21.5.13

Mães, pintos e maisena.



Mães, pintos e maisena.

Depois de uma tarde deliciosa com a molecada escorregando no sabão, o amigo do filho grita:

"Tia, uma formiga picou o meu pinto. Tá ardendo muito! Eu quero ligar pra minha mãe!".

Experiente na arte de receber coleguinhas, a dona da casa dá o fone pro garoto. Ligar imediatamente pra mãe é um direito garantido a todo pequeno visitante.

A conversa foi breve e o menino desligou muito contrariado.

"Eu quero que minha mãe venha aqui ver o meu pinto…" Ele reduz o tom de voz e evita olhá-la no olho: "…mas ela disse que é para eu mostrar para você antes."

O menino ensaia abaixar o calção, mas não tem jeito. Aos 11 anos, não é mais pra qualquer mulher que se mostra o dito cujo.

Ela tenta relaxá-lo: "Você está com vergonha? Não tem problema. Quando quiser que eu olhe, me avise."

O menino liga novamente pra mãe. A conversa dessa vez é mais longa: "Mas mãe, eu ainda quero dormir aqui…mas você tem que vir aqui ver o meu pinto…tá ardendo muito, não sei se tenho que ir pro hospital…"

A negociação dura alguns minutos. Ao desligar, o menino muito envergonhado, abaixa a bermuda e exibe o polêmico orgão para avaliação da dona da casa.

A anfitriã ajoelha, examina de perto e diz com cara de especialista: "Isso não é picada. Seu pipi tá assado. Você deve ter se assado no sabão. Vamos passar um pouco de maisena e você vai ver como melhora."

Minutos depois o menino retorna sorridente: "Tia, tô bem melhor. Vou falar pra minha mãe que não precisa mais vir."

No dia seguinte, quando a outra mãe vem buscar o filho, elas abrem um vinho.

"Amiga, quando ele me ligou eu não acreditei! Tinha aproveitado que ele ia dormir aqui e combinado de sair. Não era possível que uma formiga fosse estragar minha tão precisada balada!"

"Tadinho, ele estava tão envergonhado! Como você fez pra convencê-lo a me mostrar?"

"Ué, falei o óbvio. 'Para de frescura e mostra logo pra tia. Porque se tem uma coisa que ela já viu muito na vida é pinto!'"

"Nossa, você falou isso pra ele?! Tá certo que é verdade, eu mas jamais poria dessa forma…ainda mais para uma criança."

"Tô falando dos seus 3 filhos. Relaxa, flor! E manera no vinho."

Aliviada, a dona da casa propõe um brinde. À Santa Maisena, salvadora das baladas e protetora das mães vividas.

"Amém!"

Foto: Red Chick, de Rey Nocum 


16.4.13

O cisco e a trave.





O cisco e a trave. 


Um israelense me contou sobre a vida dos árabes em território judeu: "A gente está se lixando para o que eles fazem entre eles. Não estamos nem aí se eles se espancam, se matam, se acabam. Se é entre eles, nossa polícia não se mete. Não perdemos tempo com esse povo. Eles não são gente, são animais."

Fiquei chocada com a sinceridade do relato. E, com um ufanismo que geralmente nos acomete quando nos afastamos da pátria amada, pensei que pelo menos nesse assunto o meu País estava acima do dele.

Foi Cida, empregada doméstica crescida na periferia de Osasco, que me fez ver que, enquanto eu apontava para o cisco no olho do meu amigo israelense, deixei de ver a trave enterrada até o fundo do meu.

Estávamos preparando o almoço quando a cozinha foi invadida pela campanha contundente da Rádio Bandeirantes pelo fim da maioridade penal. Vinha com a chancela do próprio governador de São Paulo, defendendo a mudança na lei.

Cida para de lavar a louça, olha pela janela e solta: 

"Engraçado…na favela sempre aparece um morto. É tiro no peito, na cabeça, queimadura, estrangulamento…ninguém liga. 

Morri de pena desse moço que foi assassinado na porta do prédio por causa de um aifone. Você viu na televisão?! Ele já tinha dado o celular pro bandido. Imagina matar alguém por tão pouco! Mas na favela, a vida vale menos ainda. O irmão do meu marido foi assassinado por causa de cento e cinquenta reais. E a polícia nem investigou. Até hoje não sabemos quem matou. 

