18.12.09

Mais um texto republicado sobre o Natal.



Preciso rever meu Natal quando:


...começo a achar que a vida eterna, prometida pelo Cristo, é o tempo que vou levar para pagar as compras de Natal.

...torço por uma reforma que elimine dezembro do calendário.

...os amigos secretos viram inimigos declarados depois de abrirem os presentes.

...dou vinho para o vigia da rua, esquecendo que ele é crente.

...o entregador da Veja, que nunca me viu, me acorda domingo às 7 da manhã para pegar a caixinha.

...meu filho comenta que a árvore do vizinho dá de 10 a zero na nossa.

...meu filho comenta que com estas luzinhas mixurucas nós nunca vamos ganhar o concurso de decoração natalina do condomínio.

...o assunto na hora da ceia é se Chester é uma ave natural ou se deram hormônio para o bichinho.

...a bebida fica a cargo do cunhado e ele traz um vinho garrafa azul horroroso que veio na cesta da firma.

...começo a achar que quando Jesus falou em sofrimento, ele se referia a encontrar uma vaga para estacionar.

...meu filho pergunta se, ao invés de cartinha, pode colocar sua lista de presentes no Orkut do Papai Noel.

...a empregada faz um vale para pagar a prestação da tv de plasma (que eu não tenho).

...a fantasia do Papai Noel fica apertada no meu irmão. No meu cunhado. E no meu marido.

...meu filho pergunta quem está tomando conta da fábrica de brinquedos agora que o Papai Noel está trabalhando no shopping center.

...meu filho me pergunta como Papai Noel não morreu congelado na manjedoura e se Belém é a capital do Polo Norte.

...esqueço da lembrancinha do porteiro e ele esquece o restante do ano de colocar o jornal na minha porta.

...o colega que levou máquina fotográfica na festa de final de ano da firma é demitido por justa causa.

...o presente mais barato da lista do meu filho, só poderá ser comprado se eu entrar na lista dos 10 mais ricos da Forbes.

...meu marido ameaça entrar com um pedido de impeachment se aparecer mais um cheque-pré no canhoto do cheque.

...depois de peregrinar por lojas, shoppings, calçadões e supermercados, fico na dúvida se estamos comemorando o nascimento ou o calvário do Senhor.

...meu filho pergunta porque o Papai Noel é branco em um Shopping e negro em outro.

...me lembro que o motivo de toda esta loucura é celebrar o nascimento do Homem que, há 2000 anos, introduziu o conceito de vida simples no ocidente.

14.12.09

O assunto é maternidade.

O blog "Escreva Lola escreva" lança a terceira edição do concurso de blogueiras. O tema deste ano é "Maternidade". A seleção final inclui 25 textos que trazem diferentes visões sobre o assunto. Algumas engraçadas, outras emocionantes, mas todas imperdíveis.

Clique aqui para entrar e boa leitura!

9.12.09

Vamos salvar o Natal - texto republicado



Vamos salvar o Natal.

A primeira coisa seria minimizar o Papai Noel da Coca-Cola. Esse velhinho obeso, gastador, que nos estimula a comprar, comprar e comprar e que está, desde o final de novembro, molhado de suor, em TODOS os shoppings centers. Desculpe, bom velhinho, mas você ficou over. Não tem mais nada a ver com os tempos que vivemos. Acabou a magia.

O que vai salvar o Natal, é voltarmos ao principal sentido da festa no mundo ocidental: celebrarmos o nascimento do Cristo. Não o Jesus religioso, que morreu pelos pecadores e que faria você parar de ler este texto bem aqui. Não é desse Jesus que falo. Temos que resgatar o Jesus revolucionário. O ecologista. O maluco beleza que, há 2000 anos, abalou as estruturas da Roma perdulária e cheia de vícios, com suas idéias de vida simples. De amor ao próximo. De comunhão com a natureza.

Temos que resgatar o barbudo que disse que somos todos uma só família. Todos habitantes do mesmo planeta Terra. Eu, você que está me lendo, o feirante, o doutor, o agricultor, o catador de papel. E que as diferenças impostas pela sociedade são cruéis e fonte da maioria dos nossos problemas.

Temos que resgatar o homem que, ao ver que a comida não dava para todos, dividiu-a. E, ao invés de uns poucos comerem muito, todos comeram um pouco. O homem magro, de modos frugais, que se satisfazia com frutas, grãos, mel, peixe (talvez) e um vinhozinho de vez em quando, porque ninguém é de ferro. E não com leitões, cabritos, tenders, chesters, lombos, picanhas - geralmente, todos juntos na mesma ceia.

Temos que reviver as idéias do sujeito que introduziu o conceito de vida simples no ocidente. E praticou-a todos os dias em que viveu. Aquele homem que vivia apenas com o necessário, pois acreditava que os únicos bens que devemos acumular, são os valores que levamos dentro de nós. Que expulsou os mercadores do templo, pois uma coisa são valores da alma. Outra são os do dinheiro. E feliz é quem consegue diferenciá-los.

Renascer a alegria de um homem que vivia rodeado de amigos, que amava os animais, que viajava, que era carinhoso e benevolente com todos. Principalmente, com aqueles que erravam (isso me dá um alento, que nem te conto!).

Neste Natal, tenho pensado muito nisso. Pensando no aniversariante que, quando estudado livre das amarras e preconceitos da religião, revela-se um grande visionário. Um líder transformador, que parecia antever a encrenca que 2000 anos depois nos enfiaríamos. Em tempos de simplicidade voluntária e consumo consciente, não vejo ninguém melhor para seguirmos.

Que este ano, a gente consiga plantar a sementinha de um Natal verdadeiramente Cristão. Um Natal "menos" em tudo o que é material. E "mais" em alegria, risadas, comunhão com aqueles que amamos, divisão e confraternização. Um Natal com menos sobras. Nas lixeiras, na geladeira e nas parcelas do cartão de crédito. Essa é a minha sugestão. Um Feliz Natal para você e para todos nós!

Publiquei este texto no Natal do ano passado, para participar de uma blogagem coletiva do "Faça a sua parte".

4.12.09

A Educação Infantil e a alfabetização.

A educação Infantil e alfabetização.

Um belo dia, seu chefe lhe informa que você terá que aprender a operar um novo software. Um programa novo, com códigos e linguagens absolutamente desconhecidos por você. Para aprendê-lo, há dois caminhos:

Ser colocado numa sala, para que alguém lhe transmita toda a teoria e a programação, através de aulas, exercícios, livros, trabalhos e provas.

Ou, fazer antes uma aproximação sua ao novo software. Isto é, circular pela empresa para entender os motivos de estarem implementando aquele novo programa. Descobrir por que ele é importante, qual contexto será usado, quais as enormes possibilidades que ele abrirá para você e para a companhia, quais recursos ele oferece, onde você pode pesquisar mais, quem já trabalha com ele, com quem você pode trocar conhecimentos etc. Só então, depois de situado, envolvido e familiarizado, inicia-se o aprendizado formal do software.

Analisemos as duas opções. A primeira é um aprendizado passivo. Você está fechado numa sala recebendo um bocado de teoria, provavelmente entediado, perguntando-se o porque de ter que aprender tudo aquilo, achando que a chefia só inventa, e, louco para sair e tomar um café.

Na segunda opção, você entra na sala com vontade de aprender. Teve a oportunidade de visualizar o amplo horizonte que o novo programa abrirá na sua carreira e está curioso e engajado em explorá-lo. Quer compartilhar com os amigos, conversar sobre ele em casa, pesquisar na internet, comprar livros sobre o assunto.

Na educação infantil, muitas escolas ainda ensinam como a empresa que força o funcionário a aprender algo que ele não sabe para que serve. Ensinam a "ler e escrever" contando com um conhecimento prévio que a criança não possui. Ignoram que o mundo "letrado e numerado" tão familiar aos adultos, é desconhecido aos pequenos. Enfiam-nos na sala e tascam desenhos de letras, caligrafia, cópias e ditados sem que nada disso faça muito sentido na cabecinha deles.

Uma boa escola de educação infantil não foca seu trabalho na alfabetização. Porque sabe que as crianças pequenas são perfeitamente capazes de aprender letras, números e palavras, mas tem uma enorme dificuldade em uni-los atribuindo significados. Isto é, elas enxergam tijolos, janelas e telhas. Mas não visualizam a sala.

Por isso, a boa escola não perde tempo alfabetizando antes da hora. Porque é um aprendizado sem significado. O foco é dado a coisas mais essenciais para a infância (mas que nem sempre fazem tanto sucesso entre os pais): sociabilização, psicomotricidade, a exploração de sons, cheiros, cheiros, sensações e de tudo o mais que o brincar oferece.

Voltando ao exemplo do software, a boa escola preocupa-se em fazer a aproximação da criança com o mundo da escrita, deixando-a pronta e com vontade de receber o aprendizado formal, que acontecerá no ensino fundamental.

E para que isso não aconteça de forma entediante e impositiva, são desenvolvidas atividades lúdicas, divertidas e fantasiosas envolvendo textos e cálculos. Receitas de culinária, registros de explorações no jardim, a divisão de um bolo de chocolate, cartas endereçadas a super heróis ou ao melhor amigo, contagem dos pontos de jogos, leitura de contos, elaboração de roteiro de teatro, histórias em quadrinhos, brincadeira de escritorinho, visitas a feiras e mercados etc.

Escrevo isso em resposta a uma pergunta muito interessante que me foi enviada recentemente. Diante de um filhote visivelmente mais adiantado que a turma, os pais vivem o dilema de adiantá-lo ou não, pois no ano que vem fará o último ano da educação infantil e temem que ele se desestimule "quando um dos objetivos é escrever as primeiras palavras", coisa que o garoto já faz. E concluem perguntado se devem sacrificá-lo agora para evitar que ele sofra no futuro.

Numa escola cujo foco não seja alfabetizar e sim aproximar as crianças das imensas possibilidades da escrita, não faz diferença que uns sejam mais adiantados que os outros. Pelo contrário. Esse contato entre os desiguais é favorecido e permite uma troca muito rica de conhecimento entre as crianças. Um estimula o outro e todos crescem juntos.

