7.12.11

Professor bom é sorte?



Atravessamos momentos doloridos neste segundo semestre.

Entre eles, uma perda de um ente muito, muito amado.

Por conta da doença que o levou, precisei me afastar de casa por alguns meses, deixando para trás filhos e marido.

A equipe era unida. Ficaram todos bem. Bom saber que mãe faz menos falta do que supomos.

Mas na escola os efeitos da confusão familiar surgiram. Cada filho extravasando da sua maneira a dor.

A professora de um deles me encontrou num final de semana em que pude vir para casa:

"Eu soube o que está havendo na vida de vocês. Sinto muito. Me avise se puder ajudar com algo."

"Meu filho te contou?"

"Ele não disse nada. Mas percebi que havia algo diferente. Pequenos sinais. A mochila estava vindo incompleta, ele deixou de fazer algumas tarefas, ficou meio avoado na sala. Nada muito sério, não se preocupe. Mas achei melhor conversar com ele para ver se algo estava acontecendo e ele me contou. Foi assim que fiquei sabendo sobre a doença do avô e seu afastamento."

"Não sabia que ele tinha mudado na escola. Quando ligo para casa eles me dizem que está tudo bem."

"Mas ele está bem. Apenas lidando com a situação. Fique tranquila que entendi o que houve e está tudo certo. Estou dando uma atenção maior a ele neste período e parece que está funcionando. Pode viajar sossegada."

A sensibilidade da professora me tocou profundamente e me deu o apoio que eu precisava sentir naquele momento tão difícil de nossas vidas. Até hoje, meus olhos se enchem de lágrimas quando me lembro dessa conversa.

Neste ano, tratei aqui no blog de vários temas envolvendo a parceria família escola. Faço questão de fechar o ano com este episódio. Ele me mostrou que é possível olhar para uma criança, em meio a tantas outras, e não ver nele um relaxado, um desatento, uma mãe relapsa, um encaminhamento para o conselho tutelar.

É possível identificar nas atitudes negativas de um indivíduo ainda em formação, um pedido de ajuda. E essa ajuda não precisa ser sobre-humana. Ela vem com o olhar, a compreensão, a empatia, o estímulo, a transmissão da confiança que "está tudo bem" num momento em que tudo em volta daquele aluno não vai nada bem.

Obrigada, professora, por ter segurado na mão do meu filho durante esta difícil travessia. 

Estaremos todos de volta, firmes, fortes e refeitos em 2012!


P.S: Um outro filho viveu o momento com irritabilidade e falta de paciência com os colegas, chegando a agredi-los. A professora dele teve exatamente a mesma atitude dessa que relato. Investigou o que estava acontecendo, entendeu a situação e ficou mais atenta àquela criança, que logo superou o momento difícil. Não chegou nem a conversar comigo. Teve a sensibilidade de aguardar o meu retorno, marcar uma reunião e me contar como ele agiu e o que ela e a escola fizeram para ajudá-lo. 

Tenho sorte com os mestres? Não creio. Eles estudam em uma escola que investe na formação continuada de educadores. A equipe participa de grupos de estudo, no qual refletem e avaliam o trabalho em sala. É uma escola com coordenadores presentes. Os professores se sentem apoiados e, ao mesmo tempo, responsabilizados em desenvolver um bom trabalho. Esse trabalho contínuo valoriza o trabalho do professor e lhes dá instrumentos para lidar com diferentes situações inerentes do ofício. 

P.S.2: Se estiver escolhendo escola, pergunte como é feito o trabalho de formação de professor. Este tem que ser sistematizado. Profissão de professor não é intuitiva. Exige técnica e aprimoramento constante. Fuja das escolas que não tem um trabalho sério de estudo e acompanhamento do trabalho em sala de aula. É um crime uma criança depender da sorte para ter uma boa educação.





10.11.11

Para que serve um pai




Para que serve um pai

Corta, aplaina, enverga
enfia pregos, pinta

Joga na água
Diz para confiar que vai dar tudo certo

Mostra o rumo do infinito
E o caminho de volta para o porto

"E se tiver tempestade?"
"Enfrente."

"Piratas?"
"Desvie."

"Se meu casco partir?"
"A gente remenda."

"Sereias?"
"São magníficas, mas coloque cera nos ouvidos."

"Se eu afundar?"
"Eu te resgato."

"E quando anoitecer?"
"Você tem as estrelas."

"Eu ainda não consigo lê-las."
"Você nunca ficará na escuridão."

As amarras são soltas
O filho parte

E o que era menino
vira navegante

E o que era pai
vira farol



21.10.11

"Mãe, você é uma vadia!"




"Mãe, você é uma vadia!"

O pequeno entra na cozinha zangado: “Mãe! Você desligou meu Wii. Eu vou ter que fazer toda aquela fase de novo...SUA VADIA!”

A mãe recebe as palavras como uma bofetada. Pisca. E na velocidade daquela piscada, tenta controlar toda a mágoa que a impele a quebrar os dentes de leite que ainda restam na boca daquele ser raivoso de um metro e vinte.  

Respira fundo e quando reabre os olhos diz com toda a calma que lhe resta:

“Você sabe o que esta palavra significa?”

O menino olha para o chão envergonhado e responde baixinho: “Não.”

“É uma palavra muito ofensiva e estou me sentindo mal por você ter me chamado assim. Você não devia tratar as pessoas deste jeito.”

“Desculpa.”

“Vadia é uma mulher que transa com muitos homens. Eu sou uma vadia?”

Mais encabulado ainda, o menino murmura: “Não!”

“Pois é...então não chame mais as pessoas de nomes ofensivos. Ainda mais se você não sabe o que significam. Você pode estar dizendo coisas que as deixam muito, muito magoadas e com raiva. Você ficou bravo por causa do videogame mas podia ter conversado comigo de outro jeito.“

“Eu sei...desculpa”

A conversa se desenvolve mais um pouco e logo cada um parte para um lado.

Mais tarde, ela reflete sobre o ocorrido. Como toda mãe que se preza, o pensamento se enche de culpa e de dúvidas.

'Será que agi certo? Explicar que vadia é mulher que transa muito?! Onde eu estava com a cabeça...vadia também pode ser alguém que não gosta de trabalhar...ah, pera aí também não precisa ser tão inocente...

Que mundo é esse que um pequeno não sabe o que é vadia, mas entende perfeitamente o que é transar com um monte de homens?

Além do mais, e daí se uma mulher transa com um monte de homens...nem por isso pode ser chamada de vadia. Aliás, sorte dela! Não...não posso dizer isso para um garoto de 8 anos. 
Ah, mas espera ele fazer 16. Talvez 14. Ou 25...vai saber.

Ô minha mãezinha...no tempo em que piranha era peixe e tijolada na boca era corretivo, era bem mais fácil. Mundinho complicado esse que fui ser mãe!'

Um barulhinho repetitivo a tira do devaneio. 

"Vou ter que falar quantas vezes que é pra sair do videogame?! Quer que eu mesma desligue?"


14.9.11

Como nossos pais.


Como nossos pais.

"Se apanhar na rua, apanha em casa."

"Bateu, levou."

"Se xingar a mãe, leva na cara."

"Não tem mais jeito, to ensinando meu filho a bater."

"Não se meta em confusão."

"Não seja dedo-duro."

"Empresta pra ele, seu egoísta."

"Diga-me com quem andas que te direi quem és."

"Desaforo não se leva pra casa."

"Antes um covarde vivo que um corajoso morto."

"Bata no amigo que te ofende. Mas não reaja ao bandido."

"Não se meta."

"Deixa pra lá."

"Fica quieto."

"Obedeça!"


Robert Selman, da Universidade de Harvard, foi o palestrante que abriu o II Congresso de Pesquisas em Psicologia e Educação Moral, que aconteceu na Unicamp, em julho.

