13.10.17

O beijo do fuzil




O beijo do fuzil

Tem gente que nasce em berço esplêndido.

Tem gente que nasce virada pra lua.

Marisa nasceu preta e favelada.

Virou doméstica, diarista, ambulante e foi se virando que conseguiu dar pro filho um casaco e um boné de marca. 

Tem menino que quer ir pra Disney. 

Tem menino que quer ir num jogo da Champions. 

O dela queria vestir o boné e o casaco da vitrine. 

Foi o vizinho que acordou Marisa. Corre lá que os PMs tão dando um esculacho no seu filho e na sua filha. 

Marisa salta da cama e chega na cena de pijama. Meus filhos não são traficantes, não senhor. Essas roupas de marca eu comprei na prestação. Sou trabalhadora, aqui não tem nenhum bandido.

A roupa é do shopping, mas e o radiocomunicador, heim?

Tem rádio aqui não, senhor.

O PM resolve aplicar sua própria justiça. Manda Marisa bater nos filhos. Senta mão neles, mas senta forte, que senão batemos nós.

Marisa nega. Nunca bati em filho meu, não vai ser agora, senhor. Eles não fizeram nada.

Os PMs ficam putos. Um deles vem por trás e dá uma coronhada de fuzil na nuca de Marisa. Ela cai e eles partem. Piranha.

Os filhos levam a mãe pra casa, pra UPA, pro hospital e de lá pro velório. Só não teve enterro porque a PM quer apurar se o aneurisma que a matou foi decorrência do trauma causado pelo beijo do fuzil.

O processo está na gaveta, assim como o corpo de Marisa.

Tem gente que morre de amor.

Tem gente que morre de tédio.

Marisa morreu de Estado.

6.10.17

Maconheira do Cristo




Maconheira do Cristo

Conheci Suzi em um bar em Perúgia e logo no primeiro parágrafo ela conta que é evangélica e toma antidepressivos porque tem uma forte depressão desde a adolescência. Talvez quisesse justificar seu simpático jeito meio atrapalhado falar, emendando uma história na outra e, muitas vezes, perdendo o fio da meada. Nessas horas, ela dá um suspiro, olha pra cima e diz: “Nem lembro mais o que eu estava falando.” Eu também não lembro, mas a gente logo engata noutro assunto e a prosa flui non stop.

Mora na Itália há dois anos e no início tinha muito medo de se tratar com os médicos locais: “Aqui não tem muita gente deprimida, então eles não tem muita experiência com essa doença…não é como no Brasil que qualquer psiquiatra é super especialista nisso”.

Enquanto pede outra cerveja, diz que quer parar com os remédios porque gosta de beber. “Bebo muito, sou cachaceira mesmo”. 

“Mas Suzi, e a Igreja?”

“Eu sei que não devia, mas pago meu dízimo e qual o problema da gente se divertir um pouco? Não é isso que desagrada o Senhor”.

Digo que é primeira vez que vou naquele bar. Ela avisa que ali é um reduto de comunistas. Mas frisa que são todos muito gente boa, diferente dos comunistas insuportáveis do Brasil. E que todo mundo é ateu. “Eu sou a única que acredita em Deus aqui. Devagarzinho vou tentando fazê-los escutar a palavra do Senhor, mas eles não ligam muito. Eu gosto de dar bíblias, já dei uma pra cada um. E um calendário com salmos. Fiquei superfeliz de ver que meu calendário continua em cima do balcão e que eles destacam uma folhinha por dia. Devagarzinho, a Palavra vai entrando.”

Deixa escapar que já fumou muita maconha. “Muita mesmo. Eu comia com farinha!” Dou risada e pergunto se ainda fuma.

Ela olha de um lado para o outro e sussurra que ainda dá seus pegas, mas que ninguém pode saber porque os pegas aqui pegam mal.

Pergunto se poderia me arrumar um pouco. Ela diz que pode me apresentar algumas pessoas. Explico que não é o caso, porque não como com farinha. Um beque me faria feliz por uns meses. “Te dou a grana e quando você pegar, me dá um pouquinho, pode ser?”