Além disso, supondo que a criança seja mesmo bem mais adiantada que os demais, normalmente, esse adiantamento se dá em apenas uma área. Nas demais, ela é tão pequena como as outras. Ao ser adiantada, que recursos terá com os maiores em situações de conflitos? Conseguirá se impor ao grupo como um igual? Será tão hábil como os maiores nos times de futebol? E quando começarem os jogos sexuais, os namoricos? Não será incentivado precocemente para isso? Para que forçá-lo a atender as exigências de lição de casa, de ficar sentado copiando e realizando exercícios, quando sua maior vontade ainda é brincar?

Só para exemplificar, na sala do meu caçula, que está no último ano do infantil, há um garotinho que sempre se mostrou mais adiantado. Quando eles eram muito pequenos e desenhavam apenas rabiscos, ele já desenhava figuras humanas, com dedos, roupas e dentes. Hoje ele já lê e escreve. Comparado ao meu filho que, aos 6 anos, só escreve o próprio nome, ele estaria muito a frente em termos de domínio da escrita. Mas, nos demais aspectos é um menino idêntico ao meu. De vez em quando, ainda escapa um xixi nas calças, faz manha quando contrariado, é imaturo na resolução de conflitos. Se os pais dele fossem avaliar apenas os aspectos intelectuais, talvez o adiantassem. Mas, conhecendo o menino, tenho certeza que seria um erro em todos os demais aspectos. Ele acompanharia a nova turma intelectualmente. Mas teria que se esforçar além da conta para acompanhá-la emocionalmente.

Meu conselho aos pais que enviaram a pergunta permanece o mesmo do texto "Crianças adiantadas na escola": não adiantem seu filho.

Não é a série que vocês devem questionar e sim os procedimentos da escola. Alfabetizar crianças tão pequenas, dar ditado, evitar a troca entre elas, é muito, muito pouco! Seu filho, definitivamente, merece mais. Mas não será adiantando-o um ano que ele obterá aquilo que precisa para se desenvolver na sua plenitude.

Conversem com a escola para que, no novo ano, eles tenham um olhar cuidadoso para que ele não se entedie e peça que eles desenvolvam outras atividades além da escrita. Mais lúdicas, mais brincalhonas. Mais infantis.

E mantenham-se firmes. Sem ansiedade. Logo ele estará mais crescido, lidando com diversos conteúdos e as diferenças não serão mais tão acentuadas. A infância passa rápido. Defendam a do seu filhote com unhas e dentes! O restante virá naturalmente, no tempo e na idade certa.


Obs: Este texto contou com a consultoria da Telma Vinha, docente da Faculdade de Educação da Unicamp, autora do livro "O Educador e a Moralidade Infantil", co-autora do livro "Quando a escola é democrática", minha irmã queridíssima e responsável por muitos dos palpites que dou por aqui.


1.12.09

Escolas se omitem sobre o bullying.


Escolas se omitem sobre o bullying.

Um dos principais agentes do combate ao bullying é a escola. Contudo, ainda são poucas as escolas que sabem como lidar com o problema.

Uma das grandes dificuldades está em identificar o problema. Diante de um caso de agressão, muitos professores acham que "é coisa da idade", "no meu tempo a gente também fazia isso" e relevam.

Outro problema comum é culpar a vítima. É comum dizer que a vítima do bullying "provoca" a agressão com seu comportamento "estranho" e "arredio". E responsabilizam-na por não se integrar ao grupo.

Omissão também é um grande fator. Muitos professores sabem do problema e deixam pra lá. Botam a culpa da agressividade dos alunos na gordura trans, no Silvester Stalone, no pai traficante e, candidamente, lavam as mãos.

Falta de confiança é outro problema que impede que a vítima conte a um professor o que está acontecendo. Estudos com vítimas de bullying apontam um receio muito grande da vítima em contar, tanto por medo das agressões piorarem, como por achar que nada será feito.

Muitas vezes a escola se omite diante do ciberbullying. Por não ser praticado dentro dos muros da escola, os educadores ignoram as agressões feitas por celular, internet, comunidades tipo orkut etc. É o bom e velho "te pego lá fora", só que o lá fora agora é a web.

Publico aqui um vídeo que retrata bem a gravidade do problema. É em inglês, mas supercompreensível até por quem não fala nientes da língua.




Depois de identificado o bullying, outros problemas surgem.

É comum tentarem resolver o problema com bronca, sanções e suspensões. Nada disso funciona e, muitas vezes, a situação piora. Obviamente que os autores devem ser responsabilizados pelos seus atos, mas junto a isso, é preciso haver um trabalho sistemático na escola sobre resolução de conflitos, respeito às diferenças, conscientização sobre o bullying e suas consequências. E isso não deve ser feito em forma de sermão. Filmes, peças de teatro, jornais, assembléias e relatos verdadeiros ajudam a trabalhar o tema de uma forma não autoritária e muito mais eficiente.

Falta espaço aos indignados. Muitos alunos sabem das agressões a um colega, discordam dela, mas se calam. É preciso que a escola encontre mecanismos de fortalecer e valorizar os indignados, estimulando-os a agir em defesa da vítima e criando canais para que eles se manifestem (um mural, blog, assembléias, teatro, relações de confiança etc).

Sempre lembrando que os primeiros a saberem das agressões são os colegas. Principalmente, as agressões em comunidades da web. Conscientizá-los, criar espaços para denúncias, ouvi-los e respeitá-los é uma forma eficiente de tomar conhecimento rápido das agressões e agir prontamente, antes que causem maiores danos às vítimas e ao ambiente escolar.

Este comercial sueco é muito bom e mostra como os colegas podem se manifestar para combater o bullying.



E vamos ficando por aqui. Bjs!

24.11.09

Bullying, pesadelo nas escolas.



Bullying, pesadelo nas escolas.


Digite bullying no google (com e sem y) e terá uma surpresa. São milhões de páginas. O que mostra que este tipo de agressão há muito deixou de ser uma praga restrita aos enlatados da TV americana.

O bullying hoje é um fenômeno mundial e, muito provavelmente, acontece numa escola bem perto de você.

Foi tema bastante debatido no Congresso de Moralidade Infantil e anexo aqui uma matéria muito boa sobre o tema, com depoimentos de algumas das pesquisadoras que apresentaram trabalho no Congresso.

Como mãe, assisti às apresentações sobre bullying com atenção. Queria entender melhor o fenômeno e assim, aprender a lidar com ele. Um dos meus filhos já foi vítima de abuso físico e psicológico na escola - todos prontamente contornados e resolvidos pela direção, mas que me deixarem permanentemente atenta ao problema.

O que aprendi e que me ajudou muito no caso do meu filho:

1. Está provado, estatísticamente, que os agressores escolhem vítimas que não contam, isto é, as silenciosas. Portanto, converse sempre com o seu filho e estimule-o a contar a você, ao professor ou à coordenação toda e qualquer agressão sofrida. Muitas crianças acham que "se contar, piora". E é exatamente isso que os agressores querem que elas acreditem. Fique atenta.

2. Não estimule seu filho a sempre "deixar pra lá". Ele não é obrigado a levar na esportiva quando é apelidado de algo perjorativo, quando um colega coloca propositalmente o pé para que ele tropece ou quando um professor faz chacota dele em público.

Coloque-se no lugar da criança e imagine alguém chamando você de rolha de poço na frente de suas amigas. Ou fazendo-a se sentir diminuída por usar uma bolsa genérica. Humilha, fere e ofende. Por que, na mesma situação, seu filho teria que deixar pra lá? Ninguém é obrigado a conviver pacificamente com repetidas "brincadeiras" de mau gosto.

3. Fique atenta aos relatos de agressão. Se forem sérios ou repetitivos, procure imediatamente a escola. Exija uma atuação pronta e efetiva dos educadores na solução do problema. Muitas vezes, somos levadas a crer que o fato não é tão sério. Observando e ouvindo seu filho, você saberá melhor do que ninguém qual a gravidade do problema.

E se o problema continuar, tome uma atitude: mude seu filho de escola, faça um B.O (agressão é crime, ainda mais ao menor), vá para a justiça. Converse com Deus e o mundo. Só não deixe que o problema se prolongue.

4. Hoje o ciberbullying é uma triste realidade. Fique atenta aos orkuts, msn, mensagem de celular etc. Alunos usam o ambiente livre da internet pra "zoar" com a vítima. Quando ocorrer, boca no trombone, exija a intervenção da escola, dos pais e, se necessário, da polícia.

5. O bullying precisa de platéia pra acontecer. Preste atenção aos relatos do seu filho sobre os colegas. Pode ser que ele seja da turma dos agressores ou seja da platéia, isto é, dos que assistem passivamente a este tipo de comportamento. Não seja complacente com chacotas, apelidos maldosos e comentários humilhantes vindos do seu filho, para com colegas e professores. Deixe claro que este tipo de comportamento é inaceitável em casa, na escola e na vida. E que ele não só pode, como deve, se posicionar contra toda e qualquer agressão aos colegas, mesmo que para isso, perca algumas "amizades".

Deixe claro também que ele não precisa gostar ou ser amigo de todos. Mas o fato de não gostarmos de alguém ou não concordarmos com algumas das suas atitudes, não nos dá direito de agredi-lo ou humilhá-lo.

6. O mais triste que aprendi: para haver o bullying é preciso que a vítima se enxergue da mesma forma que o agressor a vê. É muito cruel! A vítima geralmente se sente inferior por ser diferente dos demais (baixinho, pobre, gordo etc) e tem uma enorme dificuldade em superar suas diferenças e se inserir no grupo. Por isso, por mais que os pais digam: "reaja, bata de volta, não deixe que façam isso com você", ela não consegue e precisa de ajuda, muitas vezes profissional, para fortalecer sua auto-estima e se sentir merecedora de mais respeito.

E não se iluda. A imensa maioria das escolas ainda não sabe como lidar com o problema. Bullying não se resolve com bronca, castigo ou sanções. É necessário um sério comprometimento da instituição com o desenvolvimento moral das crianças e com a resolução de conflitos. É necessário que o respeito seja moeda corrente entre alunos, professores, diretores e funcionários.

Esse assunto dá pano pra manga. Retornaremos a ele em breve.

18.11.09

Mãetorista


Mãetorista

Acordou irritada. Teria que levar o mais velho para a aula de guitarra. Depois fazer o almoço e buscar os menores na escola. Dar almoço e levá-los pra natação. Voltaria no final do dia. Cansada, suada, carregando mochilas de roupas molhadas e uma tonelada de impaciência.