Sua palestra abordou os conflitos nas escolas (tema do congresso), sob o ponto de vista de quem está envolvido e também da perspectiva das testemunhas (platéia). Para ele, o comportamento nestas situações é aprendido. Na família, na comunidade, na escola, na mídia que retrata e amplifica tudo isso. Cita, por exemplo, que há culturas muito submissas, como a chinesa, onde desde muito pequenas as crianças são ensinadas a se calarem diante daquilo que consideram errado. E a não se envolverem.

A cultura latina também é submissa - palavra usada para descrever a ausência de reação. Por exemplo, um jovem que se cala diante de um mal feito do grupo, mesmo sabendo que aquilo é errado, está tendo um comportamento submisso. Mesmo que ele venha a se arrepender mais tarde, naquele momento, ser aceito pelo grupo, é mais importante que ser aceito por si próprio.

A submissão é ruim, pois ela permite que as coisas extrapolem os limites. Permite, não é a causa.

Na escola, permite o bullying, a exclusão, as agressões, os abusos (por parte de alunos e educadores), as brincadeiras maldosas, a falta de respeito. No emprego permite todo tipo de abuso e exploração. No casamento é um desastre completo. No meio ambiente é a destruição. Na política é o Brasil.

Nos estudos que ele conduz nos EUA, Selman aponta que escolas onde os alunos tem mais espaço para opinar, onde os educadores estabelecem com os alunos uma relação de confiança e respeito mútuo e onde há menos autoritarismo, a submissão é menor. Essas escolas tendem a ter relações menos conflituosas. Não que os conflitos parem de acontecer, o que muda é a forma com que se lida com eles. E a forma que se age quando se testemunha a injustiça.

Selman conclui com a cereja do bolo. Se o comportamento nos conflitos é aprendido, dificilmente as coisas mudarão em uma sociedade se as crianças e jovens não forem expostos a uma outra forma de resolução de conflito. É óbvio que não se pode esperar isso das famílias, pois a família só perpetua o aprendizado que é transmitido pelas gerações. O local ideal para que eles conheçam que há outra maneira de agir é na escola. Onde educadores treinados podem intervir de forma não passional, para mostrar a eles que existem soluções não violentas para o conflito. É também o local para se trabalhar a submissão ou a passividade das testemunhas.

A idéia é que, uma vez expostos a uma nova forma de agir, eles possam, quando adultos, multiplicar em suas famílias e comunidades uma nova atitude diante dos conflitos.

Portanto, precisamos mudar o velho discurso que os pais precisam educar os filhos. Isso eles já o fazem. Da forma como aprenderam. Se essa forma não é mais eficiente para o mundo que vivemos, a escola pode ser nossa parceira na transformação das coisas.

Selman deu mais um motivo pelo qual precisamos nos unir.





13.9.11

Mamãe Muçarela





"Prezados,

Todos os dias recebo emails de vocês contando como foi o dia do meu filho. Deixa eu esclarecer: pago R$1500,00 por mês para uma criança de 5 anos estudar aí. A R$1500,00 por mês, eu entendo que meu filho está bem, sendo estimulado, aprendendo, sociabilizando, exercitando e tudo o mais que se espera de uma escola que cobra R$1500,00. Portanto, me poupem. Não me mandem mais emails. A única coisa que quero saber é se, um dia, ele vai sair daí sabendo ler, escrever, fazer conta, de bumbum limpo e feliz.

...

Ontem recebi um email com a receita da aula de culinária desta semana. Qual não foi minha surpresa quando li "muçarela" nos ingredientes. Isso mesmo! Mussarela com "ç". Fala sério! Como pode uma escola que cobra R$1500,00, para alunos com 5 anos, cometer um erro desses?! Vocês deveriam se envergonhar. A este preço, o mínimo que se espera é que os professores ganhem o suficiente para, de vez em quando, comer uma pizza e aprender como se escreve mussarela.

...

Semana passada escrevi um email reclamando sobre a grafia da palavra muçarela. Pois bem, para minha total supresa, domingo a noite, o Fantástico mostrou como se escreve muçarela! Assumo que eu estava errada. Muçarela, para embaraço meu e de todos os pizzaiolos de São Paulo, é com Ç. Portanto, peço desculpas pela bronca que dei no meu email anterior. Contudo, acredito que a R$1500,00 por mês, meu filho também deveria estar aprendendo a grafia correta no italiano, com ZZ.

...

Estou em dúvida sobre algumas das coisas que tem acontecido nesta escola. Pelos emails que vocês me mandam - praticamente todos os dias - estou pagando R$1500,00 por mês para meu filho de 5 anos aprender a separar o lixo e fechar a torneira quando escova o dente? Me desculpem, mas isso ele aprende comigo e com meu marido em casa, de graça. Acho que tá tendo muita frescura nesta escola. Cadê o português, a matemática, a ciências e a geografia?

...

Comunico que no ano que vem, meu filho não permanecerá nesta escola. Vai para uma escola de padre. Dessas bem grandes, com tantos alunos, que os professores não conseguem saber direito o que cada um deles faz. Menos ainda tem tempo de ficar mandando email para os pais contando sobre a formiguinha que eles olharam com uma lupa ou sobre os progressos da aula de educação física. Escolhemos uma escola com o sistema de ensino "OPA". Vocês deveriam pesquisá-lo, é muito eficiente: professoras com calça de tergal e cara séria, entram na sala de aula e dizem: "Opa!" e a molecada para tudo na hora e arregala os olhos. O melhor é que a mensalidade é R$800,00. Mais do que isso, eu me recuso a pagar para um garotinho que ainda fará 6 anos. Agradeço o ano que passamos juntos e me despeço acreditando que, agora, vocês vão responder a um dos meus emails.

Abraço,

Célia, mãe do Lorenzo.

15.8.11

Novos pais.



Um belo dia, ela dispara: "Quer saber de uma coisa, para mim deu. Não faço mais nada para evitar filhos."

O marido achou prudente não dar trela. Nem precisava. Ela estava a mil:

"Já cumpri com minha responsabilidade no setor reprodutivo desta família. Já usei diafragma, pílula, diu de cobre, diu com hormônio, camisinha, tabelinha...já engravidei, pari, engordei, amamentei, fiz parto normal, fiz cesárea, fiz simpatia...chega. Daqui para frente é com você."

O marido deve ter ponderado muito antes de responder: "Ãhn?"

"É...agora é com você. Se quiser usar camisinha, gozar fora, vasectomizar...é com você. Eu não vou mais me preocupar com isso. E se eu engravidar de novo, vamos ter mais um filho."

"Ô loco."

"Então se vira. O setor reprodutivo dessa casa agora está sob nova direção."

O marido é categórico: "Vasectomia nem pensar. Mas fica tranquila que vou fazer tudo direitinho".

E fez. Alguns meses depois ela estava grávida. Mal tiveram tempo de absorver o choque e um sangramento encerrou a questão.

Dessa vez, como todo homem diante de sangue, ele abalou. Jurou que ia operar o dito cujo. Foi ao urologista e voltou com uma guia não preenchida. O plano de saúde exigia que ele esperasse 6 meses, antes de autorizar a cirurgia. A esposa achou estranho, mas como a gerência não era mais dela, deixou que ele resolvesse. O tempo passou, a memória da hemorragia foi se apagando e as coisas ficaram na mesma, tal como ele e a operadora de seguro saúde queriam. 

Semana passada, sentados no café da manhã, ela solta um muxoxo: "Tô me sentindo meio estranha, com umas pontadas, o seio sensível...será que engravidei?"

O marido demonstra total apoio: "Engravidou de quem? Meu não é." 

A fiel companheira de 15 anos não se abala: "Seu ou não, você vai registrar e criar do mesmo jeito...então para de frescura e passa a manteiga."

E o café da manhã, que poderia ter amargado, se manteve doce. Assim como o casamento. 

E viva a nova paternidade.

26.6.11

Pais x Professores - quem perde são nossos filhos.



Pais x Professores - quem perde são nossos filhos.

