5.12.16

Uma espírita a favor da legalização do aborto



Sou espírita de berço. Nasci numa numerosa e maravilhosa família de seguidores do Kardecismo e nunca, nem por um momento, pensei em ter outra religião. A filosofia espirita me satisfaz plenamente e tem um significado muito grande na minha vida.

Cresci fazendo culto no lar, frequentando evangelização em centro espírita, mocidade, participando de trabalhos de cura e mediúnicos. Aprendi ainda muito nova que o aborto deve ser proibido pois o espírito que está reencarnando se conecta ao embrião no momento da concepção. Abortar é negar ao espírito a chance de reencarnar. Não apenas aceitei essa máxima como, durante anos, a tive como cláusula pétrea no meu sistema de valores.

Me tornei mãe e procuro transmitir aos meus filhos essa doutrina que sempre me segurou nos piores perrengues da vida. Um dia, conversava com um dos meus filhos sobre o aborto e ele me disse que era a favor.

Aquilo me chocou. “Como assim a favor do assassinato de inocentes? Como assim tirar do espírito a chance de reencarnar?”

Meu filho argumentou: “Mãe, esse é um conceito religioso.”

“Sim, mas é um conceito que tenho absoluta certeza que é correto”, afirmei.

“Mãe, vivemos num estado laico. E você está defendendo uma lei que vale para todos os brasileiros baseada na sua religião. Você critica tanto a bancada evangélica, que faz leis baseadas em crenças religiosas…qual a diferença da postura deles e da sua?”

Engoli seco. Não tinha como argumentar. O moleque tinha razão. 

Confesso que fiquei chacoalhada com este argumento. Mas ainda assim segui pró-vida, procurando me informar melhor sobre os fatos, mas, dessa vez, procurando enxergar de uma perspectiva laica.

A ficha realmente caiu (demorou, mas caiu) quando me dei conta que, mesmo com a proibição, as mulheres continuam abortando. Isto é, a proibição não protege o feto. Os espíritos continuam não reencarnando. E coloca em risco as mães, principalmente as pobres que procuram bocas de porco para fazer o que o estado lhes nega.

A minha arrogância espírita me impediu enxergar que a proibição do aborto é como um tapa olho que me permite dormir sossegada achando que vivo num país que condena uma prática horrível, mas que na verdade fomenta uma outra, muito pior, que mata o bebê, coloca em risco a vida e a saúde da mãe e alimenta uma rede clandestina e inescrupulosa de aborteiros sem qualificação, higiene e compromisso com o bem estar dessas mulheres, jogando-as para o SUS resolver quando dá ruim.

Proibir faz bem pra minha consciência. Mas não faz nada bem para diminuir o aborto. 

Pelo contrário, as estatísticas dos países onde o aborto é legalizado mostram que o número de abortos diminuiu. Para citar os Estados Unidos, o Centers for Desease Control e Prevention tem dados oficiais que mostram uma redução de quase 50% no número de abortos de 1979 a 2012. Foram praticados 700 mil abortos os EUA em 2012. Em 2013 no Brasil foram praticados mais de um milhão de abortos, segundo dados do IBGE. Isto é, mesmo com a proibição e com uma população muito menor que a americana, abortamos mais. 

Me desculpem companheiros espíritas, mas estamos fazendo tudo errado. Queremos defender a vida, mas apoiamos uma lei que faz com que o número de óbitos seja maior! Com o risco de perdermos outra vida, que é a da mãe. 

Demorei para sair do armário quanto a esse tema, por entender que é ponto pacífico no meio espírita. Mas Kardec nos ensinou a só acreditarmos naquilo que passa pelo crivo da razão. E minha razão me impede de seguir contra a proibição. 

Mantenho-me contra o aborto. E jamais abortaria. Mas sou a favor da legalização. 

Porque não posso impor minhas crenças religiosas aos outros (isso é fundamento espírita), porque tenho que respeitar o livre arbítrio de cada um (outro fundamento espírita) e, principalmente, porque diante dos números, proibir é ingênuo. Ou hipócrita. 

