10.5.18

Blind date




Blind date

Hj tenho um blind date

Blind que?

Encontro as cegas...deer…vou sair pela primeira vez com um cara que conheci num site

Jura?! Vc não tem medo?

Morro! Mas ele parece legal

Bom…tb…na nossa idade se não for assim vai ser como? kkkk

Pois é…no supermercado não consigo pegar ninguém…rs

Ele é gato?

Não sei. Não tem foto no perfil

Ih…então deve ser feio ou é bandido querendo se esconder

Ai, para! Ele tem bom gosto, escolheu um restaurante bem legal

Então deve ser gay, flor. É ruim hetero com bom gosto dando sopa por aí

kkkkkkk 

Que horas vai ser?

Meio dia. Se eu não te mandar msg até às cinco é porque foi muito bom ou eu tô morta

Cruzes! Qq coisa vai no banheiro e me manda uma msg com aquele emoji do pânico

Boa! Aí vc me liga fingindo que é minha filha no hospital precisando de mim

Combinado! Manda também o contato dele e o perfil

Mando, pera aí que não sei fazer isso no meio do chat

Assim que vc chegar, já vai avisando…seu perfil está com uma amiga que é da polícia. Não tente nada!

kkkkkkkkk…o nome do perfil dele é Nemoia

Nemoia! Que nome estranho…achei que seria Roludo 33cm

Vc tá me tirando né?


Tonta

Biscate

Te amo

Eu tb

4.5.18

Mães reais - Teca

\

Mães Reais - Teca

Grávida de uma produção independente e 100% acidental, ela me pergunta se eu poderia acompanhá-la durante o parto. Me senti profundamente emocionada e aguardei ansiosamente o telefonema me avisando para ir para a maternidade.

Seria um parto humanizado e ela preparou-se cuidadosamente para isso. Leu tudo que podia, peitou palpites e parentes, escolheu médico figurão, gastou dinheiro além do que podia com consultas. 

No dia que o bebê escolheu para nascer, encontrei-a já no quarto, mergulhada em dores, literalmente. Entrava e saía da banheira, inquieta, suportando com muita dificuldade o que estava por vir.

De repente começa a gritar: “Eu quero anestesia! Chamem o doutor! Quero anestesia!!!”

O médico vem, mas se nega a anestesiá-la. Diz que ela estava a pouquíssimos milímetros da dilatação completa e que se ele a anestesiasse agora ela iria se arrepender, pergunta se era aquilo mesmo que queria etc etc.

Ela pareceu aceitar e segue firme no plano original, traçado com tantos sonhos e ideais.

As dores aumentam e o bebê finalmente nasce, com ela sentada, sem anestesia e sem epísio. Foi bravíssima, mas está exausta.

O bebê é um meninão lindo, saudável, Apgar 10, berrador. Quando vão colocá-lo nos seus braços, a escuto dizer:

“Tira esse filho da puta daqui”.

Equipe toda constrangida. Corro pegá-lo e o acutcho em meus braços. Ela se encosta na cadeira, vira o rosto de lado, fecha os olhos e aguarda pacientemente o médico suturá-la da laceração. 


7.3.18

Chão de estrelas



Iara apanhava do marido. A porrada não vinha sempre, era mais quando ele bebia. Difícil entender…ele era homem bom, trabalhador, mas bastava tomar uns goles pra cabeça virar e ele descarregar toda a raiva que tinha da vida na cara dela. E a vida lhe dava muita raiva.

Ela o conheceu no baile. Viúvo charmoso, com três filhos pequenininhos e aquela pele grossa de homem que ganha a vida com as mãos. A paixão veio forte e logo estavam os cinco morando juntos numa casinha velha de chão batido e telhado alto cheio de furos. Quando chovia molhava tudo, mas quando tinha luar, a casa se enchia de raios de luz. Parecia que estavam num palco, num chão de estrelas. Iara achava lindo.

O tempo foi passando, vieram mais duas crianças e quanto mais o dinheiro encurtava, mais as porradas aumentavam. Um dia, quando desceu do ônibus, ela o viu na esquina do bar, dando uma mijada no poste. Mal parava em pé. Ela correu pra casa resolvida a não mais apanhar.