Até há pouco tempo, filhos eram criados meio que em comunidade. Era a bronca do pai, o olho da vizinha quando a mãe estava fora, o colo dos avós, os conselhos das tias, as iniciações com os primos, as brigas e brincadeiras na rua, os puxões de orelha da professora e do inspetor de alunos.

Além do convívio próximo com todas estas pessoas, havia também uma espécie de código de conduta que todos conheciam e faziam valer. Tinha que respeitar os mais velhos; apanhou na rua apanhava em casa; quem não obedecia ficava de castigo; o irmão mais velho resolvia as brigas; e o pai nunca podia saber de nada ou ele matava um.

Não preciso dizer que hoje tudo mudou e não foram só os códigos que ficaram confusos. Vivemos num certo estado de solidão familiar, isolados por muros, ruas onde não se brinca e o concreto dos apartamentos. A extraordinárias  tarefa de se criar uma criança, acabou ficando restrita a 2 agentes: família e escola.

Família, leia-se pai e mãe. Às vezes só pai, muitas vezes só mãe e com frequência representados, grande parte do dia, por empregada, televisão ou videogame.

Escola, leia-se escola mesmo. A instituição educativa onde nossos filhos hoje entram usando fraldas e só saem quando já usam camisinha. Alguns chegando a passar quase mais tempo na escola do que em casa.

Agora vem a dúvida: se somos só nós, pais e educadores diante desse mundo caótico, arregaçando as mangas para criar gente do bem, por que nos entendemos tão pouco?

Recentemente, fui convidada para conversar com um grupo de professores de um curso de pós-graduação que estuda as relações com a família. A ideia era transmitir a eles meu ponto de vista de mãe. A visão do lado de cá.

A conversa foi muito boa e profícua em todos os sentidos. Estava diante de um grupo de educadores desarmados, abertos para escutar, a fim de entender porque esta troca não acontece com mais frequência no dia-a-dia da escola. Profissionais preocupados com o imenso abismo que se abriu entre escola e família e que nos impede de escutar, falar a mesma língua e entender.

Um ponto curioso da nossa conversa, foi quando listei o que os pais acham que os educadores pensam deles. Apresentei uma lista que incluía itens como: não nos escutam, vivem na defensiva, transferem para nós responsabilidades que não são nossas, acham que não estamos presentes e que não impomos limites, acham que não estamos nem aí e etc. Nesta hora, um professor pede a palavra e diz, sorrindo, que eles haviam elaborado a mesma lista na semana anterior, só que com o que os professores acham que a família pensa deles. E a lista era praticamente a mesma!

Curioso e triste. Porque como principais referências na formação dos nossos filhos, deveríamos ser mais cúmplices um do outro. Mais abertos para ouvir, para dialogar, para trocar e confiar.

Não a confiança cega de outrora, quando professores podiam até bater para impor respeito e os pais chamavam de burro o filho que tirava notas baixas. Essa, graças aos novos tempos, não volta mais.

Falo de uma confiança culta e sadia. Confiança de quem se conhece e se cobra, porém sabendo das qualidades, das dificuldades e dos limites de cada um.

Confiança de quem assume que ninguém é dono da verdade. E que estamos todos tentando sobreviver neste mundo em rápida transformação, sem as referências do passado e sem ideia alguma de como será o futuro.

Assim como nós pais às vezes nos perdemos (a Supernanny que o diga), nem sempre a escola tem a solução pronta e certa para os problemas. O importante é estarmos abertos para discuti-los, haver transparência, honestidade e a certeza que juntos, somos muito melhores que separados.

Precisamos reconstruir as pontes que caíram no furacão das mudanças e nos colocaram em lados opostos. Porque no meio, estão nossos filhos.

Sair da defensiva e dialogar, pode ser um começo.

14.6.11

Patroa na cozinha.



No aniversário da empregada, a patroa resolve fazer ela mesma o bolo. Escolheu uma receita de bolo de chocolate do NY Times Cookbook. Os 13 anos de parceria, mereciam um bolo com estilo.

Bolo no forno, resolve dar uma saidinha e bota o marido para pilotar o fogão.

O marido, com sua técnica altamente avançada de aceleração de cozimento, aumenta o fogo ao máximo e muda a assadeira para a prateleira de baixo.

Quando a esposa chega em casa, sente o cheiro que bolo queimado no ar.

Tira correndo a assadeira do forno. A empregada estava para ir embora. Na pressa, resolve desenformá-lo quente mesmo.

O bolo despedaça. Ela devolve todos os pedaços para dentro da assadeira e resolve servir em copinhos. A amiga, que estava de passagem e ficou para o parabéns, é solidária: "Vai dar certo. É tipo petit gateau".

Parabéns cantado, bolo servido e a amiga pergunta o que são os pedacinhos crocantes bem durinhos do bolo.

A anfitriã diz que deve ser o açúcar que cristalizou. Demerara.

A amiga acha curioso, nunca tinha feito bolo com demerara. Acha engraçado como o açúcar endureceu ao invés de derreter. Sugere que as crianças não tentem morder para não quebrar o dente.

Todos comem com apetite, o bolo ficou gostoso. Mas a competição é para quem cospe o maior pedaço de crocante duro.

Quando o bolo chega ao final, a mãe olha para o escorredor de louça e berra: "Que açúcar demerara que nada. A gente tá comendo a tampinha do liquidificador que ficou dentro do copo e eu não vi. Bati tudo junto." E cai na gargalhada.

Todos fazem careta e colocam a mão no estômago. 

A amiga não acredita: "Mas como você não ouviu?"

"Ouvi uma barulheira, mas achei que tivesse gelo no leite."

Quieta no seu canto, a aniversariante sorri. Bolo queimado, despedaçado e com fragmentos de acrílico. Ela não vê a hora de pegar sua bolsa e entrar no Feicebus.

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10.6.11

Serviço Nacional de Desinformação - SND





Serviço Nacional de Desinformação - SND

Consuma refrigerante para produzir lixo e ajudar as famílias de baixa renda que vivem de catar sucata.




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Comer margarina é fundamental para a saúde do seu coração.




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A melhor coisa que você pode fazer para garantir que seu filho está se alimentando bem é dar a ele suplemento alimentar industrializado.




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Insetos não são bem vindos. Uma casa cheia de veneno é bem melhor.




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Brincar ao ar livre é perigosíssimo se a pele de seu filho não estiver protegida de uma camada de veneno.




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Quem é jovem, esperto e sabe se virar na vida, come comida congelada de microondas.




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Sujeira é ruim. Germes e bactérias uma ameaça! Para sobreviver use sempre sabonete bactericida.




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Um engradado de cerveja é a coisa mais importante da vida do homem.




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Não basta você se preocupar com pneuzinhos, cabelo crespo ou rugas. Preocupe-se também com o escurecimento das suas axilas.




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A vida é curta. Quem não consome não a vive na sua plenitude. Consuma e use seu cartão de crédito para que as coisas aconteçam.




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1.6.11

Deputado Carlinhos Almeida, o senhor me deve uma explicação.


Deputado Carlinhos Almeida, o senhor me deve uma explicação.


Sou mãe. Não sou jornalista, analista político, nem tenho treinamento que me permita entender os meandres da política.

Portanto, só com sua explicação talvez eu consiga entender o motivo do senhor ter votado a favor do novo Código Florestal.

Fui sua eleitora nas últimas eleições. Meu voto ajudou-o a se eleger deputado. Portanto, me sinto responsável por seu voto. E muito envergonhada da minha escolha.

O novo Código foi regidigido sob intensa polêmica. Muitas vezes, representantes do seu partido foram à mídia para protestar contra seus abusos. Dizem até que nossa Presidente, que carrega no peito a mesma legenda que o senhor, achou tudo uma vergonha. Aparentemente, muita gente do seu partido não concorda com ela. Foi expressiva a votação do PT a favor da bancada ruralista.

