29.9.09

Procuro estágio no setor de mães.


Foi dormir aborrecida. Havia escutado umas malcriações do filho quase adolescente. O menino reclamou que era muito chato ficar com a mãe em casa. Ela pegava no pé e lhe mandava fazer coisas insuportáveis, como arrumar a bagunça, ou buscar na venda uma coisinha ou outra que faltava.

Ela mesma reconhecia que era uma discussão boba, fácil de relevar. Mas rejeição de filho dói. Por menor que seja. Além do mais, ele já era grandinho. Podia muito bem ajudar na casa. Mas como fazer para isso acontecer sem tanto desgaste e reclamação?

Achou engraçada a vida. Desde que nasceu foi preparada para o mercado de trabalho. Passou anos estudando nas melhores escolas que seus pais puderam proporcionar. Fez curso de línguas, datilografia, pré-vestibular, faculdade, estágios. Aprendeu a se vestir para uma entrevista, a demonstrar confiança, a sobreviver a uma dinâmica de grupo, a elaborar um currículo matador, a lidar com chefe meurótico, fornecedor furão e colegas fofoqueiros. Sobreviveu a tudo e a todos. Havia sido bem treinada.

Como podia então, se deixar afetar tanto pelas malcriações de um garotinho imberbe, mal saído das fraldas? Ficar tão perdida diante de uma tarefa não realizada? Da falta de reconhecimento e de cooperação?

A resposta lhe tirou o sono. Foi treinada para ser uma profissional. Nunca lhe ensinaram a ser mãe. Era como se, a mais desafiadora tarefa que um ser humano pode exercer - criar e educar outro - fosse um conhecimento adquirido instantaneamente, a partir do momento que se dava a luz. Pior ainda. Aprender antecipadamente a ser mãe, não era nem cogitado. Coisa de cursinho de igreja pra moças pobres. Segunda divisão no campeonato da vida.

Queria ter sido avisada antes, muito antes, que aquele serzinho indefeso e encantador que lhe entregaram na maternidade, passaria o restante dos dias questionando tudo aquilo que ela acreditava. Revirando conceitos, mexendo com seus medos, suas verdades absolutas. Sua segurança de profissional qualificada.

Queria ter aprendido que, mesmo se matando para cumprir a mais distante das metas, não receberia aumento, nem promoção, nem seria capa de revista nenhuma. E que nenhum guru motivacional iria tocar sua campainha nos dias de maior desânimo.

Queria ter descoberto bem antes que o sistema de gratificação é infinitamente superior ao de qualquer bonificação no holerite, mas que para isso teria que operar em regime de dedicação integral e exclusiva. Abrir mão de muita coisa, relevar outras maiores ainda.

E que o cliente era exigente. Muito mais exigente que qualquer cliente mala que já lhe apareceu. Chorava, implorava, se jogava no chão, dizia-lhe impropérios e verdades que não fazia questão alguma de ouvir.

Fechou os olhos e tentou dormir. O cérebro veio resgatá-la da imensidão dos conflitos existenciais, alertando que não havia mistura para o almoço. Exausta, resolveu usar alguns de seus conhecimentos profissionais. Se o rapazola do almoxarifado se recusasse a buscar um material, ela jamais sairia de seu posto para fazer o serviço dele.

Amanhã, decidiu, não haverá briga, nem discussão. E o filho vai almoçar arroz branco.

27 comentários:

Anônimo disse...

Taís:
Está pedindo água já no primeiro que ainda nem é adolescente?
Ah! Ah! Ah!
Espere mais. Este é o melhor. As coisas ruins dele vão passar para os demais. E o cerco vai apertar.
Vai deixá-lo comer arroz branco? Duvido!
Mas... não perca o sono. Não se martirize com bobagens. Fazem parte da formação da personalidade. Continue amando e dando carinho, para afastá-lo de problemas maiores. Mormente quando vier a tentação das drogas, que é inevitável.
Beijos
Eu

Paula disse...

Que texto show ...

É bem isso ... eles vem com aquele ar de fragilidade, mas de bobos não tem nada ...

To vivendo isso, e estou bem no começo o meu só tem 1 ano e eu já me imaginei passando por tudo isso ...

Parabéns ... Ah, sabe uma coisa que queria saber, como ficou aquela história do caderno de caligrafia do seu filho?

inté!

Paula

Cynthia Santos disse...

