19.12.07

Raiva no Urbanova



O Ombudsmãe encerra o ano com raiva. Raiva que me tirou cedo da cama num dia chuvoso de férias. Ontem os ilustríssimos vereadores da minha cidade aprovaram a verticalização do meu bairro. Para quem não conhece, moro num bairro residencial às margens do Rio Paraíba. Muito verde, muitos animais silvestres, matas nativas e minas de água. Por causa disso tudo, o que antes era matagal, agora é o bairro mais valorizado da cidade. Óbvio. Natureza e qualidade de vida viraram artigos de luxo no Brasil. Um luxo que nem a Daslu entrega. Pois valorização atrai como carniça os abutres da especulação imobiliária. Abutres, porque eles chegam, se apoderam, destróem, tampam o sol, estragam o trânsito, secam olhos d’água, roubam o horizonte, o sossego e a beleza. Logo, tudo o que era mais valorizado neste bairro deixará de existir. Seremos mais um bairro como qualquer outro no cenário urbano.

Isso tudo me fez pensar no quanto estamos longe, longe, longe de sermos a cidade moderna e tecnológica que tentam nos convencer que somos. Modernidade hoje em dia não é colocar avião no céu. Nem ser polo do que quer que seja. Moderno é ser humano. Na Europa, já se discute a retirada dos automóveis de algumas cidades. Isso é moderno. Seatle constrói túneis, semáforos e pistas para bicicletas. Isso é moderno. Entregar de bandeja, para as formigas saúvas (peço perdão a elas pela metáfora) um tesouro de qualidade de vida da nossa cidade é tão tacanho, tão primitivo, que deveríamos ser processados por propaganda enganosa, todas as vezes que anunciássemos a modernidade jossense.

Estou com raiva. Raiva do Prefeito que é jovem, tinha tudo para fazer um mandato histórico, mas como sempre na nossa classe política, só soube defender o indefensável. Ponto pra mediocridade. Raiva dos nossos vereadores – para eles me recuso a escrever uma linha sequer, pois tudo seria ameno. Raiva dos construtores que têm dinheiro, têm poder, mas só têm prazer quando enfiam suas estacas nos locais mais inapropriados. Nem Freud explica.

Sinto raiva de mim por ter feito muito menos do que fiz por esta causa. Penso no que vou dizer aos meus filhos. Eles aprendem na escola que temos que proteger a natureza. Que a vida no futuro depende do que fazemos hoje com o meio ambiente. Me ajudem a explicar a essa galerinha que fomos incapazes de cuidar do próprio bairro em que vivemos. Daqui pra frente, como convencê-los a preservar a Amazônia, se nem da mata ao lado da nossa casa conseguimos tomar conta?

Raiva é um sentimento muito ruim. Mas às vezes não dá para deixar de senti-lo.

27.11.07

Qual é mesmo o titulo?


Outro dia li uma frase da incrível Drew Barrymore (qualquer pessoa que aos nove anos leva uma vida de Vera Fischer e sobrevive para contar é, no mínimo, incrível) dizendo que ela é muito esquecida. Que perde cartões de crédito, esquece de abastecer, tranca a chave dentro do carro etc. Passei a gostar ainda mais dela. Sou uma dessas pessoas que também esquecem tudo. Vivo sempre meio desligada e corro pra lá e pra cá tentando tapar os buracos. É a roupa da natação de um dos meninos que não foi, é a rematrícula no violino, é o ingrediente da aula culinária que eu achei que era pra quinta e era pra quarta...enfim, tem sempre um rabicho esquecido me mantendo craque em malabarismo e adaptações.

E não adiantam agendas e planilhas. Eu esqueço de anotar e olhar. Tenho uma amiga querida que tem uma planilha com todas as atividades do filho marcadas, do início ao final do mês. Tudo o que ela precisa de lembrar ao alcance dos olhos. Jesus, que inveja!!!