Então, dá para alguém me explicar o que houve? 

Quebrando muito a cabeça, só consigo encontrar três supostas explicações:

1) Vendo que era caso perdido, vocês manobraram para jogar a decisão para o Senado. Neste caso, deputado, o senhor poderia ter sido coerente com sua presidente e seus eleitores. Seu voto não teria mudado o resultado da votação. 

2) A Presidente não está tão envergonhada assim. E foi tudo um teatrão para que a expressiva parcela de eleitores preocupados com os abusos do novo código não fiquem contra ela, nem contra o governo. Desse jeito ela sai enfraquecida, mas não queimada.

3) O senhor, infelizmente, não defende as idéias que eu pensei que defendesse. E apóia a bancada ruralista. O capital sem ética. Os assassinatos corriqueiros de ambientalistas. As siderúrgicas que queimam árvores milenares. O perdão para quem desmatou. A redução das áreas de preservação. Apóia, um Brasil que abre mão de seu maior patrimônio em troca do lucro imediato para somente alguns.

Sinto muito, deputado, pelo seu voto. E pelo meu. Sinto mais ainda pelo Brasil e pelo Congresso que o representa. 

Se podemos tirar algo de verdadeiro nisso tudo, é só a vergonha. 


25.5.11

O menino que não gostava de peixe.


O menino que não gostava de peixe.

O amiguinho do filho detestava peixe. Por coincidência, o garoto só vinha visitá-los quando o cardápio era um dos deliciosos pescados comprados na feira.

"Isso é peixe? Eu não gosto de peixe."

Pouco afeita a servir a la carte, a anfitriã foi rápida: "Não é peixe, não. É frango, bem temperadinho."

O menino provou ressabiado e logo mandou ver um filézão de tilápia grelhado.

Na segunda visita, o prato era caçonete temperado com limão e grelhado no azeite de oliva. De novo, o visitante comeu sem reclamar o "franguinho" que lhe colocaram no prato. Até repetiu.

A mãe já se sentia a maior especialista mundial em frescura infantil, quando o menino voltou a visitá-los. O cardápio era filé de pescada.

"Tô sentindo cheiro de peixe. É peixe hoje?"

"Não, meu anjo. Eu fiz aquele franguinho que você gosta."

O menino esticou o prato e já estava na metade da pescadinha quando engasgou. "Tem alguma coisa espetando minha garganta."

"Ai, Jesus, toma água."

Mais engasgado ainda, o menino resmunga: "Não adiantou, ainda espeta."

"Arroz, come arroz que desce."

O menino mastiga, engasga novamente e sussurra: "Tá pior...tem alguma coisa...na minha garganta."

A mãe resolve abrir a boca do menino e olhar. Lá no fundo, consegue ver um belo espinho de uns dois centímetros enterrado na goela da criança. A mulher sua frio. Já se imagina correndo pro pronto-socorro. Pior, imagina como ia explicar o golpe idiota do frango com espinho para a mãe do garoto.

"Prestenção...eu vou enfiar a mão na sua boca e puxar o espinho. Você fica bem quietinho que não vai doer. E não me morde."

O menino concorda obediente, de olhos e boca arregalados. Mantém-se um pequeno lorde enquanto dois dedos em pinça penetram na sua boca para resgatar o espinho.

"Mais um pouco...calma, não se mexe...consegui! Caraca, olha o tamanho! Pronto, agora bebe água. E me dá seu prato que vou trocar seu frango."

"Na minha casa, frango não tem espinho. Por que na sua tem?"

Quando o filho ia esclarecer, a mãe o interrompe rápida. "Tinha. Não tem mais. Acabou. Frango com espinho eu nunca mais compro. Vou trazer sua sobremesa, tá. É sorvete de creme batido com papaia."

"Que é papaia?"

"Mamão"

"Eu detesto mamão."


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18.5.11

A ética que vem do berço.





A ética que vem do berço.

Quando eu e meus irmãos éramos pequenos, me lembro de ouvirmos com frequência histórias sobre atitudes honestas e dignas por parte dos adultos que eram referências na nossa vida.

Tinha a do meu avô, pobre, cheio de filhos, que retornou a pé ao mercado para devolver a moeda que veio a mais no troco, porque "jamais aceitou ficar com o que era do outro". 

Mecânico dos bons, nunca deu muito certo financeiramente. E até mesmo o seu "fracasso", nos foi transmitido como lição de vida: "sempre foi empregado e quando tentou montar oficina própria não deu certo porque era honesto demais e passaram a perna nele. Morreu pobre, mas com a consciência tranquila".

Me lembro do dia que fui fazer compras com minha avó numa tradicional loja da cidade. Depois de escolher a mercadoria, ela se dirigiu ao caixa para pagar. O valor era alto e ela pediu para fazer um crediário. Chamaram o dono, que deu uma esnobada, mas no final cedeu, dizendo que, como ela era "parente do Fulano", ia lhe quebrar o galho. Na mesma hora, ela devolveu as compras dizendo: "Muito obrigada, mas não quero mais fazer negócio com o senhor. Quem está lhe pedindo crédito sou eu e não o Fulano, meu parente. O Fulano nunca pagou uma conta para mim. Se eu tenho o nome limpo eu garanto que não é por causa dele. Até logo". Pegou na minha mão e saiu da loja de mãos vazias e cabeça erguida. 

Médium conhecida, minha avó era procurada por gente de todo tipo, atrás de um conforto espiritual.  Ouvíamos com frequência a parentada contar que não importava o dia ou a hora, ela sempre os atendia. E nunca, jamais, aceitou dinheiro, até quando um "homem muito rico colocou uma carteira na mão dela". "Não posso cobrar pelo trabalho que é dos espíritos", dizia minha avó.

Me lembro da minha mãe, a Rainha do Cheque Pré, afirmar com orgulho quando batia o desespero do final do mês: "Ai...estou no vermelho de novo. Mas nunca um cheque meu voltou e não vai ser agora que vai voltar. Se tem alguém conhecida por honrar seus compromissos esse alguém sou eu". E lá ia ela fazer seus malabarismos para manter o crédito e a honra.

Tinha também o causo da prima que aceitou um emprego para ganhar o dobro e quando percebeu que tinha rolo, pediu demissão na hora: "prefiro ficar desempregada do que ganhar bem sabendo que estou sendo conivente com trambicagem".

Da nossa segunda mãe, a empregada que há 45 anos trabalha para nossa família, veio a lição contada com lágrimas nos olhos: "Quando eu tinha 16 anos e estava com minha filhinha bebê no colo, uma 'madama' me perguntou se eu dava a bebê pra ela. Eu mandei-a segurar a minha filha e abrir o cueirinho dela. Pedi para ela olhar se a nenê tinha rabo ou pelo, porque se tivesse era bicho e bicho a gente dá. 'Fio' a gente passa até fome, mas cria."

Os casos errados também eram contados, mas de uma forma que viravam aprendizado. O primo que deu golpe no pai e quase o matou de desgoto. O tio que faliu porque quis dar o passo maior que a perna. O parente que ficou rico às custas do suor alheio. 

Esses causos da minha infância me voltaram à memória, recentemente, ao ler um texto sobre a formação da personalidade ética. Numa sabedoria apenas intuitiva, os adultos da minha vida fizeram algo que mais tarde virou teoria: na formação das crianças é preciso haver uma correspondência entre cumprir normas e sentir-se bem. É preciso transmitir-lhes orgulho em agir de acordo com os princípios éticos e morais.

É essa satisfação interna que as motivará, mais tarde, a fazerem aquilo que julgam correto, independente de elogios de terceiros, bônus na folha de pagamento ou pontinhos positivos na caderneta do professor. Também não precisarão de inspetor, câmera ou marronzinho do DSV porque, quem se sente bem em fazer o que é certo, se autovigia. E se auto-respeita. 