Ela nega e explica: “Se eu tocar no seu dinheiro, estaria fazendo tráfico. E tráfico eu não faço.”

Paro alguns segundos para tentar entender a lógica. Desisto. Tento argumentar que não é tráfico: “É compartilhamento. O Senhor não nos ensinou que devemos compartilhar, Suzi? Ajudar os necessitados? Então, me ajuda, poxa…”

Ela desconversa e muda o rumo da prosa, o que faz com uma habilidade incrível.

Quando estou indo embora, ela abre a bolsa e me dá um presente encapado caprichosamente com um papel de seda cor de rosa. Sinto o imenso carinho que ela coloca nesse ato e fico emocionada.

Volto do bar com uma Bíblia e sem o beque.

Tempos estranhos.

16.9.17

O cornuto




O cornuto

Quando saio bicicleta, volta e meia passo numa esquina onde há sempre um velhinho sentado em uma cadeira de rodas, tomando sol e olhando o movimento.

Numa dessas vezes ele acenou para eu me aproximar.

Sinal verde. Velhinho fofo, italianíssimo, carismático e eu desesperada por uma socialização. Bora parlar.

Mal me aproximo e ele começa a falar sem parar numa voz rouca e baixa. Explico que ele precisa falar mais devagar pois não falo bem o italiano. Ele abre um sorrisão, que eu diria até safado, se tivesse todos os dentes. Diz que logo viu que eu era gringa e que sou belíssima!

Elogio na minha idade não importa de quem, quando e onde vem. Aceito, obrigada! Nos apresentamos com um aperto de mão. Ele me diz que se chama Vitório. 

Gentileza daqui, gentileza de lá, eu já ia dando arrivederci, quando ele diz que na Itália amigos se abraçam.

Sinal amarelo. O abraço não é tão comum por essas bandas onde estou, sendo que até as mulheres se apertam as mãos. Também não é incomum, mas nada no nivel de escancaro do brasileiro que já chega com o fungo a nuca.

De todo jeito, meu lado esquerdista vai pra Cuba hippie do novo milênio mais amor por favor falou mais alto e toca eu compartilhar um abraço com o frágil senhorzinho.

Pois no destrambelho de abraçar com uma mão e segurar a bicicleta com a outra, o danado me puxa, tenta me dar um beijo e colocar a mão nos meus peitos.

Sinal vermelho com alarme antimíssil. Empurrei-o, dei um salto pra trás e gritei indignada: “Vitório!”

Ele me olha com a cara de choro mais comovente do mundo e diz: “Me desculpe, sou muito sozinho. Preciso tanto de companhia”.

“Cadê sua esposa?!”, pergunto, ainda bem brava com ele.

Dando de ombros e com cara de desprezo, ele responde: “Me largou. Saiu pelo mundo com um homem mais novo…sou um cornuto!”

Não consegui segurar a risada. Ele ri também. 

Feliz pela Sra. Vitória, rapidamente me afasto, balançando a cabeça rendida. Quando criaram os italianos os Deuses deveriam estar de muito bom humor.



13.9.17

Contém zoofilia, adultério e degeneração familiar



Contém zoofilia, adultério e degeneração familiar 

Era uma vez uma princesa, chamada Leda. Ela era tão linda, mas tão linda, que logo apareceu um rei querendo esposá-la. Leda aceitou e eles foram viver no Reino de Esparta. Todos os dias, depois de tomar seu café da manhã de rainha, Leda deitava-se na grama para um delicioso banho de sol. Naquele tempo não tinha biquini, então Leda ia nua mesmo. 

Esse arreganhamento todo chamou a atenção de um cara do andar de cima, chamado Zeus. Zeus pirou no corpão da moça e fez um plano para possuí-la. Transformou-se num cisne e assim conseguiu entrar no jardim da rainha. Ao ver aquela ave com aquele pescoção, Leda não resistiu. Voou pena pra todo lado. 