Arrumou um pedaço de pau e trancou a porta. O homem já chegou virado e quando não conseguiu entrar ficou doido. Começou a esmurrar, chutar, dizer que quando entrasse ia matar aquela vagabunda. A casa tremia, parecia que ia desabar. Iara juntou as crianças e ficaram os seis encolhidos no canto da sala. 

Ele gritou que ia entrar pelo telhado. Maldita casa sem laje. Ouviram uns barulhos nas telhas, mas nem deu tempo dela pegar o pedaço de pau. Era tanto ódio no peito e tanta cachaça na cabeça, que o telhado não aguentou o peso e desabou com tudo no meio da cozinha. Na queda, a cabeça dele bateu na quina da pia e ele morreu ali, antes mesmo da ambulância chegar. 

Nessa noite, não teve raio de luz dançando pela casa. Teve foi uma lua inteirinha, radiosa, ocupando todo o buraco da cozinha. Iara achou lindo.



7.2.18

Mulher de fé



Sebastiana era vidente. Não que gostasse. Sebastiana odiava aquelas imagens que apareciam na sua cabeça dizendo o que ia acontecer com a gente que conhecia. Era casa pegando fogo, era vaca seca no pasto, era parente de bucho virado. Visão boa nunca vinha.

Sebastiana era mulher de muita fé. E todas as noites antes de dormir, pedia ao Menino Jesus para ter uma noite só de sono, sem vistorias. Às vezes ele ouvia e ela dormia aquele sono largado de neném depois de mamar nas tetas da mãe. Mas era achar que já estava curada daquela maldição pra coisa voltar piorada. 

Um dia, Sebastiana nem precisou fechar os olhos para começar a suar frio e ter pavor. Estava na beira do fogão fritando torresmo, quando viu como numa fotografia, a filhinha bebê atropelada no meio da pista que passava na entrada do rancho. Caiu de joelhos ali mesmo e enquanto a gordura da pele do porco chiava, implorou pra Nossa Senhora, Mãe de todas as mães que, se tivesse que levar sua menininha, que não fosse daquele jeito, como um bicho esmagado no asfalto. Suplicou a Ela que falasse com Deus, Nosso Pai, que sabe das coisas e que se Ele estivesse precisando de mais um anjinho, que levasse sua pequena com carinho. 

Depois disso, Sebastiana não tirou mais os olhos da menina. Para onde ia, ela ia junto, grudada no seu corpo, como parte da sua carne. Um dia, virou o rosto, coisa de segundos. Quando tornou a pequena havia sumido. Saiu desesperada, mas sentiu que uma mão forte a amparou quando encontrou o corpinho da bebê flutuando no espelho d’água no meio do pomar. Parecia um anjinho adormecido, rodeado de flores brancas de laranjeira sopradas pela brisa. Sebastiana ajoelhou-se. Dessa vez para agradecer a Deus, Maria e Jesus por terem ouvido suas súplicas. Sebastiana era mulher de muita fé.

Ilustração: Amendoeira em flor, Van Gogh - Van Gogh Museum

6.2.18

Sommelier di cazzo!



As feiras de vinho italianas são eventos imperdíveis. A última que fui custava dez euros e você ganhava uma taça que dava direito, durante dois dias, a provar a produção de cerca de 20 vinícolas. Numa delas, conheci um simpático enólogo. Perguntei o que exatamente faz um enólogo e ele me explicou que é um especialista que cuida de todo o processo de produção do vinho, desde o preparo do solo onde serão plantadas as videiras até o vinho pronto, engarrafado e armazenado. Enologia, aqui na Itália, é curso superior. Comentei que deve ser uma profissão difícil, pois envolve inúmeros saberes e está sujeita a variáveis que fogem do controle. Ele confirmou sorrindo, mas disse que é uma profissão apaixonante. E como todo bom italiano, brincou: “O mais difícil da profissão é aguentar as asneiras de alguns sommeliers”. Olhei para ele intrigada. Achava que enólogo e sommeliers andavam de mãos dadas saltitantes pelos vinhedos. Ele explicou: “Mà non…é cada besteira que volta e meia escuto nas degustações! Sabe…no vinho se concentram muitos aromas, de terra, alcachofra, chocolate…mas outro dia um expert di cazzo me diz em êxtase que estava sentindo, num vinho caríssimo, o sabor do granito banhado pelo mar! Mamma mia! Eu moro na praia, conheço mar. Já fui pra ilha de Elba e me sentei numa rocha de granito banhada pelas ondas. Você sente cheiro de alga, de peixe seco...então, posso te dizer, nunca senti cheiro de maresia em uma garrafa de vinho. E, o dia que sentir, jogo fora porque é um vinho de merda!”.
E quem sou eu, nascida e criada na base do Château Duvalier que mamãe diluía com água e açúcar, pra discordar. Tim, tim!

