16.9.17

O cornuto




O cornuto

Quando saio bicicleta, volta e meia passo numa esquina onde há sempre um velhinho sentado em uma cadeira de rodas, tomando sol e olhando o movimento.

Numa dessas vezes ele acenou para eu me aproximar.

Sinal verde. Velhinho fofo, italianíssimo, carismático e eu desesperada por uma socialização. Bora parlar.

Mal me aproximo e ele começa a falar sem parar numa voz rouca e baixa. Explico que ele precisa falar mais devagar pois não falo bem o italiano. Ele abre um sorrisão, que eu diria até safado, se tivesse todos os dentes. Diz que logo viu que eu era gringa e que sou belíssima!

Elogio na minha idade não importa de quem, quando e onde vem. Aceito, obrigada! Nos apresentamos com um aperto de mão. Ele me diz que se chama Vitório. 

Gentileza daqui, gentileza de lá, eu já ia dando arrivederci, quando ele diz que na Itália amigos se abraçam.

Sinal amarelo. O abraço não é tão comum por essas bandas onde estou, sendo que até as mulheres se apertam as mãos. Também não é incomum, mas nada no nivel de escancaro do brasileiro que já chega com o fungo a nuca.

De todo jeito, meu lado esquerdista vai pra Cuba hippie do novo milênio mais amor por favor falou mais alto e toca eu compartilhar um abraço com o frágil senhorzinho.

Pois no destrambelho de abraçar com uma mão e segurar a bicicleta com a outra, o danado me puxa, tenta me dar um beijo e colocar a mão nos meus peitos.

Sinal vermelho com alarme antimíssil. Empurrei-o, dei um salto pra trás e gritei indignada: “Vitório!”

Ele me olha com a cara de choro mais comovente do mundo e diz: “Me desculpe, sou muito sozinho. Preciso tanto de companhia”.

“Cadê sua esposa?!”, pergunto, ainda bem brava com ele.

Dando de ombros e com cara de desprezo, ele responde: “Me largou. Saiu pelo mundo com um homem mais novo…sou um cornuto!”

Não consegui segurar a risada. Ele ri também. 

Feliz pela Sra. Vitória, rapidamente me afasto, balançando a cabeça rendida. Quando criaram os italianos os Deuses deveriam estar de muito bom humor.



13.9.17

Contém zoofilia, adultério e degeneração familiar



Contém zoofilia, adultério e degeneração familiar 

Era uma vez uma princesa, chamada Leda. Ela era tão linda, mas tão linda, que logo apareceu um rei querendo esposá-la. Leda aceitou e eles foram viver no Reino de Esparta. Todos os dias, depois de tomar seu café da manhã de rainha, Leda deitava-se na grama para um delicioso banho de sol. Naquele tempo não tinha biquini, então Leda ia nua mesmo. 

Esse arreganhamento todo chamou a atenção de um cara do andar de cima, chamado Zeus. Zeus pirou no corpão da moça e fez um plano para possuí-la. Transformou-se num cisne e assim conseguiu entrar no jardim da rainha. Ao ver aquela ave com aquele pescoção, Leda não resistiu. Voou pena pra todo lado. 

Naquela noite, Leda ainda transou com o rei Tíndaro. O resultado desse dia muito louco foi uma gravidez que deu a luz a dois ovos. De um dos ovos nasceram as gêmeas Helena e Clitemnestra e do outro, Castor e Pólux. Naquele tempo também não tinha DNA, então não se sabe até hoje com certeza quem era flho de Zeus e quem era filho de Tíndaro. 

A história da mulher que trepou felizona com uma ave (ou não e, nesse caso, teríamos que colocar mais um aviso no título - estupro), chama-se “Leda e o Cisne” e foi contada há milhares de anos por vários escritores da mitologia grega, como Virgílio e Homero. É tão sedutora, que grandes mestres da pintura, escultura e fotografia renderam-se aos seus encantos, como Michelangelo, Leonardo da Vinci, Rubens, Tintoretto, Cezanne, Klimt, Salvador Dali, Man Ray e muitos outros. Leda e o Cisne também virou peça de teatro, balé e um famoso poema de Yeats, prêmio Nobel de literatura. 

Uma história que transforma o grotesco em beleza e que teria se perdido se, naquele tempo, os mecenas da arte tivessem dado ouvidos ao arrulho dos puritanos medíocres. Não deram, graças a Deus ou a Zeus.

Artist:

Adolf Ulrik Wertmuller

 (Swedish, 1751–1811)