Naquela noite, Leda ainda transou com o rei Tíndaro. O resultado desse dia muito louco foi uma gravidez que deu a luz a dois ovos. De um dos ovos nasceram as gêmeas Helena e Clitemnestra e do outro, Castor e Pólux. Naquele tempo também não tinha DNA, então não se sabe até hoje com certeza quem era flho de Zeus e quem era filho de Tíndaro. 

A história da mulher que trepou felizona com uma ave (ou não e, nesse caso, teríamos que colocar mais um aviso no título - estupro), chama-se “Leda e o Cisne” e foi contada há milhares de anos por vários escritores da mitologia grega, como Virgílio e Homero. É tão sedutora, que grandes mestres da pintura, escultura e fotografia renderam-se aos seus encantos, como Michelangelo, Leonardo da Vinci, Rubens, Tintoretto, Cezanne, Klimt, Salvador Dali, Man Ray e muitos outros. Leda e o Cisne também virou peça de teatro, balé e um famoso poema de Yeats, prêmio Nobel de literatura. 

Uma história que transforma o grotesco em beleza e que teria se perdido se, naquele tempo, os mecenas da arte tivessem dado ouvidos ao arrulho dos puritanos medíocres. Não deram, graças a Deus ou a Zeus.

Artist:

Adolf Ulrik Wertmuller

 (Swedish, 1751–1811)

31.8.17

Faltam culhões



Faltam culhões

Aurora, a bionda, é uma calabresa baixinha, de pele bronzeada que contrasta com o forte descolorido dos cabelos. Adora usar vestidos curtos, saias rendadas e sapatos de salto bem alto, que a fazem caminhar com uma certa dificuldade pelas ruas de pedra do centro histórico de Spoleto, na Itália central.

É minha vizinha de porta e toda as vezes que nos encontramos, deixa claro como sente falta do sul do país. É raivosamente infeliz aqui. Não gosta do povo que acha frio e esnobe, e diz isso empinando o nariz e alisando-o de baixo para cima com o indicador. Também não gosta do pão, do clima e sente falta dos peixes comprados diretamente dos pescadores que aportam nas praias de sua Catanzaro.

Convidou-me para um café. Mostrou-me fotos da família e do marido falecido há seis anos. Era um homem belo. Acende um cigarro para contar que foi um câncer de pulmão que o levou tão cedo. Depois dele, nunca mais teve outro homem: “Sou fiel!”. 

Com a morte do pai, os filhos a trouxeram para perto. Alugaram um apartamento em Spoleto onde ela vive na companhia do filho solteiro de 28 anos. Sente-se prisioneira nessa cidade de muros e palácios, mas não volta pra Calábria porque não pode abandonar o caçula. 

Fomos juntas à piscina municipal. O dia seguia preguiçoso e quente, quando, no guarda-sol ao lado, instala-se um homem bonitão, ainda jovem, já de cabelos grisalhos.

Aurora me cutuca enquanto faz um gesto sutil na direção do nosso vizinho: “Não gosto dos homens daqui. Não são viris. No Sul, os homens são viris. Capisce viris? Eles gostam das mulheres.” E faz um gesto com os braços que interpretei como sendo “os calabreses tem a maior pegada”. 

Aurora continua: “Os homens no Sul são gentis, nos protegem. Quando você chega na estação com a mala, nem precisa pedir e eles vem correndo te ajudar a descer do trem e carregá-la." E fico imaginando quem não ajudaria aquela figura pequenina, desequilibrada nos saltos, carregando uma bruta mala. Aurora continua: “Aqui, nem pensar! Se bobear, te empurram pra você sair da frente. Não, não…não gosto dos homens daqui. No sul eles são mais masculinos, são mais…homens!”.

Aurora me pede para descrever os homens no Brasil. Depois de conduzir a conversa e se certificar que também temos nossa cota de homens gentis e viris, ela faz um pequeno sinal por baixo dos óculos escuros para eu olhar para o nosso vizinho e sussurra: ”Olha os culhões.”

