18.11.09

Mãetorista


Mãetorista

Acordou irritada. Teria que levar o mais velho para a aula de guitarra. Depois fazer o almoço e buscar os menores na escola. Dar almoço e levá-los pra natação. Voltaria no final do dia. Cansada, suada, carregando mochilas de roupas molhadas e uma tonelada de impaciência.

No dia seguinte, era capoeira e inglês. E no outro guitarra de novo. Não sobrava mais tempo pra nada. E o pouco que sobrava, só conseguia cochilar desmaiada no sofá. Nem a novelinha conseguia mais assistir.

Resolveu dar um basta na vida de mãetorista. Ligou pra cunhada especialista em logística infantil. A dica era objetiva: peça ajuda aos outros pais. Ofereça. E trace roteiros para otimizar suas saídas.

Na primeira tentativa de "dividir" roteiros, a recepção dos outros pais foi fria. "Ah, eu tenho mesmo que vir pra esses lados, não preciso de revezar." A cunhada deu força, não desista, consulte outros. Achou uma mãe que suspirou aliviada diante da proposta. O acordo foi feito e com isso, ganhou 3 dias livres na parte da manhã.

Faltava dar um jeito nas atividades. Resolveu radicalizar: "desmatriculou" a filharada de tudo. Eles estranharam. Mas não reclamaram muito. Aparentemente, estavam tão cansados como a mãe e reagiram com criatividade à novidade do tempo livre. Inventaram jogos como jogar bolas de tênis do outro lado do muro e pulá-lo para buscá-las. Ou pingue-pongue individual, que a mãe quase filmou e colocou no Youtube. Passaram a passear de bicicleta, cozinhar juntos, frequentar mais o parque, receber amigos. E de vez em quando, uma matinê no cinema.

No novo ano, decidiu que era hora de retomar algumas atividades. Com muito critério: apenas uma para cada um. E pensando antes de tudo na logística. O mais velho entrou no inglês. Numa escola próxima, para poder ir de carona com o pai e voltar de ônibus. O do meio insistiu no futebol e foi matriculado na mesma escola que o filho da vizinha. Assim elas se revezam. E o caçula fica em casa brincando.

O restante do tempo é pra brincar, estudar (doce ilusão de mãe) e aproveitar o maior tesouro do homem moderno: o tempo.

E o marido nisso tudo? Comemora o sumiço de tanques e mais tanques de gasolina na fatura do cartão, a diminuição dos boletos de pagamento de cursos, filhos menos estressados e indo melhor na escola. E, sem dúvida, a mulher mais leve, bem humorada e bonita ressusurgida das cinzas do volante do carro.

19 comentários:

Renata Rainho disse...

Muito boa sua solução.

Na parte da escola minha mãe sempre dividiu com outras mães.

Agora a parte extra era um inferno.

Tanto que quando eu tinha 30 anos fizemos terapia de familia, meus pais e meus irmãos mais velhos e a maior reclamação que todos tinham na memória era minha mãe reclamando que o tempo dela era só nos levar e buscar.

Que ela não podia fazer nada que queria: curso de pintura, bijouteria, aula de natação... Por nossa causa. Ficamos por 30/40 anos guarndando a culpa de nossa mãe não fazer nada que ela queria.

Sinceramente acho que não foi útil pra ninguém.
Abraços, Renata

Silvia disse...

Faltou falar que todo mundo respirou mais aliviado, já que passavam menos tempo no trânsito.

A natureza e os pulmões agradecem. Aliás, todo mundo devia agradecer pelo ar mais respirável. :-)

Anita disse...

É bem assim..Também radicalizei este ano:um esporte para cada um, resolvam-se!O mais velho, sabido, tratou logo de arrumar um futebol na esquina de casa, vai e volta a pé e sozinho!O pequeno ainda carrego...
Estes dias, quando propus a uma mãe de coleguinha, que dividíssemos o transporte, senti um certo ranço..por que será?Acho que é aquela acomodação de será que vai dar certo ou esta mulher vai esquecer do meu filhinho???

Vanessa disse...

Ufa, ainda bem que foi achada uma solução. Mãe sofre...

beijos

Andréa disse...