Menina, também preciso de um estágio...ehehehe mas, ces't la vie!
A gnte só entende muita coisa quando passa por elas...eheheheh
Beijos!

Lala disse...

...meu filho tem 12 e posso relatar incontáveis acontecimentos como esse, perdi mto sono. Agora lá em casa é assim: eu faço minha parte (levar pra escola às 6:30 da manhã, prover escola, internet, etc) e ele deve fazer a dele. Não fez? Tb não faço a minha; ou fica sem internet, ou não vou levá-lo (é, aí tem que usar transporte público - demorado, lotado). É o nosso "combinado". Tem funcionado bem, ainda que para implantá-lo tenha que aguentar cara feia e outras rabugices. Dói na gente, mas é para o bem deles mesmos. Seria mais prejudicial continuar fazendo tudo sem exigir nada em troca, numa idade em que eles já podem sim assumir algumas tarefas em casa.
Então, que o almoço seja arroz branco!!

Bjs e boa sorte ;-)

Thaís Rosa disse...

U-A-U. Tô com medo do que me espera...

Letícia Volponi disse...

Menina, que excelente parábola você fez ali, mas que medo. Bem que minha mãe dizia que pré-adolescentes são muito piores do que os adolescentes convictos.

Camila disse...

Parabéns! Texto excelente! Não posso contribuir com nenhuma dica porque nem mãe sou (ainda).

Mas boa sorte nessa tarefa! :o)

Iramaia Figueiredo disse...

Olá,
vim parar no seu blog para espairecer após uma birra da minha filha de 2 anos e um desgaste enorme... Me encontrei em seu texto. Também estudei em ótimas escolas, graduação em faculdade pública, mestrado idem, publicações em revistas qualis A, etc, etc e rebento nasceu optei por virar "mãe profissional"... Olha que tem dias que bate o desânimo.... Digo aos antigos colegas que hj trabalho mais e fico mto mais cansada do que qualquer trabalho que já tinha realizado...
Bem, adorei seu texto. Parabéns!

Vanessa disse...

Taís, que texto! aimeudeus, meu bebê tá crescendo, daqui a pouco eu chego na pré -adolescencia...

bjs

Andréa disse...

Ai Taís, ser mãe é tanta coisa, né? E muitas vezes, tudo tão contraditório...

Minha pequena de 3 anos também faz sua birras, chororô por qualquer coisas e o de 1 ano também já dá seus "shows". Eu tenho uma sobrinha adolescente e vejo também o que minha irmã passa por causa dela. Realmente, não é fácil!

Mas tem uma tática que minha sogra usa e que eu gosto muito. Dia destes, o filho mais novo (já adulto) pediu que ela lhe passasse uma camisa. Pediu uma vez, pediu duas, pediu 3 vezes.. Lá pela quarta ou quinta vez, reclamou com a mãe: "Ô, mãe, mas vc não vai passar minha camisa? Preciso sair!". E ela, muito tranquilamente, respondeu: "Ué, mas quando eu peço alguma coisa pra vc, eu não tenho que repetir meia dúzia de vezes até que vc faça pra mim?". Rsrsrsrs

Paloma, a mãe disse...

Excelente texto, Taís! Essa sou eu. Ou eu amanhã, porque ainda não tenho um pré-adolescente em casa, mas já sou testada diariamente. Preciso aprender tanto ainda... Cadê meu curso de mães? Estágio? MBA? Mestrado, doutorado, pós-doc? Inscrições já!

Anônimo disse...

Por essa e por outras que prefiro não ser mãe kkkkkkkkkkkkk

Neural disse...

Belíssimo texto, aliás como sempre!
bjs
Renato
Diário Grávido

Silvia disse...

E aí, o arroz tava bom? ;-)

Mas eu sinto que vamos precisar de um grupo de apoio forte para enfrentar a pré-adolescência e adolescência dos nossos filhos. Uia.

Hegli disse...

Eu também... “Queria ter sido avisada antes, muito antes, que aquele serzinho indefeso e encantador que lhe entregaram na maternidade, passaria o restante dos dias questionando tudo aquilo que ela acreditava. Revirando conceitos, mexendo com seus medos, suas verdades absolutas. Sua segurança de profissional qualificada”.

Pois é Taís, meu filho tem só 8 anos e meio... e já me dá um trabalho. Como pode ser né? Porém mesmo tendo emoções tão contraditórias, acho que nós “as risoteiras”, acabamos sempre nos guiando pela razão no sentido de querer sempre o melhor para o filho, mesmo que não lhe pareça na ocasião.