Eu discretamente passo um scan nos países baixos do rapaz. Antes que eu pudesse dar qualquer opinão, Aurora me cala com sua risada e ares de especialista: “Os homens daqui não tem culhões!”. E faz um gesto no ar como segurasse uma bola de tênis com a palma da mão virada pra cima. “Capisce culhões?”

Capisco, ô se capisco. E capisco que tenho que ir logo conhecer esse tal de Sul.



12.8.17

O naná esquecido



O naná esquecido

Quando pequeno, o irmão tinha um “naná”. Um cobertor de berço que ele carregava pra todo o canto desde que nasceu.

Tinha um tom encardido e um cheirinho azedo, mistura de sujeira, xixi, suor, suco de fruta, biscoito e outros nojinhos que compunham o aroma que o menino adorava sentir enquanto chupava o dedo e alisava as bordas puídas.

Lavar o naná era proibido. Nas poucas vezes que o fizeram escondido, o resultado era um furioso ataque de indignação diante da traição revelada através do perfume do sabão Minerva.

O jeito era dar banhos de sol e torcer para que o calor escaldante do interior paulista desse uma amortecida nos germes. 

Eram os anos 70 e, um dia, o pai anuncia uma ida pra longínqua cidade de Caraguatatuba. “Vamos ao mar!”

Mil preparativos para enfiar a família de cinco filhos na Caravan. Malas, despesa de supermercado pra vinte dias, boias, pranchas de isopor e 7 horas de estrada.

Chegam exaustos e na hora de dormir, bate o desespero: “Cadê o naná?” 

Reviram malas, carro, sofá e nada. Os pais se entreolham em pânico: “Esquecemos o naná!”

O menino chora com emoção e não tem colo, chazinho, sorvete, historinha e nem cantiga de ninar que o acalme. A choradeira acabou sendo controlada, mas nada do moleque dormir. Crise de abstinência das brabas.

Onze da noite, a mãe decide: “Vamos à cidade comprar outro naná!”

O pai resmunga: “A essa hora não vai ter nenhuma loja aberta”

A mãe ignora - era dessas: “Todo mundo pro carro. Vamos comprar um naná igualzinho.”

As filhas mais velhas dão risada. “Quem vai fazer xixi nele?”

A mãe manda ficarem quietas, enfia todo mundo na Caravan e toca pro centro de Caraguá.

O comércio estava todo fechado e o pai já ia quase retornando, quando a mãe pede pra parar o carro, desce e vai falar com um homem que caminhava pela na rua. Ele aponta pra outra pessoa, que indica outra e mais outra e essa corrente acaba na frente da casa do dono da loja de artigos de cama, mesa e banho.

A filha pré-adolescente afunda no banco do carro, envergonhadíssima de ver a mãe tocar a campainha da casa de um desconhecido, quase à meia-noite. 

Atende uma mulher de camisola. A mãe explica a situação e a mulher, solidária, entra pra chamar o marido, que aparece no portão de roupão, segurando um molho de chaves.

Ele caminha até a loja, abre as portas de aço, acende as luzes e a família invade em busca do novo naná.

É difícil substituir um grande amor. O menino testa cada opção como um somelier, sentindo textura, aroma, densidade e, o teste final, a alisadinha enquanto chupa o dedo.

Trinta cobertorzinhos depois, com o dedão já fininho e todo o estoque da loja vindo abaixo, o menino solta: “Pode ser esse!”

Festa na floresta! Lojista, esposa, guarda noturno, família e vizinhança se abraçam e comemoram: “Achamos um naná!”. 

A família volta pra casa em estado de graça. No caminho, o menino ainda ameaça um muxoxo de recaída. Mas a alegria era tão grande que ele se rende e entra no clima. 

A mãe respira aliviada.  A fila andou.  Missão familiar cumprida com louvor. Vamos pra próxima.


23.6.17

A xota na TV




A xota na TV

Lado A

O menino assiste TV. De repente, sua série preferida é interrompida por uma xoxota gigante, 42 polegadas, em close ginecológico.