Eles estão querendo reduzir a idade pra ir preso, mas do jeito que está, pode abaixar pra dezesseis anos que nós vamos ver os de quinze dando tiro. E se reduzir pra quatorze, vamos ver os moleques de doze dando tiro. Daqui a pouco, vamos colocar criança na cadeia e o problema vai continuar. 

No jornal de domingo eles botaram as fotografias dos rapazes que foram assassinados por menor de idade. Só puseram dos bairros de rico. Se fossem colocar os mortos da favela, ia encher tantas páginas que não ia sobrar espaço pras notícias. 

Eu tenho muito respeito e entendo a dor que a mãe desse moço deve estar sentindo, mas ninguém apareceu pra entrevistar minha sogra quando o Cláudio morreu. Ninguém fez passeata pelo fim da violência. O governador e a rádio não pediram pra mudar lei nenhuma. Foi só mais um favelado que morreu assassinado. 

Parece que a gente é bicho." 

O feijão nesse dia não ficou tão gostoso. Talvez fosse melhor continuar cega.


10.4.13

Professor ruim para o filho dos outros é refresco.



Professor ruim para o filho dos outros é refresco.

Irene era empregada doméstica até a patroa se mudar da cidade. Decidiu que não queria mais trabalhar em casa de família e arrumou emprego de vendedora numa loja de enxovais. Sentiu seu status subir, mas levou apenas um mês para perceber que ganhava muito mais com a antiga patroa que, bem antes da lei das domésticas, já lhe pagava FGTS, plano de saúde e horas extras.

Resolveu mudar de vida, fazer um curso, buscar uma nova profissão. O problema é que é analfabeta funcional. Lê o suficiente para "se virar" e escreve muito mal. Acabou optando por pedagogia à distância cursado no PC dos filhos que, volta e meia, precisam ajudá-la a se encontrar em meio à confusão de arquivos e extensões em doc e pdf. 

Marta trabalha num mercadinho de bairro. Supersimpática, está sempre sorrindo. É daquelas que conhece todo mundo e sempre que me vê pergunta: "como está os menino?" Na última vez que a encontrei, ela me confidenciou que está na luta. Prestou vestibular pra pedagogia numa faculdade particular e passou "fácil" nas palavras dela mesma. Conseguiu também um desconto de 50% na mensalidade: "Essa faculdade é boa. Eles faz de tudo pra ajudar nóis a estudar."

Neusa é mãe de 2 filhos. Vende Natura e Avon. Dona de casa, decidiu que agora que os "filhos estão grandes" tem que fazer "alguma coisa da vida". Sem saber direito que rumo tomar, também está cursando pedagogia no modo semi-presencial.

Vejo com uma grande preocupação este movimento da nossa sociedade. Professor está virando matéria rara. Depois de décadas de desvalorização, está difícil encontrar quem queira desempenhar tal função. Diante do caos, o Brasil literalmente "abriu as pernas" e hoje qualquer um que queira um emprego pouco remunerado, mas estável e que requer um mínimo de formação, pode assumir a imensa responsabilidade que é lecionar. Ironicamente, exigimos mais de quem ergue pontes, prescreve dietas e administra empresas do que de quem forma seres humanos.

Em todo país com um bom sistema educacional, a tão citada Finlâdia, por exemplo, os professores são a elite. São escolhidos a dedo entre os 10% ou 15% melhores alunos das universidades. Depois disso atravessam um processo de formação que será contínuo. Isto é, eles estudarão e terão acompanhamento de resultados durante toda a vida profissional. Para isso, ganham bem, tem benefícios e são muito cobrados. A lógica é simples: para educar melhor precisa-se dos melhores educadores.

O cargo atrai uma parcela da população que, aqui no Brasil, jamais cogitaria assumir uma sala de aula. 

Sei que vou ser acusada preconceito, mas peço aos leitores que antes de saírem anonimamente distribuindo valentes esculachos virtuais, respondam com sinceridade como se sentiriam ao saber que a educação de seus filhos está nas mãos de uma analfabeta funcional. Ou de uma dona de casa entediada. Ou da supersimpática garota dos pacotes que fala "nóis vai". Tanto não aceitamos que pagamos escola particular. E ai da coordenação se recebermos um bilhete com erro ou se a professora cometer um deslize de concordância na reunião de pais. 