O meu esquecia cada dia uma coisa na escola: um lápis, uma borracha, a tesoura, o caderno, régua; a sunga, touca, toalha, tênis e uniforme(?) e óculos no vestiário da natação... (estava virando um vício) e eu vivia colocando recados para a professora lembrá-lo de procurar. Uma vez trouxe a mochila vazia e nem notou. Um belo dia, cansada, eu perguntei: cadê o estojo pra fazer a lição? E a lancheira? Aí veio a resposta: ah mãe, coloca um recado lá...

Ficou sem lanche completo no dia seguinte (levou uma barra de cereal pra não desmaiar) e sem fazer a lição de casa (não emprestei mesmo). E nunca mais precisei colocar bilhete no caderno.

Então apoio o arroz branco na hora do almoço. Puro e seco. E um chazinho de camomila pra mãe aborrecida dormir mais tranqüila, rs.

Bjus

Pérola disse...

Muito bom!
Se achar um estágio, me indica, tá?!
Preciso de especialização na área de alimentação - como fazer seu filho comer bem - de preferência intensivão...hahahaha
Beijão querida!

Anita disse...

Taís,
Arrasou, disse tudo!
Já me peguei assim também com o meu "Malinha Sem Alça e sem rodinha" de 11 anos...
Dá um desejinho secreto de evaporar e deixar todos se danarem né? De castigo...
Amei, parabéns pela escolha acertadíssima dos vocábulos.Aliás, como sempre!
Bjão,
Anita

Taís Vinha disse...

Oi pessoal. Comentários ótimos! Bom saber que não sou só eu que perco o sono com divagações sobre a minha destrambelhada performance materna.

Ontem mesmo estava lembrando, com uma amiga, das mensagens que recebemos na nossa infância e adolescência: estude muito para ter uma boa profissão, não case antes de ter uma carreira, seja independente, pague suas contas etc. Somos a segunda ou terceira geração pós feminismo e temos um legado que nos foi transmitido. Nada contra ele, PELO AMOR DE DEUS! Que ninguém queime meu sutiã de amamentação. Mas um meio termo teria sido de grande valia. Tenho aprendido a gostar cada vez mais do meu lado mulher/mãe, não há como negá-lo.

Quanto aos adolescentes, ainda não me assustam. Não acho possível que um filho meu se torne adolescente pior do que eu fui. Mala, conteiner, pochete (sou baixinha) sem alça é pouco. Para vcs terem noção, fui parar na psicóloga, porque EU pedi. Nem eu me aguentava, hahahahahaha.

Mas assumo que tenho perdido o rebolado com o meu mais velho, mais por inexperiência. Brinco que ele é meu piloto de teste. Erro com ele, pra tentar acertar com os demais. Pobres primeiros filhos!

Sim, ele recebeu um prato com arroz branco. E mandioca cozida encontrada num tapuér. Fez uma cara de surpresa e perguntou onde estavam a carne e a saladinha. Eu, muito calma (atriz!) disse que ninguém tinha tido tempo de ir ao açougue e à quitanda. Ele ficou mudo e mandou ver no prato. No dia seguinte perguntou: "mãe, quer que eu compre alguma coisa?" Até a empregada, minha assistente para assuntos educacionais, fez YES! Acho que já posso ir pra próxima.

Vocês não sabem como é bom trocar idéia com vocês! Bjs e muito obrigada pelos comentários.

Taís Vinha disse...

Iramaia,

Bem vinda a um dos web redutos de mães profissionais, amadoras e aspirantes (né, Camila!). Tenho recebido muitos relatos de mulheres que optaram por ficar em casa, com os filhos e o maridão e todas contam como a internet tem ajudado a encontrar pessoas que entendem e valorizam esta opção. Porque, definitivamente, das muitas escolhas que fiz na vida, esta foi uma das mais difíceis. E das mais questionadas pelos outros. Principalmente, porque também tenho um currículo parecido com o seu: facu, mestrado, línguas etc. Muita gente me perguntava como eu podia abrir mão de tudo isso. Inclusive eu mesma. Hj acho que não abri mão de nada. Tudo continua na mão. Só canalizei para outro lado, resolvi viver outro momento. Conhecimento não se perde, né? Mas se não fosse a internet e esta troca com outras mães e papis (Ó o Neural e o Luís aí, gente!), acho que ainda estaria tentando me achar.