No dia seguinte, era capoeira e inglês. E no outro guitarra de novo. Não sobrava mais tempo pra nada. E o pouco que sobrava, só conseguia cochilar desmaiada no sofá. Nem a novelinha conseguia mais assistir.

Resolveu dar um basta na vida de mãetorista. Ligou pra cunhada especialista em logística infantil. A dica era objetiva: peça ajuda aos outros pais. Ofereça. E trace roteiros para otimizar suas saídas.

Na primeira tentativa de "dividir" roteiros, a recepção dos outros pais foi fria. "Ah, eu tenho mesmo que vir pra esses lados, não preciso de revezar." A cunhada deu força, não desista, consulte outros. Achou uma mãe que suspirou aliviada diante da proposta. O acordo foi feito e com isso, ganhou 3 dias livres na parte da manhã.

Faltava dar um jeito nas atividades. Resolveu radicalizar: "desmatriculou" a filharada de tudo. Eles estranharam. Mas não reclamaram muito. Aparentemente, estavam tão cansados como a mãe e reagiram com criatividade à novidade do tempo livre. Inventaram jogos como jogar bolas de tênis do outro lado do muro e pulá-lo para buscá-las. Ou pingue-pongue individual, que a mãe quase filmou e colocou no Youtube. Passaram a passear de bicicleta, cozinhar juntos, frequentar mais o parque, receber amigos. E de vez em quando, uma matinê no cinema.

No novo ano, decidiu que era hora de retomar algumas atividades. Com muito critério: apenas uma para cada um. E pensando antes de tudo na logística. O mais velho entrou no inglês. Numa escola próxima, para poder ir de carona com o pai e voltar de ônibus. O do meio insistiu no futebol e foi matriculado na mesma escola que o filho da vizinha. Assim elas se revezam. E o caçula fica em casa brincando.

O restante do tempo é pra brincar, estudar (doce ilusão de mãe) e aproveitar o maior tesouro do homem moderno: o tempo.

E o marido nisso tudo? Comemora o sumiço de tanques e mais tanques de gasolina na fatura do cartão, a diminuição dos boletos de pagamento de cursos, filhos menos estressados e indo melhor na escola. E, sem dúvida, a mulher mais leve, bem humorada e bonita ressusurgida das cinzas do volante do carro.

11.11.09

Identidade de mãe



Identidade de mãe.

A primeira mãe segura o microfone e conta que trabalha fora por opção. Adora o que faz, mas reconhece que é muito difícil conciliar vida própria, profissional, maternidade e casamento. Vive correndo de um lado pra outro, gostaria de ter mais tempo com os filhos e todas as queixas comuns da maioria das mulheres que trabalham fora. Mas afirma que jamais ficaria em casa. Teme perder sua identidade, mesmo achando que muitas vezes a não a encontra em meio à tanta loucura e cansaço. A casa a sufocaria e não abriria mão da carreira que lutou tanto pra conquistar.

A segunda mulher olha para a câmera e conta que optou por ficar em casa. É mãe tempo integral. Ainda tem dúvidas da sua opção, mas enquanto as crianças são pequenas, sente que é dever seu estar presente. Considera-se num período de doação. Por enquanto, nada é mais importante na sua vida que sua família. E é para ela que vive e se dedica. Quando pensa nas amigas enlouquecidas, muitas tomando anti-depressivos, com filhos em criados em creches ou por babás, acha que fez a escolha certa. Não quer aquela vida. Mas tem dúvidas se a vida que vive é exatamente a que quer.

Colocadas frente a frente num programa de TV as duas argumentam. A primeira defende com unhas e dentes sua opção e acha que filho e marido não justificam tamanho sacrifício. Pergunta: "E quando seus filhos crescerem? O que vai ser de você?". A segunda defende-se dizendo que hoje é o momento deles. Que os filhos da outra são criados por terceiros e que isso trará consequências no futuro. O auditório se divide.

A discussão prossegue sem conclusão. A psicóloga do programa intervém. Diz que ambas tem sua razão, que a situação não é 8 ou 80. E blá, blá, blá.

Faltou uma terceira convidada no programa. Uma mulher que não contasse o que faz. Saberíamos apenas que ela é mãe. E que dissesse que a opção que tomou não foi por filho, nem por marido, nem por carreira. Foi por si própria."Escolhi o que era o melhor pra mim. Não foi fácil, ainda é difícil, mas tenho certeza que nada seria melhor pra mim neste momento."..."Não tenho a menor idéia de como estarei daqui há alguns anos, nem como meus filhos ou meu casamento estarão, mas hoje estou bem. Cuidando de mim e, com isso, cuidando melhor deles. Tenho dias de loucura e correria, mas estou no controle da minha vida. E sei que minha identidade está em mim. Não na minha carreira, nem no meu marido e muito menos nos meus filhos. Amo-os imensamente. Mas amo mais a mim mesma. E com isso consigo amá-los ainda mais a cada dia."

Aí o programa se encerraria. A platéia bateria palmas, mas muitos sairiam do estúdio sem entender direito o que aquela mulher misteriosa quis dizer.

9.11.09

A culpa é da vítima.



A culpa é da vítima.

Hoje ligo o computador para descobrir que a Uniban resolveu de uma forma emblemática a agressão à aluna do vestido curto: expulsou-a da universidade.

E assim deu seu veredicto: o culpado é a vítima.

Chamei a decisão de emblemática porque infelizmente é o retrato fiel da forma primitiva com que ainda resolvemos nossos conflitos. Precisamos achar um culpado e puni-lo. Mesmo que este seja a vítima.

É assim com crianças desaparecidas: "Os pais não cuidaram como deviam". Com esposas espancadas: "Ela provocou". Com vítimas de assalto: "Ah, mas quem mandou andar com o vidro do carro aberto". Com vítimas de clonagem de cartões: "O senhor não cuidou direito da sua senha".

Culpar a vítima não é exclusividade de ninguém. Nós pais, sem querer, fazemos isso o tempo todo. Quantos de nós, ao vermos um filho voltar da escola chorando porque o amigo quebrou seu brinquedo, exclamamos acusadores: "Quem mandou levar o brinquedo à escola!". Ou quando o filho apanha: "Você deixou ele te bater?". Ou, quando ele esquece um objeto e alguém pega: "Quem mandou ser esquecido?".

Nessas horas, esquecemos de proporcionar o conforto que toda vítima necessita para se recompor e reagir. Disparamos logo a sentença: "a culpa é sua" e pioramos sua dor.

Fazemos isso porque foi assim que aprendemos. Foi assim que sempre agiram conosco. Não há má intenção. Apenas uma inabilidade herdada e nunca refletida. Mas, esse comportamento vindo de uma reitoria de uma universidade é inaceitável.

Educadores estudam e são treinados para EDUCAR. Inclusive através dos conflitos. E não, para resolvê-los de forma primitiva e automática, como fazem os leigos. Os alunos podem achar que a moça "provocou". A mídia pode fotografar e exibir com orgulho o tal vestido curto. Mas, educadores, da mais alta patente, deveriam saber separar o joio do trigo. Ao invés de usarem o caso como oportunidade de reflexão, crescimento e transformação, preferem punir logo a vítima e assim resolvê-lo rapidamente. Com isso, dão razão aos agressores: "Acabamos com a puta da universidade!"

Um caso lamentável, em todos os aspectos. Onde podemos apontar inúmeros culpados. Menos a vítima.



P.S: A Ceila, do Desabafo de Mãe está promovendo uma discussão sobre o papel dos pais neste triste caso. Para participar clique aqui.

6.11.09

As mães de "Orgulho e Preconceito".


Se você é fã da escritora inglesa Jane Austen e caiu aqui em busca da visão de um especialista, fuja! Mude rapidamente de blog. Sou uma leitora amadora e escrevo porque estou participando de uma roda de leitura sobre o livro "Orgulho e Preconceito", promovida pela Vanessa, do Fio de Ariadne.

Aderi ao desafio, porque já tinha lido este livro, adorado e achei interessante relê-lo e discuti-lo numa nova fase da minha vida.

Gosto muito do texto da Jane Austen. Acho-a delicadamente irônica. Ela consegue descrever com sutileza e bom humor os costumes da sociedade inglesa do início do século 19, construindo frases impagáveis, com um humor inteligente e nada escrachado.

A primeira coisa que me chama atenção quando leio livros ou vejo filmes sobre os ingleses de outrora é que ninguém trabalha. Incrível como eles conseguem levar a vida jogando baralho, escrevendo cartas, lendo livros e viajando. Ninguém de respeito pega no batente. Alguém pode me explicar de onde vinha a renda dessa gente? Só podia ser das colônias. Não tenho outra explicação.

Mas são as mães, as personagens que mais me atraem. Incrível como, cerca de 200 anos após terem sido criadas, elas se mantém super atuais. O mundo mudou, a mulher mudou, as relações mudaram. Mas mãe é mãe. E continuam todas, muito parecidas. Seja nas novelas da Jane Austen, do Manoel Carlos ou na casa da sua sogra. Veja se concorda:

Mãe casamenteira - A Sra. Bennet é desesperada para casar as filhas. Para isso as atira sobre qualquer bom partido que pinte no pedaço. Quem não conhece uma mãe assim?

Eu conheci duas que preciso registrar para a posteridade.

A primeira foi na recepção do ginecologista. A mulher, felicíssima, contava a todos os presentes que suspeitava que a filha adolescente estivesse grávida de um super astro da música sertaneja, com o qual foi para a cama após um show. Detalhe: o sujeito é casado e tem filhas na idade da menina. Esta está mais para os roteiristas do Pânico do que para Jane Austen.

A segunda mãe é minha preferida: ao constatar que a sobrinha "rodada" havia se casado muitíssimo bem e a filha "certinha" de 30 e poucos anos estava "encalhadíssima", a mãe solta a seguinte pérola: "Você já viu como as galinhas sempre arrumam bons maridos? Por isso, eu falo pra minha filha...você precisa dar mais! Esse é o seu problema."

A mãe controladora. Lady Catherine tem personalidade forte. É orgulhosa, autoritária e controla a vida de todo mundo. Dá conselhos e palpites o tempo todo, desde a criação dos filhos dos outros, até como fazer uma mala. É uma criatura de nariz empinado e com opinião formada sobre tudo. Acha sua filha, uma débil criatura, superior a todas as solteiras disponíveis e planeja para ela um casamento com um homem à altura. Perto da mãe controladora ninguém solta pum. Nem respira. Quem nunca trombou com uma matrona assim?

