8.8.18

A maquiadora de defuntos



A maquiadora de defuntos.

A mulher baixinha me conta que maquia defuntos e explica que não chegou ali por acaso. É daquelas que sempre se viraram e nunca tiveram vergonha de trabalhar. Tinha filhos pra criar, qualquer trocado lhe servia. Fazia pão, unha, olhava criança. Arrumou um bico num salão de beleza e lá aprendeu a maquiar.

Um dia, uma amiga muito querida lhe chamou e, sem graça, lhe pediu que maquiasse sua mãe que havia acabado de morrer. "Ela sempre foi muito vaidosa, tenho certeza que gostaria de ser enterrada bem arrumadinha."

O que não se faz por uma amiga. Pegou seu kit make e foi pra funerária. Conta que cuidou da mãe da amiga como se ela ainda vivesse. Penteou, passou laquê, blush, rímel, batonzinho com sua cor preferida. Disse que envolveu aquele corpo já sem vida com muito amor e quando a família a viu, choraram agradecidos. A mãe estava linda e muito digna.

Depois desse vieram outros pedidos, inclusive das funerárias. Foi se especializando e esse virou seu trabalho principal.

Diz que até hoje trata seus clientes como se fossem vivos. Fala com eles, descobre preferências, penteia seus cabelos, devolve-lhes a cor, o viço, os enche de carinho. 

"Muita gente tem nojo do que faço, mas não ligo. Faço meu trabalho com amor e pago minhas contas em dia."

Ela enxuga uma lágrima discreta e parte dizendo: "Os mortos costumam ser mais gentis comigo."

E naquela mulher pequenininha, vi um gigante.



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