21.10.09

Crianças Foie Gras


Vamos observar dois gansos. Um deles foi criado solto no campo. Não é muito grande, mas é ágil, rápido e tem a saudável musculatura de uma ave que cresceu nadando na lagoa, perseguindo insetos e correndo de um lado para outro com seu bando.

O outro é uma ave bem maior e vistosa. Porém se olharmos de perto percebemos que é meio disforme, estufada, desajeitada. Foi criada na gaiola para virar foie gras. Desde pequeno, seus cuidadores enfiaram-lhe comida goela abaixo para que crescesse rapidamente e virasse um excelente patê. Nunca correu pelo terreiro. Nunca teve oportunidade de explorar um formigueiro. Nunca se divertiu em capturar um peixinho na lagoa. Sua vida sempre foi receber ração e digeri-la rapidamente para conseguir suportar a próxima refeição.

Fiz essa analogia, depois de ouvir um relato de uma amiga sobre dois jovens que conheceu em um curso de inglês. Eles estudam em uma dessas escolas que despejam conteúdo sobre crianças e adolescentes, como se as preparassem para serem moídas. Diariamente eles recebem uma quantidade imensa de informação, que os obriga a dedicar muitas horas do dia sobre apostilas e livros. Semanalmente, fazem provas. A vida deles é sobreviver a elas. Digerem a informação até passar pela prova e depois partem para a próxima carga de informação. Como fazem os gansos foie gras com a comida.

Se analisarmos, muito desse conhecimento virará gordura. Isto é, não servirá para muita coisa na vida adulta. Será, literalmente, deletado. E o que restará disso é um jovem que cresceu sem exercitar os músculos da reflexão, do pensamento, da descoberta. São jovens que foram treinados, desde a mais tenra idade, a receber ao invés de ir atrás. A decorar ao invés de refletir. A sobreviver ao aprendizado ao invés de vivê-lo intensa e alegremente.

Pobres meninos e meninas foie gras. Podem até, um dia, conseguir voar para o sul. Mas terão que se esforçar muito, muito, muito para escapar do moedor.

23 comentários:

Ana Maria disse...

Show este texto... se vc me permitir, vou copiá-lo e entregá-lo as professoras dos meus filhos - claro com seus créditos... eu comentei com a coordenadora da escola sobre o seu blog, mas eles não acessam e eu entregando, "dá uma lidinha", eles acabam fazendo pois ficam "na obrigação" de me darem uma resposta se gostaram ou não...rs... na reunião da semana passada com os pais, o diretor comentou sobre caligrafia e por coincidência eu tinha lido o seu blog e comentado o texto com a professora... a sua, a minha posição era oposta a que o diretor falava... e aí comentei com a professora e ela contornou "dizendo que a letra é um meio de comunicação, que além de legível, a criança tem que saber ler, escrever..." e a conversa foi... mas quem sabe com textos como o seu, da Rosely Sayão,... alguma coisa melhore nessa cultura, neste sistema massacrante de decoreba... Um abraço e mais uma vez , Parabéns!

Ana Cláudia Bessa disse...

Taís, que saudade de vir por aqui.
Sempre, sempre me surpreendo e sabe aquele texto que a gente gostaria de ter escrito? É esse!
Brilhante o paralelo que você fez.

Infelizmente, hoje a maioria de pais e mães quer isso: um filho gigante, entupido de comida fast e ensino fast. Crianças que sabem usar o computador aos 3 anos mas não sabem brincar, não sabem imaginar...

Acho que ainda demora para mudar este pensamento mas fico feliz que façamos parte de um grupo que pensa diferente e por expressarmos nossas idéias em blogues que podem inspirar a reflexão de muitas mães como nós que sentem a necessidade de fazer diferente.

Beijos enormes!

PS:Posso colocar o primeiro parágrafo do seu texto lá no blog para indicar o restante da leitura para cá?

Tais Vinha disse...

Oi Ana Maria, claro que pode copiar. A idéia é cutucar mesmo, levantar questões, encontrar caminhos, refletir. A educação não pode estacionar em dogmas, pois o ser humano está sempre em mutação. Fico muito feliz de poder ajudá-la a transmitir suas idéias aos educadores dos seus filhos. Sei que às vezes essa comunicação é difícil. Apesar de TÃO necessária. Um beijão e obrigada pelo carinho.

Paloma, a mãe disse...

Perfeita a descrição. No ensino médio, eu fui totalmente menina foie gras. Por sorte, tive uma ótima base (pré-escola e fundamental) e consegui não ser bitolada e imbecilizada por isso. Mas sofri muito com esta indústria de vestibular (que hoje, começa ainda antes, meu deus) e não me adaptei nada ao sistema. Tanto que eu não queria fazer vestibular, queria ir pro interior viver de permacultura, logo eu, que nem de planta sei cuidar. Era uma fuga, obviamente. Eu odiava estas provas semanais, este excesso de conteúdo, digeri muito pouco, quase nada. O pior é que eu não tinha tempo para estudar o que eu gostava, pois tinha que me dedicar sempre às matérias em que eu ia mal. Não abri uma página do livro de História, que eu tanto amo, porque a prova de história era sempre casada com Matemática (todo sábado tínhamos duas provas, sempre Humanas + Exatas/ Biológicas). Terrível.