Recentemente, uma dirigente de uma instituição de ensino de classe média alta me confidenciou: "Está cada vez mais difícil contratar professor. Em nossa escola aplicamos um teste básico e muitos cometem erros inaceitáveis. São incapazes de calcular, interpretar, escrever com coerência e desconhecem regras básicas da língua. Não conseguiriam sequer redigir um bilhete. Se uma pessoa assim assumir uma sala de aula, os pais mudam na hora os filhos de escola. Não temos como empregá-los." 

Quem acabará absorvendo essa mão de obra serão as escolinhas de bairro, as creches, as particulares baratas ou o Estado. Isto é, eles vão educar os filhos dos mais pobres.

É legítimo o direito de querer crescer na vida, buscar novas oportunidades, mas quando essa oportunidade é uma sala de aula com dezenas de crianças que sairão tão ou mais mal formadas que seu professor, estamos condenando muitos brasileiros a permanecerem eternamente no fundo do poço educacional. Estamos perpetuando a desigualdade, a ignorância e a falta de qualificação que lhes fechará muitas portas. 

Se queremos realmente garantir às Irenes, às Martas e a todas as crianças uma sociedade mais justa, onde possam seguir suas verdadeiras vocações e não agarrarem-se apenas ao que lhes é possível, o primeiro passo é assegurar-lhes uma educação básica de qualidade. E isso só acontece com professor bem qualificado e valorizado em sala. Qualquer coisa além disso é tapar buraco. E tapar buraco com a educação do filho dos outros, realmente é refresco.



Não consegui localizar o autor do grafite que simboliza tão bem o apartheid educacional que vivemos. 





8.4.13

Arcangela - Mulheres que me fizeram.





Arcangela - Mulheres que me fizeram.


No parapeito do navio, Arcangela se debruça e chora.

Chora por sua bela Itália, enorme no peito e cada vez mais pequenina no horizonte. 

Chora por ser mulher e ter que acompanhar seu homem a uma terra distante, feita mais de sonhos do que de chão. 

Chora pela mãe, impedida de embarcar por um mal súbito de pele e pelo abraço longo que teme ter sido o último que deram nessa vida. 

Chora pela saudade em forma de carta e pelos meses que levará para que ela atravesse o oceano.


No parapeito do navio, Arcangela se debruça e chora. 

Chora pela filha que ainda não teve e pela sua inescapável sina de mulher que dará luz, lavará, coserá e alimentará a vida. 

Chora pelos netos que ajudará a criar como se fossem os filhos queridos que Dio irá lhe negar. 

Chora pelo marido que nunca encontrará pepitas de ouro nas ruas da terra prometida. Nem depois de varrê-las, cuidadosamente, no emprego de gari que arrumará após fugir da escravidão da fazenda de café.

Chora pelo destino ter decidido que, ao invés de continuação, sua vida seria o ponto de partida de uma nova trama na imensa tapeçaria da vida. 


No parapeito do navio, Arcangela se debruça e chora. 

Suas lágrimas se misturam ao mar salgado pelo pranto de outras milhares de Arcangelas, que também precisaram se apoiar ao ver suas vidas desaparecerem aos poucos, engolidas pelo imenso azul.





14.11.12

Existe alimento infantil?





Existe alimento infantil?


O único alimento infantil produzido pela natureza se chama leite materno. Depois do desmame, os pequenos passam a se alimentar com comida comum a todos os humanos. O que muda é o preparo. Legumes amassadinhos, papinhas de fruta, carne desfiada, mingau de cereal.

Em todos os tempos, em todas as culturas, sempre foi assim. Isto é, até chegar na nossa vez.

Os pais e mães de hoje convivem com uma realidade inédita na história humana. A “comida infantil” inventada pelo marketing da indústria alimentícia. Entra em cena um extenso cardápio de “alimentos” anunciados como práticos para a mamãe e mais aceitos pelos pequenos: sopa pronta, nuggets, bisnaguinhas, bolinhos, biscoitos, petit suisse, macarrão instantâneo, leite fermentado, lanches de microondas, sucos e néctares (em pó, concentrado e de caixinha), refrigerantes, preparados à base de leite, cereais matinais, achocolatados, salgadinhos, combos de fast food, embutidos etc. Isso sem falar nas balas, pirulitos e outras guloseimas.

