8.1.18

O caçador de vagalumes



O caçador de vagalumes

Depois do sexo, os dois trocam lentas carícias iluminadas pela luz da claraboia. Um vagalume voa pelo lado de fora. Ela sorri. Ele acende um cigarro e lhe conta que quando tinha oito ou nove anos precisou ser internado por muitos dias. A ala infantil estava lotada e o colocaram num quarto com adultos. Era a única criança ali e seus pais vinham visitá-lo duas vezes ao dia, pois eram pobres e não tinham como parar de trabalhar.

Ele dá uma tragada e, por trás da fumaça, ela vê os olhos dele embaçarem. Ele fala do tédio, do bumbum todo furado de injeção, das enfermeiras nem sempre gentis. Acabou virando o mascote da ala e, de vez em quando, alguém lhe dava um gibi. Para aquele garotinho pobre, um gibi era mais que um presente de valor incalculável, era também uma companhia, que ele saboreava lentamente página por página, quadrinho por quadrinho.

O vagalume continua tentando entrar pelo vidro. Ele se lembra da vez que uma paciente o acordou no meio da noite e o levou até um pequeno jardim entre as alas. Era uma noite muito escura, sem luar. A mulher cobriu os olhos dele com as mãos e, quando retirou-as, estavam no centro de uma nuvem de vagalumes. Por todos os lados, centenas de pirilampos enchiam o ar da noite com desenhos de luz. A paciente deu-lhe um vidro de marmelada e ele ficou algum tempo correndo pelos canteiros tentando capturá-los. Aquele momento o fez esquecer-se de tudo: doença, picadas, tédio, pobreza, saudade. De repente, era só um moleque caçador de pisca-piscas. Ele dá outra tragada no cigarro e a abraça com doçura. Por trás da fumaça, ela vê seus olhos verdes se encherem de brilho.




22.12.17

Bota Bee Gees na vitrola




Bota Bee Gees na vitrola

Semana passada fui ao cinema assistir a versão remasterizada dos “Embalos de Sábado à Noite”. Homenagem aos 40 anos do filme que foi um dos mais marcantes da minha geração.

A gente morava no interior de São Paulo e queria muito ver esse filme, em cartaz no Cine Bristol, da rua General Osório. Mas eram os tempos da ditadura (a primeira, dos milicos) e, depois do curta metragem nacional e do futebol do Canal 100, entrava a famigerada cartela da censura dizendo que o filme era proibido pra menor de 18 anos.

Eu era dimenor e necas de poder ir. Então, nossas tardes eram sentadas ao redor das meninas mais velhas ou das destemidas, que tinham carteirinha de estudante falsificada, pra escutar de novo e de novo, como num disco riscado, todos os detalhes das história de amor do Tony Manero com a Stephanie. Amávamos John Travolta e odiávamos a rival da Stephanie, Annette, porque era abusada e oferecida (mal sabíamos então que as abusadas e oferecidas ainda virariam nossas musas). 

A febre era tanta que na cidade acabou rolando uma competição: quem assistia ao filme mais vezes. Naquele tempo não tinha Netflix, internet, torrent, nem mesmo fita cassete. Pra ver o filme, você tinha que ir ao cinema e comprar o ingresso. A meninada era dura e resolveu este problema fazendo pirataria de banco de cinema. Quando começavam os créditos do final do filme, você ia ao banheiro e ficava lá até a próxima sessão. Tinha gente que ficava 4 sessões seguidas, até a mãe ir na delegacia registrar o desaparecimento da criatura ou o lanterninha descobrir e botar pra fora. Uma amiga conseguiu ver o filme 17 vezes e entrou pro hall da fama das descoladas do bairro. 

Os Embalos mudaram os bailinhos de fundo de quintal, que na nossa cidade eram chamados de brincadeira dançante, ou brincadeira, ou só brinca. 

Brinca de verdade tinha que ter a trilha do filme. Tinha que ter luz colorida, nem que fosse com celofane. E tinha que ter a galera afinada na coreografia. 