Tudo isso pra explicar a encrenca que me meti na semana passada, ridícula pra quem não me conhece. Absolutamente cotidiana pra quem é de casa. Meu filho coloca aparelho com meu irmão, ortodontista, que vive em São Paulo. O aparelho anterior nós perdemos, porque demorei muito pra levá-lo ao retorno e a boca dele mudou. Fizemos outro e prometemos retornar em 15 dias. Quase dois meses depois (ou até mais que isso), na quarta-feira passada, rumei para São Paulo, com o meu mais velho e o caçula. Fomos de ônibus, para evitar o trânsito de Sampa. A clínica do meu irmão é bem próxima do metrô. Assim que chegamos, o pequeno me avisa que havia feito cocô na calça. Levei-o ao banheiro e fui conferir: tinha cocô do tornozelo ao pescoço – sem exagero. Uma obra prima. Agora o detalhe crucial: é óbvio que eu esqueci de levar uma troca de roupa para o garoto. Estava só com a roupa do corpo e um monte de cocô. O menino quase morreu de vergonha ao saber que teria que sair do banheiro pelado. Totalmente pelado. Só consegui salvar a sandália. Descolei uma toalhinha de mão para amarrar na cintura dele e, mais tarde, um jaleco - de adulto. Já era noite, estávamos exaustos, loja aberta só em shopping e como eu iria encarar um shopping sem carro e com uma criança nua? A solução foi pedir ao mais velho que emprestasse a camiseta dele ao irmão. Como ela era comprida, virou um vestidinho e tampou o popô. Eu dei minha camiseta ao mais velho e vesti o jaleco, tipo “mamãe é médica”. Pegamos o metrô e na rodoviária comprei uma fralda para ele. Voltamos assim para São José. De jaleco, camiseta e fralda.

Vou concluir antes que eu comece a fazer outra coisa e esqueça de atualizar o Ombudsmãe. Beijos.

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28.10.07

Educar é ensinar a superar limites

06/11/2006

Educar é ensinar a superar limites

Por Rosely Sayão

Uma mulher entrou no elevador com a filha de mais ou menos quatro anos. Assim que entraram, a garota se apressou para apertar o botão e a mãe logo informou qual era o número. A garotinha, que era uma graça, respondeu imediatamente:

- Eu já “sabo”, mãe.
- Não é “sabo”, filha, é sei.
- Mãe! Eu “sabo” que é eu sei.

Esta é uma boa oportunidade para falar a respeito de uma importante limitação das crianças em relação às regras. Assim que elas descobrem uma regra, seja por conclusão própria ou por aprendizado – elas ficam aprisionadas nas tais regras,

Com a idade que tem a garota do diálogo, ela está descobrindo o funcionamento das regras, de todos os tipos. O problema é que, quando descobre ou aprende, ela passa a universalizar o uso, como ela fez com o verbo saber. Se correr resulta em eu corro, se beber em eu bebo e fazer em eu faço, claro que saber só pode resultar em eu “sabo”!

O que eu quero dizer é que o maior problema na educação de crianças e jovens talvez não seja o de colocar limites a eles e sim o oposto. Talvez nossa maior tarefa seja exatamente a de ajudar os mais novos a superarem os limites que têm.

Não será fácil para essa mãe convencer a filha de que ela deve falar “eu sei” e não “eu sabo”. E sabem por quê? Porque a garota está fixada em uma regra. A menina não tem culpa se os verbos da nossa língua não têm, todos, conjugação regular, certo?

Pois assim é com o comportamento. Quando uma criança aprende, por exemplo, que morder produz um efeito que ela busca, ela descobre uma regra. Daí em diante, ela irá morder sempre que a situação que enfrentar for semelhante à primeira em que mordeu e que conseguiu o resultado que queria. O comportamento dela não significa, portanto, falta de limites e sim excesso de limite! O que ela precisa é aprender a superar tal limite e esse aprendizado é demorado, na maioria das vezes.

Modificar nossa compreensão a respeito dessa questão é bem importante porque assim pode mudar também nossa atitude frente às crianças e aos jovens. Quando pensamos que eles se comportam de determinadas maneiras por falta de limites ficamos enfadados, desanimados e até impotentes. Mas, se pensarmos que o que provoca tais comportamentos é, na verdade, um excesso de limites e que eles precisam de nós para conseguir superá-los, nossa atitude pode se tornar mais potente e a nossa prática educativa mais generosa.

Por falar nisso: generosidade é virtude essencial para quem educa, não é?

Tirado do blog da Rosely

Pais dão limites demais e respeitam pouco

São Paulo, quinta-feira, 05 de dezembro de 2002

s.o.s. família rosely sayão

Pais dão limites demais e respeitam pouco

Discutir a educação é sempre muito estimulante, já que é principalmente por ela que preparamos o futuro. Mas, vira e mexe, volta aquela velha história de que nossas crianças e jovens não têm limites, e parece que esse é nosso maior -se não único- problema na educação. Ora, se faz tempo que ouvimos essa frase e as coisas continuam na mesma, é sinal de que precisamos problematizar a questão e olhar de uma outra ótica. Afinal, qual educador -pai ou professor- não quer praticar uma educação que dê melhores frutos? Todos querem e, se dar limites fosse algo simples, não teríamos tantos problemas.

Importante é lembrar que, para impor limites, é preciso exercer autoridade. Desde o início do mundo moderno, vivemos uma crise de autoridade, e não foi a escola -muito menos a família- que a originou. Ao contrário: pais e professores arcam com o fato. Assumir a autoridade sendo mãe, pai ou professor, portanto, não tem sido nada fácil. Mas é possível.