Piaget, um dos teóricos citados no texto, complementa que faz parte dessa formação levar as crianças à reflexão sobre o que acontece quando não se cumpre as regras necessárias para a vida em sociedade (os causos errados que citei).

Claro que os pequenos ainda terão um longo caminho até se formarem seres éticos e morais. E que há muitos outros fatores além da família interferindo nessa formação: sociedade, escola, mídia, amigos, a própria personalidade. Como afirma Piaget, os valores morais se formam com a interação da pessoa com os diversos ambientes que ela atua. Mas o orgulho de ser correto, quando vem do berço, sem dúvida ajuda a criar um alicerce sólido para que essa construção seja firme.

Obs.: Após a leitura do texto, passei a me lembrar de transmitir mais aos meus filhos os ensinamentos dos meus antepassados. Cuidando para que também seja de maneira natural e temperada com exemplo, amor e história. Até ler Piaget, confesso que não lhes dava o devido valor. 

Imagem: Illustration Friday: Roots 





10.5.11

Traição


Traição

O marido entra sorrateiro. Pouco antes de chegar na cozinha dá de cara com a esposa. Ele a cumprimenta rapidamente, evitando olhá-la nos olhos.

Mulher: - Não acredito!

Marido: - Desculpe...

Mulher: - Por que você fez isso?

Marido: - Aconteceu, eu...

Mulher interrompe: - Mas não pode acontecer.

Marido: - Eu sei...você tem razão, mas às vezes a gente descuida...

Mulher: - Ah, não vem com essa. Com esse tipo de coisa não pode ter descuido. Alguém te viu?

Marido desvia novamente os olhos e fala baixinho: - A Sílvia.

Mulher exclama: - A Sílvia! Não! A cidade inteira e você me topa logo com ela?  Ela te viu?

Marido: - Viu, claro. Conversou comigo.

Mulher: - Disse o quê?

Marido: - Perguntou se você sabia que isso estava acontecendo.

Mulher: - Sabia que ela ia perguntar...E o que você disse?

Marido: - Disse que não...e que se você soubesse ia me matar.

Mulher: - Bom, pelo menos foi honesto. Tô quase te esganando. Ah...isso não podia ter acontecido...

Marido: - Eu sei, mas já foi...não vai acontecer de novo.

Mulher: - Promete?

Marido: - Juro. Vou colocar 2 sacolas de pano no carro e juro que nunca mais pego sacolinha de plástico no mercado.

Mulher: Vou falar pra elas que puxei sua orelha.

Marido: Diz que me fez adoçar meu café com açúcar mascavo por uma semana, só de castigo.

Mulher rindo: - Te odeio...

Marido: E eu devo te amar...porque vou te contar....vai, me ajuda a guardar as compras...


9.5.11

Marina Silva, fique esperta!


Marina Silva, fique esperta!
  
Semana passada me deparei com uma das estratégias mais sinistras de formação de opinião que já vi na rede. Divulgo, porque acho que a informação é a melhor vacina contra os golpes da internet.

Alguém publicou um site (http://orgulhoverde.com) que, aparentemente, defende o meio ambiente e a não aprovação do novo código florestal. Aparentemente.

Olhando nas entrelinhas, tudo indica que se trata de uma ação obscura e muito bem planejada de marketing viral, plantada para causar inimizades e angariar simpatizantes justamente para o lado contrário: o de quem defende a APROVAÇÃO do novo código.

A estratégia mostra a que ponto alguns seres humanos chegam para conseguir formar sua opinião.  Daqui para frente, fique ainda mais cauteloso com o que você encontra na rede.

O site defende idéias radicais, meio temidas por quem não gosta muito de ecologista, como passar fome para poupar o planeta, não tomar banho para economizar água, desapropriações em massa no campo e a internacionalização da Amazonia. Até aqui, tudo bem. A internet é espaço de todos. Tem gente defendendo assuntos bem mais polêmicos.

Mas vejam as evidências que o tal site seja falso:

Não tem autor. O que já é para se desconfiar. Ambientalistas sérios defendem com orgulho seus pontos de vista.

Não tem contato. Um site de ativismo sem contato... já viram isso?!

Eles enviam spams (foi assim que o descobri). Tanto divulgando o site, como metendo o pau nele (sei...). Quando você dá uma busca no nome de quem mandou, não existe tal pessoa. E o email é obscuro. Já viu ambientalista sério mandando spam? E gente indignada manda email para amigos e conhecidos. Nunca spam.

O site está hospedado nos Estados Unidos. Parece que os autores não só não querem ser encontrados, como não querem se enquadrar na nossa legislação. O que é estranho para um site brasileiro, discutindo coisas do Brasil.

Os comentários dos leitores são respondidos de forma ofensiva e até com palavras de baixo calão, por alguém que usa nomes falsos e que, quando clicados, lincam para sites de phishing (fraude eletrônica). 

Resumo: tem tudo para ser um site que tenta denegrir o movimento ambiental sério. Esta semana, o alvo é a Marina Silva. Eles a "apóiam" por ter conseguido adiar a votação do novo código. O texto transparece a ira do autor, de forma velada. O toque de maldade transparece ao final do texto, como se a Marina também apoiasse virar anorético para poupar o planeta e outras bobagens.

Macacos me mordam se não é um viral. Um site feito de caso pensado para angariar inimigos para quem é contra a aprovação do novo código. Uma estratégia que visa instilar a desconfiança para com os propósitos dos ecologistas sérios, que nunca agem de forma tão obscura.

Vejam que o site linca para os principais ativistas sérios do país. Tem gente e instituições muito boas ali, aparentemente "compartilhando" dos pontos de vista irresponsáveis e ofensivos deles. Outra estratégia para confundir e denegrir. Não é só a Marina que precisa se cuidar.

Ao fim da visita, o internauta mais descuidado acaba achando que ecologista é um bando de "verde, maconheiro, irresponsável e sem noção" como muitos afirmam nos comentários.

E assim, acaba apoiando quem defende a aprovação do novo código. Que, se fosse bom, não precisaria deste tipo de ação para convencer ninguém.

A que triste ponto as estratégias de comunicação chegaram. 

1.5.11

Sua vida está todinha no Feicebus.



Sua vida está todinha no Feicebus.


Se você optou por morar num condomínio, converse com sua empregada sobre o busão que a traz para o serviço.

O ônibus é o centro de troca de informação sobre a vida dos patrões. A sua, a minha, a nossa vida tá todinha aberta e escancarada no Feicebus

O sistema de informação é bem organizado e simples. Elas abrem a boca e começam a contar, pra todos ouvirem, inclusive motorista e cobrador, tudo o que acontece dentro das casas que trabalham. Que patrão não paga direito, a filha de quem que tá transando com quem, as neuras das patroas, o ridículo da vida privada, os pequenos delitos, as cenas que observam enquanto varrem e tiram pó.

Como nas redes sociais da internet, babado que vira buzz é o sórdido. Portanto, não espere ser poupada. Tem empregada que conta até que “aquela vaca transa menstruada...e eu que tenho que lavar os lençóis”.

Tem o lado bom. Elas aprendem muito sobre direitos trabalhistas, discutem salários, trocam receitas, se informam sobre novas oportunidades de emprego e se tornam excelentes fontes de informação sobre algum acontecimento no seu bairro. Ouviu falar de um assalto? Pergunte para sua empregada. Dizem que a vizinha separou? De novo, consulte a sua assessora para assuntos da vida alheia. Já usei, recomendo e descobri um serviço adicional: quando nem ela sabe de algo, solicite que pergunte no busão. No dia seguinte, minha amiga, senta que lá vem história.

A rede das domésticas também se apresenta em outras versões, como o Parkut, a rede que se forma nos parquinhos e praças onde as babás levam as crianças. Tem também a tuitagem rápida dos encontros nos mercados, feiras livres, bufês e casas de festa.