Muito bom o texto, Taís. Pena que a maioria das famílias ainda não resolvam as coisas deste jeito...

O que mais vejo são mães e pais muito preocupados em dar "estímulos" ao filhos - e tome-lhe natação, judô, inglês, futebol, balé, instrumento musical, etc, etc, etc. As crianças vivem estressadas, as mães também.

Estas pessoas se esquecem que brincar, como a gente brincava antigamente, é um estímulo e tanto pras crianças - e que torna seu aprendizado muito mais sólido, mas diversificado, mais rico do que aulas formais.

Não digo que estas atividades extras não sejam necessárias, mas acho que tudo tem seu tempo e as escolhas devem ser feitas com muito, mas muito bom senso e moderação. Infelizmente, não é isso que hoje se vê por aí...

Marcia disse...

Que delícia de texto, leve e gostoso de ler.
Eu não tenho a menor vocação para ser mãetorista. Faço tudo à pé na minha vida e olha que eu nem podia porque tenho uma prótese no quadril, mas não tenho saco pra pegar carro pra tudo, meu filho estuda numa escolinha na rua de casa (demoro 5 minutos para chegar lá), a escola de natação fica na rua de trás, levamos uns 10 minutos até lá e na volta ainda passamos na pracinha e ficamos lá uma meia hora pra ele dar uma cutucadinha nos formigueiros com graveto, procurar tatu bola, já que moramos num apertamento. E como moro perto do metrô, quando precisamos ir mais longe, é assim que vamos, ou até de ônibus algumas vezes, e as crianças adoram, acham divertidíssimo andar de transporte coletivo e eu acho tão divertido ver o encantamento delas com uma atividade tão banal como essa que acabo curtindo também. Carro é só quando não tem jeito mesmo....
bjs.

Letícia Volponi disse...

às vezes a gente tem mesmo que deixar a vida fluir em slowmotion

Hegli disse...

Ai gente, nesse ponto posso dizer que sempre fui muito “racional” (a meu favor, admito). Meu filho seeeeempre utilizou o transporte escolar (van).
Na escola em que ele estuda das 7h30 as 12h, há várias atividades extracurriculares, em diversos horários e eu o coloquei na natação terças e quintas, xadrez as quartas, sempre das 12h as 13h após a aula. Então mando um lanchinho extra e quando o transporte vai entregar as turma que entra a uma da tarde traz o meu filho, sem crises ou atrasos.
Ele chega, almoça, descansa um pouquinho, já faz a tarefa e tem o resto do dia livre para brincar e fazer outras coisas que gosta.
Mas não sei como seria com mais de um filho porque, além disso, tem o dentista, o pediatra, que cortar o cabelo, comprar uma roupa, presente pra aniversário de coleguinhas... ou seja, a vida de mãetorista nunca tem fim...

Tais Vinha disse...

Renata, jura que sua mãe falava isso o tempo todo?! Aprendi que, às vezes, o não é melhor que o sim contrariado. Imagina, carregar esta culpa 30 anos!

Acho que é igual mãe que fala o tempo todo na frente do filho que filho dá muito trabalho. É CLARO que dá. Mas não precisa de deixar a criança culpada por isso, não? O que de importante na vida não dá trabalho? Mulher, por exemplo, dá um trabalho desgraçado... hehehe.

Anita, na minha tentativa de compartilhar carona, tive várias recusas. Cheguei uma vez a falar em voz alta na reunião de pais e a única que me deu um retorno foi a Silvia, numa classe cheia de pais. As naturebas se acham em qualquer lugar, não? hahahahah.

E tive uns fatos curiosos, como gente que recusou logo de cara, depois me procurou pra "renegociar". Mas conversando, você sempre acha alguém disposto.

Vanessa, darling, eu ADORO finais felizes. Quando vou ao cinema e a mocinha morre no final eu peço o meu dinheiro de volta. De amarga basta a vida!

Andréa, eu iniciei este texto para falar justamente do excesso de atividades na vida das crianças. Mas o texto tem vida própria e tomou outro caminho. Este tema das atividades será retomado. Vc tem toda razão. Nós, mães, temos que lutar com unhas e dentes para que nossos filhos tenham tempo livre. Tá cheio de criança que não brinca por pura falta de tempo. É a chamada "executivização da infância". Também questiono o quão mais preparadas pra vida elas estarão, perdendo parte tão importante da vida.