Agora vem o ponto alto dessa saga: um dia, quando John Travolta já estava quase trocando a Stephanie pela Olivia Newton-John e o filme já tinha saído de cartaz no Cine Bristol, vem a notícia que ele tinha retornado no Cine Comodoro, com a faixa etária reduzida. Eu e o restante da rua finalmente poderíamos ir!

Até hoje o coração dispara de emoção ao lembrar da pivetada (que eram os dimenor naquele tempo) comprando os bilhetes e entrando no cinema, que tinha preparado uma surpresa especial para aquela ocasião: um globo no teto! Nas cenas de disco, o globo girava, enchendo a sala e nossos corpos de brilho. E a gente levantava e dançava junto como se estivesse na balada.

Como dizia Zeca Baleiro, quem não pode Odissey 2001 vai de Cine Comodoro. E como fomos felizes! 



26.10.17

Balcão de golpes





Balcão de golpes


- Oi, aqui é o balcão de golpes de estado?

- Sim. Posso ajudá-lo?

- Eu quero tirar esse maldito governo eleito pelo povinho ignorante do meu país.

- Uhmmm…governo democraticamente eleito? 

- Sim, mas é claro que a eleição foi fraudada.

- Fraude comprovada?

- Não, mas a burra que eles botaram no poder nunca se elegeria sem trapaça.

- Certo. Ela cometeu algum crime?

- Claro, roubou pra caramba! Está acabando com o país.

- Aí é mais fácil. Quais os crimes que ela está sendo acusada?

- Pedaladas fiscais.

- Como?

- Pedaladas fiscais. 

- Pedaladas fiscais? Entendo. Bom, eu vou olhar aqui a tabela, um minuto por favor…Item 21: ”Presidente democraticamente eleita sem fraude comprovada e sem crime de responsabilidade”. Ihh…vai custar caro. Bem caro. Não quer esperar pra trocar de governo na próxima eleição? 

- Esperar?! Tá louco? Não aguento esperar nem mais uma semana! Caro quanto?

- Deixa eu ver…Item 21 da tabela de preço…um bom pedaço das áreas de proteção da Amazônia.

- Índio, bicho e árvore, só isso?! Leva! Fora canalhas! 

- Calma, tem mais, o sistema hoje está lento…um minuto…você nem seus filhos vão poder aposentar antes de…deixa eu ver aqui…70 anos.

- Feito. Eu faço esse sacrifício por amor à essa camisa verde amarela. Sai gentalha! 

- Também vamos ficar com as suas leis trabalhistas e facilitar o lado pro trabalho escravo. 

- Tranquilo! Lei trabalhista pra que nesse país de vagabundos? 

- Renda mínima pra pobre, estudante indo pro exterior, programa de moradia social, combate à fome e à pobreza….vamos cortar tudo.

- Boa! Corta tu-do! Vamos ensinar essa gente a pescar!

- Calma…Também vai custar todo seu setor energético que vamos entregar pra iniciativa privada. Fica tranquilo que é pra gente da maior competência. Gringa, é claro! Hidrelétricas, reservas de petróleo, pré-sal, etc etc…tem muita letra miúda aqui. Quer que eu leia tudo?

- Não precisa! Imagina…confio em vocês. Leva tudo mas, pelo amor de Deus, tira essa anta do poder!

- Uhm…essa você vai gostar. O novo governo vai ser composto só de homens. Coisa fina, escolhida a dedo…brancos, machistas, homofóbicos, ruralistas, carregadores de bíblia, defensores da família…tem que ver como eles falam bem. Português corretíssimo!

- Excelente! Puseram uma mulher lá e viu a bandalheira que virou?

- Uhm….universidade é problema? Porque estou vendo aqui que vai custar o fim da universidade pública gratuíta e das verbas de pesquisa científica. O SUS também vai encolher, mas fica tranquilo que os planos de saúde privado vão cuidar de todo mundo.

- Problema nenhum! Sua hora vai chegar, bandidada!!!!!!!

- Agrotóxicos proibidos também serão liberados. Por falar em liberar, tem uma lista de nomes aqui que serão liberados também. No caso, da cadeia.

- Gente desse partido que está no governo?