Colocada essa questão, podemos começar a pensar os limites de outra forma. Será que nossas crianças não têm limites em demasia, ao contrário do chavão que vem sendo exaustivamente repetido? Vejamos as crianças com menos de sete anos, que vivem a primeira parte da infância. Nessa idade, tudo o que a criança precisaria é de tempo, espaço e liberdade para construir sua identidade, reconhecer-se e aprender a respeitar-se, conviver com outras crianças com respeito e aprender a proteger-se do meio, a cuidar-se. E o que temos oferecido a elas? Limites, limites e mais limites.

Elas não têm espaço para explorar o mundo, o tempo é tomado por atividades programadas pelos adultos, elas nem sequer têm a liberdade de fazer do que gostam pelo tempo que querem. Não conseguem ficar quietas e sozinhas, brincando só com o pensamento e a imaginação. Sempre há um adulto mediando a relação da criança com o meio, com suas tentativas -muitas vezes desastradas- de alcançar a autonomia. Assim, é compreensível que ela reaja negativamente quando se defronta com um limite vital, imposto por pais ou professores. Afinal, não respeitamos essa etapa da infância, em que o mais importante na vida é brincar, mas queremos que a criança respeite os limites da vida mesmo assim. Mas será possível que seja diferente já que essa é a nossa vida? É possível e talvez seja da escola de educação infantil a maior responsabilidade.

Como se estruturou essa escola? Da mesma maneira que a escola de ensino fundamental: em turmas de mesma idade, com organização seriada -maternal, jardim etc.-, com atividades programadas o tempo todo. O que varia de escola para escola são as brincadeiras, a forma de os professores se relacionarem com as crianças e colocarem os limites, por exemplo. Mas crianças de menos de sete anos precisam de uma vida bem diferente.
Há uma escola aqui em São Paulo, a Tearte, dirigida por uma grande educadora -a Thereza Pagani, chamada de "Therezita" ou de "Tê" pelas crianças- que se propõe a respeitar a criança dessa idade e permitir que ela se organize do seu próprio jeito, sem impor limites desnecessários. Dessa maneira, os limites inevitáveis são aceitos mais facilmente.

As crianças, de zero a sete, brincam à vontade num espaço livre repleto de estímulos e riscos também, é claro. Não são separadas por idade, não há classes, não há atividade obrigatória, muito menos rotina estabelecida com rigidez. Os professores -sempre há pelo menos um homem na função- acompanham as conquistas que a criança faz nesse espaço e a convidam para atividades. Resultado? Crianças tranquilas -com vivacidade, mas sem excitação-, que convivem em harmonia, se respeitam e respeitam os outros e o ambiente.
"Therezita", aos 71 anos, dirige essa escola há 30. É respeitada porque impõe os limites necessários. Não é maravilhoso saber que essa prática educativa existe, é possível e dá certo? A criança que passa por um processo desses na primeira infância recebe uma formação que irá sustentá-la pelo resto da vida porque teve o que precisava na hora certa.

ROSELY SAYÃO é psicóloga, consultora em educação e autora de "Sexo é Sexo" (ed. Companhia das Letras); e- mail: roselys@uol.com.br

25.10.07

Neura neles!


Americano é famoso por neurotizar tudo. Pode reparar. Coisas que eram simples e comuns por centenas de anos, de repente, viram um bicho de sete cabeças porque lá nos EUA é um bicho de sete cabeças. O politicamente correto é um exemplo. Outro dia alguém me disse que não se pode falar que é “desempregado”. O certo é “excluído do mercado de trabalho”. E meu filho acha muito chato o novo Tom e Jerry, que não são mais inimigos. “O outro era bem mais legal, mãe.” Milenarmente, gato persegue rato. Ponto. Quem será que foi o gênio que resolveu dar o bom exemplo? Qualquer criança percebe que fica esdrúxulo.

A lista de neuras importadas dava o conteúdo de um site, mas neste texto me concentro em uma: alguém conhece a revista “Men’s Health”? Quem leu o texto "Mulheres Superpoderosas" criticando a disparidade entre revistas femininas e masculinas, vai adorar saber que agora há uma revista made in USA, publicada pela Abril, cheia de neuras e fobias para o “macho” moderno. A capa deste mês ensina a “eliminar pneuzinhos”! AMEI! Neura neles! Ensina também a turbinar a dieta e ainda responde por que eles são malucos por seios (matéria totalmente “dãr”, como diria meu filho). Inclui ainda o “guia definitivo para eles ficarem mais atraentes” e “germes, pau neles”. Fala sério, não é totalmente Cláudia?