Marcia, inveja! Moro no suburbio. Faço o que dá a pé na vizinhança, mas o grosso do dia-a-dia, tem que ser noutras paradas. Este ano, reprogramei tudo e tenho tido muitos dias de carro zero. Muitos mesmo. Esse negócio de otimizar as saídas é muito bom. Quando vou a tal lugar já faço isso, isso e isso. Outra coisa que tenho feito é estacionar o carro em um lugar e ir a pé fazendo o restante. Tb tenho usado mais a bicicleta (delícia). Simplificar a vida é o segredo!

Slowmotion é rebelde a beça, hein? Capaz de dar cadeia. Vc precisa vir pras reuniões de pais, dar uma força pra mim e pra Sílvia.

Hegli, nunca consegui me organizar como vc. Sempre matriculei filhos sem pensar no esquema de transporte. Vc não sabe que conquista tudo isso está sendo na minha vida. Sou muito agitada e sempre fui no embalo. Quanto ao restante, tenho tentado encaixar - vou ao supermercado e já compro presente de aniversário. Cortar cabelo é só com o marido. Pediatra apenas em casos de precisância absoluta. Dentista 1 vez por ano. E dá licença que quero tirar minha soneca da tarde. Luxo!!!!!!!

Sil, mil perdões, junto com a mulher mais leve o ar ficou mais respirável! O meio ambiente vai perdoar este meu texto egoísta.

Hegli disse...

Organizada Taís?! Thanks!rs
Me acho é um pouco folgada e com um bom poder de convencimento junto ao tio da van (o qual sempre pago adiantado para não perder o "amigo"), rsrsrs.
Ele sim quebra vááááááários galhos. E tb tenho a sorte da escola proporcionar tudo lá, no mesmo espaço.
Mas as vezes me sinto um pouco sinto "culpada"(??? é isso mesmo, creia!) por ele usar o transporte escolar desde os 3 aninhos.
Porém, naquela época era porque eu trabalhava demais mesmo. Hoje é por pura praticidade para nós dois! Mais tempo e menos tensão para ambos.
Bjus

hegli disse...

Sinto tannnnnto que até errei. O correto é sentir só uma vez, hahaha!

Mas as vezes me sinto um pouco "culpada"(??? é isso mesmo, creia!) por ele usar o transporte escolar desde os 3 aninhos.

bjus

Dona Pimenta disse...

Como todos os teus textos, esse é excelente!!! Mesmo antes de ter filhos, sempre me indaguei se era realmente bom as crianças terem tantos compromissos. Já não basta na vida adulta que não temos como fugir deles? Como eu queria morar pertinho de ti...já escrevi isso??? Se tu não quizesse ser me amiga eu até pagava pelo teu tempo pra trocarmos idéias...hahahahha
Grande beijo
Obrigada por ter respondido meu email
Pimenta

Tais Vinha disse...

Hegli, é por isso que gosto de vc. Uma mulher cheia de sentimentos! hahahahahaha

Dona Pimenta, como assim pagar? Tás loca? Eu falo pelos cotovelos e de graça. Aliás, tô quase pagando pra alguém me ouvir. E já que é pra rasgar a seda, seu blog é ótimo! Adorei o texto sobre querer de volta a vida de solteira. Pouquíssimas mães no planeta tem a coragem de assumir isso. Bjs!

Silvia disse...

Lá-lá-lá-lá-lá-lá! Moooorram de inveja! Eu moro pertinho. :-) E, se der sorte, ainda vou ser sogra de pelo menos um dos filhos dela. kkkkkk

Paula ZZT disse...

aff, olha a Silvia... botando banca... Assim que eu souber quando vou para Caçapava, aviso para marcarmos o café com bolo... Ou nesse calor, suco com muito gelo com melancia gelada, hahahaha.
Beleza?
Bjoks

Nadja Barros disse...

