16.4.13

O cisco e a trave.





O cisco e a trave. 


Um israelense me contou sobre a vida dos árabes em território judeu: "A gente está se lixando para o que eles fazem entre eles. Não estamos nem aí se eles se espancam, se matam, se acabam. Se é entre eles, nossa polícia não se mete. Não perdemos tempo com esse povo. Eles não são gente, são animais."

Fiquei chocada com a sinceridade do relato. E, com um ufanismo que geralmente nos acomete quando nos afastamos da pátria amada, pensei que pelo menos nesse assunto o meu País estava acima do dele.

Foi Cida, empregada doméstica crescida na periferia de Osasco, que me fez ver que, enquanto eu apontava para o cisco no olho do meu amigo israelense, deixei de ver a trave enterrada até o fundo do meu.

Estávamos preparando o almoço quando a cozinha foi invadida pela campanha contundente da Rádio Bandeirantes pelo fim da maioridade penal. Vinha com a chancela do próprio governador de São Paulo, defendendo a mudança na lei.

Cida para de lavar a louça, olha pela janela e solta: 

"Engraçado…na favela sempre aparece um morto. É tiro no peito, na cabeça, queimadura, estrangulamento…ninguém liga. 

Morri de pena desse moço que foi assassinado na porta do prédio por causa de um aifone. Você viu na televisão?! Ele já tinha dado o celular pro bandido. Imagina matar alguém por tão pouco! Mas na favela, a vida vale menos ainda. O irmão do meu marido foi assassinado por causa de cento e cinquenta reais. E a polícia nem investigou. Até hoje não sabemos quem matou. 

Eles estão querendo reduzir a idade pra ir preso, mas do jeito que está, pode abaixar pra dezesseis anos que nós vamos ver os de quinze dando tiro. E se reduzir pra quatorze, vamos ver os moleques de doze dando tiro. Daqui a pouco, vamos colocar criança na cadeia e o problema vai continuar. 

No jornal de domingo eles botaram as fotografias dos rapazes que foram assassinados por menor de idade. Só puseram dos bairros de rico. Se fossem colocar os mortos da favela, ia encher tantas páginas que não ia sobrar espaço pras notícias. 

Eu tenho muito respeito e entendo a dor que a mãe desse moço deve estar sentindo, mas ninguém apareceu pra entrevistar minha sogra quando o Cláudio morreu. Ninguém fez passeata pelo fim da violência. O governador e a rádio não pediram pra mudar lei nenhuma. Foi só mais um favelado que morreu assassinado. 

Parece que a gente é bicho." 

O feijão nesse dia não ficou tão gostoso. Talvez fosse melhor continuar cega.


8.4.13

Arcangela - Mulheres que me fizeram.





Arcangela - Mulheres que me fizeram.


No parapeito do navio, Arcangela se debruça e chora.

Chora por sua bela Itália, enorme no peito e cada vez mais pequenina no horizonte. 

Chora por ser mulher e ter que acompanhar seu homem a uma terra distante, feita mais de sonhos do que de chão. 

Chora pela mãe, impedida de embarcar por um mal súbito de pele e pelo abraço longo que teme ter sido o último que deram nessa vida. 

Chora pela saudade em forma de carta e pelos meses que levará para que ela atravesse o oceano.


No parapeito do navio, Arcangela se debruça e chora. 

Chora pela filha que ainda não teve e pela sua inescapável sina de mulher que dará luz, lavará, coserá e alimentará a vida. 

Chora pelos netos que ajudará a criar como se fossem os filhos queridos que Dio irá lhe negar. 

Chora pelo marido que nunca encontrará pepitas de ouro nas ruas da terra prometida. Nem depois de varrê-las, cuidadosamente, no emprego de gari que arrumará após fugir da escravidão da fazenda de café.

Chora pelo destino ter decidido que, ao invés de continuação, sua vida seria o ponto de partida de uma nova trama na imensa tapeçaria da vida. 


No parapeito do navio, Arcangela se debruça e chora. 

Suas lágrimas se misturam ao mar salgado pelo pranto de outras milhares de Arcangelas, que também precisaram se apoiar ao ver suas vidas desaparecerem aos poucos, engolidas pelo imenso azul.