Ele pula do sofá e sai gritando pela casa:

“Tem uma xoxota na TV! Tem uma xoxota na TV! Mãe, mano…quem tá vendo pornô?”

A mãe e o irmão mais velho chegam rapidamente. O irmão é o primeiro a falar:

“Nossa, é mesmo! Tem uma xoxota na TV! Você tava vendo pornô, Fulaninho?”

“Eu não! Tava vendo uma série. De repente essa xoxota aí apareceu na frente da TV”.

A mãe faz expressão de brava:

“Se não foi o Fulaninho, foi você, Beltrano. Você tava vendo pornô?”

“Não, né. Tava estudando pro vestibular. Nossa, como será que isso aconteceu? Será que foi o vizinho?”

O pequeno olha pra tela intrigado:

“Olha, ela está deitada em cima de uma toalha cor de rosa. Epa, pera aí…Mãe! Você está enrolada na mesma toalha! ESSA XOXOTA É SUA!!!!!”

“Que absurdo! Claro que não! Como minha xoxota ia aparecer na TV?! Vocês ficam vendo putaria e querem por culpa em mim!”

O filho mais velho pega o controle remoto e desliga a TV, ao mesmo tempo em que dá o veredito final:

“Mãe, essa xoxota é sua.”

“Credo, mãe…que nojo!”, diz o filho menor, “Já pensou se estou com meus amigos?!”

A mãe sai da sala xingando enquanto se enrola melhor na toalha rosa.


Lado B

A mãe está deitada na cama, após uma sessão de depilação caseira.

Essa sessão tinha sido diferente. Eliselma, a depiladora, havia sugerido um novo modelito e a mãe, que nunca foi de inovação nessas partes, resolveu aceitar.

Eliselma tinha acabado de sair e a mãe ficou curiosa pra ver o resultado.

Não tinha espelho à mão, daí se lembrou que os filhos usam o celular pra tudo. Resolveu imitar. Pegou o celular, mirou, localizou e bateu a foto.

Na mesma hora ela escuta o filho menor berrar:

“Tem uma xoxota na TV! Tem uma xoxota na TV! Mãe, mano…quem tá vendo pornô?”

A mãe entra em pânico! O celular pula da sua mão. Não sabe o que apertar pra desfazer.

Se enrola na toalha e corre pra sala. O que vê na tela a deixa em estado catatônico: sua xereca escancarada em Kodachrome Dolby Stereo 3D High Definition.

Não tem noção de como conseguiu o feito, mas tem certeza que aquela xoxota é sua.

Resolve manter a autoridade e pergunta com voz dura quem estava vendo pornô. 

O plano estava indo bem, mas tinha a toalha. A maldita toalha rosa. A mesma do xoxotão. 

O pequeno é esperto e logo liga o lé com o cré: “MÃE, ESSA XOXOTA É SUA!!!!!”

A mãe decide sair de campo, mas sai xingando.

Epílogo

À noite na hora da janta, as histórias se unem e tudo se esclarece diante do pai que cai na gargalhada.

A mãe ainda não entende esse negócio de emparelhar celular com TV. Mas aprende que em caso de intimidades deve antes desligar o wi-fi ou, melhor ainda, usar um espelho.

Naquela noite, acordou umas cinco vezes assustada com a sensação de estar sendo observada.

Naquela semana, teve que conviver com o pequeno berrando pela casa: “Atenção, atenção! Vazou um nude da mãe!” 

E, para o resto da vida, todas as vezes que alguém estava com dificuldade em conectar o celular na TV, escutava um dos filhos dizendo em voz alta:

“Chama a minha mãe que ela te ajuda”.



15.6.17

Largo da Batata






Largo da Batata

Conheci Rafael no busão. Gato. 

Eu tinha pouco mais que 20 anos, recém separada, com um filhote pequeno e trabalhando de babá.

Uma hora e meia de condução pra ir pro serviço. Duas horas pra voltar. 

Rafael era a parte mais legal do meu dia. Minha mão suava e meu coração disparava quando aqueles olhos verdes safados sorriam pra mim.