Taís, oi, tudo bem!?
Vim bater meu ponto diário...mas antes vi seu comentário no meu bloguinho e, fiquei tão, tão feliz com sua visita, que estou cantarolando até agora!
Vc pensa que é brincadeira? Eu nem imaginava que vc andava por lá, e fico sabendo que vc adora o meu blog...fiquei muito feliz, toda toda mesmo! :)

Eu acho o seu blog um espaço de utilidade pública! Aqui só tem temas relevantes, expostos de forma clara e bem argumentados! E depois, todos os comentários-depoimentos, estórias de vidas! é como vc disse, uma grande varanda, mulheres conversando e bebericando um bom vinho gealado! é assim que me sinto aqui e te agradeço pelo espaço!
O tema de caronas é bem oportuno para o próximo ano letivo que se aproxima! Quem tiver seus contatos, os faça agora, pra começar o ano bem! Eu, particularmente, faço parte das neuróticas que acham que vão esquecer meu filho na escola...então contribuo de outra forma: o mais velho estuda no bairro vizinho e vai no transporte da própria escola e o menor, coloquei na escolinha da esquina, onde gasto apenas meus sapatinhos e 5 minutos pra ir e voltar! :) Sobre as atividades, me concentrei nas que a escola oferece, assim evito o vai e vem desnecessário. Mas, como já foi dito, são coisas que o tempo ensina e a experiência aperfeiçoa...e vamos levando!
Beijos e volte ao blog sempre, pra gente papear mais!
p.s. Achou minha árvore na cobertura? ;)

Cynthia Santos disse...

Taís, dois agradecimentos: primeiro, a visita, adorei saber que você esteve por lá! E segundo, por mais um texto maravilhoso! Eu não dirijo, quer dizer, aprendi, tirei a carta de primeira, maaaas... tenho verdadeiro pânico de trânsito! Eu saía do carro toda tensa e suada... isso não é pra mim. Sei que isso tem tratamento, mas por enquanto, deixa o carro lá e eu aqui..ehehehe Eu não pretendo encher o Arthur de atividades, pelo contrário, minha ideia é esperar ele se interessar pelas coisas e aí, sim, se ele quiser, colocá-lo em atividades extracurriculares. Minha mãe já começou o terço: ele é muito agitado, precisa de atividade pra dispersar energia (alo? um bebê de nove meses?! Só me faltava essa...ehehehe) - sem contar que aos seis meses ela já queria por na natação e se dispôs a ir junto com ele (ela morre de medo de piscina e mar, pode?!). Eu até cogitei a natação, mas teria que ser comigo, e como tempo é algo muito precioso e falta que é uma beleza, eu desisti. Enfim, acho que tempo gasto com a família tem muito mais qualidade do que o gasto em tantas atividades extras...
beijo grande!!

Claudia Collares disse...

Eu faço o estilo prática.
Não coloco meus filhos em nada que fica a mais de 10min de carro.
A escola deles é praticamente dentro de casa.
Qualquer cursinho tem que ser perto.
Moro no centro da zona norte de Porto Alegre onde tem tudo.
Ano que vem me mudo para uma casa longe.
Não sei como vai ser.
Depois de anos acostumada a sair de casa 13.29 para estar na escola às 13 e 32!
Acho que ano que vem sim me tornarei uma mãetorista de verdade.
Agora sou fake.hehehe.
Sou amiga da Anita e ela me indicou esse blog.
De quando em vez vou tagarelar por aqui.
bjs

Paula ZZT disse...

Eu ainda não passou por isso, e acho que por alguns anos não vou passar, pelo menos, não diariamente.
Como trabalho das 9h às 18h em Hortolândia (dá uns 20 a 30 min de carro de casa), ai sai cedo (8h) para pegar o ônibus da empresa e volto à noite (quase 19h)... Ou seja, o Leozinho tem que ir em escola integral... Agora, ele está numa escolinha que é literalmente do lado de casa, o que facilita muito.
E a única atividade extra é o karatê, no clube (a uns 500 m de casa tb). Ai aproveito e faço academia...
De resto, se precisa ir a médico ou dentista, eu tento combinar com o maridex que, normalmente, fica com o carro.
Vamos ver como será a partir da 1a série...