- Não, desse partido que está aí nós vamos prender todo mundo. Vamos liberar quem ajudará a gente nesse serviço que você está contratando. 

- Ué, mas eles também não são corruptos?

- Sim, mas estão do nosso lado. Temos um acordão com eles, com o Supremo, com tudo. Gente corrupta digna e da nossa total confiança. Custam caríssimo, mas é serviço garantido!

- Ah, então beleza! Vocês são bons mesmo! 

- Calma que não acabou. Vai custar também uma reforma do sistema eleitoral. Vamos implantar o Distritão. Um sistema que já foi testado no Afeganistão e funciona que é uma maravilha.

- Afeganistão? Aí é forçar a amizade…não sei, não…

- Fica sossegado! Vanuatu também usa. 

- Vanuatu?!

- Uma ilha perto da Austrália.

- Austrália! Primeiro mundo! Sen-sa-cio-nal! Bora derrubar a mula…aliás…pode parar de olhar aí no computador. O que for pra fazer, faça. Leva o que precisar. Mas tira essa gente, antes que eles destruam o país!

- Ok, negócio fechado. 

- Ai, estou tão feliz! Está me dando até vontade de chorar. Posso fazer uma dancinha?


Ilustrações: Le Livre de la Vigne nostre Seigneur, França, século 15, autor desconhecido.


21.10.17

Ditadores e merenda, história antiga.



Ditadores e merenda, história antiga.

Durante a ditadura militar, no governo João Figueiredo, houve muita propaganda sobre os fantásticos benefícios da soja, grão estranho à população, cujo plantio estava sendo introduzido em nossos campos.

Me lembro que minha mãe comprou o discurso e eis que, um belo dia, ela aparece em casa com uma saca de 60 quilos de soja.

Tuba, nossa cozinheira*, reinava absoluta no fogão e decidiu que aquele grão desbotado seria preparado de duas maneiras: em forma de salada ou cozida como feijão. Minha mãe bem que tentou introduzir outras variações, mas, basicamente, na nossa mesa, o cardápio era inovado com um rodízio diário de soja em salada ou soja em feijão.

Estudávamos na escola pública e, um dia, recebemos a notícia que o Governo Federal iria introduzir leite de soja na merenda escolar, fabricado por uma máquina que se tornou conhecida na época como “vaca mecânica”.

Nosso paladar infantil entrou em colapso. Não conseguíamos lidar com a notícia de mais soja em nossas vidas.

Foi o presidente Figueiredo, o próprio, que nos salvou da maldição do grão do oriente. Diante de toda a imprensa, ele experimentou o leite de soja e com a finura de quem sentia-se bem à vontade nas cocheiras, cuspiu o líquido longe dizendo que o gosto era horrível. 

Foi praticamente o fim do programa nas escolas. Em casa ele continuou por mais uns 250 anos até que o último grão de soja daquele enorme saco de estopa fosse consumido. Em forma de salada ou feijão.


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* Ah, a ditadura e os saudosos tempos da classe média avec serviçais (aviso ao leitor franco comentador: estou sendo irônica)



19.10.17

A esposa que falava com espíritos




A esposa que falava com espíritos

Bonelinha falava com os espíritos. Era um dom que tinha desde muito nova. Eles se aproximavam de mansinho e diziam coisas em seu ouvido. Às vezes confidências, às vezes auxílio, por vezes um desesperado pedido de ajuda.

Uma noite, quando ia colocar a filha pra dormir, um espírito lhe cochicha que o marido, Batista, que havia saído já há algum tempo, todo bem vestido e perfumado, não tinha ido “cobrar verdura de uns fregueses” como ele lhe havia dito. E completou: “Se quiser, te mostro onde ele está."

Bonela bota um casaquinho, calça uma sandália, pega a filha nos braços e sai na noite vazia, seguindo as direções do GPS do além.

“Vira aqui, passa ali, atravessa lá, anda, anda, anda e bata palma nessa porta iluminada por um candeeiro com luz vermelha."