Sinceramente, me deu medo. Prefiro nossos homens latinos mais para Shreks do que para estas coisinhas americanas cheias de espelhos e manias anti-germes. Eu, hein! Afinal de contas, os Shreks se apaixonam pelas Fionas - divertidas, deliciosas e totalmente ogras. Se um dia você sair com um mocinho e no revisteiro tiver a tal da Men’s Health – fuja (ou tome um banho de Lysoform). De neura, já bastam as nossas.

16.10.07

“Não precisa se preocupar”




Nunca fui fã de celular. Sei que isso soa jurássico, “mais uma daquelas que detestam tecnologia e louvam o LP.” Não é nada disso. Acho chato, inconveniente e difícil de usar. Esse negócio de ter que ficar apertando botãozinho e dar carga é um porre. Mas enfim, me rendi quando tive filhos. Quer dizer, fui rendida. Minha irmã um belo dia apareceu com um Baby (lembra dele?) e disse que uma mãe que se preza jamais poderia ficar sem um celular.

Depois do Baby “evolui” para um outro que, um belo dia, caiu no mar de Barra do Sahy. Hoje deve estar na bolsinha de mão da Pequena Sereia. Minha grande amiga Sílvia, testemunha do ocorrido, logo me resgatou do mundo pré-ringtones me dando um celular que ela tinha aposentado. O aparelho está em excelente estado e é bem mais moderno que o meu glub glub, mas apanhei como uma coitada pra usá-lo. Não conseguia ler mensagens, não conseguia aumentar e diminuir volume, enfim, socorro!

Aos poucos fui sendo domada e entendendo os humores do aparelho. Já domino o basicão: atendo, ligo (quase nunca...tá sempre sem crédito) e mando mensagens. Me sinto a Bill Gates. Mas semana passada, senti na pele o que é ser mãe com celular. Estava na loucura de entregar dois projetos, correndo pela cidade, quando o aparelho toca. Geralmente, eu não ouço (não me pergunte por que), mas dessa vez, atendi. Era a minha babá: “Olha, não precisa se preocupar”...gelei...”mas o Fábio foi atropelado”. “COMO ASSIM NÃO PRECISA SE PREOCUPAR?!” “Ele está bem, não bateu a cabeça nem nada, mas riscou todo o carro da moça e ela veio trazê-lo aqui.” Corri pra casa. Encontro o meu menino de 7 anos, com cara de quem está com medo de bronca. Ele me explica que estava pedalando pelo condomínio e, por qualquer motivo, não olhava para frente. Foi ao encontro de um carro que passava. “Devagarinho, viu, mãe,” Inspeciono o corpo todo dele. Apenas um arranhão na cintura, onde pegou o guidão. Abraço, apertado. Não sei o que dizer. Se é para parar de andar de bicicleta, se é para olhar para frente, ou usar capacete.

Dia seguinte, na correria de sempre e mal refeita do susto, toca o celular novamente. “Oi Taís, olha não precisa se preocupar...” começo a chorar “...mas o Encrenca mordeu o Lucca. Não é grave. Mas tá saindo muito sangue. É melhor você vir logo pra cá”. Corro pra casa e encontro o meu mais velho com a cara inchada de chorar, a panturrilha cheia de furos e um grande hematoma. Já havia sido socorrido e medicado pelo dono do Encrenca, um cachorrinho daquelas versões chiques do pequinês.

Agora descobri como minha mãe sobreviveu a uma maternidade com 5 filhos. Ela não tinha celular. Acabo de desligar o meu.

3.10.07

Filhos, o retorno.




De todas as tarefas árduas da vida, incluindo lidar com pedreiro, discutir a relação e planejar o próximo corte de cabelo, a mais difícil, disparada na liderança do campeonato, é educar uma criança.

Antigamente as regras eram mais claras e acredito que tudo era mais fácil. Não podia desobedecer o adulto, tinha que respeitar os mais velhos e aprontou, apanhou. O modelo funcionava? Tem gente que diz que sim e que os métodos modernos de educação são pura frescura estraga criança. Eu assumo que, mais fácil, era. Esse negócio de diálogo e negociações às vezes cansa demais. E nem sempre funciona tão de imediato como uma bela porrada no meio da testa. Mas o fato de ser mais fácil de aplicar, não quer dizer que o método da vovó funcionasse tão bem assim. Quem prega uma volta aos velhos tempos, ignora a legião de adultos absolutamente malucos, desajustados e desestruturados que habita o planeta e circula como gente “normal”. Não precisamos ir longe. Basta olhar de perto a nossa própria família para ver a quantidade de adultos doidos que nos rodeia (incluo aqui os autores de blog). São tios, tias, primos e avós queridos, adoráveis, divertidos, mas se olharmos no detalhe, loucos de pedra.