Não consigo mais dormir tranquila sobre a montanha de fetos abortados que se avoluma diariamente debaixo do meu tapete enquanto finjo que vivo num país livre do aborto.


24.8.16

Caixa de Pandora



Caixa de Pandora

Tia Lourdes era solteira, funcionária pública, baixinha, cabelos curtos e grisalhos. Tinha tudo para ser a mais previsível das criaturas. Mas, vira e mexe, nos surpreendia.

Éramos criança quando ela nos visitou pela primeira vez. Antes de sair para dar uma volta, perguntou qual brinquedo gostaríamos de ganhar. Foi minha primeira arregalada de olhos. Nunca um adulto tinha nos feito essa pergunta fora do Natal. Fizemos os pedidos e não acreditei quando ela tirou da sacola o jogo Detetive. Era exatamente o que eu havia pedido. Nem Papai Noel, que nos trouxe Monark ao invés da Caloi, atendia à risca nossos desejos. 

Fui morar com ela quando tinha 17 anos. Eu era uma adolescente difícil. Saí um ano depois, brigada. Ficamos um tempo sem nos falar e, de repente, estávamos de volta às boas, como se nada tivesse acontecido. Ela me tirou do apartamento dela, mas nunca me tirou de sua vida. Desse período, tenho algumas lembranças. Uma delas é que nem um grão de arroz lavado podia ficar no escorredor e a bucha tinha que ser colocada embaixo do sabão, nunca em cima, para não derretê-lo. Não admitia desperdício. Foi ela quem me ensinou que pizza fria com café, logo cedo, é um dos melhores desjejuns do mundo. E que Cynar é um ótimo substituto quando você não tem grana para comprar Campari.

Era marrenta como um burro velho. Além da eterna desconfiança às viagens aéreas, que a fazia enfrentar estoicamente horas de ônibus quando queria ir a um local mais afastado, nunca se reunia conosco no Natal, porque “é uma data triste”. Quando tinha uma opinião, nem tortura, nem estatísticas, nem o muxoxo dos parentes a faziam mudar de ideia.

Deu aulas de português a vida toda em escolas estaduais. Era a norma culta ambulante. Falava e escrevia perfeitamente, com todos os pronomes, hifens, tremas e aspas. Um dia conversávamos sobre o livro recomendado pelo MEC para a Educação de Jovens e Adultos que valorizava a forma não culta de falar e que havia sido grande polêmica na época. Logo de início me posicionei contra: “Imagina! Como pode o Ministério da Educação questionar a norma culta, tia?!”. Pois não é que ela me diz que havia achado sen-sa-cio-nal! Que estava mais do que na hora do país valorizar o jeito do povo simples de falar e que as pessoas que falam o português padrão eram muito preconceituosas. Ainda tentei defender meu ponto de vista arrogante de redatora publicitária, mas ela foi incisiva: “Língua é cultura. E todo modo de falar de um povo tem que ser valorizado. Dei aula na zona rural durante anos e nunca disse para um aluno que falar “nóis vai” era errado. Quem sou eu pra dizer que meu jeito é melhor que o dele? Além disso, se eu falasse isso, perderia aquele aluno, pois ele não sabe falar de outra maneira. O pai, a mãe, os avós, todos falam assim. Primeiro, você tem que acolher e valorizar a fala da pessoa, para só depois, aos poucos, ir introduzindo outro jeito de falar e escrever.” Meus olhos foram arregalando enquanto ela continuava: “Quando adotei a leitura do livro 'Meu Pé de Laranja Lima' fui muito criticada, inclusive pelos colegas, justamente porque o livro traz frases escritas fora da norma culta. Mas eles queriam formar leitores dando José de Alencar logo de cara para as crianças!”