Atende uma senhora de maquiagem e vestido que mulher direita nenhuma usaria. Pelo menos não naqueles tempos. A dona da casa arregala os olhos diante da visitante inesperada: “Dona, pelo amor de Deus! O que a senhora faz num lugar desses com essa criança?”

Bonela explica, a proprietária entra e em poucos minutos lhe devolve o marido.

Chegando em casa o pau come. Gritos ecoam de um lado e louças espatifam do outro.

Nesse ponto, nossa história divide-se em dois tipos de opineiros: os que apoiam Bonela por todos os motivos que se apoia a mulher traída. E os que apoiam Batista, pelo único e exclusivo motivo que nenhum homem deveria passar por tamanha humilhação num puteiro. E eu? Me atenho ao registro da ocorrência, deixando a você leitor o trabalho de tomar partido.

O saldo da briga foi um jogo de jantar quebrado e um gelo que durou dois anos para derreter, durante o qual, Bonela e Batista dirigiam-se um ao outro somente quando era absolutamente essencial. Aparentemente, atividades noturnas estavam na lista das essencialidades, pois um gorducho bebê nasceu no período. 

E assim termina a fantástica história da mulher médium, do marido cobrador de verduras e do espírito X9.

Que uma alma me caguete se eu estiver mentindo.


17.10.17

Comida de astronauta



Comida de astronauta

“Mãe, essa sopa tá esquisita. É sopa de que?”

A mãe não sabia. Nem a assistente social soube dizer o que tinha naquele granulado esquisito que ganhou da Prefeitura. 

A assistente ainda tentou animá-la: “É comida de astronauta, olha que chique!”

“Moça, num precisa ir tão longe pra encher nossa barriga, não. Eu fui criada na roça. A gente era pobre, muito pobre, mas sempre tinha um cará, um aipim, uma taioba pra refogar, uma banana amassadinha pra dar pros bebês. Comida é o que vem do chão que a gente pisa, não da lua.” 

“Mãe! Ô mãe! Que que tem nessa sopa?”

O resmungo dos filhos a trouxe de volta dos pensativos. 

Continuava sem saber o que responder. Misturou a ração da Prefeitura na água quente, colocou o miojo pra dar uma alegrada, uma pitadinha de sal. Sabe lá o que tinha na sopa.

Lembrou-se da música que uma das patroas tocava na hora de dar papinha pro nenê. Começou a cantarolar:

"Que que tem na sopa do neném?
Que que tem na sopa do neném?
Será que tem farinha?
Será que tem balinha!?
Será que tem macarrão?
Será que tem caminhão?!
É um, é dois, é três..."

Os meninos acharam estranho. “Tá doida, mãe?!”

A mãe continuou, agora batucando com a colher de pau na frigideira vazia.

"...Que que tem na sopa do neném?
Que que tem na sopa do neném?
Será que tem mandioca?
Será que tem minhoca!?!
Será que tem jacaré!?!
Será que tem chulé!?!
É um, é dois, é três...

As crianças começaram a rir e devagarinho foram engolindo. 


13.10.17

O beijo do fuzil




O beijo do fuzil

Tem gente que nasce em berço esplêndido.

Tem gente que nasce virada pra lua.

Marisa nasceu preta e favelada.

Virou doméstica, diarista, ambulante e foi se virando que conseguiu dar pro filho um casaco e um boné de marca. 

Tem menino que quer ir pra Disney. 

Tem menino que quer ir num jogo da Champions. 

O dela queria vestir o boné e o casaco da vitrine. 

Foi o vizinho que acordou Marisa. Corre lá que os PMs tão dando um esculacho no seu filho e na sua filha. 

Marisa salta da cama e chega na cena de pijama. Meus filhos não são traficantes, não senhor. Essas roupas de marca eu comprei na prestação. Sou trabalhadora, aqui não tem nenhum bandido.

A roupa é do shopping, mas e o radiocomunicador, heim?

Tem rádio aqui não, senhor.

O PM resolve aplicar sua própria justiça. Manda Marisa bater nos filhos. Senta mão neles, mas senta forte, que senão batemos nós.

Marisa nega. Nunca bati em filho meu, não vai ser agora, senhor. Eles não fizeram nada.

