29.8.18

Churrasco à italiana



Churrasco à italiana 

A chuva cai torrencial. As pessoas vão chegando e sentando ao redor da mesa que ocupa a maior parte de um puxadinho na frente da piscina. 

Acendem inúmeros cigarros e abrem um vinho que é servido em copos comuns e xícaras de chá. A minha está com a alça quebrada.

A conversa vai ficando animada. Não há nada pra comer.

Uma mulher faz um spinello, que é como os italianos chamam o baseado. Fuma um pouco e bota pra girar. O próximo da roda reclama que ela botou haxixe só na ponta, porque ele só fumou tabaco.

Ela manda ele se ferrar e o spinello segue girando. Tabaco ou haxixe, todo mundo fuma. Menos uma italiana querida, de uns 70 anos, que delicadamente passa o beque adiante explicando que desenvolveu uma coceira na garganta quando fuma, que a faz tossir muito. E é só quando fuma. Ela me explica que o problema é o tabaco. Se fosse erva pura não tinha problema, porque erva não lhe faz tossir. 

A converse segue. Mais cigarros são acesos, mais garrafas vão sendo abertas, mais spinellos vão entrando na roda. E nada de comida.

O tempo passa e um deles pergunta o que vão comer. Começa uma discussão sobre o que comprar no supermercado pra fazer o churrasco. Fazem uma lista que inclui um reforço no vinho e algumas brejas.

Decidem que cada participante deve dar 10 euros. A mulher do spinello com haxixe supostamente só na ponta diz que dará 5 euros porque é vegana mas está numa dieta de proteína então vai comer só um pedacinho de carne. O encarregado das compras não aceita e eles começam a discutir. Ou a conversar, mas pelo jeito que gesticulam e falam alto, parece que vão se matar. Dois ou três participantes concordam em dar 20 euros e o rapaz das compras se afasta resmungando..."é sempre assim...conheço bem esse pedacinho de carne..."

Antes de sair para o supermercado, ele coloca na minha mão uma pelota de haxixe enrolada no magipack e pede pra eu tomar conta. Pensei que devo ser a mais careta da roda pra ter ficado com aquela função.

Botei o pacotinho no bolso da bermuda e mais vinho na minha caneca sem alça. 

O tempo continuou frio e chuvoso. Começo a gelar. A senhorinha alérgica a spinellos com tabaco diz que vai pra casa buscar um casaco. Pego uma carona até minha casa. Coloco uma calça, pego umas frutas, umas verduras, uns peperoncinos e volto pra festa.

Quando chego, o rapaz das compras me pede o haxixe de volta. Âhn...haxixe? Cacete! Ficou no bolso da bermuda! Me sinto a mais tiazona lesada. O rapaz pede pra vegana que come carne um pouco do dela. Ela nega. Eles voltam a brigar. 

Pego minha bolsa e vou andando até minha casa buscar o bagulho do moço. Não demoro a tornar. Feliz. A chuva tinha passado, o entardecer estava lindo e uma caminhada no centro histórico sempre me faz bem. 

Chego no puxadinho e corro acudir a senhorinha alérgica que está tendo uma fortíssima crise de tosse.


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