Soube que ela era júri da justiça criminal. Quando era convocada, passava horas e até dias à disposição do tribunal. “Tia, que saco!” E a caixinha de Pandora da Tia Lourdes continuava nos surpreendendo: “Não acho. É cansativo, mas faço com prazer. Alguém tem que olhar para que essas pessoas tenham um julgamento justo. A maioria dos que estão ali quer vê-los massacrados. Jogam esses rapazes na cadeia sem nem pensar no que isso significa. Eu tento sempre ver os dois lados e garantir que seja feita justiça e não vingança.”

Eterna moradora do centro de São Paulo e fumante inveterada, se indignava com as pioneiras leis anti-fumo da cidade: “Onde já se viu proibir o cigarro?! O mesmo direito que você tem de não gostar de fumaça, eu tenho de fazer fumaça".

Um infarto precoce agravado por uma doença pulmonar obstrutiva crônica limitaram muito sua vida, mas nem assim abriu mão de morar sozinha. Criou entre os zeladores, entregadores e guardadores de carro, uma rede de colaboradores que a ajudavam com sacolas e a apoiavam quando precisava parar para descansar, o que acontecia a cada poucos passos. Viveu os demais anos quase sem sair de casa, precisando dormir ligada à uma máquina que lhe bombava oxigênio.

Quando morreu, encontramos escondido pelo apartamento 17 pacotes de cigarro. Mesmo contrariando todas as ordens médicas e familiares, a danada continuou fazendo o que queria.

Tia Lourdes foi a tia Lourdes até morrer.


12.8.16

Dois pais



Dois pais. 

A filha de um deles tinha cinco anos e desenhava na mesa da copa. No calor tórrido do noroeste paulista, ela usava uma calcinha de crochê vermelho.

O filho do outro já era adulto e consertava o fogão da residência. Tinha tocado a campainha e perguntado se tinha fogão pra arrumar. Na boa fé das gentes do interior, ele foi colocado pra dentro e levado pra cozinha.

A menina não suspeitou quando o rapaz se aproximou por trás e pediu pra ver seus desenhos. Ficou feliz quando ele começou a elogiá-los. Só achou estranho quando, em meio aos elogios, sentiu os dedos dele entrarem por dentro da sua calcinha. 

Ele era tão simpático, mas aquilo era entranho. E, ao mesmo tempo que uma voz lhe dizia: “Isso não é nada, é só carinho", a outra incomodava: “O papai te faz carinho assim? Seus tios te fazem carinho assim?"

A menina resolveu afastar-se. Correu para o quarto da mãe, encolheu-se num canto e botou na boca o dedão que há anos não chupava.

Quando a empregada entrou pra guardar a roupa, olhou para a menina com olhos de ver. 

Minutos depois, a mãe correu pra vizinha e pediu pra usar o telefone. Ligou para o marido, tenente da polícia militar, e contou o que ouviu da empregada.

A radio patrulha chegou rápido e levou o moço algemado, diante do olhar curioso dos vizinhos e da molecada da rua.

O pai veio na sequência, pegou a menina e seguiu pra delegacia. Na sala do delegado, ele segurou-a no colo com carinho e ajudou-a a contar o que houve. Quando o delegado lhe perguntou onde o moço a tocou, a menina, envergonhada demais para falar, apenas olhou para baixo e apontou a virilha. O dedão não saía da boca.

O abuso ainda foi comentado por algumas semanas entre parentes, vizinhos e amigos, até que se perdeu na lembrança de quase todos. E a menina cresceu sem nunca saber o que houve com o reparador de fogão.

Quarenta anos depois, após o enterro do pai, ela caminha em direção ao carro quando a madrasta se aproxima.

“Tem uma coisa que seu pai me contou que não esqueço. É sobre o moço que abusou de você”

A filha se surpreende: apesar de nunca mais ter tocado no assunto, o pai não havia se esquecido. Ela escuta curiosa.