Então, a gente busca outro formato, tentando errar um grão de areia a menos (mais do que isso, acho pura ilusão). Buscando estruturar melhor nossos filhos, humilhá-los menos, valorizá-los, fortalecê-los etc. etc. etc. Mas que é difícil, é. Hoje acordei ainda sob os efeitos do vendaval educacional que varreu minha casa ontem. Prometi ao meu filho não contar a ninguém o que houve. Mas foi caso pra uma bela surra ou um castigo daqueles. Optamos por resolver de outra forma. Ele terá que corrigir o que fez de errado. E isso levará muito tempo. Haja paciência! Paciência de ter que esperar e de ter que aguentar a choradeira de quem está sofrendo por ter que abrir mão de seus próprios planos pra ter que ressarcir a pessoa a quem lesou.

Dá pena. Mas seguimos semi-firmes na opção educacional que fizemos. Só o tempo dirá se fizemos a escolha certa. Se eu tivesse que dar um conselho a alguém hoje, eu diria “Use camisinha!”

29.9.07

O cocô e o perfume.


A Telma Vinha, docente da Faculdade de Educação da Unicamp e minha super irmã, mandou um email comentando que uma escola da Bahia deu nome a um projeto que estuda o sistema digestório (o que houve com o bom e velho sistema digestivo?) de "Será que se eu tomar perfume meu cocô sai cheiroso?".

Bárbaro! Um nome infantil, com cara de curiosidade de criança. Pergunte a qualquer uma delas: "Vamos estudar o sistema digestório?" E elas dirão, com toda razão: "Eca! Que chato!". Agora apresente a pergunta acima e todas adorarão descobrir porque o cocô é fedido, porque comemos arroz e não sai arroz, o que é o pum e muitos outros mistérios do corpo e das susbstâncias que saem dele.

Quando publiquei o texto sobre a pouca criatividade dos projetos escolares, alguns leitores observaram que o maior problema é a necessidade de se cumprir conteúdos pré-determinados. Este exemplo da Bahia mostra que é possível cumprir com os conteúdos sem perder a graça e a imaginação.

21.9.07

Gostosa



O Ombudsmãe retorna, com a promessa de que agora as atualizações serão, no mínimo, semanais. Outra novidade é que o endereço ficou mais fácil: www.ombudsmae.com.br

Retomo do ponto em que paramos. Revistas femininas completamente fora de sintonia com o universo feminino. E o que é pior, ajudando a derrubar nossa auto-estima e mantendo-nos em constante culpa. Dei uma conferida nas bancas. Há dezenas de revistas dedicadas à mulher. Todas, com fórmulas "simples" e eficazes de obtermos equilíbrio "marido + carreira + filhos + corpo esplêndido" (a única excessão é a Nova, que promete o mapa para o ponto G. Deles. ). Minha pergunta: se fosse tão fácil equilibrar tudo, por que martelam tanto o tema? Se é tão básico, por que tantas mulheres estão enlouquecidas, cansadas e frustradas?

Sinceramente, precisamos aprender com os homens. Confiram as revistas masculinas - 70% trazem na capa a gostosa do mês. Outras 20% trazem a moto ou o carro do mês. E as 10% restantes trazem a gostosa do mês sobre a moto ou o carro do mês. Simples assim. Não encontrei NENHUMA revista dizendo que eles precisam equilibrar melhor carreira, filhos e esposas. Que precisam fazer mais abdominais e comer alface pra manter a barriga de tanquinho.

É uma verdadeira terapia: toda vez que este ser peludo, barrigudinho e ligeiramente egocêntrico (fui fina) entra numa banca, depara-se com uma gostosuda olhando pra ele com cara de "Você é o máximo. Vem cá, gostosão!". Dá pra ter alguma culpa ou dilema existencial?

Sabe o que eu gostaria de ver numa revista feminina (além do Brad Pitt pelado me chamando com o dedinho)? Títulos mais realistas, como:

"Tá impossível conciliar tudo? Então tome uma cerveja e pare de tentar o impossível."
"Filhos problemáticos? Quem não tem é que tem problema."
"Esfriou a relação? Aqueça-se com o vizinho gatinho."
"Botox jamais. Mulher gostosa é mulher que consegue sorrir."
"Equilíbrio é para artista de circo. Desce da corda bamba, menina!"
"Cansada demais pra fazer a janta? Crianças adoram pizza com sorvete."

É isso. E fiquem com o gostosão do mês.

26.6.07

Mulheres Superpoderosas em: “Dia-a-dia, a missão”.