Mãe genro é genro, com ou sem alça. Esta é a Sra. Lucas. Quando soube que a filha desencalhou, respirou aliviada. Que importa que o genro é o ser mais chato e mala sem alça sobre a face da Terra? Ele tem uma renda, estabilidade, a filha terá casa, comida, mas terá que lavar roupa. Ninguém é perfeito. Pior sina seria a pobrezinha aguentar um futuro de solidão. Essas mães são do tipo Erasmo Carlos: antes mal acompanhada do que só. Conheço muitas assim. Fecham negócio com o rapaz trabalhador. Sem sal, sem tempero e, muitas vezes, azedo. Pelo menos ele fará companhia nas tardes de domingo pra assistir o Faustão.

Essas são as mães. Tem as solteiras e estas inspirariam um texto a parte. São divertidíssimas. Os maridos então, surreais. Tudo o que eles querem é sobreviver ao matrimônio. Aconteceu há 200 anos. Mas podia ser hoje. Assim caminha a humanidade. E viva senso e a sensibilidade da Jane Austen.

Bom final de semana!

29.10.09

Minha composteira mambembe.



Já que o assunto é lixo, encerro a semana com compostagem doméstica.

Tenho uma amiga querida, que mora em Los Angeles, que hoje é Pro em compostagem. Ela sempre me estimulou a fazer compostagem, afirmando que é muito fácil e não toma tempo. Me enviou até um livro "Easy Composting" com dicas ótimas para quem está começando.

O primeiro problema que enfrentei foi a escolha da composteira. Na internet há milhares de modelos e o livro ensina outras tantas. Eu tinha três requisitos: gastar pouco ou quase nada, ser simples de lidar e não ser muito aberta para não juntar bicho perto de casa.

Resolvi a questão reaproveitando um tambor de metal, sem boca e sem fundo (tomei o cuidado de pegar um tambor que não armazenou produtos tóxicos).

Coloquei o tambor diretamente sobre a grama e nele deposito minhas sobras de frutas, verduras, talos, cascas de ovo, pó de café, etc. Depois cubro com folhas secas, serragem ou mesmo com o jornal que fica embaixo do galinheiro.

Deveria mexer diariamente, mas mexo uma vez por semana, fazendo assim: ergo o tambor e cai tudo na grama. Daí pego uma pá e jogo tudo de volta. Cansa. Mas imagino que estou a caminho de ter bíceps de Madonna e mando ripa na pá de pedreiro.

A composteira precisa ser tampada. Para evitar chuva e bichos. A tampa da minha é uma cobertura de piscininha de criança, também reaproveitada.

Hoje minha composteira mambembe está trabalhando a pleno vapor, compostando, inclusive, sobras da cozinha de algumas vizinhas.

Com redução, reciclagem e compostagem, a quantidade de lixo que colocamos na rua para o lixeiro recolher foi drasticamente reduzida.

Tão drasticamente que, em Los Angeles, a Prefeitura está promovendo cursos de compostagem doméstica e subsidia a compra da composteira. Minha amiga já está no nível minhocário.

Bom feriado de finados. E se for viajar para um local sem coleta seletiva, separe seu lixo e traga de volta num cantinho do carro. Não custa nada e, enquanto tivermos as prefeituras que temos, é o que nos resta a fazer.

Semana que vem a gente volta a tricotar.

26.10.09

Lei de Responsabilidade Ambiental


Lei de Responsabilidade Ambiental.

Em julho, visitei Ribeirão Preto, SP e fiquei chocada com a quantidade de lixo nas ruas. Papelão, sacos plásticos, folhetos de propaganda, pets, latas, caixotes quebrados e até um sofá velho vi jogados no calçamento e nas praças do jardim Mosteiro e da Av. Treze de Maio. Isso sem falar na completa falta de regras para placas e autidóres (mobiliário urbano). A minha querida cidade natal é uma das mais poluídas visualmente que conheço.

Semana passada passei em frente à escola João Cursino de São José dos Campos, SP e fiquei chocada com a quantidade de lixo na calçada e no lado de DENTRO dos portões da escola.

Neste final de semana, visitei o bairro do Capricórnio, em Caraguatatuba, litoral norte de SP e fiquei prá lá de chocada com a quantidade de lixo nas ruas. Lixo de consumo e entulho de obras. As simpáticas vielas de areia deste bairro estão tomadas por sujeira. E no mercadinho local há um cartaz alertando para o surto de escorpiões e aranhas. O preço que pagamos pela porquice é alto. Que me perdoem os porcos.

Caminhei pela praia de Massaguaçu até a Lagoa Azul e pude constatar que a sujeira é generalizada. A Lagoa fica em área de preservação e lá não há nenhuma lixeira ou presença do poder público. Resultado: a quantidade de lixo jogada por todo lado é assustadora. Latinhas, pets, emaranhados de linhas de pesca, chinelos, bitucas, cadeiras de praia quebradas, tampas de protetor solar, fraldas, sacos plásticos em profusão e abundância. E cocô. Muito cocô flutuando na água marrom daquela que já foi uma linda lagoa azul.

Cheguei à conclusão que, pior do que a população, que não está nem aí, é o poder público que foi eleito pra botar ordem na casa e não faz NADA. Não há trabalho algum de educação (nem mesmo numa escola), não há coleta eficiente, não há fiscalização. Não há nem lixeiras numa área de preservação que RECEBE turistas! E é vendida como um dos cartões postais da cidade.

Precisamos de uma Lei de Responsabilidade Ambiental nos moldes da Lei de Responsabilidade Fiscal. O sujeito é eleito, tem que saber que precisa cuidar com seriedade da preservação ambiental da sua cidade. Tem que promover medidas educativas. Tem que fiscalizar, tem que multar, tem que fazer a despoluição visual, a destinação correta do lixo, preservar os mananciais, construir ciclovias, exigir a recuperação de áreas degradadas, tratar o esgoto, buscar soluções, desenvolver projetos e parcerias etc.

Lei de Responsabilidade Ambiental já. Ou os homens públicos se comprometem verdadeiramente com o meio ambiente ou correm o risco de ir pra cadeia. Porque não é só com dinheiro que se pratica a corrupção. O descaso também corrompe.

Leia mais sobre essa proposta, clicando aqui.

21.10.09

Crianças Foie Gras


Vamos observar dois gansos. Um deles foi criado solto no campo. Não é muito grande, mas é ágil, rápido e tem a saudável musculatura de uma ave que cresceu nadando na lagoa, perseguindo insetos e correndo de um lado para outro com seu bando.

O outro é uma ave bem maior e vistosa. Porém se olharmos de perto percebemos que é meio disforme, estufada, desajeitada. Foi criada na gaiola para virar foie gras. Desde pequeno, seus cuidadores enfiaram-lhe comida goela abaixo para que crescesse rapidamente e virasse um excelente patê. Nunca correu pelo terreiro. Nunca teve oportunidade de explorar um formigueiro. Nunca se divertiu em capturar um peixinho na lagoa. Sua vida sempre foi receber ração e digeri-la rapidamente para conseguir suportar a próxima refeição.

Fiz essa analogia, depois de ouvir um relato de uma amiga sobre dois jovens que conheceu em um curso de inglês. Eles estudam em uma dessas escolas que despejam conteúdo sobre crianças e adolescentes, como se as preparassem para serem moídas. Diariamente eles recebem uma quantidade imensa de informação, que os obriga a dedicar muitas horas do dia sobre apostilas e livros. Semanalmente, fazem provas. A vida deles é sobreviver a elas. Digerem a informação até passar pela prova e depois partem para a próxima carga de informação. Como fazem os gansos foie gras com a comida.

Se analisarmos, muito desse conhecimento virará gordura. Isto é, não servirá para muita coisa na vida adulta. Será, literalmente, deletado. E o que restará disso é um jovem que cresceu sem exercitar os músculos da reflexão, do pensamento, da descoberta. São jovens que foram treinados, desde a mais tenra idade, a receber ao invés de ir atrás. A decorar ao invés de refletir. A sobreviver ao aprendizado ao invés de vivê-lo intensa e alegremente.

Pobres meninos e meninas foie gras. Podem até, um dia, conseguir voar para o sul. Mas terão que se esforçar muito, muito, muito para escapar do moedor.

19.10.09

Para os alfabetizadores, com carinho.

Este texto foi escrito com o objetivo de ser publicado no dia do professor. Para variar, eu acabei me perdendo com as datas e ele sai hoje, atrasado. Espero que as professoras me perdoem por mais essa.



Dona Wilma foi professora da Prefeitura de São Paulo e trabalhou a vida toda nas séries iniciais de alfabetização. Por opção. Ela adorava alfabetizar.

Conheci-a quando já estava aposentada, mas me lembro do carinho e do entusiasmo com que ela conversava sobre seu tempo de ensino. Ela ria quando dizia que seu negócio era sala de aula. Recusou todas as propostas de transferência para um trabalho mais burocrático. E levou muita reprimenda porque se recusava a "soltar" os alunos para participar de reuniões internas. Se queriam conversar, dizia, que fosse em outro horário. Ela tinha uma aula a dar e levava isso a sério.

Não me lembro, nas nossas conversas, de ouvi-la falar mal dos pais, do sistema, das condições, dos colegas, do que fosse. O assunto era sempre os alunos. Mesmo depois de aposentada, sua maior preocupação eram eles. Contava como se empenhava em fazer aquelas criaturas tão pequenas se sentirem capazes e confiantes diante do imenso desafio que é a alfabetização. Sempre os elogiava e demonstrava orgulho por suas conquistas. Tinha um jeito todo especial de lidar com os mais desatentos, negligenciados ou com dificuldades em aprender. Sentava-os perto dela, penteava seus cabelos, dizia como eles eram queridos, como eram inteligentes e o quanto era bom tê-los como alunos. A estes dedicava um acompanhamento especial.

Se orgulhava em contar que nunca, na sua trajetória, um aluno seu terminou o ano sem saber ler e escrever.

Com Dona Wilma aprendi que educar é, antes de tudo, respeitar e acreditar no outro. Mesmo que este outro seja um ser mal saído das fraldas ou um arrogante jovem de boné. Ela nunca enxergou num ser humano um caso perdido.