"Ele disse que na cadeia bateram muito no rapaz. Imagina! Em plena ditadura militar o cara faz uma coisa dessas com a filha de um tenente! Nunca iam deixar ele sair de lá vivo. Mas quando seu pai soube que estavam espancando o rapaz, ele correu para lá e pediu pra eles pararem.”

Os olhos da filha se enchem de lágrimas. A madrasta continua:

“Eu quis saber como ele conseguiu fazer aquilo, afinal o que o moço fez com você era imperdoável. Mas ele me disse que um crime não justifica outro. Seu pai era assim. E você acredita que, tempos depois, o pai do rapaz foi na sua casa agradecer seu pai por ter poupado a vida do filho dele. Olha que situação o encontro desses dois!”

A filha não consegue conter o choro. Abraça forte a madrasta que, sem saber, ajudou-a colocar um ponto final surpreendente numa história que há quarenta anos permanecia inacabada. 

Elas partem. Uma sem o pai, a outra sem o companheiro. Ambas com a certeza de que estavam se separando de um gigante.


Ilustração de Snezhana Soosh

27.5.16

"Pai meteu bebida na filha pra f... gostoso"



"Pai meteu bebida na filha pra f... gostoso"

Se você nunca entrou num site de filmes pornô amador, entre. Eu fortemente recomendo, especialmente se você tem filhos. Estes sites hoje são os principais responsáveis pela educação sexual das nossas crianças e adolescentes. Foi conhecendo esses sites que entendi a reação dos meninos do Piauí que, ao serem pegos após o estupro de uma garota, disseram que não haviam feito “nada de mais”. Eles estão certos. Pela educação recebida através desses sites, violar uma garota não é nada de mais. Pelo contrário, é gostoso, divertido e pura safadeza pegar meninas bêbadas na balada, arregaçar novinhas, expor garotas dormindo e todo um cardápio de abuso que vai além de qualquer imaginação. E não são só as imagens que chocam pela crueza e pela realidade com que a sexualidade é mostrada, cada vez mais distorcida. Os textos que descrevem os filmes são grotescos: “Pai meteu bebida na filha pra fuder gostoso”, “Acariciando a amiga bêbada”, “Comendo uma noiada por dez reais”, e por aí, tristemente, vai.

Desculpaê se estou sendo muito explícita, mas está na hora de pararmos com o nhém nhém nhém puritano e olharmos de frente para o que está acontecendo na vida dos nossos jovens e adolescentes. Enquanto ficamos discutindo se a escola tem ou não tem que ensinar sobre sexo, eles estão aprendendo na internet, desde a mais tenra idade, um sexo irreal, violento e distorcido.

Esses meninos e meninas são vítimas. Vítimas de uma sociedade que insiste em querer censurar professor, beijo gay e que agora quer dizer o que pode ou não pode dentro de sala de aula, mas não liga a mínima pro que está rolando no celular da molecada. Uma sociedade que acha graça que suas filhas e filhos dancem “Baile de Favela” e cantem bem alto o refrão “e os menor preparado pra foder com a xota dela” e que as minas vão “voltar com a xota ardendo”, mas que se escandaliza se uma pessoa transexual quer ser chamada de Pedro ou Lúcia.

Se queremos empoderar nossas meninas e criar meninos melhores, a educação sexual se faz urgente. Uma educação sexual que os faça refletir sobre o que veem na rede e que seja um contraponto para o sexo doente e distorcido que eles assistem nesses sites. Essa realidade pede pais atentos, abertos para falar de sexo e tirar dúvidas, mas também pede especialistas. Gente qualificada para conduzir esse debate de maneira técnica, desprovida de julgamentos morais e que conduza à uma reflexão saudável. E isso só é possível através dos educadores. Aliás, para muitos, o ambiente escolar será o único local onde terão acesso a uma conversa mais esclarecedora sobre sexualidade. Proibir a educação sexual nas escolas é manter operando a máquina de formação de homens que acham que estuprar mulheres não é “nada de mais”.

