7.3.18

Chão de estrelas



Iara apanhava do marido. A porrada não vinha sempre, era mais quando ele bebia. Difícil entender…ele era homem bom, trabalhador, mas bastava tomar uns goles pra cabeça virar e ele descarregar toda a raiva que tinha da vida na cara dela. E a vida lhe dava muita raiva.

Ela o conheceu no baile. Viúvo charmoso, com três filhos pequenininhos e aquela pele grossa de homem que ganha a vida com as mãos. A paixão veio forte e logo estavam os cinco morando juntos numa casinha velha de chão batido e telhado alto cheio de furos. Quando chovia molhava tudo, mas quando tinha luar, a casa se enchia de raios de luz. Parecia que estavam num palco, num chão de estrelas. Iara achava lindo.

O tempo foi passando, vieram mais duas crianças e quanto mais o dinheiro encurtava, mais as porradas aumentavam. Um dia, quando desceu do ônibus, ela o viu na esquina do bar, dando uma mijada no poste. Mal parava em pé. Ela correu pra casa resolvida a não mais apanhar.

Arrumou um pedaço de pau e trancou a porta. O homem já chegou virado e quando não conseguiu entrar ficou doido. Começou a esmurrar, chutar, dizer que quando entrasse ia matar aquela vagabunda. A casa tremia, parecia que ia desabar. Iara juntou as crianças e ficaram os seis encolhidos no canto da sala. 

Ele gritou que ia entrar pelo telhado. Maldita casa sem laje. Ouviram uns barulhos nas telhas, mas nem deu tempo dela pegar o pedaço de pau. Era tanto ódio no peito e tanta cachaça na cabeça, que o telhado não aguentou o peso e desabou com tudo no meio da cozinha. Na queda, a cabeça dele bateu na quina da pia e ele morreu ali, antes mesmo da ambulância chegar. 

Nessa noite, não teve raio de luz dançando pela casa. Teve foi uma lua inteirinha, radiosa, ocupando todo o buraco da cozinha. Iara achou lindo.



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