27.11.15

A Lista de Schindler escolar




Algumas escolas pedem que os alunos elaborem um “sociômetro” quando é necessário mesclar diferentes turmas.

A proposta, teoricamente, é muito simpática: cada criança elabora uma lista com 4 amigos. Essa lista serve para ajudar os educadores a montar as novas turmas, garantindo pelo menos um ou dois amigos por criança nas novas classes para que ninguém mude de turma sozinho.

Tudo muito lindo, certo? Só que não. O que era para ser apenas um guia, acabou se transformando numa tortura infantil. Crueldade pura.

Conversei com uma educadora que já estudou o sociômetro. Ela defende que a ferramenta seja usada, desde que não se revele aos estudantes o objetivo: “Pessoal, vamos falar sobre a amizade...sobre a importância dos amigos na nossa vida...blá, blá, blá...agora vamos escrever o nome de amigos queridos....”. E assim, as crianças elaboram as listas com sinceridade, sem saber o real propósito da atividade.

Sacanagem com as crianças? Não. A educadora explica que um dos motivos de não se abrir o jogo é evitar que as crianças manipulem o resultado. Na escola do meu filho, por exemplo, abriram logo de cara: “vamos garantir pelo menos UM amigo na nova sala”. O que os alunos fizeram? Dividiram-se de quatro em quatro e escolheram-se entre si. A estratégia inteligente foi garantir que os quatro fiquem juntos no novo ano. A amizade importa? Sim. Mas o mais importante é o combinado entre eles. Sabemos que, nessa idade, a pressão do grupo é mais forte que a vontade individual.

Mas existem outras implicações: uma delas é que, nessa idade, amizades podem ser sazonais. O melhor amigo desse mês pode não ser o do mês seguinte. A amiga que eu morro se não estudar junto, em breve semanas pode virar a insuportável que nunca mais serei amiga na minha vida. Ao não levar este fato em consideração, corre-se o risco de tomar uma decisão baseada em um cenário momentâneo.

Mas, para mim, um aspecto ruim do "sociômetro módulo verdade absoluta" é o abuso moral. É um estresse que nenhuma criança precisaria passar. Ter que escolher quem vai e quem fica é forçá-los a excluir amigos. Que podem não ser os favoritos da vez, mas são “parças”, gente boa, que eles também gostariam de continuar estudando juntos.

Pior se pensarmos do ponto de vista dos não inclusos na lista. Se você já viveu a experiência de não ser escolhido para o time, multiplique por mil e imagine o que é não ser escolhido pelos amigos para fazer parte da turma do ano que vem. Conheço um garoto de 12 anos que amanheceu doente, depois de ficar sabendo que nenhum dos amigos que ele escolheu o haviam colocado na lista.

A coisa se torna ainda mais grave, quando sabemos que o sociômetro despenca sobre os alunos no final do ano. E a "revelação" da nova turma só será feita na volta às aulas. Caberá a nós, pais, lidarmos com a ansiedade, os zap zaps, os medos, e as incertezas durante todo o verão. Valeu, escola!

E quando pensamos em colégios menores, com duas ou três turmas por série usando o método, fico aina mais confusa. Me pergunto o que estes educadores fizeram o ano todo que não sabem quem é amigo de quem e quais alunos precisam ser separados. Precisa mesmo fazer as crianças passarem por isso? Se fossem sete, dez turmas, ainda vá lá. Talvez fosse necessário mesmo outra ferramenta além da observação. Mas com duas turmas, para que tanta invencionice?

Pior ainda se a escola é daquelas com proposta humanizada. Aderir a esse tipo de estratégia é abrir mão da colaboração e do companheirismo, que são valores que nos tornam mais humanos. É ensinar para as crianças que amigos são descartáveis. Que podemos eliminá-los quando alguém nos ordena. É ensinar a obediência e não a autonomia.

Se a escola optou por mesclar as turmas, que ao menos assuma a parte suja do negócio e tire das crianças o peso de excluir os colegas.

Encerro este texto pensando no menino com a garganta inflamada. Não sei se ajuda, amiguinho, mas o ar me faltou e minha garganta também inflamou pensando em você. Saiba que a culpa não é dos seus amigos. Somos nós, adultos, que com a melhor das intenções, complicamos tudo.