Observe que nenhum desses produtos é invenção da natureza. Todos são criação da indústria alimentícia que calculou, sabidamente, que uma família consumiria mais se tivesse que comprar alimentos diferentes para os adultos e para as crianças. Isso se chama criar nichos de venda, segmentar o mercado consumidor.

A criatividade da publicidade torna tudo ainda mais confuso. Começamos a realmente acreditar que criança tem mesmo que comer comidas mais fofinhas, doces, coloridas, acompanhadas de brinquedos e personagens. E confiamos que essas comidas são seguras para darmos aos nosso filhos.

O problema é que esses alimentos costumam ser pobres nutricionalmente. Enchem barriga, mas não nutrem como deveriam um corpo em desenvolvimento. Pior ainda, atrapalham por serem ricos em aditivos, conservantes, sódio, açúcar, gordura e farinha refinada.

Resumindo, os alimentos que o marketing transformou em comida para criança podem fazer mal aos pequenos. Além de criarem péssimos hábitos alimentares que dificilmente serão abandonados na vida adulta. E hábitos ruins fazem um bem danado para o mercado de comida pronta.

Estudos hoje apontam que esse problema se torna ainda maior nas classes mais pobres. Com o aumento da renda, os pais estão sendo seduzidos pelo doce canto da indústria. E festejam poder colocar na mesa produtos que antes eram exclusividade das classes média e alta. O problema aqui é que não sobra dinheiro para os alimentos que complementam essa dieta pobre. Frutas, legumes, peixes, raízes, grãos e cereais integrais não entram no cardápio. Pesquisadores alertam para uma geração de brasileirinhos obesos e mal nutridos.

Não podemos condená-los. Neste nosso Brasil das diferenças, a publicidade conseguiu transformar comida industrializada em símbolo de status. Comprá-los é poder dar aos filhos tudo “de bom e do melhor”. É não deixar a garotada “passar vontade”. É realizar o sonho de uma vida “prática” e “moderna”.

Comida pronta faz de mim e dos meus filhos alguém de valor. Com diabetes, pressão alta, colesterol, intestino preso e acima do peso. Mas, enquanto estiver dando para comprar o biscoito recheado deles, está tudo bem.



Esse texto foi publicado originalmente no blog do Movimento Infância Livre de Consumismo

1.11.12

Planejamento Familiar




Planejamento Familiar

Nunca foi boa em planejar viagens. Deixava tudo pra última hora. Sabia que isso irritava amigos e familiares, além de ser uma atitude de risco. Mas achava que, com crianças, fazer planos era ainda mais arriscado.

E desse jeito viajandona ia levando a vida e os passeios. Na véspera resolvia, enfiava filhos, papagaio e violão no carro e partia. 

Até que este ano, resolveu tomar uma atitude premeditada. Decidiu com um mês de antecedência que iria para Florianópolis.

Trinta dias de antecedência era tanto tempo que precisou racionalizar internamente a atitude: o semestre estava quase acabando, os filhos iam faltar uns dias na escola mas eram bons alunos e mereciam um descanso, a passagem de avião comprada antes era mais barata, 2012 poderá ser o último ano de suas vidas... 

Estava imensamente feliz consigo própria. Para dar conta dos preparativos arrumou até uma agendinha, onde anotava "comprar biquini", "avisar escola", "comprar passagem de ônibus para o aeroporto", "depilar", "contratar cuidador para a gata". 

Até que a uma semana do embarque, vem a notícia: os dois filhos, pela primeira vez, haviam ficado de recuperação. O mais velho em três matérias. O outro em uma. As provas, como era de se prever, eram exatamente na semana da viagem. 

A mãe bufa e contém os ímpetos assassinos com uma taça de vinho. Mais calma, vai conversar com os filhos. 

"O que houve?" 

"Decidi sentar no fundão. Não deu muito certo, né...", foi a explicação do mais velho. 

"Eu achei que tinha zerado a prova, mãe, juro!", disse o menor, na linguagem de quem passa por todas as fases e arrasa no videogame. 

A mãe decide que este problema não lhe pertencia. Era deles. "Escutem. As passagens estão compradas. Eu e seu pai vamos de todo jeito. Resolvam com a escola e vocês irão com a gente. Se não resolverem, ficam para fazer a prova." 