Meus filhos tiveram a sorte de ter em suas vidas, professores que também souberam misturar amor às letras e aos números. Admiro-os imensamente, pois sei que não é fácil. Educar é um longo percurso, cheio de desafios e conduzir uma criança com segurança por ele requer conhecimento, determinação e paixão pela profissão. A estas pessoas maravilhosas meu eterno obrigada! Em tudo o que eles venham a ser ou fazer, haverá sempre uma parte de vocês os acompanhando.

14.10.09

Vamos falar de caligrafia.



Já escrevei que sou contra os exercícios sistematizados de caligrafia. Já fui bem mais, de ir à escola questionar o procedimento e etc. Hoje convivo melhor com eles. E até entendo - pero no mucho - onde se quer chegar.

Mas, caligrafia ainda é algo polêmico. Tem mãe que se aborrece com os bilhetes da professora pedindo mais capricho na letra. Tem outras que acham que a escola não ensina a ter a letra bonita, como antigamente, e que deveriam dar mais exercícios de caligrafia.

Para chegarmos a uma conclusão, precisamos compreender a função da escrita.

Por que escrevemos? Para nos comunicar. A principal função da escrita é passar uma informação a outro. Ou para nós mesmos. E, como todo tipo de comunicação, quanto mais clara, mais fácil é compreender a mensagem. Por exemplo, é muito chato escutar uma rádio com chiados. Ou ver TV com fantasmas. Com a escrita, funciona da mesma forma.

Porém, poucos se dão conta que a "clareza" na comunicação escrita não é obtida apenas com a letra bonitinha. Para um texto transmitir com eficiência a mensagem do autor, é preciso ser legível, ter boa ortografia, gramática, coerência (começo, meio e fim) etc.

Na minha experiência como professora universitária de redação publicitária, cansei de pegar textos escritos com "letrinha de professora" que eram impossíveis de serem lidos, pois não uniam lé com cré. E já peguei "garranchos" capazes de entregar preciosidades de criatividade e raciocínio. Qual dos dois "ruídos" é mais fácil de ser ajustado: a letra ruim ou a pobreza de raciocínio? O primeiro, obviamente. Letra ruim dá-se um jeito. Ainda mais em tempos que se tecla mais do que se escreve a mão. Já o raciocínio ruim é uma falha de formação dificílima de ser corrigida na idade adulta. E que compromete gravemente o desempenho desta pessoa em inúmeras áreas.

Vamos agora retornar à infância e à sala de aula. O que é mais fácil de ser ensinado: como desenhar uma letra bonita ou como pensar? Tará! Você acaba de descobrir porque perde-se TANTO tempo fazendo crianças preencherem linhas e linhas infinitas de caligrafia. Porque ensinar a pensar dá trabalho! E exige muito mais do professor. Tem que se estimular a leitura, tem que analisar coerência do texto, tem que investir em idas e vindas de contação de histórias, tem que ouvir, tem que refazer, tem que corrigir, tem que estimular. Muito mais fácil mandar copiar "preciso ter a letra caprichada" 150 vezes no caderno de caligrafia. Muito mais fácil pegar um caderno e corrigir com uma única anotação: "Que texto legal. Mas precisa melhorar a letra.". Muito mais fácil exigir capricho do que exigir interpretação, coerência e raciocínio.

Então devemos desencanar de cobrar letra legível? Não. Mas temos que manter o foco: a escrita serve para comunicar. A letra do seu filho está comunicando? Os outros leitores estão conseguindo entender o que ele quer transmitir? Sim, então desencane. Faça como eu e arrume outra neura. Não, ninguém entende o que ele escreve, aí sim é hora de investir no ajuste fino da letra. Como?

Nunca, jamais, em hipótese alguma dizendo que a letra é feia. Letra feia não é crime. E a feiura é subjetiva. Pergunte à mamãe coruja. Se a letra de uma criança precisa ficar mais legível, pais e professores devem dizer isso a ela, sem grandes dramas. "Fulano, não estou conseguindo ler o que você escreve. Precisamos fazer uns exercícios para tornar sua letra mais fácil de entender." Ponto final. Dá-se os exercícios de caligrafia- para a criança que precisa deles - e, somado a isso, estimula-se esta criança a desenvolver atividades que precisam ser lidas por outras pessoas, como anotações de receitas culinárias, a escrita dos bilhetes na agenda, dos textos coletivos, o preenchimento de um cheque, uma matéria num jornalzinho de classe ou mural.

Outra coisa que ajuda (e muito!), são os exercícios de coordenação motora. E estes devem começar bem antes do aprendizado da escrita: amassar argila, fazer uma bijuteria, recortar, colar, costurar, descascar uma fruta, abrir uma lata, brincar de se pendurar, escovar os dentes, mexer um brigadeiro na panela, etc.

O mundo que vivemos não pede mais calígrafos. Pede seres pensantes, autônomos e criativos. E não é desenhando milhas e milhas de letras e fazendo quilômetros de cópias que se chega lá.

6.10.09

Essa escola existe.


Ontem visitei uma escola diferente.
Onde as crianças estudam a luz e aprendem a acender as estrelas.

Ontem, descobri que é o Sol o ratinho que come a Lua.
E que, para virarmos super-heróis, só precisamos ser humanos.

Ontem, meninos me mostraram retratos urbanos escondidos
na pobreza das favelas e nos muros do condomínio.

Vi crianças correrem atrás de foguetes, como se estes fossem balões.
E observei um carro que não solta fumaça para rodar pelo chão.

Nesta escola, canos tocam música e o piso é macio,
sente-se o doce da musse e o perfume do alecrim.

Ontem, perdi 50kg com o verdadeiro regime da lua.
Plantei margaridas e aprendi que não é no supermercado que brota a vida.

Ontem, uma minicidade me transformou em gigante voyer.
E vi um prédio de palitos começar a se erguer.

Enxerguei coisas do tempo da vovó. Do meu tempo e do que virá.
E me emocionei muito com o que vi.

Ontem, visitei uma escola diferente.
Que não tem professores, apenas sonhadores.

E saí de lá, como a maioria dos seus alunos.
Feliz.

2.10.09

"Pensativos" e um vídeo divertido para o final de semana.

Esta semana, recebi dois textos que me deram muito o que pensar. Um é um relato muito sincero e humano da Hegli, sobre sua experiência como professora em uma escola pública estadual. Essa instituição tão falada, tão temida e tão desconhecida por todos nós. A Hegli arregaçou as mangas e neste texto conta como está sendo a experiência e como ela está mudando sua vida. Clique aqui ler "Prefiro ser uma metamorfose ambulante" .

O segundo texto é para ler com calma e preparada para levar um soco. Pelo menos foi o que senti. Um choque de realidade. Enviado pela Silvia Schiros, este texto narra um episódio de bullying sofrido por uma menina, em um colégio de elite de São Paulo. A partir deste episódio, Eliane Brum, a autora, questiona várias coisas, como filhos criados por babás (as chamadas crianças terceirizadas), a opção por colégios particulares, os valores da nossa sociedade e a cruel e devastadora desigualdade que vivemos. Clique aqui para ler "Entre os muros da outra escola".

E, para relaxar depois de tantos pensativos, um video divertido e bem apropriado a um tema que tem estado na nossa pauta: pais, papis e papitos.

29.9.09

Procuro estágio no setor de mães.


Foi dormir aborrecida. Havia escutado umas malcriações do filho quase adolescente. O menino reclamou que era muito chato ficar com a mãe em casa. Ela pegava no pé e lhe mandava fazer coisas insuportáveis, como arrumar a bagunça, ou buscar na venda uma coisinha ou outra que faltava.

Ela mesma reconhecia que era uma discussão boba, fácil de relevar. Mas rejeição de filho dói. Por menor que seja. Além do mais, ele já era grandinho. Podia muito bem ajudar na casa. Mas como fazer para isso acontecer sem tanto desgaste e reclamação?

Achou engraçada a vida. Desde que nasceu foi preparada para o mercado de trabalho. Passou anos estudando nas melhores escolas que seus pais puderam proporcionar. Fez curso de línguas, datilografia, pré-vestibular, faculdade, estágios. Aprendeu a se vestir para uma entrevista, a demonstrar confiança, a sobreviver a uma dinâmica de grupo, a elaborar um currículo matador, a lidar com chefe meurótico, fornecedor furão e colegas fofoqueiros. Sobreviveu a tudo e a todos. Havia sido bem treinada.

Como podia então, se deixar afetar tanto pelas malcriações de um garotinho imberbe, mal saído das fraldas? Ficar tão perdida diante de uma tarefa não realizada? Da falta de reconhecimento e de cooperação?

A resposta lhe tirou o sono. Foi treinada para ser uma profissional. Nunca lhe ensinaram a ser mãe. Era como se, a mais desafiadora tarefa que um ser humano pode exercer - criar e educar outro - fosse um conhecimento adquirido instantaneamente, a partir do momento que se dava a luz. Pior ainda. Aprender antecipadamente a ser mãe, não era nem cogitado. Coisa de cursinho de igreja pra moças pobres. Segunda divisão no campeonato da vida.

Queria ter sido avisada antes, muito antes, que aquele serzinho indefeso e encantador que lhe entregaram na maternidade, passaria o restante dos dias questionando tudo aquilo que ela acreditava. Revirando conceitos, mexendo com seus medos, suas verdades absolutas. Sua segurança de profissional qualificada.

Queria ter aprendido que, mesmo se matando para cumprir a mais distante das metas, não receberia aumento, nem promoção, nem seria capa de revista nenhuma. E que nenhum guru motivacional iria tocar sua campainha nos dias de maior desânimo.

Queria ter descoberto bem antes que o sistema de gratificação é infinitamente superior ao de qualquer bonificação no holerite, mas que para isso teria que operar em regime de dedicação integral e exclusiva. Abrir mão de muita coisa, relevar outras maiores ainda.

E que o cliente era exigente. Muito mais exigente que qualquer cliente mala que já lhe apareceu. Chorava, implorava, se jogava no chão, dizia-lhe impropérios e verdades que não fazia questão alguma de ouvir.

Fechou os olhos e tentou dormir. O cérebro veio resgatá-la da imensidão dos conflitos existenciais, alertando que não havia mistura para o almoço. Exausta, resolveu usar alguns de seus conhecimentos profissionais. Se o rapazola do almoxarifado se recusasse a buscar um material, ela jamais sairia de seu posto para fazer o serviço dele.