Está na hora de nos despirmos de pudores, de vergonha e olharmos para o problema de frente. Sem medo. 

Entre nos sites, pesquise, reflita. Se precisar de algum endereço, peça ao seu filho.



P.S: não entrei no mérito de proibir ou não o celular e etc, pois com a mobilidade, o que seu filho não vê no celular dele, ele vê no do amigo. Esquece a história de computador na sala onde todos têm acesso. Isso virou pré-história. O jogo agora é outro.

9.5.16

O dia das mães é uma merda!



O dia das mães é uma merda!

As tias contam que sua mãe, já falecida, havia sido uma menina “terrível”. Os causos que justificam tal adjetivo são muitos. Desde pequena, a mãe nunca gostou de usar roupas. A vó teve que costurar suspensórios nas suas calçolas para ela não conseguir arrancá-las e sair peladinha por aí.

Era briguenta como o cão. Uma vez, voltando da escola, ao ser perseguida por um bando de moleques, pegou um ramo de primavera que encontrou numa pilha de podas e foi pra cima deles, botando todos pra correr. 

Contam também que ela amava plantas. A ponto de transformar qualquer lata de Parquetina, óleo, banha, sabão, em vasinho de flor. Um dia, para provocá-la, o irmão mais velho destruiu todos os vasinhos. Irada, ela atirou-lhe uma chave, que naquele tempo eram imensas, e quebrou-lhe um dente.

Adorava brincar de trapezista e uma de suas brincadeiras preferidas era rodopiar no varal, até que um dia caiu e quebrou o coccyx. A filha se lembra dela ter-lhe confessado que sonhava em um dia fugir com o circo.

Crescida, era obrigada a namorar na frente de casa, debaixo do poste de luz. Pois a menina “terrível” estourava as lâmpadas com estilingue para poder beijar no escurinho, fora da supervisão dos pais e, pior, dos irmãos.

O pai queria que ela fizesse o normal, como todas as filhas. Mas ela se recusou. Queria ser enfermeira, para desgosto dele que, naquele tempo, achava que as enfermeiras eram putas de médico. Ela não deu bola, seguiu em frente, cursou o que quis, teve uma carreira linda e virou um dos maiores orgulhos do velho.

Um dos episódios mais engraçados, que entrou pro almanaque da família, foi no Dia das Mães. Durante toda a semana, as rádios tocaram sem parar uma música que dizia “o dia das mães é sagrado, é sagrado, é sagrado”. A música era repetida insistentemente e a homenagem emocionava mamães, que faziam coro cantarolando junto. No dia sagrado, com a parentada reunida na sala e as crianças razoavelmente engomadas, a menina pequenininha, vestida só de calçola e suspensório, pediu silêncio porque ia fazer uma apresentação. Quando todos se calaram ela se posicionou teatralmente como uma rainha do rádio e cantou no ritmo da canção: “O dia das mães éuma merda, é uma merda, é uma merda!”. Comoção geral, a vó tentou agarrá-la para clássica chinelada no bumbum, mas a menina gargalhando, disparou na direção da janela feito um corisco, deu uma ponta e desapareceu por horas nas profundezas do quintal. 

Depois de adulta, a mãe contava que fez aquilo porque não aguentava mais ouvir aquela música. E sorria, feliz. 

A filha se lembrou do episódio, diante do festival de cor de rosa, laços, gatinhos, frases edificantes, vídeos, “lindo!” e “obrigada, meninas”, das redes sociais e do whatsapp no Dia das Mães. E pela forma como reagiu a ele, acredita que não era só a personalidade da mãe que era terrível. Seus genes também. 

Desligou o celular, deu uma ponta pela janela e só reapareceu horas depois. Sorrindo, feliz.



12.4.16

Solo pobre



O aluno de 12 anos sente-se profundamente injustiçado pela reprimenda da professora e, diante da recusa dela em ouvi-lo, deixa escapar toda sua indignação: “Ah, vai se fuder, Fulana…não fui eu que fiz isso!”