Casei com 18 anos, virgem. Conheci meu marido na igreja. 

Nossa grana era pouca, então mantive meu emprego de babá que pousava na casa dos patrões e folgava a cada 15 dias.

Demorou pouco pra descobrir que nos dias que eu estava no serviço, meu marido trepava com outra na nossa cama.

Arrumei outro serviço de ir e voltar todo dia, assim mesmo não deu certo com a gente.

Separamos. Mas o pastor disse que meu casamento era eterno. 

Tentei me manter fiel, mesmo depois da separação. 

Daí o busão me trouxe o Rafael. Gato.

Transamos pela primeira vez num quartinho de pensão no Largo da Batata.

Rafael era um tesão e com ele senti o que nunca senti com o Sérgio, meu ex-marido.

Uma noite, Rafael tirou a camisinha do pau sem me avisar e continuou metendo. Eu só percebi quando senti o gozo descer nas pernas.

Fiquei assustada, mas não entendia muito das coisas. Não disse nada e nunca mais peguei o mesmo ônibus.

No mês seguinte a menstruação não veio.

No outro também. Só no terceiro mês tive coragem de ir na farmácia comprar o teste.

Dois risquinhos

Positivo

Caralho

Disso tudo só me lembro do pânico. Como eu ia fazer? Já tinha um filho pequeno que dependia de mim. 

Minha patroa também estava grávida. Se soubesse da minha gravidez, certeza que ia me mandar embora.

Não contei pra ninguém e mantive o serviço. Tudo que ela não podia fazer por causa da gravidez, eu fazia. Erguer peso, carregar compra. A barriga dela crescia e ela exibia orgulhosa. A minha eu disfarçava com roupa larga.

Rezava pra Deus me ajudar a não ter que encarar o povo da Igreja. Como ia explicar que engravidei de um cara que me comia no Largo da Batata, comigo ainda casada na casa de Deus. 

Um dia tive muita contração. Foi a primeira vez que faltei do serviço.

No pronto-socorro me disseram que eu tava ganhando nenê. E me deram bronca porque não fiz pré-natal.

Maria Luiza nasceu com pouco mais de 5 meses de gravidez.

Minha bebezinha galeguinha viveu só uma semana na UTI. 

Quando a enfermeira me contou que ela não tinha vingado, chorei um choro fininho, que vem do fundo da alma e corta a carne que nem estilete.

Mesmo com toda culpa, com toda vergonha, eu jamais queria ter feito mal pra minha bebê. 

A patroa veio me ver e também chorou. Disse que foi por ter olhado só pra barriga dela e nunca ter visto a minha.

Continuei no emprego e aos poucos fui refazendo a vida. 

Às vezes penso que a Maria Luiza foi embora porque não quis nascer mulher nesse mundo.



5.12.16

Uma espírita a favor da legalização do aborto



Sou espírita de berço. Nasci numa numerosa e maravilhosa família de seguidores do Kardecismo e nunca, nem por um momento, pensei em ter outra religião. A filosofia espirita me satisfaz plenamente e tem um significado muito grande na minha vida.

Cresci fazendo culto no lar, frequentando evangelização em centro espírita, mocidade, participando de trabalhos de cura e mediúnicos. Aprendi ainda muito nova que o aborto deve ser proibido pois o espírito que está reencarnando se conecta ao embrião no momento da concepção. Abortar é negar ao espírito a chance de reencarnar. Não apenas aceitei essa máxima como, durante anos, a tive como cláusula pétrea no meu sistema de valores.

Me tornei mãe e procuro transmitir aos meus filhos essa doutrina que sempre me segurou nos piores perrengues da vida. Um dia, conversava com um dos meus filhos sobre o aborto e ele me disse que era a favor.

Aquilo me chocou. “Como assim a favor do assassinato de inocentes? Como assim tirar do espírito a chance de reencarnar?”

Meu filho argumentou: “Mãe, esse é um conceito religioso.”

“Sim, mas é um conceito que tenho absoluta certeza que é correto”, afirmei.

