22.12.17

Bota Bee Gees na vitrola




Bota Bee Gees na vitrola

Semana passada fui ao cinema assistir a versão remasterizada dos “Embalos de Sábado à Noite”. Homenagem aos 40 anos do filme que foi um dos mais marcantes da minha geração.

A gente morava no interior de São Paulo e queria muito ver esse filme, em cartaz no Cine Bristol, da rua General Osório. Mas eram os tempos da ditadura (a primeira, dos milicos) e, depois do curta metragem nacional e do futebol do Canal 100, entrava a famigerada cartela da censura dizendo que o filme era proibido pra menor de 18 anos.

Eu era dimenor e necas de poder ir. Então, nossas tardes eram sentadas ao redor das meninas mais velhas ou das destemidas, que tinham carteirinha de estudante falsificada, pra escutar de novo e de novo, como num disco riscado, todos os detalhes das história de amor do Tony Manero com a Stephanie. Amávamos John Travolta e odiávamos a rival da Stephanie, Annette, porque era abusada e oferecida (mal sabíamos então que as abusadas e oferecidas ainda virariam nossas musas). 

A febre era tanta que na cidade acabou rolando uma competição: quem assistia ao filme mais vezes. Naquele tempo não tinha Netflix, internet, torrent, nem mesmo fita cassete. Pra ver o filme, você tinha que ir ao cinema e comprar o ingresso. A meninada era dura e resolveu este problema fazendo pirataria de banco de cinema. Quando começavam os créditos do final do filme, você ia ao banheiro e ficava lá até a próxima sessão. Tinha gente que ficava 4 sessões seguidas, até a mãe ir na delegacia registrar o desaparecimento da criatura ou o lanterninha descobrir e botar pra fora. Uma amiga conseguiu ver o filme 17 vezes e entrou pro hall da fama das descoladas do bairro. 

Os Embalos mudaram os bailinhos de fundo de quintal, que na nossa cidade eram chamados de brincadeira dançante, ou brincadeira, ou só brinca. 

Brinca de verdade tinha que ter a trilha do filme. Tinha que ter luz colorida, nem que fosse com celofane. E tinha que ter a galera afinada na coreografia. 

Agora vem o ponto alto dessa saga: um dia, quando John Travolta já estava quase trocando a Stephanie pela Olivia Newton-John e o filme já tinha saído de cartaz no Cine Bristol, vem a notícia que ele tinha retornado no Cine Comodoro, com a faixa etária reduzida. Eu e o restante da rua finalmente poderíamos ir!

Até hoje o coração dispara de emoção ao lembrar da pivetada (que eram os dimenor naquele tempo) comprando os bilhetes e entrando no cinema, que tinha preparado uma surpresa especial para aquela ocasião: um globo no teto! Nas cenas de disco, o globo girava, enchendo a sala e nossos corpos de brilho. E a gente levantava e dançava junto como se estivesse na balada.

Como dizia Zeca Baleiro, quem não pode Odissey 2001 vai de Cine Comodoro. E como fomos felizes!