17.10.17

Comida de astronauta



Comida de astronauta

“Mãe, essa sopa tá esquisita. É sopa de que?”

A mãe não sabia. Nem a assistente social soube dizer o que tinha naquele granulado esquisito que ganhou da Prefeitura. 

A assistente ainda tentou animá-la: “É comida de astronauta, olha que chique!”

“Moça, num precisa ir tão longe pra encher nossa barriga, não. Eu fui criada na roça. A gente era pobre, muito pobre, mas sempre tinha um cará, um aipim, uma taioba pra refogar, uma banana amassadinha pra dar pros bebês. Comida é o que vem do chão que a gente pisa, não da lua.” 

“Mãe! Ô mãe! Que que tem nessa sopa?”

O resmungo dos filhos a trouxe de volta dos pensativos. 

Continuava sem saber o que responder. Misturou a ração da Prefeitura na água quente, colocou o miojo pra dar uma alegrada, uma pitadinha de sal. Sabe lá o que tinha na sopa.

Lembrou-se da música que uma das patroas tocava na hora de dar papinha pro nenê. Começou a cantarolar:

"Que que tem na sopa do neném?
Que que tem na sopa do neném?
Será que tem farinha?
Será que tem balinha!?
Será que tem macarrão?
Será que tem caminhão?!
É um, é dois, é três..."

Os meninos acharam estranho. “Tá doida, mãe?!”

A mãe continuou, agora batucando com a colher de pau na frigideira vazia.

"...Que que tem na sopa do neném?
Que que tem na sopa do neném?
Será que tem mandioca?
Será que tem minhoca!?!
Será que tem jacaré!?!
Será que tem chulé!?!
É um, é dois, é três...

As crianças começaram a rir e devagarinho foram engolindo. 


13.10.17

O beijo do fuzil




O beijo do fuzil

Tem gente que nasce em berço esplêndido.

Tem gente que nasce virada pra lua.

Marisa nasceu preta e favelada.

Virou doméstica, diarista, ambulante e foi se virando que conseguiu dar pro filho um casaco e um boné de marca. 

Tem menino que quer ir pra Disney. 

Tem menino que quer ir num jogo da Champions. 

O dela queria vestir o boné e o casaco da vitrine. 

Foi o vizinho que acordou Marisa. Corre lá que os PMs tão dando um esculacho no seu filho e na sua filha. 

Marisa salta da cama e chega na cena de pijama. Meus filhos não são traficantes, não senhor. Essas roupas de marca eu comprei na prestação. Sou trabalhadora, aqui não tem nenhum bandido.

A roupa é do shopping, mas e o radiocomunicador, heim?

Tem rádio aqui não, senhor.

O PM resolve aplicar sua própria justiça. Manda Marisa bater nos filhos. Senta mão neles, mas senta forte, que senão batemos nós.

Marisa nega. Nunca bati em filho meu, não vai ser agora, senhor. Eles não fizeram nada.

Os PMs ficam putos. Um deles vem por trás e dá uma coronhada de fuzil na nuca de Marisa. Ela cai e eles partem. Piranha.

Os filhos levam a mãe pra casa, pra UPA, pro hospital e de lá pro velório. Só não teve enterro porque a PM quer apurar se o aneurisma que a matou foi decorrência do trauma causado pelo beijo do fuzil.

O processo está na gaveta, assim como o corpo de Marisa.

Tem gente que morre de amor.

Tem gente que morre de tédio.

Marisa morreu de Estado.

6.10.17

Maconheira do Cristo




Maconheira do Cristo

Conheci Suzi em um bar em Perúgia e logo no primeiro parágrafo ela conta que é evangélica e toma antidepressivos porque tem uma forte depressão desde a adolescência. Talvez quisesse justificar seu simpático jeito meio atrapalhado falar, emendando uma história na outra e, muitas vezes, perdendo o fio da meada. Nessas horas, ela dá um suspiro, olha pra cima e diz: “Nem lembro mais o que eu estava falando.” Eu também não lembro, mas a gente logo engata noutro assunto e a prosa flui non stop.

Mora na Itália há dois anos e no início tinha muito medo de se tratar com os médicos locais: “Aqui não tem muita gente deprimida, então eles não tem muita experiência com essa doença…não é como no Brasil que qualquer psiquiatra é super especialista nisso”.

Enquanto pede outra cerveja, diz que quer parar com os remédios porque gosta de beber. “Bebo muito, sou cachaceira mesmo”. 

“Mas Suzi, e a Igreja?”

“Eu sei que não devia, mas pago meu dízimo e qual o problema da gente se divertir um pouco? Não é isso que desagrada o Senhor”.

Digo que é primeira vez que vou naquele bar. Ela avisa que ali é um reduto de comunistas. Mas frisa que são todos muito gente boa, diferente dos comunistas insuportáveis do Brasil. E que todo mundo é ateu. “Eu sou a única que acredita em Deus aqui. Devagarzinho vou tentando fazê-los escutar a palavra do Senhor, mas eles não ligam muito. Eu gosto de dar bíblias, já dei uma pra cada um. E um calendário com salmos. Fiquei superfeliz de ver que meu calendário continua em cima do balcão e que eles destacam uma folhinha por dia. Devagarzinho, a Palavra vai entrando.”

Deixa escapar que já fumou muita maconha. “Muita mesmo. Eu comia com farinha!” Dou risada e pergunto se ainda fuma.

Ela olha de um lado para o outro e sussurra que ainda dá seus pegas, mas que ninguém pode saber porque os pegas aqui pegam mal.

Pergunto se poderia me arrumar um pouco. Ela diz que pode me apresentar algumas pessoas. Explico que não é o caso, porque não como com farinha. Um beque me faria feliz por uns meses. “Te dou a grana e quando você pegar, me dá um pouquinho, pode ser?”

Ela nega e explica: “Se eu tocar no seu dinheiro, estaria fazendo tráfico. E tráfico eu não faço.”

Paro alguns segundos para tentar entender a lógica. Desisto. Tento argumentar que não é tráfico: “É compartilhamento. O Senhor não nos ensinou que devemos compartilhar, Suzi? Ajudar os necessitados? Então, me ajuda, poxa…”

Ela desconversa e muda o rumo da prosa, o que faz com uma habilidade incrível.

Quando estou indo embora, ela abre a bolsa e me dá um presente encapado caprichosamente com um papel de seda cor de rosa. Sinto o imenso carinho que ela coloca nesse ato e fico emocionada.

Volto do bar com uma Bíblia e sem o beque.

Tempos estranhos.