Nos desculpe.




13.11.15

Pré-esposa



Mozão,

Eu sei que você até hoje não entende porque fico tão brava quando você dá uma “pré” nas tarefas que dividimos na casa.

Imagino que realmente seja difícil lidar com meus surtos toda vez que você encara uma pia cheia de louça suja e, vinte minutos depois afasta-se, deixando-a ainda repleta de louça para lavar: “Dei uma pré-lavada”. “COMO ASSIM PRÉ-LAVADA?!”. “Ué, dei uma enxaguada pra depois ficar mais fácil.” “FÁCIL PRA QUEM? ”. Você engasga e a louça começa a voar.

Ou quando você tira a roupa lavada da máquina e ao invés de pendurá-la, faz uma pilha de roupa molhada sobre o varal de chão, no inovador módulo pré-pendurada.

Espano também com as pré-varridas. As varridinhas onde passa o padre, “um quebra galho até alguém dar uma varrida mais profissa.”

Mas reconheço que meus pitis pré e pós-arrumação fazem um mal danado ao nosso casamento. Você fica magoado, achando que eu não reconheço sua participação. Eu fico irada, me sentindo uma otária.

Então, para acabarmos com o estresse resolvi aderir à prática. A partir de agora, serei uma pré-esposa.

Farei uma pré-janta. Abra a geladeira e nos tapuérs você encontrará ingredientes pré-preparados, no jeitinho para você levar para o fogão. Há também a opção de você aderir ao crudivorismo. Nesse caso, encare minha contribuição como ciclo completo.

Você também vai adorar a pré-lavagem de roupas. Na área de serviço, você encontrará uma bacia com sua roupa suja de molho, assim fica bem facinho pra você lavá-las. Só recomendo não demorar muito. Ouvi falar que meias, cuecas e calções de futebol muito tempo de molho dão origem a novos seres vivos. A NASA tem até estudado o fenômeno para usá-lo no repovoamento de Marte.

Mas, o que você mais vai gostar é a aplicação do seu método “pré” no sexo. Será lindo. Contribuirei arduamente para deixar nosso amigão no ponto exato para que você dê um jeito nele. Sozinho.

Te amo cada vez mais, querido. E só posso agradecer ter introduzido o módulo pré na minha vida. Me sinto mais livre. Tão livre que neste final de semana vou pra praia com umas amigas. Numa pré-viagem para o cruzeiro que farei com as meninas no carnaval.

Mil beijos!

18.5.15

Tijolo nos dentes





Tijolo nos dentes

O menino se aproxima: “Mãe, você sabia que o Mc Pedrinho, Mc Brinquedo e o Mc Pikachu estão sendo processados?”

A mãe franze a testa. Não tem a menor ideia de quem são Pedro, Brinquedo e Pikachu. Mas cumpre à risca seu papel de mãe interessada. “Jura?! E por quê?”

“Porque eles tem doze anos e trabalham. Dão show às três horas da madrugada, acredita? E cantam umas músicas muito nada a ver.”

“Como assim nada a ver?”

“Ah, mãe…coisa de sexo…posso cantar? Você não me dá bronca?”

“Pode.”

O menino respira fundo e canta meio titubeante, sem fazer contato visual, “Roça, roça o peru nela que ela gosta…”

“Que horror! E onde você escutou isso?”

“Mãe, todo mundo escuta. O Fulano, meu amigo, canta o tempo todo. Na frente da mãe dele e até da professora!”

A mãe arregala os olhos: “Da professora?!”

“É, ela deu a maior bronca. Mas é ele, né, mãe. Eu não faço nem morto, porque sei que você me quebra!”

A mãe franze a testa, de novo. Ia logo perguntar “Eu te quebro?”, mas preferiu se calar por um instante. Achou intrigante. Nunca deu nem uma “simples” palmada num filho e não acredita na educação que precisa de violência para acontecer. É totalmente a favor da Lei da Palmada, que proíbe que os pais batam nos filhos. Então, de onde o menino tirou que ela iria quebrá-lo?

Lembrou-se do dia que a faxineira chegou super indignada na empresa em que ambas trabalham. Ela tinha presenciado o filho de uma cliente ser extremamente mal educado com a mãe e não se conformava com a grosseria do menino. “Filho meu nunca fala assim comigo porque sabe que leva uma tijolada nos dentes.”