O Ombdsmãe ficou desatualizado por um motivo cada vez mais comum: não dava tempo! E quando dava, não havia energia para nada, muito menos pra pensar. Parei. E agora retorno fazendo um manifesto contra esta vida de Mulher Maravilha que está mais pra Super Otária. Que é isso, gente?!!! Que revolução foi esta que tirou a gente da cozinha e enfiou no trânsito? Queria mais era ficar em casa, fazendo pão e tortas de abóbora do que ficar indo pra lá e pra cá, descarregando filho, fazendo supermercado, preparando aulas, dando aulas, corrigindo trabalho, participando de simpósios (quem ousa ficar desatualizado?), indo no pediatra e blá, blá, blá. Vou parar antes que me canse novamente e não chegue ao final do texto.

A verdade é que ando rezando pra esta semana terminar e entrarmos todos de férias. E decidi que retornarei no próximo semestre decidida a organizar melhor as coisas e aliviar um pouco a missão impossível. Ainda não sei como. Mas tenho um mês inteiro para pensar num plano diabólico pra me transformar, com todo estilo, em “pilota” de fogão. (Ou de tanque – cozinho muito mal e com Ariel não precisa esfregar).

Pra marcar meu manifesto, coloquei uma capa de revista, antiguinha até (2004), mas que ilustra bem como as expectativas para a mulher moderna são surreais. Confiram a receitinha pra nós sermos mais felizes: EQUILÍBRIO EMOCIONAL (hahahaha) + TRANQÜILIDADE NO TRABALHO (hahahahahaha) + SAÚDE PERFEITA (hahahahahaha) + AMOR E SEXO (hahahahahahahahahahahahahahahhaha) = vida mais feliz! (histeria)

Só faltou falar: + cabelo lindo + pernas depiladas + filhos estruturados e que fazem a tarefa sem a gente mandar.

Editoras de revistas femininas, HELLLLÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔÔ. Dá pra vocês pararem de escrever pra marcianas? Perguntem ao redor e me apontem uma, apenas uma, mulher que tenha equilíbrio emocional, um emprego tranqüilo, saúde perfeita e seja bem comida. Se alguém encontrar a dita cuja, avisa que a gente arranca os cabelos dela!

Essa fórmula, definitivamente, fracassou. Vamos em busca de um novo modelo. Algo que mescle Madonna com Vovó Donalda. E com a praticidade de cuidar da casa da Samantha, a Feiticeira. Idéias serão muito bem vindas.

18.4.07

Grupo de pais



Aqui em São José dos Campos, estamos organizando um grupo de pais e mães pra discutirmos e trocarmos experiências sobre a árdua tarefa de criar filhos em tempos modernos. Como diz a Rosely Sayão, antigamente, os padrões educativos eram bem estabelecidos e os pais, pra bem ou pra mal, sabiam como agir. Hoje em dia, tudo é questionado, o mundo e as relações humanas mudaram muito. Estamos no meio de uma era de muita confusão. Eu pessoalmente acho que o resultado de tanta ebulição será positivo. Discutir e questionar padrões estabelecidos é sempre benéfico e necessário pra nossa evolução. Mas estar no olho do furacão é complicado e desgastante.

Daí a necessidade de fazermos trocas. De apoiarmos uns aos outros. Nosso grupo vai se reunir semanalmente na casa de uma amiga e contará com a mediação de uma psicóloga, especializada nas relações familiares. Iniciaremos lendo "Pais liberados, filhos liberados", um livro muito bom sobre a comunicação entre pais e filhos. De texto leve e cheio de exemplos corriqueiros (já me enxerguei em vários deles) o livro mostra que a convivência diária não precisa ser uma "guerra". Com técnicas simples e muito eficientes, podemos resolver de forma amistosa e produtiva os pequenos embates do cotidiano.

Nossa primeira reunião foi muito boa e deu para sentir a ansiedade e a necessidade que todos os presentes tinham em colocar para fora suas angústias e dúvidas. Torço muito pro nosso grupo dar certo. E para que melhoremos a nossa performance a cada dia.

13.4.07

Alfabetização precoce


A Ana Paula fez um comentário da maior importância. O que leva tantas escolas a alfabetizarem e “numerarizarem” tão cedo nossas crianças? Já presenciei uma professora dizendo com orgulho que todos os seus alunos de 2 anos terminam o ano sabendo “escrever” o nome! Coloco o verbo entre aspas pois não acredito que uma criatura ainda de fraldas, que mal consegue segurar o lápis, saiba que as formas que copia no papel sejam parte de algo muito maior que é a escrita. Daí vem a explicação chavão “os pais exigem”. Sinceramente, uma escola dizer isso é colocar um atestado de incompetência na porta. Pai e mãe não são educadores. Eles podem ter suas angústias e neuroses (quem não as tem?), mas um educador formado, conhecedor do desenvolvimento infantil e ciente de seu papel na construção do conhecimento, ser conivente com esse comportamento – e até estimulá-lo - é mais do que adaptar-se ao mercado. É irresponsabilidade. Imaginem um pediatra dizendo: “a criança está bem, mas a mãe quer que eu a opere então, farei a cirurgia”.