Os PMs ficam putos. Um deles vem por trás e dá uma coronhada de fuzil na nuca de Marisa. Ela cai e eles partem. Piranha.

Os filhos levam a mãe pra casa, pra UPA, pro hospital e de lá pro velório. Só não teve enterro porque a PM quer apurar se o aneurisma que a matou foi decorrência do trauma causado pelo beijo do fuzil.

O processo está na gaveta, assim como o corpo de Marisa.

Tem gente que morre de amor.

Tem gente que morre de tédio.

Marisa morreu de Estado.

6.10.17

Maconheira do Cristo




Maconheira do Cristo

Conheci Suzi em um bar em Perúgia e logo no primeiro parágrafo ela conta que é evangélica e toma antidepressivos porque tem uma forte depressão desde a adolescência. Talvez quisesse justificar seu simpático jeito meio atrapalhado falar, emendando uma história na outra e, muitas vezes, perdendo o fio da meada. Nessas horas, ela dá um suspiro, olha pra cima e diz: “Nem lembro mais o que eu estava falando.” Eu também não lembro, mas a gente logo engata noutro assunto e a prosa flui non stop.

Mora na Itália há dois anos e no início tinha muito medo de se tratar com os médicos locais: “Aqui não tem muita gente deprimida, então eles não tem muita experiência com essa doença…não é como no Brasil que qualquer psiquiatra é super especialista nisso”.

Enquanto pede outra cerveja, diz que quer parar com os remédios porque gosta de beber. “Bebo muito, sou cachaceira mesmo”. 

“Mas Suzi, e a Igreja?”

“Eu sei que não devia, mas pago meu dízimo e qual o problema da gente se divertir um pouco? Não é isso que desagrada o Senhor”.

Digo que é primeira vez que vou naquele bar. Ela avisa que ali é um reduto de comunistas. Mas frisa que são todos muito gente boa, diferente dos comunistas insuportáveis do Brasil. E que todo mundo é ateu. “Eu sou a única que acredita em Deus aqui. Devagarzinho vou tentando fazê-los escutar a palavra do Senhor, mas eles não ligam muito. Eu gosto de dar bíblias, já dei uma pra cada um. E um calendário com salmos. Fiquei superfeliz de ver que meu calendário continua em cima do balcão e que eles destacam uma folhinha por dia. Devagarzinho, a Palavra vai entrando.”

Deixa escapar que já fumou muita maconha. “Muita mesmo. Eu comia com farinha!” Dou risada e pergunto se ainda fuma.

Ela olha de um lado para o outro e sussurra que ainda dá seus pegas, mas que ninguém pode saber porque os pegas aqui pegam mal.

Pergunto se poderia me arrumar um pouco. Ela diz que pode me apresentar algumas pessoas. Explico que não é o caso, porque não como com farinha. Um beque me faria feliz por uns meses. “Te dou a grana e quando você pegar, me dá um pouquinho, pode ser?”

Ela nega e explica: “Se eu tocar no seu dinheiro, estaria fazendo tráfico. E tráfico eu não faço.”

Paro alguns segundos para tentar entender a lógica. Desisto. Tento argumentar que não é tráfico: “É compartilhamento. O Senhor não nos ensinou que devemos compartilhar, Suzi? Ajudar os necessitados? Então, me ajuda, poxa…”

Ela desconversa e muda o rumo da prosa, o que faz com uma habilidade incrível.

Quando estou indo embora, ela abre a bolsa e me dá um presente encapado caprichosamente com um papel de seda cor de rosa. Sinto o imenso carinho que ela coloca nesse ato e fico emocionada.

Volto do bar com uma Bíblia e sem o beque.

Tempos estranhos.

16.9.17

O cornuto




O cornuto

Quando saio bicicleta, volta e meia passo numa esquina onde há sempre um velhinho sentado em uma cadeira de rodas, tomando sol e olhando o movimento.

Numa dessas vezes ele acenou para eu me aproximar.

Sinal verde. Velhinho fofo, italianíssimo, carismático e eu desesperada por uma socialização. Bora parlar.

