8.1.18

O caçador de vagalumes



O caçador de vagalumes

Depois do sexo, os dois trocam lentas carícias iluminadas pela luz da claraboia. Um vagalume voa pelo lado de fora. Ela sorri. Ele acende um cigarro e lhe conta que quando tinha oito ou nove anos precisou ser internado por muitos dias. A ala infantil estava lotada e o colocaram num quarto com adultos. Era a única criança ali e seus pais vinham visitá-lo duas vezes ao dia, pois eram pobres e não tinham como parar de trabalhar.

Ele dá uma tragada e, por trás da fumaça, ela vê os olhos dele embaçarem. Ele fala do tédio, do bumbum todo furado de injeção, das enfermeiras nem sempre gentis. Acabou virando o mascote da ala e, de vez em quando, alguém lhe dava um gibi. Para aquele garotinho pobre, um gibi era mais que um presente de valor incalculável, era também uma companhia, que ele saboreava lentamente página por página, quadrinho por quadrinho.

O vagalume continua tentando entrar pelo vidro. Ele se lembra da vez que uma paciente o acordou no meio da noite e o levou até um pequeno jardim entre as alas. Era uma noite muito escura, sem luar. A mulher cobriu os olhos dele com as mãos e, quando retirou-as, estavam no centro de uma nuvem de vagalumes. Por todos os lados, centenas de pirilampos enchiam o ar da noite com desenhos de luz. A paciente deu-lhe um vidro de marmelada e ele ficou algum tempo correndo pelos canteiros tentando capturá-los. Aquele momento o fez esquecer-se de tudo: doença, picadas, tédio, pobreza, saudade. De repente, era só um moleque caçador de pisca-piscas. Ele dá outra tragada no cigarro e a abraça com doçura. Por trás da fumaça, ela vê seus olhos verdes se encherem de brilho.