O palavrão dispara a indignação da professora que começa a berrar. Seus gritos ecoam pela escola e são ouvidos até do segundo andar do prédio - punição número 1.

O garoto é mandado para a coordenação - punição número 2.

Lá, tenta se explicar em vão. Aparentemente, nessa escola, dizer um palavrão ao professor é o mais grave delito. Tão grave que lhe priva o direito de ser ouvido - punição número 3.

Ele é mantido na coordenação durante toda a aula e recreio - punição número 4.

Recebe uma advertência para levar para casa - punição número 5.

É encontrado tempos depois pelos colegas, sozinho num canto, chorando convulsivamente. As crianças se solidarizam com o amigo. Na vergonha. No excesso das punições. Na perda do intervalo. No berros da professora. No palavrão que podia ter escapado da boca de qualquer um deles.

Temem que ele seja suspenso. Querem fazer uma camiseta “Resiste Beltrano”. 

Mesmo com tanta aridez, a meninada ainda é capaz de fazer brotar algo lindo. Imagino o que seriam capazes se o terreno fosse fértil, generoso, acolhedor.

E quando olho pra esse solo pobre, empedernido que tem a pretensão de colher gente melhor, adubando com bronca, bilhete e berro, só uma expressão me vem à mente:

“Ah, vai se fuder.”




6.4.16

Chá de Revelação



“Amoras, fui convidada para um Chá de Revelação.”

“Chá de Revelação? Qué isso?”

“Tentem adivinhar?”

“Já sei…o garoto ou a garota convida a família: vó, vô, pai, mãe, tio, primos, babá, vizinhos. Senta todo mundo na sala e, de repente, sai de dentro do armário. Revela que é gay. E as pessoas tem que levar presentes pra montar o novo guarda-roupa.”

“Ai, eu já pensei outra coisa…você convida família, amigos, galera, senta todo mundo em círculo e serve um chá tipo lírio, sei lá, desses de erva que abre a mente, sabe? Daí o chá vai circulando enquanto as pessoas compartilham suas revelações.”

“Não, gente. É uma piração beeem maior.”

“Maior? Então só pode ser reunir todo mundo pra tomar o chá revelador e, quando tá todo mundo locão, o fulano ou a fulana pula de dentro do armário.”

“Não, pior ainda. Chá de Revelação é convidar os parentes e amigos pra revelar o sexo do bebê depois do ultrassom.”

“Sério! Existe isso?! Que bizarro!”

“Menina, as pessoas hoje em dia têm cada ideia, não?! Quem ia pensar uma coisa dessas? Sexo de bebê agora é evento?”

“Como será? Tem tipo gelo seco e datashow com slides do pintoco ou do capozinho de Fusca aparecendo no ultrassom?”

“Sei lá, nunca fui em um! Mas não perco por nada!”

“É, tem que conferir. Mente criativa dessa turma, não?”

“Demais. E a gente achando que já viu de tudo…passa o chá, por favor. É camomila? Tem de lírio, não?”


29.3.16

O criado-mudo.




A mãe mexe no celular quando o filho, rapazola, se aproxima:

“Mãe, o que é isso?”

Ela responde sem olhar:

“Isso o quê?”

O moleque bufa:

“Isso! O que é isso que achei na gaveta do seu criado-mudo?!”

A mãe levanta os olhos e vê o garoto lhe apontando um objeto. Ela responde calmamente, sem mudar de expressão:

“Um vibrador. Você sabe o que é isso.”

O menino arregala os olhos:

“E o que isso está fazendo na sua cabeceira?"

A mãe ergue uma sobrancelha e, incorporando a diva de cinema mudo, devolve calmamente:

“Você quer mesmo que eu te explique?”

O adolescente franze o rosto com asco:

“Ai...que nojo! Você é minha mãe! Eu não estou pronto para saber dessas coisas.”