O Feicebus e o Parkut me fizeram lembrar de uma notinha que li certa vez sobre os “tigres”. Escravos que faziam o pior de todos os serviços: na ausência de esgoto, eram eles que recolhiam os dejetos humanos nas residências. Atravessavam a cidade levando enormes jarros de merda, na cabeça. O texto explicava que eles eram considerados “traiçoeiros”. Bobeou, deixavam cair um pouco da sujeira num transeunte almofadinha desavisado.

Hoje, a caca se esparrama entre um e outro solavanco do busão. E quem não quiser dar munição, que lave os próprios lençóis.

26.4.11

Seu filho acha a escola chata? Ele pode ter razão.



Seu filho acha a escola chata? Ele pode ter razão.

Uma das maiores conquistas da humanidade com a internet foi sair da era da informação hierarquizada e entrar no admirável mundo da informação cooperada.

Há bem pouco tempo, você deve se lembrar, a informação vinha de fontes quase únicas: grandes conglomerados que concentravam todo o poder de transmiti-la. E nós, o restante da humanidade, eramos passivos receptores daquilo que eles queriam que soubéssemos.

Com a internet tudo mudou. "Power to the people". Qualquer pessoa com acesso a internet e um teclado, pode ouvir e se fazer ouvir. Da mamãe aqui ao William Bonner, passando pela menina na lanrause ao árabe revoltado no norte da África, todos produzem, compartilham e contribuem. E você tem diante de si um universo rico de informação e trocas, nunca antes imaginado. Que está só começando.

Este sistema está trazendo mudanças rápidas e profundas nas instituições estabelecidas. Emissoras de TV, políticos, jornais...estão todos buscando se reinventar para sobreviver.

Só tem uma instituição que se recusa solenemente a fazer qualquer mudança. Não, não são os ditadores árabes, nem a família Castro, de Cuba. É a escola dos nossos filhos.

Todos os dias, eles abrem os portões e continuam funcionando como se nada do que está acontecendo no mundo os afetasse. Recebem meninos e meninas, nascidos e criados neste novo cenário de cooperação, e os colocam sentadinhos numa carteira para uma sessão de 3, 4, 5 horas de notícia transmitida pelo "âncora" professor (aposto que nem no confortável sofá da sua sala você aguentaria essa maratona). Como se isso não fosse tortura suficiente, dão como leitura principal, um periódico "interessantíssimo" chamado livro didático ou apostila, escolhidos pelo conglomerado educacional e enfiados goela abaixo dos alunos e bolso abaixo dos pais.

Os problemas, obviamente, surgem. Crianças desatentas, desmotivadas, pouco interessadas na aula, que não param quietas e com índices baixos de aprendizagem. Crianças que precisam de inspetor pra voltar pra classe ou de pílulas para se concentrar. Alunos que não respeitam o professor (e vice versa). Professores que precisam aprimorar cada vez mais o showzinho para prender a atenção dessa galera. E dá-lhe musiquinha, sambadinha, piadinha, rap da taboada.

"A culpa é da geração X, Y, Z, E, T C", afirmam, sem jamais olhar para o próprio umbigo.

O mundo todo está mudando. É tão obvio que o sistema educacional vigente também precisa mudar. E não é colocando computador em sala que se muda. Dar computador para os alunos achando que é a solução é o mesmo que dar caderno no tempo do pergaminho achando que ia revolucionar o ensino.

Estamos falando de um novo sistema de transmissão do conhecimento, baseado na sociedade da informação cooperada. Um sistema em que não há professor âncora, nem livro didático ou apostila a serem seguidos folha por folha. Um sistema em que todos, alunos e educadores, são agentes da informação. Assim como eu e você estamos sendo neste exato momento. Se funciona para nós e para o restante da humanidade, por que não funcionaria com nossos filhos, nascidos e criados neste novo contexto?
  
Nesta nova concepção, os alunos opinam, escolhem, decidem, buscam, produzem e, importantíssimo, compartilham conteúdos e conhecimentos. Se tornam agentes do próprio aprendizado e não meros receptores. E o professor sai do papel de autoridade mór do conhecimento e passa a ser o mediador. O condutor do que está acontecendo. Aquele que acompanha, estimula, orienta e avalia as várias etapas do processo, inclusive discutindo com a turma novas rotas quando elas forem necessárias. 

Um novo mundo está nascendo, mais horizontal, de trocas, compartilhamento e respeito mútuo. Quanto tempo mais as escolas se recusarão a viver nele?

14.4.11

Castigos escolares



Castigos escolares

Um dos meus filhos nasceu com o senso de moral de um velhinho. É uma criança que sempre nos surpreendeu com tiradas tais como "Pessoal...Fulano não é egoísta. Ele só é o mais novo da nossa classe e ainda não sabe o que é emprestar". Isso quando tinha 6 anos.

É companheiro, amigão de todos e fiel cumpridor de normas. Se não pode jogar lixo na rua, não pode. E fica apontando a lixarada na calçada, indignado.

Já quis ser escalador de árvores, recolhedor de cães abandonados e agora parou no jogador de futebol. É bom saber que ainda tem uma criança lá dentro.

Antes que vocês me achem uma coruja metida a besta, calma...a Dona Vida sempre se encarrega de quebrar nosso salto. Da mesma barriga que este brotou, veio meu outro filhote.

Não quero rotulá-lo, mas eu diria que é um pequeno que exige um esforço maior de todos nós com relação ao desenvolvimento da ética e da moral.

Desde muito pequeno, sempre deu um jeito de burlar as regras. É do tipo que pede pra ir no banco da frente e me "ensina" que é só abaixar quando o guarda aparecer. Quando brinca de jogos simbólicos, adora ser o bandido (ó Senhor!).

Houve uma época em que se divertia andando pela rua observando os pontos por onde poderia penetrar em casas fechadas.

Aos 4, quando todas as crianças normais pegam objetos sem pedir (menos o meu velhinho), a professora perguntou porque ele não havia lhe pedido emprestado o brinquedo da escola que colocou no bolso. A resposta da pulguinha topetuda: "Porque você me falou para pedir pro dono. Você, por acaso, é dona da escola? Por que eu tinha que pedir à você?"

Com 6 anos, ao pegá-lo na escola e fazer a pergunta habitual sobre o que fizeram naquele dia, escutei dos irmãos "fiz um gol", "apresentei minha maquete" e dele "fumei maconha". Quase bati o carro.

Pois é, no quesito moralidade, esse meu filhote precisa de um olhar mais atento nosso. E da escola. Que nesta semana, desempenhou com maestria seu papel de parceira na formação de pessoinhas do bem.

Depois de todo um final de semana, bem na hora de dormir, ele coloca a cabeça no travesseiro e dispara: "Mãe, eu tô tão ferrado!"

Me contive para não rir. O quanto se pode estar ferrado aos 7 anos? Mas mantive a linha. Então ele contou que na sexta-feira havia entrado na sala de aula ao lado e surrupiado uns docinhos de um projeto que os colegas estavam desenvolvendo.

Descoberto o "crime", ele assumiu na hora a autoria. Pontos para meu bebê. A professora então o chamou para uma conversa. Nada de bronca, ameaça ou castigo. Simplesmente explicou que os doces, além de não serem dele, eram importantes para o projeto da outra sala. E perguntou como poderiam fazer para resolver. Entraram em acordo que ele faria a reposição dos doces que pegou.

Não veio bilhete para os pais, ninguém nos ligou. Deixaram para ele resolver. E ele deve ter matutado o final de semana todo sobre como sair dessa. Quando viu que a segunda-feira se aproximava, pediu ajuda.

Conversamos e, no dia seguinte, lá se foi nosso aprendiz de gente do bem para a escola portando os 50 centavos necessários para fazer a reposição dos docinhos.

Tiro o chapéu para a professora. Podia ter dado uma bronca, tê-lo feito se sentir envergonhado, exposto, humilhado. Ou aplicado um castigo que iria ensiná-lo apenas a mentir na próxima. Podia ter mandado um bilhete ou uma advertência e passado a bola para nós, pais. Podia tê-lo colocado para "pensar" (como chamam castigo hoje em dia). Ou ainda, ignorado. Afinal, foram só uns docinhos sem valor.