"Como assim?!" esperneiam. "Tá maluca?! Você tem que ligar lá e falar com a coordenadora!" 

"Não ligo! Ligaria se fosse doença ou outro motivo grave. Mas sem vergonhice não é problema meu. É de vocês. Querem ir pra Floripa, resolvam." 

"Você vai fazer isso com a gente?!" 

"Eu! De jeito nenhum. Quem fez isso com vocês foram vocês mesmos. Assumam e se virem." 

Por dentro, ela cruzava os dedos e torcia. "Deixar os fidamãe com quem? Mudar a data também não dá. Comprei passagens do tipo 'impossível remarcar - a senhora quer que desenhe?' Será que ligo para a escola escondida?"

Para piorar, os meninos esperneavam diariamente, implorando para a mãe intervir. Mas ela decidiu manter-se firme. Além de confiar no sevirômetro deles, achava que havia ali uma preciosa lição a ser aprendida. 

Os dias foram passando, a viagem se aproximando e nada. Até que faltando 2 dias para o embarque o mais velho chega em casa pulando: "Conseguimos! A coordenação liberou para a gente fazer as provas noutro dia." E completa, cutucando o irmão: "Ufa, dessa vez achei que a gente tinha rodado! Você viu a cara da coordenadora quando a gente falou com ela? Nunca imaginei que ela fosse topar!" 

Enquanto os dois se afastam, a mãe senta para relaxar. Santa coordenação! A viagem da família estava salva. Podia seguir com os planos. Que daqui para frente voltariam a ser poucos. 

Esse negócio de planejar com antecedência é estressante demais. Como alguém consegue viver assim?




29.10.12

"O QUE VOCÊ FEZ COM MINHA MÃE?!"






"O QUE VOCÊ FEZ COM MINHA MÃE?!"

É uma dessas mães que fazem ativismo na rede. Sua última brigada foi contra o consumismo no Dia das Crianças.

Inspirada pelas ideias de suas fieis companheiras virtuais, planejou um dia mais significativo, que celebrasse a infância com brincadeiras ao ar livre, piquenique e atividades familiares. Qualquer coisa para tirar o foco da garotada da montanha de presentes.

O grande dia chegou e junto veio uma chuva torrencial. Lamentou o fato de São Pedro não ter apoiado a iniciativa tão louvável das mães.

Depois da 19ª rodada de mímica e jogos de tabuleiro, decidiram fazer um passeio. A garotada sugeriu boliche e lá foram eles ao único da cidade: o do shopping.

Esqueceu-se que em dia de chuva, ainda mais num feriado, um mico chamado King Kong invade os centros de compra e não poupa ninguém.

Depois de rodarem 125km para achar uma vaga e atravessarem todo o estacionamento debaixo de d'água, descobrem que a fila do boliche era de duas horas. "No mínimo", ressalta a simpática mocinha da recepção.

Imaginaram que o cinema estaria o mesmo furdúncio. Decidem dar meia volta e voltar pra casa.

No caminho o pai para pra abastecer. A mãe comenta que está com vontade de comer um chocolate. Os filhos se olham surpresos. A mãe querer um doce era algo inédito na vida deles. O formigão da família sempre foi o pai. Aproveitam o momento único e entram com ela na lojinha.

Amadora em questões açucaradas ela pede ajuda aos filhos para escolher o chocolate. O mais velho lhe mostra um tabletão. Ela aceita. O do meio sugere outro. Ela pega. O caçula apresenta mais um. Bota sem titubear na cesta.

Os meninos continuam pasmos. Fazem um último teste: "Podemos levar dois pacotes de bala? Está em promoção: dois por 5 reais."

Quando a mãe topa, o mais velho arranca os pacotes de bala da mão dela, encara-a firmemente e diz em tom desafiador: "ONDE ESTÁ MINHA MÃE?! O QUE VOCÊ FEZ COM ELA?"

Os outros dois cruzam o braço e fazem o mesmo: "É...DEVOLVA NOSSA MÃE!"

E o Dia da Crianças que não teve sol, nem piquenique, teve açúcar e muitas gargalhadas.




23.10.12

Aprendendo a trocar na escola.




Aprendendo a trocar na escola.