Amanhã, decidiu, não haverá briga, nem discussão. E o filho vai almoçar arroz branco.

24.9.09

Sacolinhas plásticas na publicidade.

Há um fenômeno curioso que acontece entre os publicitários brasileiros. Eles ADORAM o primeiro mundo. Os carros do primeiro mundo. Os prêmios do primeiro mundo. Os hotéis de luxo do primeiro mundo. As lojas que, mesmo em terras paulistanas, imitam as do primeiro mundo. Adoram também os vinhos, as canetas, as charmosas cidades, o visual urbano descolado, os filmes, as louras esguias, os restaurantes, o uísque.

Porém, quando o assunto é fazer o Brasil virar primeiro mundo, eles boicotam descaradamente. Se tem uma coisa que publicitário brasileiro odeia é trabalhar num país de primeiro mundo.

Só isso explica o lóbi feio, muito feio, vergonhoso, que eles fizeram para que a propaganda de cigarro não fosse proibida por aqui. Coisa que, há tempos, já era proibida no primeiro mundo.

Propaganda de bebida alcoólica também já foi banida em muito países. Mas por aqui, os cidadãos publicitários fizeram campanha, foram pra Brasília, apertaram mão de parlamentar e etc. Conseguiram manter a milionária publicidade de cerveja ativa. Não sei se teriam tido o mesmo sucesso se vivessem no primeiro mundo.

Espernearam também quando retiraram os outidóres da cidade de São Paulo. "Vamos passar fome!" E nas férias foram para Londres, onde tiraram fotos em frente a fachadas centenárias, bem preservadas e sem poluição visual.

A última tentativa deslavada para continuarmos no vigésimo primeiro mundo foi um comercial bonitinho e totalmente ordinário da W para o "uso consciente" da sacolinha plástica.

Ordinário porque é pago pela indústria do plástico, que deve estar começando a se preocupar com o número cada vez maior de malucos beleza divulgando idéias de primeiro mundo sobre os horrores da poluição pelo uso indiscriminado do plástico.

Ordinário porque está sendo veiculado em um país que recicla menos de 5% do seu lixo (de acordo com as fontes mais otimistas). Ordinário porque coloca no consumidor - nascido, criado e educado em um país com educação de nonagésimo quinto mundo - a responsabilidade pelo uso e "destino correto" das sacolinhas, como se na imensa maioria das nossas cidades, houvesse algum.

Ordinário porque por baixo da roupinha de propaganda educativa, há um comercial muito bem feito de estímulo ao uso da sacolinha plástica.

Ordinário porque jamais seria veiculado em um país de primeiro mundo, sob o risco de consumidores realmente educados e conscientes banirem de vez a sacolinha plástica de suas vidas. No primeiro mundo as pessoas não engolem qualquer besteira, não. Deve ser muito difícil fazer propaganda por lá.



18.9.09

Quero ser pai.



O menino andava estranho. Deu para ter medo de dormir no quarto dele. Dizia que lá tinha um monstro. A mãe tentou de tudo. Homeopatia, dormir com ele, prece pro Papai do Céu, evitar desenhos agitados à noite, luzinha azul, esporte de dia pra cansar à noite, benzedeira. Mas o pânico persistia. Seu último recurso, pensou, seria uma psicóloga.

Até que o pai disse: "Vou resolver essa história do meu jeito. Tudo bem?"

Na última madrugada, quando o menino gritou assustado, o pai foi até o quarto dele segurando uma enorme faca de churrasco. Acudiu carinhosamente o filho e disse: "Hoje eu vou dar um jeito nesse monstro. Fica lá fora com a sua mãe. Não entre no quarto até eu avisar que está tudo bem."

O menino e a mãe saem espantados. O pai fecha a porta e eles escutam uns ruídos estranhos vindos de dentro do quarto. Móveis se arrastando, porta de armário batendo, gemidos, pancadas, som de luta, uivos, janela abrindo. O tempo passa nervoso. O barulho vai diminuindo. Até que o pai abre a porta. Está com a faca e a camisa ensanguentadas.

A mãe não acredita naquilo. Já ía abrir a boca pra dar um bronca daquelas na marido, quando o menino abraça o seu herói: "Pai, você matou o monstro!"

O pai diz: "Você tinha razão. Era um monstro enorme. Deu o maior trabalho, mas eu dei um jeito nele. Olha, ele caiu pela janela."

O menino vê marcas de sangue na janela e cai na risada. "Boa, pai! Aha! Era um monstro muito mal. Aha! Acabamos com ele, né pai?".

Mais tarde, depois de separar a roupa ensangüentada de groselha e conferir o sono tranquilo do menino, a mãe vai deitar pensativa. A maluquice parecia ter funcionado. Mas esse negócio de faca, sangue e assassinato era o fim. Onde já se viu, ensinar uma coisa dessas para o garoto? Cutucou o marido para uma conversa, mas o Xuazenéguer já estava roncando. Conformada, ela virou para o lado e fechou os olhos. A última coisa que lhe veio à mente foi que, pelo menos de vez em quando, gostaria de resolver as coisas com a facilidade dos pais.

14.9.09

A escola acolhedora.


Duas mulheres. Dois filhos com problemas comportamentais. Duas escolas.

A primeira mãe enfrenta o problema há alguns anos. Já passou por mais de 9 especialistas, faz todos os tipos de terapia, inclusive medicamentosa e vai levando a vida, na expectativa da entrada do menino na adolescência. É tranquila para tratar do assunto e muito grata à escola do garoto que, nas palavras dela, "abraçou a causa".

A segunda acaba de receber a "notificação" de que seu filho apresenta problemas. Chegou aflita e absolutamente perdida depois de uma reunião na escola. Viu-se diante de uma professora queixosa e quase irritada com o comportamento da criança. "Ele é dispersivo, atrapalha o andamento da aula, engasga na hora do lanche, não fica parado...", enfim, ficou claro para a mãe que seu filho, aquela criatura que ela ama mais do que tudo na vida, aos 6 anos, é um estorvo. Para provar o que diz, a professora começou a cronometrar o tempo que o menino leva para realizar uma atividade e anotar atrás dos trabalhos (tão absurdo que vai para o texto sobre bizarrices educacionais). Agora, quando o filho leva um trabalhinho para casa, carrega junto a impaciência da professora disfarçada de anotação de tempo. E a mãe se desespera.

Coloquei os dois exemplos para mostrar como as posturas das escolas fizeram toda a diferença na vida dessas famílias. Uma acolheu. Entendeu que os pais já enfrentavam problema grande o suficiente e que não lhe cabia torná-lo ainda maior. Vestiu a camisa e tornou-se parceira nos cuidados com o garoto.

A outra, se pudesse, eliminaria o menino do quadro de matrículas. Despejou o problema sem tato algum nos ombros da mãe que, absolutamente leiga, viu seu mundo desabar. Ignorou o fato de que, muitas vezes, a mãe está sozinha na percepção do distúrbio (o pai e os avós quase sempre acham tudo besteira) e deixaram-na ainda mais solitária. Indicaram uma psicóloga e lavaram as mãos. Toma que o filho é seu. Esquecem que o aluno é deles. E que, uma escola frequentada apenas por crianças danoninho é muito triste. Porque é irreal.

8.9.09

Mamãe e as galinhas.


Depois do coador de pano, do sabão caseiro e da composteira, minha última "encasquetação" foi comprar galinhas d'angola.


Moro perto de uma mata que vira e mexe nos manda, além de ótimas vibrações, alguns visitantes indesejados, como cobras, aranhas, escorpiões e outros insetos. As galinhas d'angola são excelentes para fazer um controle biológico, além de muito bonitinhas e autônomas. Soltas na área verde, não dão trabalho algum.

O plano era comprar um macho e três fêmeas, mas logo aprendi que, nesse negócio de galinhas, as coisas não seguem muito o plano. A loja só tinha machos e eu não tinha uma gaiola para fazer a adaptação do bichinho.

Ia desistir, mas a criançada chorou tanto, que acabei trazendo um galo que passou a noite num carrinho de feira 5 estrelas.

Dia seguinte, consegui achar as fêmeas em outra loja, mas diante da superlotação no carrinho de feira, soltei a galinhada no quintal para a devida adaptação. Foi uma festa. Galinha d'angola é muito engraçada e a molecada curtiu até. Tanto que chamaram os amigos e eles acabaram dormindo em casa (coloquei-os no quarto e não no carrinho de feira).

Acordei no domingo com a galinhada em festa e os vizinhos querendo me depenar. Corri botar ordem no galinheiro, mas meu cabelo estava de matar de susto - galinhas, crianças e maridos. Na pressa, amarrei um lencinho e desci pro quintal.

Meia horinha depois, tudo em ordem novamente, sento num caixote no jardim, com uma xícara de café e me sinto a própria Angelina Jolie, com a casa cheia de filhos, bichos e meu lencinho descolado na cabeça.

Daí a pouco chega meu caçula, que me olha esquisito e diz: "Mãe, sabia que você tá a cara da Tia Nastácia? Só falta ficar mais escurinha e enrolar o cabelo."

Quase caí do caixote de tanto rir. Nada como um filho pra dar uma aterrada na gente. Arranquei o lencinho da cabeça e, depois de dar jeito nas galinhas, corri dar jeito na juba.

2.9.09

Promoção - Festival Internacional de Cinema Infantil


O Ombudsmãe está ajudando a divulgar um evento bem bacana que acontecerá em algumas cidades (na minha não! Snif, snif....). É o Festival Internacional de Cinema Infantil, organizado pela Carla Esmeralda e pela Carla Camurati e que será exibido em alguns Cinemarks, a um preço bem popular.

Em São Paulo, a festa da abertura acontecerá no dia 12, quando 10 filmes do Festival estarão em cartaz, simultaneamente, no Cinemark Eldorado.

O Ombudsmãe vai sortear um ingresso para este evento, válido para 4 pessoas. Para participar, você só tem que colocar no seu blog um textinho divulgando o FICI, com um link para o site deles - www.fici.com.br. Depois faça um comentário neste post avisando da sua participação. Não esqueça de colocar o endereço do seu blog. Mas, tem que ser vapt vupt. Segunda-feira, dia 7/9, é o último dia para participar.