“Mãe, vivemos num estado laico. E você está defendendo uma lei que vale para todos os brasileiros baseada na sua religião. Você critica tanto a bancada evangélica, que faz leis baseadas em crenças religiosas…qual a diferença da postura deles e da sua?”

Engoli seco. Não tinha como argumentar. O moleque tinha razão. 

Confesso que fiquei chacoalhada com este argumento. Mas ainda assim segui pró-vida, procurando me informar melhor sobre os fatos, mas, dessa vez, procurando enxergar de uma perspectiva laica.

A ficha realmente caiu (demorou, mas caiu) quando me dei conta que, mesmo com a proibição, as mulheres continuam abortando. Isto é, a proibição não protege o feto. Os espíritos continuam não reencarnando. E coloca em risco as mães, principalmente as pobres que procuram bocas de porco para fazer o que o estado lhes nega.

A minha arrogância espírita me impediu enxergar que a proibição do aborto é como um tapa olho que me permite dormir sossegada achando que vivo num país que condena uma prática horrível, mas que na verdade fomenta uma outra, muito pior, que mata o bebê, coloca em risco a vida e a saúde da mãe e alimenta uma rede clandestina e inescrupulosa de aborteiros sem qualificação, higiene e compromisso com o bem estar dessas mulheres, jogando-as para o SUS resolver quando dá ruim.

Proibir faz bem pra minha consciência. Mas não faz nada bem para diminuir o aborto. 

Pelo contrário, as estatísticas dos países onde o aborto é legalizado mostram que o número de abortos diminuiu. Para citar os Estados Unidos, o Centers for Desease Control e Prevention tem dados oficiais que mostram uma redução de quase 50% no número de abortos de 1979 a 2012. Foram praticados 700 mil abortos os EUA em 2012. Em 2013 no Brasil foram praticados mais de um milhão de abortos, segundo dados do IBGE. Isto é, mesmo com a proibição e com uma população muito menor que a americana, abortamos mais. 

Me desculpem companheiros espíritas, mas estamos fazendo tudo errado. Queremos defender a vida, mas apoiamos uma lei que faz com que o número de óbitos seja maior! Com o risco de perdermos outra vida, que é a da mãe. 

Demorei para sair do armário quanto a esse tema, por entender que é ponto pacífico no meio espírita. Mas Kardec nos ensinou a só acreditarmos naquilo que passa pelo crivo da razão. E minha razão me impede de seguir contra a proibição. 

Mantenho-me contra o aborto. E jamais abortaria. Mas sou a favor da legalização. 

Porque não posso impor minhas crenças religiosas aos outros (isso é fundamento espírita), porque tenho que respeitar o livre arbítrio de cada um (outro fundamento espírita) e, principalmente, porque diante dos números, proibir é ingênuo. Ou hipócrita. 

Não consigo mais dormir tranquila sobre a montanha de fetos abortados que se avoluma diariamente debaixo do meu tapete enquanto finjo que vivo num país livre do aborto.


24.8.16

Caixa de Pandora



Caixa de Pandora

Tia Lourdes era solteira, funcionária pública, baixinha, cabelos curtos e grisalhos. Tinha tudo para ser a mais previsível das criaturas. Mas, vira e mexe, nos surpreendia.

Éramos criança quando ela nos visitou pela primeira vez. Antes de sair para dar uma volta, perguntou qual brinquedo gostaríamos de ganhar. Foi minha primeira arregalada de olhos. Nunca um adulto tinha nos feito essa pergunta fora do Natal. Fizemos os pedidos e não acreditei quando ela tirou da sacola o jogo Detetive. Era exatamente o que eu havia pedido. Nem Papai Noel, que nos trouxe Monark ao invés da Caloi, atendia à risca nossos desejos. 