A primeira Feira de Trocas de Brinquedos da escola do meu filho começou estranha. Não pelas crianças, mas pelos adultos. Estavam meio tensos, inseguros, sem saber o que iria acontecer. "Será que vai ter briga, tumulto, confusão?".

Sentimentos compreensíveis. A troca é a transação mais presente na história humana, mas nossa geração desaprendeu essa prática. Tudo o que temos foi comprado.

Hoje, as Feiras de Troca estão voltando como uma forma mais consciente e, por que não, econômica, de dar um novo destino aos objetos que não queremos mais.

Como uma das mães que propôs a atividade para a escola, fui convidada a comparecer para orientar a garotada. De posse do microfone, veio o frio na barriga: "Orientar o quê? Se nem eu sei direito como faz?".

Na hora me lembrei das experiências compartilhadas pela internet com outras mães que participaram de feiras semelhantes e improvisei as dicas: "Olhem o que interessa, conversem com o dono do brinquedo e façam suas propostas." Foi só. 

A feira começou e o que aconteceu naquele espaço surpreendeu a todos. Foi um aprendizado do início ao fim. Para eles e para nós. 

O burburinho e a movimentação eram os de um mercado alegre e dinâmico. As crianças negociavam com autonomia e determinação. Iam de um lado a outro fazendo suas ofertas. Negócio fechado, saiam felizes, exibindo orgulhosas com seu novo brinquedo. Negócio recusado, corriam atrás de outra oportunidade. O clima amistoso foi a primeira coisa que chamou nossa a atenção. Nada de tumulto, de arrancar o brinquedo da mão do dono, de brigar. O respeito mútuo sempre presente na escola transpareceu nas relações. 

Claro que aconteceram conflitos. A menina que se magoou porque a melhor amiga não quis a oferta dela. O garoto que quis o brinquedo de volta depois de trocado e emburrou porque não conseguiu. O grupo de garotas que disputou com afinco uma boneca ainda na caixa. O pequeno que ficou aborrecido com as críticas dos amigos ao brinquedo simplesinho que ele escolheu. Em todos eles, os educadores intervieram só quando necessário, por entenderem que eram oportunidades preciosas e únicas de aprendizado. 

E quanto aprendizado! Uma professora se aproximou de mim com lágrimas nos olhos. Tinha testemunhado uma aluna que tem muita dificuldade em dizer não, recusar uma oferta ruim para o seu par de patins. Achou aquilo uma conquista ímpar na vida daquela criança. Outra viu a garota que quer agradar a todos, ter que escolher um entre os vários pretendentes ao seu brinquedo. Teve o menino apegado, que voltou para casa com seu velho brinquedo, por não conseguir se desfazer dele. E o desapegado, que não quis nada em troca e preferiu doar seu balde de Lego. 

E as crianças que não trouxeram brinquedo? Até elas nos deram lições. Foi combinado que ao final da troca, caso sobrassem brinquedos, elas poderiam escolher um. Mesmo assim, participaram alegremente das negociações, ajudando seus amigos. Ao final, sobraram vários brinquedos e praticamente todas puderam ficar com um. Ninguém reclamou que quem não trouxe não devia participar. Pelo contrário, muitos festejaram que o colega também conseguiu um brinquedo. 

Saí da escola refeita. Como pode um evento tão rápido e despretensioso concentrar tanto aprendizado?!

Estava ansiosa para retornar depois do almoço para o evento com as turmas da tarde. Mas meu filho mais velho machucou o dedo no futebol e passamos a tarde no pronto-socorro. Me dei conta que vida de mãe também é uma eterna troca. Nesse dia, abri mão da desejada Feira da tarde em troca de um necessário gesso. 

Quem foi mesmo que disse que as trocas não fazem mais parte da nossa vida?


P.S: Cometi o pecado mortal de não citar a supermãe e parceira na idealização do mundo, Silvia Schiros. Felizmente, o papel virtual permite edições. Silvia, valeu ter sua companhia em mais essa aventura!


Morte aos chatos.




Morte aos chatos.

Os ecologistas que me desculpem, mas se tem uma espécie que precisa ser extinta, é a dos chatos.

O eterno chato. Aquele que, num banquete romano, dizia que achava absurdo atirarem pessoas para os leões e todos pensavam: "Ai meus Deuses, lá vem o chato."