Aquela frase ficou gravada na memória. Sabia que a mulher falava no figurativo, mas ela lhe ensinou que havia um limite claramente traçado com tijolo o qual os filhos dela sabiam que não podiam ultrapassar. Invejou-a. No meio onde ela circula, de pais que refletem demais, a ponto de muitas vezes terem dúvidas de como agir, aquela frase lhe fez pensar na delícia de criar filhos sem pisar em ovos. Nunca quis que os filhos a temessem, mas pensando bem, um medinho, um “prestenção, moleque” até que não seria nada mal. 

O hábito, contudo, foi mais forte e ela optou pela técnica de orientar levando o filho a refletir:

“Filho, cantem essas músicas entre vocês, quando estiverem sozinhos. Na frente da professora é uma bruta falta de respeito. E na frente de meninas então, nem pensar. É muito ofensivo.”

“Ah, mãe, outro dia o Fulano cantou e elas deram risada.”

“Deram risada porque ainda não pensaram no que isso significa. Nenhum homem pode encostar o pinto numa mulher sem ela querer. É mentira que as mulheres gostam. Já imaginou, no ônibus, na rua, um cara chegando e encostando o pinto em mim ou nas suas amigas. É horrível! Só se a mulher quiser e deixar. Não canta essas músicas perto de mulher nenhuma, porque é supergrosseiro. E não tem graça.”

O menino bufa, “Eu não canto, já disse. Eu sei que você me quebra.”

A mãe, respirou fundo e ia retomar a pregação. Mas pensou melhor e disse:

“Exato. Te quebro. Dou-lhe uma tijolada nos dentes. Fica esperto”.

O menino saiu dando risada. Ao longe, a mãe ainda o ouviu cantarolar uma canção. Sem roça roça ou peru.

12.3.15

Linda





Ela era feia. 

Tinha um rosto judiado e pernas curtas e finas que pareciam mal encaixadas sob a barriga larga. O sorriso exibia dentes escurecidos, talvez por café ou cigarro. O cabelo preso atrás mostrava a raiz pedindo tinta. A pele exibia vincos do tempo e da vida.

Conversamos rapidamente no intervalo de um curso de pães caseiros.

Me contou que fazia o curso para começar a vender pães e aumentar a renda. Disse animada que fazia de tudo para viver. Artesanato com bisqui, lembrancinha para batizados e casamentos, arte em feltro, bijuteria e até unha e cabelo no pequeno salão de beleza montado na garagem de casa. Contou que também costurava roupinhas de boneca e nessa hora seus olhos brilharam…adorava recuperar as bonecas que as amigas e vizinhas lhe traziam. Dava banho, passava condicionador no cabelo, maquiava, punha roupa nova, sapatinho, tirava manchas de caneta. Sua última restauração foi uma Dorminhoca linda, que agora fica em cima de sua cama e ninguém pode mexer. Nem a neta. E essa é a única coisa que a vó proíbe a neta de fazer.

Disse que não tinha medo de trabalhar e que nunca recusou uma encomenda. “O que me pedem pra fazer, eu faço. Se não sei, aprendo, viro noite, mas entrego”.

Para dar conta de tudo, explicou que seu dia começava cedo e acabava tarde, porque ainda cuidava do pai idoso.

De repente, ela abriu um sorrisão: “Minha única pausa é para entrar no Face para namorar.”

Ela explicou que tinha muitos namorados, todos estrangeiros, da Índia, da Coreia, da Rússia, da Irlanda. Eles se falavam sempre por mensagens. 

Perguntei sobre a diferença de língua e ela foi categórica: “Aviso logo de cara que ‘no ispique inglis…ispique português’. Se quiserem falar comigo eles tem que se virar. Então eles usam o Google Tradutor e copiam e colam tudo…menina, é um rolo, mas nenhum até hoje desistiu.” E o sorriso virou uma risada.

Disse que já teve namorado da gringa que quis vir buscá-la, que tinha barco, casa na praia, mas ela foi enfática: “Nem pensar!” Explicou que queria namorar só pelo Face. Seus olhos se encheram de lágrimas para dizer que já sofreu muito e que não quer mais homem real na sua vida.