Se você ganhar, depois conte pra gente como foi. Se não ganhar, enxugue as lágrimas, junte a molecada e vá ao Cinemark conferir a programação, porque vale a pena. O FICI traz mais de 50 produções de vários países e alguns clássicos inesquecíveis. Além de oficinas para a galerinha e debates. E vamos torcer para que eles façam como no Festival do Cinema Nacional e coloquem a pipoca a um preço razoável.

Taí uma excelente opção de programa na telona, feita sob encomenda para as mães interessadas em afastar os filhotes da telinha (é nóis!).

Confira as datas e veja se o Festival acontece na sua cidade.

A estréia é em Brasília, de 4 a 13 de setembro, seguindo para São Paulo e Campinas, de 11 a 20 de setembro; Belo Horizonte, de 18 a 27 de setembro; Rio de Janeiro, Niterói e Recife, de 9 a 18 de outubro; Salvador e Aracaju, de 23 de outubro a 1° de novembro."

O FICI também oferece uma programação especial para escolas e projetos sociais. Entre no site e confira!

Desmistificando o coador de pano.




Outro dia, num impulso, comprei um coador de pano. Este singelo objeto já foi tema de discussões aqui no Ombudsmãe, num texto sobre redução de lixo e consumo. (clique aqui para lê-lo)

Cheguei em casa, chamei a minha gerente para assuntos avançados de economia doméstica - a empregada - e perguntei se ela sabia como usar aquilo. Ela riu e disse que na casa dela só se coa cevada no coador de pano. (A bichinha é mórmon e desconhece os prazeres celestiais da cafeína.)

Como todo bom consultor, a primeira coisa que ela fez foi apontar um impedimento: "Cadê o suporte?"

"Que suporte?"

"O suporte de arame pro coador ficar pendurado enquanto o café coa e depois para secar."

Pensei no trampo que seria ir atrás do suporte e resolvi improvisar, como quase tudo que faço na vida. Fiz assim e foi fácil demais:

1) Lavei o coador com água somente.

2) Me lembrei que minha mãe fervia os coadores novos em água e pó de café para não dar gosto. Fiz o mesmo. Coloquei água e pó em uma caneca, mergulhei o coador lá e deixei ferver por alguns minutos. Saiu marronzinho. Enxaguei. (Atenção: esse procedimento só é necessário quando for inaugurar um novo coador.)

3) Peguei o suporte de filtro de papel e coloquei o coador de pano lá dentro. Coloquei o café dentro do coador, como faço com o filtro de papel. Joguei água fervente e tará: cafezinho delicioso, sem desperdício de papel nem de dinheiro.

4) Esvaziei o pó do coador virando-o do avesso. Enxaguei (não use sabão). E pus pra secar no escorredor de louça (a gerente pendura no varal).

É MUITO FÁCIL!!!! Não dá nenhum trabalho, portanto, não entendo porque a adesão ao coador de papel foi tão grande. Acho que é porque antigamente, as pessoas misturavam o pó de café na água, antes de coar. Daí tinham que lavar a caneca. Só pode ser isso. Mas pule esta parte e faça como se fosse o coador de papel, que vc não ficará insatisfeito.

Com esta pequena troca, olha quantos ganhos: redução do uso de papel, de tintas tóxicas para impressão das embalagens e das emissões de CO2 no transporte de toneladas de filtros de papel para as lojas. E ainda economiza uns trocos. Pouco, mas é economizando de troco em troco que se cozinha com azeite extra-virgem. Ou se adoça com demerara.

Bom cafezinho!

P.S: como já foi dito, outra opção é a cafeteira italiana, que é chique, bella! Mas, de vez em quando, fica sem a borracha de vedação e não há meios de encontrá-la).

Link: Clique para ler texto mais melhor que o meu sobre como coar com o coador de pano.

1.9.09

Historinha canhota da evolução das coisas.


Nos idos anos 20, a pequena filha de imigrantes é matriculada no primeiro grupo. Logo na primeira aula, toma uma surra de régua de madeira na palma da mão. Seu delito: segurar o lápis com a mão esquerda. As surras se tornaram diárias, pois a pequena era bem distraída e volta e meia segurava o lápis com a mão sinistra. Ela acabou aprendendo a escrever, só a escrever, com a direita. Mas foi tudo o que aprendeu. Repetiu tantas vezes o primeiro ano que a mãe achou melhor tirá-la da escola. Colocou-a no curso de corte e costura e a menina revelou-se uma boa aluna, apesar de segurar a agulha só com a mão esquerda.

Na aula de pintura em porcelana, duas avós conversam. Ambas criaram seus filhos nos anos 60 e 70.
"Sabe que o meu filho é canhoto?"
"Jura? O meu também é!"
"Quando ele era criança você o obrigava a escrever com a mão direita? Eu nunca fiz isso."
"Ah eu também não. Tinha muita gente que falava que tinha que forçar, amarrar a mão esquerda e tudo mais, mas eu nunca forcei nada."
"Ah, tá certa. A pessoa não tem culpa de nascer assim, né?"

Anos 2000. Mãe e filho se divertem recortando figuras de uma revista. O menino, canhoto, apresenta visível dificuldade em recortar, até que desiste, afirmando ser "um péssimo". Mãe fica arrasada. Passa o restante do dia se culpando por não estar cuidando bem da coordenação motora e da auto-estima do menino. Vai dormir com aquilo na cabeça até que acorda, no meio da noite, com uma idéia fixa: "o problema pode estar na tesoura". Na madruga mesmo, entra no Google e digita "tesoura para canhotos". Descobre a américa! Canhotos precisam de uma tesoura especial, com lâminas invertidas. Agora, a única culpa que sentia era a de não ter descoberto isso antes.

No dia seguinte vai à papelaria. Compra 4 tesourinhas para canhotos. Duas deixa em casa e duas manda para a escola. A professora liga para agradecer. Afirma que desconhecia tal instrumento e que a escola passaria a disponibilizar tesouras invertidas para todos os alunos canhotos. Dias depois, a mãe chega em casa e encontra o chão da sala cheio de recortes e tufos de cabelo. Logo vê o filho, tesoura em punho, com um corte de cabelo bem parecido com o da Victoria Beckham. A mãe sorri emocionada. Seu péssimo tinha se transformado em um cortador. Nunca um corte de cabelo lhe pareceu tão lindo!

28.8.09

"Mãe, por que eu tenho que desligar?"


Para os pais interessados em uma abordagem criativa e muito inteligente do problema da "geração monitor", sugiro uma sessão em família do filme Wall-e (já saiu em DVD).

Wall-e é um filme infantil diferente. Não tem muita ação, nem diálogos. Mas é lindo, comovente e absurdamente atual. Imperdível para quem quer discutir com crianças (e adultos) questões sobre sustentabilidade, consumo excessivo e qualidade de vida.

A história se passa no futuro, com a humanidade vivendo fora da Terra porque o planeta está tomado pelo lixo. Nos transatlânticos interestelares, seres humanos obesos e quase sem musculatura, passam o tempo todo sentados diante de um monitor. Conversam muito, mas sempre com a tela. Nunca ao vivo. Ninguém olha para o lado, para fora ou para o outro. Ninguém percebe o céu, as estrelas ou mesmo a maravilhosa piscina da nave espacial. Todos vivem conectadíssimos e, ao mesmo tempo, alheios a tudo. Inclusive a si próprios.

Parece deprê, mas todos estão muito confortáveis com esta situação. Nenhum humano se dá conta de que as coisas poderiam ser diferentes.

A alimentação é um assunto a parte. Todos comem comida industrializada que são servidas por robôs e consumida, é claro, na frente do monitor.

Como vêem, é um filme feito sob encomenda para nós, mães neuras e naturebas com muito orgulho.

Boa pipoca, bom final de semana e com licença que vou entrar no módulo "ofilaine" até segunda-feira!

26.8.09

Crianças eternamente plugadas.





Li uma notícia de arrepiar. Um estudo britânico calcula que as crianças e adolescentes de hoje passam cerca de 10 horas por dia diante de algum monitor, seja tv, videogame, celular ou ipod. É a chamada "Geração Monitor". (Clique aqui para ler a matéria sobre o estudo.)

Um dia tem 24 horas. Se descontarmos as horas de sono e de escola, percebemos que estas crianças passam o restante do tempo olhando para uma telinha.

É um fenômeno, no mínimo, assustador. A tecnologia é extremamente sedutora. Nós mesmos, pais e mães, muitas vezes nos conectamos mais do que devíamos. E se, para nós, adultos, com freios e filtros desenvolvidos, é difícil resistir ao doce canto da cibersereia, imagine para as crianças.

Confesso que me sinto meio impotente diante do fenômeno. Aqui em casa tento impor limites ao uso de tais equipamentos, mas muitas vezes os limites são ultrapassados. Ou por comodismo meu e do meu marido, ou por cansaço, ou por não querer ser tão "generala" - sou eu quem geralmente os controlo e é muito chato impor a ferro e a fogo o tempo de telinha.

Um dos motivos pelos quais considero tão difícil mantê-los afastados dos monitores é que, não basta apenas controlar o tempo. Temos também que proporcionar alternativas. Quantas vezes nos predispomos a dar uma volta de bicicleta com eles? Ou jogar um jogo de tabuleiro? Fazer um picnic? Ou ao menos a receber um amigo para que eles tenham companhia? No cansaço do dia-a-dia, é muito mais fácil enfiar um filme no dvd, não?

E aqui não estou sendo neura. Em hipótese nenhuma. O recurso de ligar a tv ou permitir um jogo eletrônico numa hora em que precisamos ter um tempo pra gente é legítimo. O problema é quando este "descanso" vira a principal atração do dia.

O assunto é muito sério. Vi num programa da Oprah (olha a tv ligada!), uma família plugadíssima que aceitou o desafio de se desconectar por um tempo. O videogame foi guardado em uma caixa, a tv se limitou a 1 hora/dia. Internet, 30 minutos. Os primeiros dias foram um inferno. Como disse a mãe, "vi no meu filho de 5 anos, o comportamento de um viciado em heroína. Ele andava pela casa implorando pelo videogame, ficava raivoso, chorava. Não conseguia fazer mais nada. Foi muito dolorido vê-lo assim." Depois da abstinência, nasceu uma nova família. Passaram a conversar mais, fazer passeios juntos, ler um para o outro. Isto é, finalmente se conectaram de verdade.

Tais matérias me deram ânimo para vestir a capa da mãe chata e lutar pela liberdade dos meus filhos. Soa ufanista e é. A briga é contra gigantes. Mas mãe é um ser que não costuma se intimidar quando o assunto é defender as crias. A Nintendo que se cuide.