Naquele tempo, quem quisesse encontrar um chato, era só ir ao setor de cumbucas de barro do mercado. O chato nunca usava as de chumbo, pois desconfiava que faziam mal à saúde. Se tem uma coisa que chato sabe fazer é desconfiar.

Queria ver o povo revirar os olhos? Era só o chato começar a falar que o negócio de importação de mão de obra negra para trabalho escravo tinha que acabar. E não adiantava argumentar que a economia precisava do setor, que ia causar desemprego nos estaleiros e nas fábricas de chicotes, que ia faltar gente pra tocar os engenhos e abanar as sinhás acaloradas. O chato respondia que ia surgir uma nova ordem mundial e essa era a dica pra você sair de fininho porque o papo ia ficar insuportavelmente chato. Ô gente que viajava na banha! (Naquele tempo, não tinha maionese.)

A principal característica do chato é que ele não desiste. Bobeou, lá vem ele cutucando: "Por que mulher não vota? Por que gay não casa? Por que nossas terras são nossas e a dos índios não são deles? Quem é mais bicho: o animal ou o homem que o maltrata? Por que empregada doméstica pode até lavar nossa privada mas não usa o mesmo banheiro que o patrão? Por que anúncio de bebida alcoólica tem regra mas de cerveja não? Por que eu não consigo ter meu nenê de parto normal? Por que não dá pra pedalar sem correr risco de vida? Por que um político rouba milhões e não acontece nada, mas um moleque com um baseado pode ir pra cadeia? Por que a propaganda é direcionada ao meu filho se sou eu que compro? Por que a escola só ensina decoreba?". É uma chatice sem fim.

Quando o chato é da família - não se iludam, toda família tem um - temos que desenvolver técnicas avançadas para escapar deles nas festas. Levantamos para pegar uma cerveja mesmo com o copo cheio, convidamos para cantar parabéns, engasgamos com um caroço de azeitona e fugimos dali na maca da ambulância.

Agora duro mesmo é quando o chato surge na forma de filho.  Há relatos de exemplares de 1,20m dessa espécie que dizem que não querem um par de tênis novo porque o que eles tem ainda está ótimo. Há os que obrigam o pai a usar o cinto de segurança.  Os que choram diante do leitãozinho assado. E outros que cheiram o hálito da mãe, tornando-se legítimos representante da patrulha antifumo instalados dentro da nossa própria residência. Aliás, êta patrulha chata!

Já houve casos de chatos de espinha na cara que repreendem os pais em pleno almoço de domingo quando estes clamam por políticas mais rígidas para coibir a migração nordestina. Direito de ir e vir...tem coisa mais pentelha?

Na sala de aula, então, ninguém merece! Pior que um chato na família é um chato atrapalhando a aula com tanta perguntação: "Para que serve a trigonometria na prática?" E tente responder que serve para ele passar de ano, que a chata-mór, a mãe, aparece no dia seguinte pra reclamar do professor.

Temos que tomar muito cuidado com os chatos. Eles parecem poucos. Mas se multiplicam feito coelhos e perturbam de tal maneira que, se não ficarmos atentos, acabam conseguindo mudar as coisas. E as coisas não precisam mudar. Elas são do jeito que são. Nossos pais nos criaram desse jeito e olha só, deu certo! Somos ótimos!

Por isso, digo: "Morte aos chatos". E antes que algum chato apareça aqui cheio de nhenhenhém, explico que é morte no figurativo. Não quero que os chatos sejam atirados aos leões, mesmo porque até isso eles conseguiram mudar.

Esse mundo está ficando mesmo muito chato!


Ninguém melhor do que Rosa Parks para ilustrar este texto. Quem sabe da história vai entender. Quem ficou curioso, clique aqui.

18.10.12

Escolas que pensam.





Escolas que pensam. 

Me emociono todas as vezes que vejo educadores pensando fora do quadradinho do livro escolar e se abrindo para a vida.

Essa semana, fui tocada pela reflexão dos educadores da EMEI Guia Lopes.

EMEIS são escolas de educação infantil. Se pensarmos na hierarquia vigente, os profissionais que nela atuam são o chão da pirâmide, os menos reconhecidos e valorizados. Muitas vezes, até por si próprios. Infelizmente, permanece fortemente enraizada em nosso País a noção de que a criança pequena precisa de "tia" e não de educador.