Contou que venceu um câncer, que lhe deixou como sequela uma hérnia enorme na barriga, que nenhum médico quer operar. E que esteve sozinha durante todo o tratamento, porque o marido a abandonou e a irmã achava que ela estava de frescura para chamar atenção.

Nessa hora as lágrimas escorreram “Menina, você acha que alguém faz frescura com uma doença dessas?!” 

Continuou dizendo que isso não a derrotou. Encarou a luta, ia de ônibus fazer quimio, buscava remédio no postinho e mesmo com muito enjoo não faltava aos retornos. Hoje estava ali, cheia de energia e de namorados, desejando para todos apenas coisas boas. “Eu entro no Face para alegrar as pessoas. Coloco uma flor, uma frase que acho bonita, um desenho, um coração. Esse mundo tem coisa ruim demais, então, quero distribuir só bons pensamentos. E as pessoas gostam. Gente que eu nem conheço me escreve agradecendo e conta que estava tendo um dia péssimo e depois de ver o que postei, se alegrou.”

Seguiu me contando episódios engraçados, como a fila que fazia para bater papo quando ela se conectava. E da confusão com o tanto de janelas de chat abertas. Às vezes confundia as repostas e a conversa de um ia parar na janela do outro. 

Demos muita risada e logo o professor nos chamou para ver os pães que saiam do forno. 

O curso acabou e nunca mais a vi. Esqueci seu nome e dela tenho apenas uma lembrança.

Ela era linda.


9.2.15

Piolhinha






Piolhinha


A classe dos pequenos padecia com uma infestação de piolhos. 

Todos os esforços que estavam sendo feitos para resolver o problema pareciam ser em vão. A escola mandava bilhete, os pais tratavam, os piolhentos eram afastados alguns dias e devolvidos sem sequer uma lêndea, mas logo os bichinhos voltavam a atacar sem piedade o couro cabeludo da meninadinha.

A mãe não aguentava mais. Sua filha parecia que tinha néctar para atrair piolho. Era mandar pra escola que voltava coçando a cabeça. 

Resolve tomar uma atitude. Ela era muito boa nisso.

Encontra a professora na porta da sala e, num momento privado, dispara:

- Escuta, não é possível isso que está acontecendo! Com certeza tem um foco, alguma criança que a mãe não está tratando. Quem é?

A professora olha para um lado, olha pro outro e solta num cochicho: 

- A Fulaninha. Você sabe, a mãe dela é supernatural. Tipo super mesmo…não gosta de produtos químicos e se recusa a passar qualquer coisa na cabeça da menina. Dá pena de ver o tanto que ela se coça.

- Pô, mas nem um vinagre com pente fino?! Quer algo mais natureba que isso?

- Nada. Já tentamos de tudo. Ela se recusa, diz que o corpo da menina vai se equilibrar e expulsar o piolho sozinho. O pior é que a pobrezinha tem um cabelo enorme! Impossível não encostar nas outras crianças. A gente até prende, faz um coque, mas não adianta.  Estamos evitando suspendê-la, mas não sabemos mais o que fazer.

Depois de prometer que a conversa ficará entre elas, a mãe se despede e sai matutando um plano. Ela também era muito boa em ter ideias.

Na mesma tarde, liga pra mãe paz e amor e convida a pequena Gal Costa para ir brincar em casa depois da escola. 

Tudo arranjado, ela pega as meninas na saída e, no caminho, dá uma paradinha na farmácia.

Chegando em casa, as meninas brincam um pouco e depois de um lanchinho, a mãe sugere:

- Vocês não querem brincar na banheira? Tenho giz de cera de azulejo e esse canudo de fazer megabolhas de sabão!

As meninas topam e enquanto brincam, a mãe vai espumando o cabelo das duas, delicadamente, com shampoo de piolho. Depois “desembaraça” com pente fino, fazendo esculturas engraçadas e penteados de princesa.

Repete a brincadeira na semana seguinte e na outra, só por precaução.

A infestação de piolhos foi milagrosamente controlada e, para todos os efeitos, o corpo da menina se equilibrou e expulsou sozinho o inimigo. 

Só que não.

