18.10.12

Escolas que pensam.





Escolas que pensam. 

Me emociono todas as vezes que vejo educadores pensando fora do quadradinho do livro escolar e se abrindo para a vida.

Essa semana, fui tocada pela reflexão dos educadores da EMEI Guia Lopes.

EMEIS são escolas de educação infantil. Se pensarmos na hierarquia vigente, os profissionais que nela atuam são o chão da pirâmide, os menos reconhecidos e valorizados. Muitas vezes, até por si próprios. Infelizmente, permanece fortemente enraizada em nosso País a noção de que a criança pequena precisa de "tia" e não de educador.

Tias são queridas e carinhosas. Mas seu lugar é em casa e não numa escola. Hoje sabe-se que existem habilidades a serem desenvolvidas na primeira infância, fundamentais para a vida adulta, que exigem conhecimento, formação e autonomia. Requer Professores. Com P maiúsculo, orgulhosos de sua profissão, cientes da sua importância e da imensa responsabilidade que é formar um pequeno ser humano.

Por esse motivo, me impactou a carta que a EMEI Guia Lopes publicou na internet. Trata-se de um manifesto dos educadores daquela instituição contra a Novela Carrossel, do SBT.

Aos invés de atuarem como tias e acharem lindinhas as imitações que as crianças fazem dos personagens ou, ainda pior, cruzarem o braço e se omitirem com as eternas desculpas "é muito ruim, mas os pais deixam…as crianças adoram…fica chato dizer não", os profissionais daquela escola resolveram conhecer melhor o assunto, refletir sobre ele, formar uma opinião e agir. Agir como educadores comprometidos com a profissão que escolheram, fazendo valer sua autoridade no assunto e sua autonomia como conhecedores do desenvolvimento humano.

Torço para que a atitude se espalhe e que mais e mais escolas ganhem coragem para se manifestar sempre que identificarem na sociedade algo que prejudique ou favoreça a formação de seus alunos para a vida coletiva. Com firmeza, serenidade, boa argumentação e sem medo ou preguiça de nadar contra a maré.

Nenhuma escola conseguirá ensinar seus alunos a pensar e agir com autonomia se, antes de tudo, seus professores não fizerem o mesmo.

Segue o manifesto que inspirou esse texto. Ele foi originalmente publicado neste linque, com o título: Um Carrossel de Preconceito e Discriminação.


CARTA ABERTA EM REPÚDIO À NOVELA CARROSSEL


A Escola Municipal de Educação Infantil “ Guia Lopes” comprometida com ações que valorizem as diferenças e tonifiquem a autoestima de todas as crianças com idade de 3 a 5 anos através do combate a qualquer ação que dissemine o racismo, o preconceito e a discriminação na infância torna público o repúdio à novela Carrossel, veiculada diariamente pelo SBT ( Sistema Brasileiro de Televisão). Trata-se de uma novela dedicada ao público infantil que se passa em uma pretensa escola , com supostas profissionais da educação em que alunos personificam os mais variados estereótipos e vivenciam situações inaceitáveis nas quais a criança negra é frequentemente humilhada, a beleza e a superioridade da criança branca são enaltecidas, as crianças com sobrepeso são ridicularizadas e o espírito competitivo é levado ao extremo. A cada episódio, uma das crianças é exposta às ações do grupo que planeja situações vexatórias seguindo um enredo que reforça tudo o que nós combatemos e acreditamos deva ser combatido. Cirilo, um menino negro, pobre, e de boa índole é apaixonado por Maria Joaquina, menina branca, rica e cheia de soberba. Para ilustrarmos a perversidade existente nas relações entre as crianças da pretensa “Escola Mundial”, citamos o episódio em que um grupo de garotos resolve convencer Cirilo que, para conquistar Maria Joaquina, seria necessário comprar um tônico para ficar bonito. Cirilo, sendo uma criança com baixa autoestima, pega as moedas de seu cofrinho e compra a milagrosa loção feita por seus “colegas”.
São evidentes os efeitos nefastos da insensibilidade, do desconhecimento do universo infantil e do desrespeito à dignidade a que todos temos direito. Várias de nossas crianças têm verbalizado o seu descontentamento em serem negras e o desejo de mudar sua cor de pele, enquanto outras formam grupos impenetráveis de “Marias Joaquinas”, negando-se a usar o uniforme e estabelecendo competições de roupas e acessórios. Atentas a estas manifestações, estamos trabalhando para mobilizar a atenção da comunidade de pais e docentes para que sejamos, todos, criteriosos e críticos em relação à programação infantil a que ficam expostas nossas crianças.