Tais Vinha disse...

Oi Ana Cláudia, que delícia tê-la por aqui!

Gostei de vc ampliar a analogia para as criancas estufadas com outras coisas fast. Realmente, não é só a overdose de informação que estufa e deforma. Me inspirou até a escrever outro texto.

Fico superfeliz e orgulhosa com o link no seu blog. O Futuro do Presente para mim é um marco nessa vida de mães blogueiras e palpiteiras.

Um beijão e obrigada!

anita disse...

Taís,
Falou tudo!
Ontem tive reunião na escola do meu menor, 7 anos e segundo ano.Eles estão dando movimentos da terra, translação e rotação, falei que o conteúdo está sistematizado, estão literalmente jogando assunto para esses pobres.E cobrando nas provas, o que é pior!
Agora uma ajuda/opinião: meu mais velho, 12 anos, estuda num colégio público, o Aplicação de Recife, fez concurso ano passado e se classificou muito bem, décimo segundo lugar em 2 mil inscritos para 55 vagas.Como a cultura desta escola é totalmente diferente, ele se soltou por lá..conversa muito, expõe suas opiniões, tudo bem assinado em baixo pelo corpo docente e diretores.Estimulam o livre pensar e se expressar.Só que agora ele encontrou o caminho das pedras:não cala mais a boca, fala demais, atrapalha as aulas e sexta soube que foi colocado para fora pela profe de francês.E agora?Como fazer o caminho de volta, se incentivaram tanto o "falar"? Como explicar a ele que em sala tem que ter limites? Eu já cansei, acho que falhei...Aguardo suas valiosas opiniões...Ele não pode se comportar assim, mas como fazê-lo entender isto?Estou tão preocupada...Obrigada!

Paula ZZT disse...

Aff, TaVi, você é de dar nó na gente mesmo.
Que analogia... Ai, vou considerar que todos os seus textos são passíveis de permissão para imprimir e divulgar...
Você é perfeita para usar no terrorismo poético e ajudar a mudar a visão...
Lendo os comentários nesse post e no outro, fiquei pensando... Temos que falar mais das escolas que se encaixam nessa visão, elogiar e "ignorar" as que estão fora disso. Para não ficar na cultura da reclamação, destacando o negativo...

Bjoks e obrigada por mais um maravilhoso nó em neurônios

Paula ZZT disse...

Oi, Anita.
Vou dar meu pitaco... Conversando com ela, muitas e muitas vezes.
Talvez com filmes... mostrando que há comportamentos e comportamentos. Hora e lugar... E que ser questionador é, em primeiro lugar, saber ouvir...
Ele está maravilhado com tudo o que está aprendendo, com o cérebro funcionando e é, como eu, um dos que adora externar isso e mostrar ao mundo, rsrsrs.
Bjoks
Boa sorte.
Paula

Paula ZZT disse...

ops sorry, Anita, conversar com ele.

Tais Vinha disse...

Oi Paloma, vc traduziu exatamente o que é uma criança foie gras. Que dureza ter que decorar uma matéria chata e sem significado quando a vontade é de mergulhar nos livros de história! Quanto aprendizado fadado ao esquecimento. Sem significado algum. Adorei a rebeldia permacultura. Já tinha ouvido falar de góticos, hare krishnas, bichos grilos (sou véia!). Mas permaculturistas rebeldes é primeira vez. Chiquérrima! hahahaahahahaha Bjs!

Tais Vinha disse...

Anita, muito legal você conseguir identificar o ensino sistematizado. Muitos pais ainda não conseguem perceber. No meio do ano, tirei meu filho de uma escola que era muito legal, pois eles decidiram adotar um desses sistemas eca de ensino. Aí foi matéria ladeira abaixo. Acabaram os projetos, acabou o acompanhamento individualizado, acabou a reflexão. Reclamei várias vezes e o que ouvia era: "será muito difícil retornarmos ao modelo anterior. 80% dos pais estão muito satisfeitos com a eca apostila". Entonces, achei melhor ir procurar minha turma.

Quanto ao seu filho maior, que sucesso ele ter entrado nesta escola. Parece ser uma escola muito boa e superdisputada. Eu sugeriria você tentar entender melhor o que está acontecendo, indo lá e conversando com professores ou coordenador e pedindo para saber o que está sendo feito para trabalhar esta dificuldade que ele tem em manter-se quieto (que, pelo que entendi, chega a atrapalhar os outros.)

Mas concordo com a Paula, ele deve estar descobrindo um novo mundo e isso é legal, não deve ser reprimido. Não se angustie tentando resolver o que foge totalmente do seu controle. A escola deve estar preparada para lidar com o entusiasmo dos adolescentes e não tem como você controlar o comportamento dele na sala de aula.