Fui morar com ela quando tinha 17 anos. Eu era uma adolescente difícil. Saí um ano depois, brigada. Ficamos um tempo sem nos falar e, de repente, estávamos de volta às boas, como se nada tivesse acontecido. Ela me tirou do apartamento dela, mas nunca me tirou de sua vida. Desse período, tenho algumas lembranças. Uma delas é que nem um grão de arroz lavado podia ficar no escorredor e a bucha tinha que ser colocada embaixo do sabão, nunca em cima, para não derretê-lo. Não admitia desperdício. Foi ela quem me ensinou que pizza fria com café, logo cedo, é um dos melhores desjejuns do mundo. E que Cynar é um ótimo substituto quando você não tem grana para comprar Campari.

Era marrenta como um burro velho. Além da eterna desconfiança às viagens aéreas, que a fazia enfrentar estoicamente horas de ônibus quando queria ir a um local mais afastado, nunca se reunia conosco no Natal, porque “é uma data triste”. Quando tinha uma opinião, nem tortura, nem estatísticas, nem o muxoxo dos parentes a faziam mudar de ideia.

Deu aulas de português a vida toda em escolas estaduais. Era a norma culta ambulante. Falava e escrevia perfeitamente, com todos os pronomes, hifens, tremas e aspas. Um dia conversávamos sobre o livro recomendado pelo MEC para a Educação de Jovens e Adultos que valorizava a forma não culta de falar e que havia sido grande polêmica na época. Logo de início me posicionei contra: “Imagina! Como pode o Ministério da Educação questionar a norma culta, tia?!”. Pois não é que ela me diz que havia achado sen-sa-cio-nal! Que estava mais do que na hora do país valorizar o jeito do povo simples de falar e que as pessoas que falam o português padrão eram muito preconceituosas. Ainda tentei defender meu ponto de vista arrogante de redatora publicitária, mas ela foi incisiva: “Língua é cultura. E todo modo de falar de um povo tem que ser valorizado. Dei aula na zona rural durante anos e nunca disse para um aluno que falar “nóis vai” era errado. Quem sou eu pra dizer que meu jeito é melhor que o dele? Além disso, se eu falasse isso, perderia aquele aluno, pois ele não sabe falar de outra maneira. O pai, a mãe, os avós, todos falam assim. Primeiro, você tem que acolher e valorizar a fala da pessoa, para só depois, aos poucos, ir introduzindo outro jeito de falar e escrever.” Meus olhos foram arregalando enquanto ela continuava: “Quando adotei a leitura do livro 'Meu Pé de Laranja Lima' fui muito criticada, inclusive pelos colegas, justamente porque o livro traz frases escritas fora da norma culta. Mas eles queriam formar leitores dando José de Alencar logo de cara para as crianças!”

Soube que ela era júri da justiça criminal. Quando era convocada, passava horas e até dias à disposição do tribunal. “Tia, que saco!” E a caixinha de Pandora da Tia Lourdes continuava nos surpreendendo: “Não acho. É cansativo, mas faço com prazer. Alguém tem que olhar para que essas pessoas tenham um julgamento justo. A maioria dos que estão ali quer vê-los massacrados. Jogam esses rapazes na cadeia sem nem pensar no que isso significa. Eu tento sempre ver os dois lados e garantir que seja feita justiça e não vingança.”

Eterna moradora do centro de São Paulo e fumante inveterada, se indignava com as pioneiras leis anti-fumo da cidade: “Onde já se viu proibir o cigarro?! O mesmo direito que você tem de não gostar de fumaça, eu tenho de fazer fumaça".

Um infarto precoce agravado por uma doença pulmonar obstrutiva crônica limitaram muito sua vida, mas nem assim abriu mão de morar sozinha. Criou entre os zeladores, entregadores e guardadores de carro, uma rede de colaboradores que a ajudavam com sacolas e a apoiavam quando precisava parar para descansar, o que acontecia a cada poucos passos. Viveu os demais anos quase sem sair de casa, precisando dormir ligada à uma máquina que lhe bombava oxigênio.

Quando morreu, encontramos escondido pelo apartamento 17 pacotes de cigarro. Mesmo contrariando todas as ordens médicas e familiares, a danada continuou fazendo o que queria.

Tia Lourdes foi a tia Lourdes até morrer.