P.S: Os dois comerciais publicados acima, são de uma campanha espanhola para diminuir o tempo que as crianças assistem tv. É bem bonitinho e um bom gancho para uma conversa entre pais e filhos sobre o assunto.

24.8.09

Cobrando o produto que a escola me vendeu.


Uma escola particular é um negócio. A educação é o produto que eles vendem. Quando visitamos uma escola, somos informados das propostas pedagógicas ali praticadas, isto é, de como é o produto deles. Ao matricularmos nossos filhos, estamos comprando o tal produto. E esperamos que ele nos seja entregue como foi prometido, certo?

Quando uma escola "vende" uma determinada proposta pedagógica aos pais e não a entrega, se porta como um vendedor que oferece um carro com tração nas 4 rodas, mas na verdade o carro tem tração só em 3. Funciona? Pode até ser. Mas não foi isso que eu comprei.

Essa introdução é necessária, para que todos entendam que o discurso precisa condizer com a prática. Do porteiro ao diretor, toda a equipe escolar precisa estar ciente do que está sendo vendido aos pais e trabalhar sintonizada. Nas minhas inúmeras visitas a escolas ouvi discursos convincentes de coordenadoras, grandes conhecedoras de teorias educacionais. Mas, eu sempre pedia para visitar as salas de aula e ver alguns trabalhos e, em poucos minutos, era fácil de perceber que a prática não condizia com o que estavam tentando me vender.

Por exemplo, escolas que prometem não alfabetizar cedo, mas nas salas de aula só há letras e números pregados nas paredes. Escolas que se dizem "construtivistas" mas adotam apostilas. Escolas que afirmam respeitar o tempo e a individualidade de cada criança e o que se vê nas pastas são trabalhos idênticos e massificados. Escolas que vendem estímulo à sociabilização e resolvem conflitos com sanções, advertências e bilhetes aos pais.

Sempre procurei cobrar de professoras, coordenadoras e diretoras aquilo que me foi vendido. E nestas conversas já escutei justificativas de uma franqueza surpreendente, tais como: "Você não sabe como é difícil fazer as pessoas aqui dentro entenderem nossa proposta." Ou ainda: "É muito difícil contratar bons profissionais.". Um clássico: "Você é uma das poucas mães que acreditam nisso." Ou, o pior que já ouvi até hoje numa escola construtivista: "A fulana é uma boa professora, mas não acredita muito na proposta construtivista."! Seria o mesmo que comprar um pedaço de patinho vendido como se fosse filé mignon e o gerente do supermercado dizer: "Você não sabe como é difícil achar um açougueiro que entenda de corte de carne". Pera aí! Invistam em treinamento, façam um bom processo seletivo, estimulem o estágio para garimpar bons profissionais, estabeleçam parcerias com as faculdades, mantenham uma boa carteira de profissionais para as eventuais substituições (já peguei cada substituta que era caso de polícia!), acompanhem de perto o que está acontecendo nos pátios e salas de aula e sejam claros para a equipe: "Aqui, funcionamos assim e temos muita confiança no nosso trabalho. Quem não pretende trabalhar dentro desta proposta, favor procurar emprego em outro lugar. Temos um produto a zelar." Qualquer empresa que se preze, opera assim.

E, insista - do porteiro ao diretor - tem que haver coerência. Já vi faxineira dando bronca em criancinha que derrubou o suco, em uma escola que prometia "estimular a autonomia". Autonomia tem seu preço e é bom que a toda equipe esteja ciente disso, com rodinhos, vassouras e sorrisos a postos.

Encerro com um pequeno exemplo positivo, para ilustrar a diferença que faz ter uma equipe afinada. Outro dia fui buscar meu filhote na escola e como ele demorasse um pouco para sair, pedi à funcionária da portaria que o anunciasse novamente. Ela, educadamente, recusou-se a chamá-lo e explicou: "O seu filho me pediu que eu o chamasse uma vez só. Fique tranqüila que ele já vem." Logo, ele saiu. Não sei o que me surpreendeu mais. Se foi a minha pulga, na época com 5 anos, dando ordens de executivo para a portaria, ou a postura da profissional da escola em ouvi-lo, levar a sério o pedido dele e se lembrar, dentre tantas crianças, que ele preferia ser tratado daquela maneira. Aquela garota soube, naquele momento, agir de acordo com a proposta da escola de respeitar a individualidade e a autonomia de seus alunos. Ela confiou e meu filho respondeu à altura. Não foi mais preciso chamá-lo 2 vezes.

Em tempo: eu poderia ter reclamado da recusa da moça. Mas aí quem estaria sendo incoerente seria eu. Preferi aplaudi-la. E quem discordar que matricule o filho em outro lugar. A regra da coerência vale para todos, até para nós, pais.

20.8.09

O menino que perdeu seu gato.


Ao voltarmos das férias da gripe, tivemos a triste notícia do desaparecimento do Tóbi. Achei que meu caçula, em particular, ficaria bem abatido, mas ele me pareceu tranqüilo. Foi dormir e no dia seguinte disse que ia sair pra procurar o gato. Tinha nas mãos uns folhetos e cartazes que ele e os irmãos desenharam da primeira vez que o Tóbi sumiu.

Fui com ele, meio ressabiada, meio comovida. Sabia da dificuldade que seria encontrar o gato, que já estava sumido havia uns 10 dias. Imaginei também o pouco caso dos moradores do condomínio. Ao mesmo tempo, não tinha coragem de desanimá-lo. Me armei com uma fita crepe e lá fomos nós, à procura de Tóbi. Eu fiquei encarregada de pregar os cartazes nos postes. Ele de distribuir folhetinhos nas casas e falar com as pessoas. E como falou. Meu filho é uma criança "dada". Mas nunca imaginei que fosse tanto.

Abordou todas as pessoas que viu na rua, bateu nas portas, parou ciclistas e motoqueiros. Entrou na padaria do bairro, falou com todos, até com uns senhores que tomavam cachaça. De repente, eu, que moro há 7 anos neste condomínio e conheço um número restrito de moradores, me vi rodeada de pessoas amáveis e solícitas, superinteressadas em ajudar o garotinho de 6 anos a encontrar o seu bichinho. Ao contrário do que eu imaginava, as pessoas paravam o que estavam fazendo, davam atenção ao meu filho, olhavam a foto, pediam detalhes do fato. Todas o levaram muito a sério e se prontificaram a ajudar na busca.

No dia seguinte, o telefone começou a tocar. Vários gatinhos pretos com manchas brancas foram vistos. Nenhum era o nosso. Continuamos procurando. Mas, mesmo que não encontremos o Tóbi, descobri que não estamos sozinhos. Só isso já valeu a busca.

19.8.09

Filme bom em cartaz.



Ontem segui a dica da Lígia Mostazo, do blog da Lígia e fui ver um filme maravilhoso: À Deriva, do Heitor Dhalia. Adorei. É um filme de uma delicadeza extrema, que me fez refletir sobre coisas que eu guardo nas profundezas e que, de repente, ficaram "à deriva". Algo meio parecido com o que senti quando assisti "Beleza Roubada" do Bertolucci. Só que naquela época não era mãe, portanto, as sensações foram outras.

À Deriva é um filme sobre família, relacionamentos e escolhas. Me impressionou muito o papel da Debora Bloch, linda, verdadeira e de cara poderosamente limpa. É raro ver uma mãe assumindo que nem tudo são flores e que mesmo amando intensamente nossos filhos há momentos em que sucumbimos. E como...

O filme também retrata a descoberta, pelos filhos, de que os pais são absolutamente humanos. Que também erram, amam, têm desejos, ficam perdidos. E que essa descoberta, apesar de dolorida, é benéfica. Bom saber que pais não são totens.

Há muitas outras leituras e universos abordados, como o da adolescência (lindamente personificada na personagem Felipa, a filha mais velha do casal), a descoberta da sexualidade, enfim, é filme pra mais de metro e com uma fotografia que vale a pena ser vista na telona. Fica aqui a dica. Vá logo, porque pelo menos na minha cidade, filme bom fica 1 semana em cartaz (em compensação "Alfie e os Esquilos" permaneceu uns 6 irritantes meses no circuíto).

E feliz naufrágio!

17.8.09

Um jeito simples de reusar a água.


Hoje as crianças retornaram às aulas. E eu retorno oficialmente ao teclado. Meio preguiçosa, ainda sob os efeitos do recesso prolongado e com uns 200 emails não lidos (fora os já deletados). Portanto, mil perdões se volto meio sem jeito. Tô pegando no tranco.

Hoje eu vou lincar aqui uma dica superlegal da Carol Daemon, do blog A Menina do Dedo Verde, sobre reuso da água da máquina de lavar roupa.

A "lavarroupa" é uma das vilões do consumo de água. Há alguns anos eu reuso esta água através de um jeito supersimples: coloquei dois baldes de lixo, de 100 litros ao lado da máquina de lavar, e na hora de drenar a água, dreno nos baldes. A primeira água, vem bem suja e com sabão. Esta é boa para lavar quintal, calçada, garagem e descargas (locais onde não há problema ficar um pouco de "resíduo" de sabão). A segunda carga de água, do enxágue, é mais limpa, serve para limpar chão, lavar banheiro etc. A minha Brastemp, que comprei desavisada nos meus tempos pré-consciência ecológica, tem ainda uma terceira carga d'água (um abuso!). Como eu não uso mais amaciante, é uma água bem limpa, que pode ser usada para colocar roupa suja de molho e até para aguar plantas mais rústicas. (Muitas vezes eu descarto a primeira água, mais suja, e reuso apenas as duas cargas do enxágue).

Dicas:

1) CUIDADO COM CRIANÇAS PEQUENAS PERTO DOS GALÕES!!!!

2) tampe bem os galões, por causa da dengue.

3) Depois de três dias armazenada, a água pode cheirar mal (depende da quantidade de material orgânico), uma colher de cândida geralmente evita isso. Mas o ideal é usar logo a água. Programe suas lavadas de roupa para os dias que vai lavar quintal, banheiros etc. É muito fácil e logo vira rotina.

4) Se você tem empregada, explique para ela o novo sistema, mostre a diferença na conta de água e logo ela vira uma excelente "gerente de reuso da água".

Clique aqui para ler a matéria no blog da Menina do Dedo Verde.