Um abração e quando desanimar, pegue uma matinezinha, tome um espresso bem gostoso e pense que a galera que tá batendo ponto nunca ia conseguir passar uma tarde assim.

Como diz a sumida da Clarice: "Tá com inveja, vá trabalhar que passa!"

Bjs!

Carol_Rodarte disse...

Tais, amei o texto, amooo seu blog!
Ainda nem consegui engravidar, mas informação nunca é demais ne!

Poucas pessoas sabem que eu vou parar de trabalhar quando o baby vier (so sabe meu marido, mae irmaos e amigas q entendem isso, auqi na net), e ainda escuto gente falando q eu vou me sacrificar, sacrificar tudo q eu tenho ate agora pra cuidar de filho. Absurdo ne? Desde quando cuidar de filho e do marido (e a casa junto nessa historia) é sacrificio??

Bjinhus e otimo dia

Neural disse...

carol, se eu pudesse eu mesmo parava de trabalhar pra cuidar da pequena Lucia.
sério!!

Carol_Rodarte disse...

Aiai Neural, é lindo escutar isso de um pai. MAs eu so tento imaginar a delicia q é ter a filhinha nos braços..

bjinhus

Cynthia Santos disse...

Amiga Carol, sacrifício não é... mas é muito cansativo, tanto trabalhando, quanto sem trabalhar... às vezes o cansaço é tão grande que eu tenho vonatde de fugir de casa...ehehehe
Eu trabalho fora e adoraria ter uma tarde como a que a Thaís recomendou à Iramaia...mas mesmo que a oportunidade surigess, acho que não teria coragem de deixar o Arthur pra ir passear... vai entender,né? Devem ser os hormônios...

Taís Vinha disse...

Oi Carol,

Essa decisão é TÃO individual que eu não me atreveria a recomendá-la a ninguém. E nem dar os parabéns a quem a tomou. Porque, pode ser que daqui a 6 meses, a pessoa me xingue. Acho que as mães que estão em casa vão me entender. Ficar em casa, com os filhos, não é o sacerdócio nem a vida paradisíaca que achamos, antes de engravidar. É um trabalho, como outro, com desgastes, desavenças, obstáculos e muitas alegrias. E requer um ajuste muito grande na dinâmica da casa, inclusive de orçamento. O que ajuda muito é a mulher, não viver apenas em função disso. Ter vida própria, que a faça se sentir valorizada, algo que areje a cabeça, como um trabalho que possa ser feito em casa mesmo, um hobby, um blog (!), amigas pra dar risada. Felizmente você tem tempo. Que delícia! Vai pensando, se preparando e na hora certa (que pode ser depois que o bebê nascer) você saberá fazer a escolha certa para você e sua família.

Cynthia, culpa de mãe é uma praga que daria assunto para muitos textos. Neste quesito, os pais dão de 10 a zero na gente. Eles deixam os filhos sem remorso nenhum pra jogar bola, encontrar os bródis, tomar uma cerveja na padoca ou o que for a praia deles. E nem por isso são melhores ou piores pais. Precisamos aprender um pouco com eles. Mas fica fria. Conforme o Arthur cresce, você vai aprendendo que estas escapadinhas são VITAIS na vida de qualquer mãe. Bjs!

Ana disse...

Taís, ADOREI o seu texto! Ontem mesmo postei sobre a profissão de mãe 24 horas... Ainda nâo tô nessa fase aí, mas a minha de 5 anos já começou a dar uns pitis de vez em quando... haja paciência, viu!

Renata disse...

Há! tell me about it.
Sim, filhos são nosso cliente mais exigente e o projeto mais desafiador de nossas vidas! Excelente post, Taís, acabei de indicar a uma amiga que está começando a se preparar para ser mãe.
Só agora vi os posts anteriores ao da caligrafia. Segui o link para a colunista da época que escreveu sobre bullying. Fiquei chocada, mas por outro lado o que ela coloca em relação às crianças e jovens da elite não me surpreendeu. não só os miseráveis e pobres são carentes. Nossas crianças e jovens classe A estão fa-min-tos! Podem ter tudo do ponto de vista material, mas falta o alimento básico: amor.
Beijo, querida, e um ótimo final de semana!
Re

Sara disse...

Adoreeei!!!!