua real responsabilidade no processo, já é um excelente começo.


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