19.10.17

A esposa que falava com espíritos




A esposa que falava com espíritos

Bonelinha falava com os espíritos. Era um dom que tinha desde muito nova. Eles se aproximavam de mansinho e diziam coisas em seu ouvido. Às vezes confidências, às vezes auxílio, por vezes um desesperado pedido de ajuda.

Uma noite, quando ia colocar a filha pra dormir, um espírito lhe cochicha que o marido, Batista, que havia saído já há algum tempo, todo bem vestido e perfumado, não tinha ido “cobrar verdura de uns fregueses” como ele lhe havia dito. E completou: “Se quiser, te mostro onde ele está."

Bonela bota um casaquinho, calça uma sandália, pega a filha nos braços e sai na noite vazia, seguindo as direções do GPS do além.

“Vira aqui, passa ali, atravessa lá, anda, anda, anda e bata palma nessa porta iluminada por um candeeiro com luz vermelha."

Atende uma senhora de maquiagem e vestido que mulher direita nenhuma usaria. Pelo menos não naqueles tempos. A dona da casa arregala os olhos diante da visitante inesperada: “Dona, pelo amor de Deus! O que a senhora faz num lugar desses com essa criança?”

Bonela explica, a proprietária entra e em poucos minutos lhe devolve o marido.

Chegando em casa o pau come. Gritos ecoam de um lado e louças espatifam do outro.

Nesse ponto, nossa história divide-se em dois tipos de opineiros: os que apoiam Bonela por todos os motivos que se apoia a mulher traída. E os que apoiam Batista, pelo único e exclusivo motivo que nenhum homem deveria passar por tamanha humilhação num puteiro. E eu? Me atenho ao registro da ocorrência, deixando a você leitor o trabalho de tomar partido.

O saldo da briga foi um jogo de jantar quebrado e um gelo que durou dois anos para derreter, durante o qual, Bonela e Batista dirigiam-se um ao outro somente quando era absolutamente essencial. Aparentemente, atividades noturnas estavam na lista das essencialidades, pois um gorducho bebê nasceu no período. 

E assim termina a fantástica história da mulher médium, do marido cobrador de verduras e do espírito X9.

Que uma alma me caguete se eu estiver mentindo.


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