Mas, não. Como uma verdadeira mestra, ela enxergou ali uma oportunidade do meu filho aprender, de refletir sobre as consequências dos seus atos. E deu a ele a responsabilidade e a oportunidade carinhosa de repará-lo. Quem dera todos os "castigos" fossem assim. Relacionados com o delito e com a chance do autor corrigir ou ao menos minimizar os danos causados ao outro. Ao invés da vingança, a educação.

Nesse final de semana, meu filhote cresceu alguns centímetros. Internos.

E eu senti que eu e meu marido não estamos sozinhos nessa jornada. 

13.4.11

O que podemos fazer?

Semana difícil essa. Dolorida e infelizmente gravada para sempre e de uma forma cruel na memória coletiva.

Enquanto todos correm para lá e para cá, buscando uma explicação que ao menos explique a brutalidade da tragédia (ela existe?), um grupo de mães se organizou e escreveu uma carta sobre nosso papel nessa sociedade tão complexa e tão precisada de gente do bem.

Não participei da redação da carta. Mas me identifiquei e me senti no dever de retransmiti-la. Fiquem todos a vontade para também passar adiante ou publicar.

Um beijo e paz!

P.S: caso opte por publicar no blog, linque no endereço:
http://futurodopresente.com.br/blog/index.php/2011/04/carta-aberta-as-maes-e-pais/




Que futuro terão nossos filhos?
            
Ana Cláudia Bessa - www.futurodopresente.com
Cristiane Iannacconi - www.ciclicca.blogspot.com
Letícia Dawahri
Renata Matteoni - www.rematteoni.wordpress.com


Aproveitamos o sentimento de indignação e tristeza que nos abalou nos últimos dias para convocá-los para uma mobilização pelo futuro das nossas crianças. A tragédia absurda ocorrida na escola em Realengo (Rio de Janeiro) é resultado de uma estrutura complexa que tem regido nossa vida em sociedade. O problema vai muito além de um sujeito qualquer decidir invadir uma escola e atirar em crianças. Armas não nascem em árvores.

A coisa está feia: choramos por essas crianças, mas não podemos nos deixar abater pelo medo, nem nos submeter aos valores deturpados que têm regido nossa sociedade propiciando esse tipo de crime. Não vamos apenas chorar e reclamar: vamos assumir nossa responsabilidade, refletir, trocar ideias e compartilhar planos de ação por um futuro melhor. Então, mães e pais, como realizar uma revolução que seja capaz de mudar esses valores sociais inadequados?

Vamos agir, fazer barulho, promover mudanças! Acreditamos na mudança a longo prazo. Precisamos começar a investir nas novas gerações: a esperança está na infância. Vamos fazer nossa parte: ensinar nossos filhos pra que façam a deles.

Se desejamos alcançar uma paz real no mundo,
temos de começar pelas crianças.   Gandhi

O que estamos fazendo com a infância de nossas crianças?

Com frequência pais e mães passam o dia longe dos filhos porque precisam trabalhar para manter a dinâmica do consumo desenfreado. Terceirizam os cuidados e a educação deles a pessoas cujos valores pessoais pensam conhecer e que não são os valores familiares. Acabamos dedicando pouco tempo de qualidade, quando eles mais precisam da convivência familiar. Assim, como é possível orientar, entender, detectar e reverter tanta influência externa a que estão expostos na nossa longa ausência? Estamos educando ou estamos nos enganando?

O que vemos hoje são crianças massacradas e hiperestimuladas a serem adultos competitivos desde a pré-escola. Estão constantemente expostos à padronização, competição, preconceito, discriminação, humilhação, bullying, violência, erotização precoce, consumo desenfreado, culto ao corpo, etc.

O estímulo ao consumo desenfreado é uma das maiores causas da insatisfação compulsiva de nossa sociedade e de tantos casos de depressão e episódios de violência. Daí o desejo de consumo ser a maior causa de crime entre jovens. O ter superou o ser. Isso porque a aparência é mais importante do que o caráter. Precisamos ensinar nossos filhos que a felicidade não está no que possuímos, mas no que somos. Afinal, somos o exemplo e eles repetem tudo o que fazemos e o modo como nos comportamos. E o que ensinamos a nossos filhos sobre o consumo? Como nos comportamos como consumidores? Onde levamos nossos filhos para passear com mais frequência? Em shoppings?

Quanto tempo nossos filhos passam na frente da TV? 10 desenhos por dia são 5 horas em frente à TV sentados, sem se movimentar, sem se exercitar, sendo bombardeados por mensagens nem sempre educativas e por publicidade mentirosa que incentiva o consumo desde cedo, inclusive de alimentos nada saudáveis. Mais tempo do que passam na escola ou mesmo conosco que somos seus pais!

Porque os brinquedos voltados para os meninos são geralmente incentivadores do comportamento violento como armas, guerras, monstros, luta? A masculinidade devia ser representada pela violência? Será que isso não contribui para a banalização da violência desde a infância? Quando o atirador entrou na escola com armas em punho, as crianças acharam que ele estava brincando.

Nós cidadãos precisamos apoiar ações em que acreditamos e cobrar do Estado sua implementação, como o controle de armas, segurança nas escolas, mudança na legislação penal, etc. Mas acima de qualquer coisa precisamos de pessoas melhores. Isso inclui educação formal e apoio emocional desde a infância. É hora de pensar nos filhos que queremos deixar para o mundo, para que eles possam começar a vida fazendo seu melhor. Criança precisa brincar para se desenvolver de forma sadia. É na brincadeira que elas se descobrem como indivíduos e aprendem a se relacionar com o mundo.

Nós pais precisamos dedicar mais tempo de convivência com nossos filhos e estar atentos aos sinais que mostram se estão indo bem ou não. Colocamos os filhos no mundo e somos responsáveis por eles! Eles precisam se sentir amados e amparados. Vamos orientá-los para que eles sejam médicos por amor não por status, que sejam políticos para melhorar a sociedade não por poder, funcionários públicos por competência e não pela estabilidade, juízes justos, advogados e jornalistas comprometidos com a verdade e a ética, enfim!

Precisamos cobrar mais responsabilidade das escolas que precisam se preocupar mais em educar de verdade e para um futuro de paz. Chega de escolas que tratam alunos como clientes.

Não temos mais tempo a perder. Ou todos nós, cedo ou tarde, faremos parte da estatística da violência. Convidamos todos a começar hoje. Sabemos que não é fácil. E alguma coisa nessa vida é? Vamos olhar com mais atenção para nossos filhos, vamos ser pais mais presentes, vamos cobrar mais da sociedade que nos ajude a preparar crianças melhores para um mundo melhor! Nossa proposta aqui é de união e ação para promover uma verdadeira mudança social. A mudança do medo para o AMOR, do individualismo para a FRATERNIDADE e para a EMPATIA, da violência para a GENTILEZA e a PAZ.



6.4.11

Bullying em escolas particulares fere o código do consumidor. E nas públicas?


O tema bullying continua dando o que falar. A Adriana encaminhou dois linques com notícias recentes.

O primeiro é sobre uma escola particular no Rio de Janeiro, condenada a indenizar em 35 mil reais a famíliade uma menina vítima de bullying. Clique aqui para ver a notícia no uol.

A sentença foi baseada no código do consumidor: pais e escolas tem uma relação de prestação de serviço. O juiz entendeu que mesmo que o ato tenha sido praticado por crianças, dentro da escola o aluno está SOB RESPONSABILIDADE dos educadores. Eles precisam garantir a integridade física e psicológica de todos.

Não sei se comemoro ou lamento. A decisão do juiz reafirma o que nós mães temos discutido e divulgado em nossos blogs: que a escola também tem que se posicionar firmemente contra esta prática e desenvolver ações cotidianas para minimizá-la.