Mal me aproximo e ele começa a falar sem parar numa voz rouca e baixa. Explico que ele precisa falar mais devagar pois não falo bem o italiano. Ele abre um sorrisão, que eu diria até safado, se tivesse todos os dentes. Diz que logo viu que eu era gringa e que sou belíssima!

Elogio na minha idade não importa de quem, quando e onde vem. Aceito, obrigada! Nos apresentamos com um aperto de mão. Ele me diz que se chama Vitório. 

Gentileza daqui, gentileza de lá, eu já ia dando arrivederci, quando ele diz que na Itália amigos se abraçam.

Sinal amarelo. O abraço não é tão comum por essas bandas onde estou, sendo que até as mulheres se apertam as mãos. Também não é incomum, mas nada no nivel de escancaro do brasileiro que já chega com o fungo a nuca.

De todo jeito, meu lado esquerdista vai pra Cuba hippie do novo milênio mais amor por favor falou mais alto e toca eu compartilhar um abraço com o frágil senhorzinho.

Pois no destrambelho de abraçar com uma mão e segurar a bicicleta com a outra, o danado me puxa, tenta me dar um beijo e colocar a mão nos meus peitos.

Sinal vermelho com alarme antimíssil. Empurrei-o, dei um salto pra trás e gritei indignada: “Vitório!”

Ele me olha com a cara de choro mais comovente do mundo e diz: “Me desculpe, sou muito sozinho. Preciso tanto de companhia”.

“Cadê sua esposa?!”, pergunto, ainda bem brava com ele.

Dando de ombros e com cara de desprezo, ele responde: “Me largou. Saiu pelo mundo com um homem mais novo…sou um cornuto!”

Não consegui segurar a risada. Ele ri também. 

Feliz pela Sra. Vitória, rapidamente me afasto, balançando a cabeça rendida. Quando criaram os italianos os Deuses deveriam estar de muito bom humor.



13.9.17

Contém zoofilia, adultério e degeneração familiar



Contém zoofilia, adultério e degeneração familiar 

Era uma vez uma princesa, chamada Leda. Ela era tão linda, mas tão linda, que logo apareceu um rei querendo esposá-la. Leda aceitou e eles foram viver no Reino de Esparta. Todos os dias, depois de tomar seu café da manhã de rainha, Leda deitava-se na grama para um delicioso banho de sol. Naquele tempo não tinha biquini, então Leda ia nua mesmo. 

Esse arreganhamento todo chamou a atenção de um cara do andar de cima, chamado Zeus. Zeus pirou no corpão da moça e fez um plano para possuí-la. Transformou-se num cisne e assim conseguiu entrar no jardim da rainha. Ao ver aquela ave com aquele pescoção, Leda não resistiu. Voou pena pra todo lado. 

Naquela noite, Leda ainda transou com o rei Tíndaro. O resultado desse dia muito louco foi uma gravidez que deu a luz a dois ovos. De um dos ovos nasceram as gêmeas Helena e Clitemnestra e do outro, Castor e Pólux. Naquele tempo também não tinha DNA, então não se sabe até hoje com certeza quem era flho de Zeus e quem era filho de Tíndaro. 

A história da mulher que trepou felizona com uma ave (ou não e, nesse caso, teríamos que colocar mais um aviso no título - estupro), chama-se “Leda e o Cisne” e foi contada há milhares de anos por vários escritores da mitologia grega, como Virgílio e Homero. É tão sedutora, que grandes mestres da pintura, escultura e fotografia renderam-se aos seus encantos, como Michelangelo, Leonardo da Vinci, Rubens, Tintoretto, Cezanne, Klimt, Salvador Dali, Man Ray e muitos outros. Leda e o Cisne também virou peça de teatro, balé e um famoso poema de Yeats, prêmio Nobel de literatura. 

Uma história que transforma o grotesco em beleza e que teria se perdido se, naquele tempo, os mecenas da arte tivessem dado ouvidos ao arrulho dos puritanos medíocres. Não deram, graças a Deus ou a Zeus.

Artist:

Adolf Ulrik Wertmuller

 (Swedish, 1751–1811)