Esse limite precisa ser imposto pelos educadores e não por você. Logo, ele entenderá que há momentos para tudo. Mesmo que para isso precise passar por momentos difíceis, como ser posto para fora da sala. Fique tranqüila, ele é superjovem, é inteligente, está experimentando, logo compreenderá o novo código de regras. Fique apenas atenta ao rendimento dele. Se ele está aprendendo, acompanhando direito a matéria, lendo, escrevendo. Cobre esta postura dele, pois isso o fará entender que precisa prestar mais atenção nas aulas.

Primeiro filho mata a gente, não? Bjs!

Tais Vinha disse...

Paulets ZZT, terrorismo poético?! É possível isso? Que o Bush não a ouça, mulher! Concordo com você. Precisamos dar uma força pras escolas que tem coragem de ser diferentes. São poucas, raras e muitas vezes mal compreendidas. Agora quanto a ignorar as outras, não sei se consigo. Elas me tiram do sério, hahahahahahah. Bjs!

Diva disse...

Nossa Taís, que relação você fez!!!!!!!!!
Outro dia estava conversando com uma amiga, e falávamos do quanto não temos opções de escolas de ensino médio.
Gostaríamos de colocar nossos filhos numa escola como a da Embraer, mas infelizmente, não é possível.
É muito sério o que vemos acontecer....meninos e meninas foie gras! Ai que tristeza!
Um beijo!

Paula ZZT disse...

oi, TaVi.
Sim o terrorismo poético é um conceito desenvolvido por uns dos ícones da anarquia Hakim Bey. Lógico que eles tem umas radicalidades que eu não conseguiria, mas a idéia é boa. Segue um link:
http://www.nodo50.org/insurgentes/textos/cultura/11terrorismopoetico.htm

E segue também um link da revista Vida Simples falando da guerrilha do bem... Que é o que imagino com seus textos, expalhando ele pelo mundo!!
http://vidasimples.abril.com.br/subhomes/equilibrio/equilibrio_272812.shtml

Bjoks
Paula

Anita disse...

Taís e Paula,
Obrigada pelo ouvido e pelas dicas.
A gente vai aprendendo com os solavancos da vida né? Tomara amanhã possamos rir de tudo isso..
Por enquanto tô preocupada mesmo.
Achei-o calado demais desde a conversa que tivemos sexta, depois da reunião escolar.Não queria vê-lo contra nós...
Já conversei com a coordenação da escola e psicóloga:alegam que ele passa dos limites nas brincadeiras, incomodando aos professores e colegas.E se fosse desregrado lá em casa, eu calava.Mas ao contrário, temos regras, limites e disciplina sim.Isso é que me encuca:ele estaria se rebelando na escola, como forma de desforrar a disciplina em casa?
Ai, ai, dilema de mãe e pai...

ila fox disse...

Genial!

Tenho medo das agruras que as crianças de hoje tem que suportar viu...

No meu tempo a unica concorrência acontecia dentro do parquinho para ver quem pegava o balanço primeiro. :-/

Nadja Barros disse...

Oi, Taís!
Tudo bem?
Venho sempre aqui, no estilo entra muda e sai calada! E hoje pensei: por que? Se gosto tanto do seu blog, aliás, dos seus textos, da sua linha de raciocínio e da reflexão que suas palavras me trazem. Então achei que deveria te dizer isso e, tb que vou ser sua 65º seguidora. Acho tão engraçado o termo "seguidora"! Vou ser sua leitora, que agora vai comentar com frequencia e divulgar seu blog, tá bom assim?;)
Um grande abraço, Nadja.

Tais Vinha disse...

Oi Nadja, muito obrigada pelo carinho e estímulo. Seu comentário me fez pensar que "seguidores" realmente é um termo engraçado. Só válido para Cristo, Buda e tuiteiros. Vou mudá-lo (assim que descobrir como). Um beijão e seja superbem vinda!

Silvia disse...

Clap, clap, clap. Você conseguiu expressar tudo que eu e meu marido não queremos para os nossos filhos. Fomos na contramão e matriculamos nossa filha mais velha em uma escola diferente, assim eu espero. Publiquei no meu blog, viu? Obrigada pelo maravilhoso post.

Tais Vinha disse...

Oi Silvia, te agradeço muito o carinho e a publicação. A evolução da sua filha será o melhor guia para você ver o quanto ela está aprendendo. Não se deixe impressionar por volume! Bjs

Silvia disse...

Taís, meus seguidores são minha família e eles adoraram seu texto. Todos comentaram o quanto ficaram impressionados. Uma tia, professora-doutora, escritora de livros de matemática até o mencionou para alertar uma família sobre o que está acontecendo com o filho mais velho. Mais uma vez, obrigada pelo post.

taisvinha disse...

Silvia, que legal! Obrigada pelo retorno. Tomara que a família do garoto consiga encontrar o ponto de equilíbrio. Bom feriado para vocês! Bjs

Gisela Blanco disse...

Genial!
O engraçado é que isso tudo só acontece porque nós, pais, acabamos esquecendo o que nós realmente queriamos para a nossa vida: poder sentar na frente da televisão e relaxar assistindo nosso seriado preferido, passear à toa, ou ficar numa piscina o dia inteiro, de barriga pra cima. Acabamos despejando obrigações demais neles porque é assim conosco também. Se não temos tempo pra nada, eles também não devem ter. Sacanagem, né?