Ao mesmo tempo lamento que um assunto que deveria ser encarado por todos os educadores com uma questão de princípios éticos e morais, esteja sendo lidado como simples questão de direito do consumidor.

Serve para quem tem filho em escola particular. Mas como ficam os alunos das escolas públicas? Qual a brecha que os juízes vão encontrar para chamar na chincha os concursados do sistema público que se omitem diante de fatos vergonhosos como este de Mata Grande, Alagoas. Clique aqui para ver a notícia. 

O vídeo que deu motivo à matéria é a versão brasileira do caso Casey Hanes. Só que dessa vez, não houve reação do alvo aos tapas à la Bolsonaro que o colega fortão deu na cara dele. Caso consiga ver o vídeo no Youtube, prepare-se para ficar chocado e muito, muito constrangido com a humilhação sofrida pelo garoto. É de chorar!

Neste caso, assim como no da garota da faculdade Barão de Mauá (o bicho tá pegando! clique aqui para ver a notícia e a foto da cara da menina após o ataque), a diretoria havia sido informada do problema e os ataques aconteceram após a procura de ambos por ajuda.

Para concluir, a cereja do bolo. A pérola de análise do UOL Jogos para o jogo Bully. Sinceramente, não sei se o mocinho que faz a narração do vídeo é muito irônico ou totalmente sem noção. É de 2009, mas parece que foi esta semana. Clique aqui para assistir e seguuuuuura peão!

Ô caminho longo o que temos pela frente!

4.4.11

O jornalismo ajuda a perpetuar omissão da escola com relação ao bullying.


O jornalismo ajuda a perpetuar omissão da escola com relação ao bullying.

O que mais me chama atenção nas recentes matérias que saíram na imprensa sobre o bullying é a ausência de qualquer menção à responsabilidade das escolas.

Entrevistam vítima, agressor, pais, especialistas e até famosos, mas ninguém fala sobre a participação dos educadores no combate a este grave problema. Clique aqui para ver as reportagens do Fantástico e do Jornal Nacional

Pior ainda. No caso do menino australiano que reagiu a um suposto bullying e virou herói, criou-se a falsa impressão de que a melhor forma de resolver o bullying é a vítima reagir com agressividade. Claro que ele tinha todo o direito de se defender. Mas achar que é assim que se combate o bullying denota não apenas uma compreensão equivocada do problema, como transfere à vitima a responsabilidade por solucioná-lo. Com o agravante de perpetuar a omissão por parte dos adultos que deveriam estar supervisionando aquelas crianças.

Casey Hanes conta que sofria bullying há cerca de 3 anos. Três anos e ninguém nunca percebeu que tinha algo errado com essa criança?! Ninguém nunca notou que ele tinha dificuldade em fazer amigos? Que vivia sozinho? Que não gostava de ir à escola? Que tiravam sarro dele? Que o agrediam? Que o excluiam dos jogos e brincadeiras? Será que nenhum professor percebeu uma provocação mais abusada ou preconceituosa (o menino é gordinho)? Pergunto o mesmo dos casos brasileiros noticiados.

Tenho certeza que algum representante da liga "bota a culpa nos pais" vai dizer que eles tinham pais omissos e blá, blá, blá. Pode até ser, vai saber... Mas toda vítima de bullying tem pais omissos? E lá isso é motivo para condenar uma criança a ser torturada diariamente dentro dos muros da escola, no período em que fica sob supervisão dos educadores? Pelo contrário. Crianças assim, precisam de ainda mais ajuda e proteção. Já basta a vida dura que levam em casa.

Recomendo também que assistam a entrevista com o autor da agressão (linque no rodapé deste texto). No final, se acaba ficando com pena. É uma criança, como os filhos de todos nós. Um garoto franzino, fragilizado, acuado pela exposição e com a condenação em massa. Já foi até jurado de morte. Os adultos que o julgam se esquecem que ele não é um bandido. É uma criança em processo de construção de sua moralidade. Precisa de ajuda, de intervenção e de orientação. Bom seria se tais limites tivessem chegado antes do caso cair na internet.

Se você é jornalista, na próxima matéria sobre o bullying, entreviste diretores, coordenadores, professores e fiscais de pátio e pergunte:

. O que sua escola tem feito para combater o bullying?
. Como vocês reagem quando um pai ou aluno reportam uma agressão?
. Como vocês agem quando percebem que uma criança não consegue se enturmar?
. Qual a intervenção nas brincadeiras de mau gosto, apelidos preconceituosos, nos desmerecimentos, exclusões e ofensas?
. O que vocês tem feito para sensibilizar a plateia (os amigos que assistem e dão risada do bullying)?
. O combate ao bullying é sistematizado nesta escola?
. Vocês consideram humilhação, provocação e ofensa "coisa de criança"?
. Vocês acham que os alvos também tem culpa no cartório?

Perguntem também aos alunos o que a escola tem feito sobre o assunto. Eles são grandes observadores dos fatos.

O bullying é um problema em todas as escolas. Agir contra ele deveria ser um trabalho sistematizado, isto é, que requer atenção e participação continuada de toda a equipe. As escolas precisam parar de fazer de conta que o problema não lhes pertence e atuar com energia, de cabeça erguida e sem medo de perder matrículas. Matrícula perde quem deixa que crianças sofram assédio físico e emocional dentro de um local onde elas deveriam se desenvolver em sua plenitude.

Casey Hanes encerra sua entrevista aconselhando as vítimas de bullying a aguentarem firme pois um dia a escola termina! Tem coisa mais triste para uma criança dizer?

Poderia ter aconselhado os alvos a contarem para um adulto, a procurarem ajuda, a não sofrerem calados. Mas, Casey está certo. Com todo mundo fazendo de conta que o problema não lhes pertence, melhor mesmo aguentar firme. E rezar para que chegue logo a formatura.



21.3.11

Mamãe controladora - da série "Histórias Deliciosas de Mãe"


Mamãe controladora - da série "Histórias Deliciosas de Mãe" 

Era daquelas mães precavidas, que sempre tem antitérmico e agulha na bolsa. Tinha uma  necessidade patológica (como ela mesmo descreve) de ter as coisas sob controle. Acordava com tudo programado, das atividades dos filhos ao cardápio do almoço, lanche e jantar. Detestava quando algo saia fora do esperado.

O filho queria muito um cachorro e perguntou se não podia ficar com a pudou da tia. A tia já havia concordado. Por não ter criança na casa, a cachorrinha era muito solitária. E a bichinha adorava o menino.

A mãe negou. Preferia um cachorro grande. Optou por um rótivailer. Pesquisou criadores e foi atrás do mais gabaritado e caro. A cadela veio de longe e chegou chipada, com todas as certificações possíveis e um pedigree cuja linhagem faria inveja à familia real britânica.

A paixão foi imediata e o menino não falou mais da pudou. O tempo foi passando e a bolinha gorducha crescendo. Mas crescendo pouco. Muito pouco.

Não levou muito tempo para a mãe, sempre atenta, perceber que algo estava errado. A cadela era estranha. Tinha pernas curtas e uma cara diferente dos demais da sua raça. Levou ao veterinário que logo deu o diagnóstico:

- Sua rótivailer é anã. Não vai crescer além disso.

A mãe sai do veterinário direto para o analista. Entra na sala aos prontos e conta a tragédia que tinha acontecido na sua vida. Escuta um barulho esquisito. Era o analista, que não se conteve e caiu na gargalhada. Logo ela, que tinha tomado todas as precauções e pagado caríssimo para que tudo saísse como ela queria.

E agora, o que fazer? Estavam todos apaixonados pela bichinha. O canil daria outra, mas exigiam a defeituosa de volta. Iriam sacrificá-la.

- Sacrificar a Tuca, nem pensar!

O jogou a tolha na lona e deixou pra lá. Hoje conta a história sorrindo. Ponto pra Dona Vida.