3.2.15

"Ensina-me a proibir"


"Ensina-me a proibir"

Nas escolas e universidades da idade média, tocadas pela Igreja, um conselho de padres e bispos se reúne e decreta: “está proibido o uso dos livros nas salas de aula. Com os livros, nossos alunos se distraem, não prestam atenção, tem acesso a conteúdo inapropriado, compartilham um conhecimento que muitas vezes desconhecemos. Com os livros, perdemos controle.”

Mudem a cena para 2015, coloquem os tablets e celulares no lugar dos livros e não é difícil concluir que estamos vivendo a mesma situação. 

Enquanto algumas escolas estão incorporando as tecnologias portáteis no seu dia-a-dia, outras estão proibindo seu uso dentro dos muros. Não pode nem no intervalo e nem na saída. O motivo é praticamente o mesmo dos educadores medievais: medo da perda do controle.

Aí vem a reflexão: tablets e celulares estão aí e ninguém mais duvida que vieram pra ficar. A internet também está aí e em breve será tão onipresente que as próximas gerações não conseguirão mais imaginar como era a vida desconectada. 

A proibição desse equipamento em sala de aula é o último gemido de uma instituição que há tempos agoniza. Ainda mais quando esse proibição vem de escolas que se autonomeiam “humanizadas”, que educam “para a vida”.

Para a vida? 

Pois saibam que a vida real tem sido cruel com quem faz mal uso destes equipamentos. É alto o índice de jovens demitidos no primeiro emprego por uso inadequado do celular. Pré-adolescentes estão compartilhando fotos nuas e virando motivo de chacota que durarão anos. Há casos e casos de vingança através de sabotagens feitas com senhas compartilhadas e vídeos privados jogados na rede. O cyberbullying hoje é uma praga que aterroriza muita gente, só para citar alguns. 

E o que a escola faz para educar seus alunos a sobreviver com gentileza, alegria e competência na vida digital? Proíbe.

Fecha os olhos. Faz que não é com ela. Estudos mostram que os adultos são os últimos a saber o que acontece na rede adolescente. Nossos filhos preferem não nos contar, a perder o equipamento. Quem fica sabendo de perseguições, exposições, sacanagens e afins, são seus pares. Gente da mesma idade. 

Neste cenário, quer ambiente melhor para que as crianças e adolescentes reflitam sobre o uso consciente destes equipamentos do que a sala de aula? Alguns países do mundo, como a Espanha, tem desenvolvido programas educativos só para atender a esta nova demanda da civilização moderna. Organizam grupos de reflexão entre os jovens, assistem vídeos, treinam “cybermentores” (adolescentes mais experientes que participam dos grupos virtuais e estão atentos ao mau uso, sendo também capacitados para intervir ou pedir ajuda).

Isto é olhar de frente para o problema. É permitir que os jovens vivam o conflito e aprendam com ele.  Desenvolvam habilidades que lhes serão úteis para o resto da vida.

Que a situação pede controle no uso, é indiscutível. Mas esse controle precisa ser pensado caso a caso. E não por decreto ditatorial banindo o uso. 

A experiência de escolas que liberaram geral, mostra que cada professor acaba desenvolvendo sua própria relação com os equipamentos e os alunos. Alguns incorporam na rotina da sala. Outros proíbem. Alguns liberam em alguns momentos e pedem que guardem na mochila em outros. Alguns dão umas bruta aulas. Outros se perdem. Não há receita para o bolo. E tem vezes que o resultado é mesmo frustrante. O importante é termos consciência que vivemos no período de transição e que estamos todos juntos, no barco, aprendendo com se usa este novo remo. 

Ensinar a remar dá trabalho. Exige pessoas presentes, que prestem atenção nos alunos, que os chamem para uma conversa em caso de abuso. Que se posicionem com firmeza na hora de dizer não. Que estabeleçam metas e limites. Que celebrem conquistas. Que enxerguem os estudantes como seres humanos em formação e atuem verdadeiramente para formá-los. 

A escola precisa ser parceira dos pais na conquista desse novo universo que se abriu com as tecnologias. Proibir é nos deixar sozinhos diante do imenso desafio que é educar nossas crianças num mundo cibernético que mal compreendemos. 

É perder a noção. E, talvez, muito em breve, a função.