Ensinar os pequenos a ler e a escrever precocemente, dar-lhes livros didáticos na pré-infância, não é acelerar nada, nem proporcionar um ensino “forte”. Muito pelo contrário. É muito pouco! É bitolar e massificar. O conhecimento vai muito além dos números e das letras. De que adianta saber escrever se não se sabe pensar! A escola precisa, antes de tudo, fomentar a curiosidade e a investigação. Conduzir estes pequenos grandes seres na descoberta de um mundo fantástico, cheio de texturas, sons, sabores, cores e cheiros. Incentivar a vontade de aprender e de conviver. Fazê-los misturar, amassar, correr, fantasiar. Tirar as crianças da mesmice e da passividade. E isso não se faz dando folhinhas onde se deve copiar 20 vezes a letra A.

Concluo tentanto responder à pergunta final da Ana Paula “O que fazer?”. Essa é uma pergunta que também faço. Mas eu diria que, primeiramente, devemos escolher com muito cuidado a escola. Também sou fã e admiradora do construtivismo “autêntico”, como ela coloca, mas conto nos dedos as escolas que desenvolvem um trabalho sério dentro desta proposta. O restante se diz construtivista por modismo, ou sei lá o quê. Piaget deve estar muito constrangido. Segundo, vamos ficar atentos ao que acontece na escola e nos unir a outros pais que pensam como nós. A idéia é fazer pressão contrária. Há muitos professores, coordenadores e diretores competentes, criativos e interessados, que concordam conosco e que precisam apenas de um apoio para implementar mudanças. Eles precisam sentir que há pais que pensam de outra forma e que eles podem contar conosco. Se os pais ansiosos conseguem impor sua marca, nós também podemos, concorda?

Apenas como curiosidade: conheço uma escola que trabalha com muita segurança. É fiel à proposta construtivista, não alfabetiza cedo, estimula a criatividade e tudo o mais que sonhamos para nossos pequerruchos. O irônico é que os pais, mesmo os mais tradicionais, acham a escola excelente e a respeitam muito. É uma escola caríssima e, em tempos bicudos como os de hoje, tem fila de espera. A moral da história é que os pais são ansiosos, medrosos e até neuróticos, mas não são bobos. Eles sabem reconhecer quem realmente entende do assunto. Diante de uma proposta séria e coerente, eles se acalmam, aceitam e aplaudem. É tudo uma questão de confiança. Certo, doutor?

2.4.07

Professor especialista - necessidade ou piroctecnia?





Hoje levanto uma questão que tem me proporcionado muitas dúvidas e que tem se tornado rotina em muitas escolas de educação infantil. Meu caçula tem 3 anos e…6 professores na pré-escola - duas de sala e 4 especialistas –música, inglês, biblioteca e educação física. O meu outro menino, tem 6 anos e…8 professores – 2 de sala e 6 especialistas – os mesmos do caçula, mais o professor de artes e a de informática.
Minha pergunta é: precisa? Quais os ganhos de expormos crianças tão pequenas a uma rotina de troca de professores, antes exclusiva aos alunos mais velhos?

Pode-se argumentar que o professor especialista sabe mais da disciplina e, portanto, estaria mais apto pra ministrá-la. Concordo. Mas estaria ele apto para enxergar a plenitude da criança e seu processo individual de aprendizado, como um professor generalista competente e bem treinado? Não acredito. O professor especialista trabalha com muitas turmas e horários pré-determinados. As atividades têm hora para iniciar e acabar, o que, por si só já contraria um dos princípios básicos da educação construtivista que é administrar o tempo da atividade de acordo com o rendimento e o interesse das crianças. Além disso, o especialista lida com inúmeras crianças, de inúmeras turmas. Certamente, uma ou outra acaba se perdendo no entra e sai de alunos. E, geralmente, os que se perdem são sempre aqueles alunos mais quietos, tímidos ou os mais desinteressados, justamente os que precisariam de uma atenção especial.

Lanço ainda outras perguntas: como fica a rotina na sala de aula, com tantos horários? É hora da roda, do lanche, da profa de música, da biblioteca, do parque. Uma agendinha quase que de executivo. Como faz a professora de sala se uma atividade rende além do esperado e está no horário do outro professor? Interrompe-a, simplesmente? E como fica a caçada ao lobo mau ou a pintura coletiva nas quais as crianças trabalhavam com afinco e interesse? São interrompidas no meio, bem quando estava legal?

E os projetos – são discutidos com os professores especialistas para que todos falem a mesma língua? Nem sempre – já aconteceu de um dos meus filhos estudar os índios com a professora de sala e arte egípcia com a professora de artes. Temas interessantíssimos. Mas que juntos, não fazem sentido algum.