A mãe estica a cabeça e faz cara de quem não está entendendo:

“Bom, se você não está pronto, por que mexeu no meu criado-mudo? Não sabe que em criado-mudo de mãe não se mexe? Criado-mudo é zona proibida. Você procurou e achou. Agora seja mocinho e lide com esse fato da vida.” 

O menino exclama indignado:

"Da minha vida, né?! Porque tenho certeza que as mães dos meus amigos não têm um negócio desses na cabeceira."

A mãe sorri:

"Não sei. O que elas guardam no criado-mudo não é da minha conta e nem da sua."

“Eu...eu...não quero ter essa conversa com você! É muito nojento!”

A mãe conclui, antes de voltar para o que estava fazendo: 

“Você pode não querer falar, mas agora não tem como não saber: sua mãe tem um vibrador.”

O menino ergue a voz enquanto se afasta:

"Mãe, você é RI-DÍ-CU-LA!”

A mãe devolve no mesmo tom:

“VI-BRA-DOR! Serve para GO-ZAR. Agora, coloca direitinho de volta no lugar, tá bom, bebê? Não quero ter que ficar procurando."

"ARGH!"


Foto de Lachmanifesto

23.3.16

A escola na sala de jantar.



Ontem, só ontem, enquanto assistia ao filme Hannah Arendt, um pensamento me invadiu fino e fundo, como uma agulha de tricô e me virou o estômago e a mente: eu sei pouco, muito pouco ou quase nada sobre o nazismo.

Um dos maiores crimes da atualidade contra a humanidade, com 6 milhões de pessoas sistematicamente assassinadas, e o que sei sobre o processo que levou uma sociedade dita civilizada a cometer tamanha atrocidade? Nada.

O pensamento é talvez o mais rápido download que existe. Na mesma hora me conectei com a escravidão. Milhões de seres humanos arrancados de suas vidas e transportados como gado para servir de mercadoria. E o que sei realmente sobre esse fato, suas causas e consequências no mundo em que vivo? Praticamente só o que aprendi nas novelas das seis da Globo.

Foi difícil continuar prestando atenção no filme. Vendo Hannah dar aula, refletindo de maneira tão aprofundada com os alunos sobre a natureza humana, me ocorreu que estudei numa escola estadual durante a ditadura militar. Só 30 anos pós Segunda Guerra - ontem, em termos de história - e nunca um professor conversou conosco sobre esse conflito. Todos os esforços educacionais eram concentrados em nos fazer decorar capitais, datas e nomes de pessoas importantes. Eram aulas estéreis, emburrecedoras, a serviço dos generais.

A escravidão me foi ensinada como algo banal, coisa da vida, que aconteceu no passado e acabou graças a uma princesa branca, cheia de bondade. 

O holocausto indígena nas Américas, nunca ouvi falar. 

Nem de Getúlio Vargas, JK, Che Guevara, Mussolini. Pouco aprendi sobre a revolução francesa e menos ainda da revolução chinesa. Sei lá porque tem duas Coréias e mal entendo como podia ter um muro bem no meio de Berlim.

Sem minimizar de forma alguma o horror das torturas, hoje considero que um dos principais crimes da ditadura foi nos tornar rasos. Somos uma geração de humanos que sabe nada sobre a nossa própria natureza. Refletimos muito pouco sobre o que somos capazes, tanto para o bem como para o mal. Somos arrogantemente vazios e desprovidos de empatia.

A ditadura acabou, mas nossa escola até hoje não conseguiu se livrar desse modelo. Reconheço que há um movimento ainda incipiente de reflexão sobre causa e consequência das ações humanas e de desconstrução de heróis duvidosos, principalmente nas disciplinas da área de humanas. Mas, em geral, a maioria das escolas permanece congelada nos tempos da ditadura, onde toda e qualquer discussão de natureza “polêmica” é evitada. Como se o debate, num local de aprendizagem, fosse ruim! Classifica-se agora como "esquerdista" qualquer reflexão que se evita na sala de jantar e a escola acaba se tornando uma extensão das famílias e não um ambiente distinto de aprendizado. 