Tias são queridas e carinhosas. Mas seu lugar é em casa e não numa escola. Hoje sabe-se que existem habilidades a serem desenvolvidas na primeira infância, fundamentais para a vida adulta, que exigem conhecimento, formação e autonomia. Requer Professores. Com P maiúsculo, orgulhosos de sua profissão, cientes da sua importância e da imensa responsabilidade que é formar um pequeno ser humano.

Por esse motivo, me impactou a carta que a EMEI Guia Lopes publicou na internet. Trata-se de um manifesto dos educadores daquela instituição contra a Novela Carrossel, do SBT.

Aos invés de atuarem como tias e acharem lindinhas as imitações que as crianças fazem dos personagens ou, ainda pior, cruzarem o braço e se omitirem com as eternas desculpas "é muito ruim, mas os pais deixam…as crianças adoram…fica chato dizer não", os profissionais daquela escola resolveram conhecer melhor o assunto, refletir sobre ele, formar uma opinião e agir. Agir como educadores comprometidos com a profissão que escolheram, fazendo valer sua autoridade no assunto e sua autonomia como conhecedores do desenvolvimento humano.

Torço para que a atitude se espalhe e que mais e mais escolas ganhem coragem para se manifestar sempre que identificarem na sociedade algo que prejudique ou favoreça a formação de seus alunos para a vida coletiva. Com firmeza, serenidade, boa argumentação e sem medo ou preguiça de nadar contra a maré.

Nenhuma escola conseguirá ensinar seus alunos a pensar e agir com autonomia se, antes de tudo, seus professores não fizerem o mesmo.

Segue o manifesto que inspirou esse texto. Ele foi originalmente publicado neste linque, com o título: Um Carrossel de Preconceito e Discriminação.


CARTA ABERTA EM REPÚDIO À NOVELA CARROSSEL


A Escola Municipal de Educação Infantil “ Guia Lopes” comprometida com ações que valorizem as diferenças e tonifiquem a autoestima de todas as crianças com idade de 3 a 5 anos através do combate a qualquer ação que dissemine o racismo, o preconceito e a discriminação na infância torna público o repúdio à novela Carrossel, veiculada diariamente pelo SBT ( Sistema Brasileiro de Televisão). Trata-se de uma novela dedicada ao público infantil que se passa em uma pretensa escola , com supostas profissionais da educação em que alunos personificam os mais variados estereótipos e vivenciam situações inaceitáveis nas quais a criança negra é frequentemente humilhada, a beleza e a superioridade da criança branca são enaltecidas, as crianças com sobrepeso são ridicularizadas e o espírito competitivo é levado ao extremo. A cada episódio, uma das crianças é exposta às ações do grupo que planeja situações vexatórias seguindo um enredo que reforça tudo o que nós combatemos e acreditamos deva ser combatido. Cirilo, um menino negro, pobre, e de boa índole é apaixonado por Maria Joaquina, menina branca, rica e cheia de soberba. Para ilustrarmos a perversidade existente nas relações entre as crianças da pretensa “Escola Mundial”, citamos o episódio em que um grupo de garotos resolve convencer Cirilo que, para conquistar Maria Joaquina, seria necessário comprar um tônico para ficar bonito. Cirilo, sendo uma criança com baixa autoestima, pega as moedas de seu cofrinho e compra a milagrosa loção feita por seus “colegas”.
São evidentes os efeitos nefastos da insensibilidade, do desconhecimento do universo infantil e do desrespeito à dignidade a que todos temos direito. Várias de nossas crianças têm verbalizado o seu descontentamento em serem negras e o desejo de mudar sua cor de pele, enquanto outras formam grupos impenetráveis de “Marias Joaquinas”, negando-se a usar o uniforme e estabelecendo competições de roupas e acessórios. Atentas a estas manifestações, estamos trabalhando para mobilizar a atenção da comunidade de pais e docentes para que sejamos, todos, criteriosos e críticos em relação à programação infantil a que ficam expostas nossas crianças.


Gestão Escolar e Equipe Docente da EMEI GUIA LOPES.


Pode interessar também ler o texto da mãe Debora Regina Magalhães Diniz "Porque não deixo meus filhos assistirem Carrossel", publicado no blog do Infância Livre de Consumismo.

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