Penso que deveríamos repensar muitas das inovações feitas no ensino nos últimos anos. Dispensar um pouco a pirotecnia “impressiona pais” e voltar para o básico. Um professor generalista, bem treinado e competente, é plenamente capaz de contar histórias, proporcionar atividades físicas de forma lúdica e trabalhar a música, sem que seja necessário o entra e sai de especialistas e a rigidez de horários. E com um olhar na individualidade da criança que só aqueles que convivem no dia-a-dia conseguem obter. Perde-se um pouco da técnica? Talvez sim, mas os ganhos por outro lado são imensos. Aulas mais adaptadas ao ritmo de cada turma, intimidade nas relações professor aluno, agendas mais flexíveis, menos correria, menos estresse, mais liberdade para o professor trabalhar, mais comprometimento com os projetos. Enfim, um ensino mais calmo, aprofundado e menos “executivado”.

O tempo se encarregará de segmentar a vida e enchê-la de atividades e múltiplas tarefas. Temos que colocar nossos pequenos nesta roda viva tão cedo?

29.3.07

Projetos - Agua, de novo?


Água, de novo?


Hoje em dia, a maioria das escolas caminha para a educação por projetos. Nada contra. Muito pelo contrário. A dinâmica dos projetos é muito mais rica e significante que o aprendizado decorado e massificante no formato “lousa-livro-prova”. O problema aparece quando observamos a forma como os projetos são escolhidos e montados. De uma escola para outra, os temas variam muito pouco. A impressão que temos é que há um “banco de projetos” pobre e repetitivo de onde os professores tiram suas propostas. É sempre água, solo, “o que é o que é”, reciclagem de lixo, “minha história – minha vida” e outros do gênero. Temas excelentes, mas quando usados à exaustão acabam tornando-se cansativos e repetitivos. A massificação dos temas de projetos afasta-os da proposta inicial que é proporcionar ensino temático personalizado aos interesses e necessidades dos alunos de cada turma. Os defensores do “banco de projetos” podem dizer que, apesar dos temas serem quase sempre os mesmos, a própria dinâmica dos trabalhos os tornam únicos. Concordo, mas poderia ser bem mais do que isso, não?

Vejamos o caso de um garotinho que já estudou em 3 escolas. Nestas mudanças, fez e refez o projeto “Água” 3 vezes! Duas vezes os projetos “Reciclagem de lixo” e “sistema solar”. Já virou PhD na sua vida, pois a remontará pela terceira vez no projeto “Minha história”. E ontem, ele chegou da escola com a seguinte frase: “Vou estudar o Portinari outra vez!” De novo, cada escola tem sua abordagem, sua forma de trabalhar, mas falta criatividade na escolha dos temas e isso é mais do que evidente.

A solução para o problema? Professores, abandonem este “banco de projetos” repetitivo e inibidor ao qual recorrem. Entendo que é muito mais fácil se trabalhar com um projeto já montado, mas, aqui entre nós, é tão empobrecedor! Sem contar que a verticalização da escolha do tema, isto é, a imposição do tema vinda do professor ou coordenador, contraria todos os princípios de autonomia, criatividade e pró-atividade que vocês tentam nos vender nas reuniões de pais. Comecem dando mais ouvidos a sua turma. As crianças são os seres mais criativos e interessantes que existem. Ouçam suas histórias de super-heróis, seu fascínio por gigantes e monstros marinhos, seu interesse por viagens intergalácticas, sua curiosidade sobre o funcionamento das coisas, seu instinto natural por misturar e fazer “experiências” com líquidos e alimentos.

O universo infantil nos apresenta uma quantidade ilimitada de temas a serem trabalhados. Temas inéditos, curiosos, divertidos e criativos. Que tal uma fábrica de sorvetes ou de produtos de beleza, como sabonetes e shampoos? As crianças podem pesquisar cores, sabores e consistências variadas, escrever receitas, montar o cardápio (ou catálogo), calcular preços e quantidades, pesquisar os cheiros e sabores mais procurados, criar rótulos, embalagens e anúncios, fazer divertidas sessões de degustação e depois vender o resultado final em uma mini sorveteria ou mini lojinha montada por eles mesmos. O dinheiro arrecadado pode ser revertido para eles mesmos ou para um projeto social. Vejam quantos eixos a serem trabalhados! E ainda estimularíamos o empreendedorismo e a solidariedade de forma saudável e divertida.

Há ainda a produção de vídeos (algo hoje viável com pouquíssimos recursos), a montagem de programinhas de rádio (imaginem a riqueza de repertórios a serem pesquisados!), os gibis, as feirinhas, os jogos simbólicos fora da sala de aula, os castelos, a caçada aos ossos de dinossauros. Os temas não faltam. O que falta é imaginação.