Assim continuamos a formar gente que não sabe o que dizer diante de um tema como a violência contra a mulher. Que se escandaliza quando escuta que o trabalhador doméstico deve ter direitos. Que é descendente de imigrante e é contra a imigração, como se seu antepassado tivesse aportado aqui de férias e resolvido ficar por conta do sol tropical. 

Qualquer guru chinfrim de autoajuda sabe que só conseguimos nos transformar quando olhamos para nossos próprios atos, refletimos e aprendemos com eles. Se um dos papéis da escola é transmitir às próximas gerações o conhecimento humano adquirido até aqui, como impedir a reflexão sobre os erros e acertos do nosso passado coletivo? 

Quando um determinado tema dói, irrita, choca, é sinal que o assunto ainda precisa ser debatido. E esse debate tem que ser feito na sala de aula. Os generais se foram. E a escola vai sair quando da ditadura?

20.3.16

“Professora, e seu eu te chamasse de vadia?”



A sala do sétimo ano estava dispersa e, no meio da confusão, um garoto chama um grupo de alunas de vadias. Elas ficam muito indignadas e procuram a autoridade presente: a professora.

A professora não dá bola. Negócio de criança, coisa da idade.

A indignação aumenta. As meninas ficam ainda mais exaltadas e alguns garotos resolvem sair em defesa delas: “Ô profa, o moleque chamou elas aqui de vadias! Você não vai falar nada?!”

A professora olha com cara de quem está cansada daquilo tudo e diz: “Depois vocês resolvem isso...lá fora no intervalo.”

É quando um dos meninos a interrompe dizendo: “Profa, depois?! E se fosse eu que te chamasse de vadia? Você ia querer resolver agora ou depois?”

O episódio ilustra bem como a construção da ética e do respeito nas relações ainda é uma realidade distante nas nossas salas de aula. E como a indignação do adulto é tratada com muito mais atenção do que a infantil ou juvenil.

Na visão de muitos educadores, um conflito só é digno de ser trabalhado quando envolve o educando e a autoridade. Conflitos entre os pares, isto é, entre crianças da mesma idade, é visto como coisa da idade. Mesmo quando trata-se de algo que, se não trabalhado, o educando pode levar para a vida, como nesse caso, o desrespeito às mulheres. 

Trabalhar o problema não é culpar o menino ou castigá-lo, com as costumeiras broncas e advertências que não servem pra nada. Um conflito bem elaborado é quando ele é visto como uma oportunidade valiosa de aprendizado, para todos os envolvidos. Tem coisa mais rica que flagrar um momento de desrespeito, quando o autor ainda tem idade para refletir sobre seu ato e se transformar? Tem algo mais precioso do que valorizar a indignação das vítimas e empoderá-las, para que procurem sim uma retratação? Tem momento mais imperdível do que apoiar os que saíram em defesa dos agredidos e valorizar essa postura tão rara de se ver no mundo adulto? Tem reação mais importante do que deixar claro para todos que estão na sala de aula que determinadas atitudes não são aceitáveis em hipótese alguma na vida em sociedade?

Mas a professora preferiu ignorar. E as meninas seguem vadias. E os garotos seguem vazios.

Termino narrando um episódio testemunhado na Espanha, onde, por lei obriga-se as escolas a trabalharem a moralidade e as questões de gênero. Houve um conflito durante a aula de matemática, curiosamente, a mesma disciplina da professora citada nesse texto. O professor interrompe a aula e discute com a sala o ocorrido. A visitante brasileira que observava o episódio dirige-se mais tarde ao educador e pergunta o motivo dele ter parado a aula só para resolver uma briga de criança. E o professor responde: “Sempre que temos um conflito, interrompemos a aula e conversamos. Porque aprender a se relacionar é mais importante do que aprender matemática.”