Gestão Escolar e Equipe Docente da EMEI GUIA LOPES.


Pode interessar também ler o texto da mãe Debora Regina Magalhães Diniz "Porque não deixo meus filhos assistirem Carrossel", publicado no blog do Infância Livre de Consumismo.

Imagem compartilhada daqui: http://veerle.duoh.com/belgiangraphicdesign/detail/thoughts



7 comentários:

Lia Vasconcelos disse...

Tais, conheci seu blog há pouco tempo e tenho gostado muito. Minhas filhas são pequenas ainda (1,8 e 3,8) e não assistem a TV (espero que por muito tempo ainda), portanto, não tenho que lidar com o fenômeno Carrossel, mas achei sua reflexão muito pertinente e gostei muito da carta dos professores da EMEI Guia Lopes. Em tempo, na escola das minhas filhas elas têm professoras, e não tias, característica da qual gosto muito. Bjs

Lia disse...

Nesta situação em especial, acho que a posição da escola é mais poderosa que a dos pais. Porque eu até posso proibir meus filhos de assistirem à novela, mas não conseguirei evitar que eles ouçam os comentários dos colegas e se sintam excluídos do círculo. Já quando a posição contra a novela vem da instituição escolar, imagino que esse ponto de vista será trabalhado em sala de aula, e todos os alunos - tendo pais conscientes ou não - terão uma oportunidade de refletir sobre o lixo a que estão sendo expostos. Assim, nossos filhos ficam menos solitários. Podemos tentar protegê-los do lixo, mas só a escola pode protegê-los da solidão.

Gaby disse...

Fiz um post no meu blog sobre esse lance de TIA.

Sou contra. Sou Professora!

Detesto essa história de tia!

http://english4fun-br.blogspot.com.br/2012/08/a-tia-da-escolhinha.html

Tati disse...

Quando criança, assisti à versão mexicana da novela Carrossel. Não me tornei preconceituosa por isso. Pelo contrário! Eu repudiava a atitude da Maria Joaquina em relação ao Cirilo. Apesar de muito nova, talvez pela educação que recebi em casa, eu entendia que a cor da pele não diz absolutamente nada sobre o caráter ou os méritos de uma pessoa. Essa carta aberta me cheira a censura, assim como a tentativa de barrar a distribuição dos livros do Monteiro Lobato às bibliotecas escolares. Se cumprirmos nosso papel como pais, incutindo valores nos nossos filhos e ensinando-lhes a ter senso crítico, não precisaremos atentar contra a liberdade de expressão. Dessa forma estaremos de fato preparando nossos filhos para o mundo. Ou queremos realmente que eles vivam numa bolha? Isso seria viável?

Tais Vinha disse...

Tati, eu respeito sua opinião mas discordo dela. Críticar não é censurar. E filtrar não é criar filhos numa bolha.

Cida Santos disse...

Ai meu Deus, quanta discussão!! Um dia uma amiga me disse que o maior problema dos pais de hoje é que eles tem muita informação e não sabem como lidar com ela. Pensei um pouco e concordei. Chamar a professora de tia ou não. Há 36 anos, quando fui para o prezinho, lá no interior, tenho certeza de que a última preocupação de minha mãe é se chamar a professora de tia ou não estaria certo ou errado. Tinha muito trabalho a fazer. Quando fui para a terceira série nos explicaram que agora estávamos crescidos, já éramos grandes e responsáveis e não havia mais necessidade de chamar a professora de tia. Nós nos sentimos muito adultos mesmo e mudamos para professora rapidamente, afinal, tia era para os pequenininhos. Simples assim. Na minha sala tinha sim, o menino preto pobre, a menina branca rica, o gordinho, o levado, o calado, a tímida, exatamente como na novela. E com um agravante: a "tia" não escondia sua preferência em afagar os "ricos" e desprezar a nós, os pobres. Pelo menos os alunos de Carrossel podem contar com a Professora Helena, que, pelo visto, trata a todos igualmente. Sim, eu assisto a novela. E enquanto assistimos vou mostrando para os meus filhos os comportamentos a serem evitados, a falta de educação, de respeito, etc. Meus filhos chamam a professoras de tia sim e eu me sinto muito irmã delas.

Anônimo disse...

"Podemos tentar protegê-los do lixo, mas só a escola pode protegê-los da solidão."
Vc parte do pressuposto de que a solidão é algo ruim e de que a escola pode alguma coisa. Pra mim, esses dois pontos estão errados.
Quem educa é a família, escola serve para adestramento social e corporal (e, de quebra, passar um ou outro conhecimento técnico/científico). Valores e individualidade devem ser trabalhados em casa!