28.1.18

A moça do trem



A moça do trem

As moças sentadas à minha frente no trem falam português. Evito contato visual e finjo não entender a língua. Mas presto atenção. Sou voyeur confessa de conversas alheias me trazidas pelo ar. Elas acertam detalhes de uma mudança para a Itália para obter a cidadania: arredores de Firenze...apartamento dividido com outras pessoas…registrar residência...comprar uma motinho.  Pelo canto do olho, as observo. Uma delas é nova, ativa e parece liderar os movimentos da dupla. Tem longos cabelos pretos e é bonita. A outra parece ter mais de trinta anos, tem profundas olheiras, um visual meio judiado e olhar melancólico. Concorda com quase tudo que a outra diz e de vez em quando expressa preocupação por não falar italiano, o que pode prejudicá-la na busca por emprego de costureira industrial. Penso com aquela atitude perdedora ela terá mesmo dificuldade. Sigo com meus julgamentos superficiais quando a ouço dizer: “Assim que conseguir a cidadania italiana, nunca mais volto praquele lugar”. Mais uma brazuca com síndrome de viralata - minha mente é mais rápida pra julgar do que comentarista de rede social. Alheia aos meus pensamentos, a moça triste diz: “…não quero mais ver minha família. Chega de falatório na minha cabeça. Meu pai nunca mais vai me bater..." Um arrepio gelado desce pela minha espinha. A Dona Vida adora me esculachar quando sou ridícula. A moça triste continua: “…ele vai ver...nunca mais vai meter a mão em mim". Nossos olhares se cruzam. Sinto uma imensa vontade de abraçá-la. Dizer que ela é linda, forte, bravíssima, que tudo dará certo e que ela nunca, nunca mais vai apanhar. Mas eu não falo português. Então sorrimos. Eu desço na minha estação. E ela segue rumo à sua nova vida.


8.1.18

O caçador de vagalumes



O caçador de vagalumes

Depois do sexo, os dois trocam lentas carícias iluminadas pela luz da claraboia. Um vagalume voa pelo lado de fora. Ela sorri. Ele acende um cigarro e lhe conta que quando tinha oito ou nove anos precisou ser internado por muitos dias. A ala infantil estava lotada e o colocaram num quarto com adultos. Era a única criança ali e seus pais vinham visitá-lo duas vezes ao dia, pois eram pobres e não tinham como parar de trabalhar.

Ele dá uma tragada e, por trás da fumaça, ela vê os olhos dele embaçarem. Ele fala do tédio, do bumbum todo furado de injeção, das enfermeiras nem sempre gentis. Acabou virando o mascote da ala e, de vez em quando, alguém lhe dava um gibi. Para aquele garotinho pobre, um gibi era mais que um presente de valor incalculável, era também uma companhia, que ele saboreava lentamente página por página, quadrinho por quadrinho.

O vagalume continua tentando entrar pelo vidro. Ele se lembra da vez que uma paciente o acordou no meio da noite e o levou até um pequeno jardim entre as alas. Era uma noite muito escura, sem luar. A mulher cobriu os olhos dele com as mãos e, quando retirou-as, estavam no centro de uma nuvem de vagalumes. Por todos os lados, centenas de pirilampos enchiam o ar da noite com desenhos de luz. A paciente deu-lhe um vidro de marmelada e ele ficou algum tempo correndo pelos canteiros tentando capturá-los. Aquele momento o fez esquecer-se de tudo: doença, picadas, tédio, pobreza, saudade. De repente, era só um moleque caçador de pisca-piscas. Ele dá outra tragada no cigarro e a abraça com doçura. Por trás da fumaça, ela vê seus olhos verdes se encherem de brilho.