7.2.18

Mulher de fé



Sebastiana era vidente. Não que gostasse. Sebastiana odiava aquelas imagens que apareciam na sua cabeça dizendo o que ia acontecer com a gente que conhecia. Era casa pegando fogo, era vaca seca no pasto, era parente de bucho virado. Visão boa nunca vinha.

Sebastiana era mulher de muita fé. E todas as noites antes de dormir, pedia ao Menino Jesus para ter uma noite só de sono, sem vistorias. Às vezes ele ouvia e ela dormia aquele sono largado de neném depois de mamar nas tetas da mãe. Mas era achar que já estava curada daquela maldição pra coisa voltar piorada. 

Um dia, Sebastiana nem precisou fechar os olhos para começar a suar frio e ter pavor. Estava na beira do fogão fritando torresmo, quando viu como numa fotografia, a filhinha bebê atropelada no meio da pista que passava na entrada do rancho. Caiu de joelhos ali mesmo e enquanto a gordura da pele do porco chiava, implorou pra Nossa Senhora, Mãe de todas as mães que, se tivesse que levar sua menininha, que não fosse daquele jeito, como um bicho esmagado no asfalto. Suplicou a Ela que falasse com Deus, Nosso Pai, que sabe das coisas e que se Ele estivesse precisando de mais um anjinho, que levasse sua pequena com carinho. 

Depois disso, Sebastiana não tirou mais os olhos da menina. Para onde ia, ela ia junto, grudada no seu corpo, como parte da sua carne. Um dia, virou o rosto, coisa de segundos. Quando tornou a pequena havia sumido. Saiu desesperada, mas sentiu que uma mão forte a amparou quando encontrou o corpinho da bebê flutuando no espelho d’água no meio do pomar. Parecia um anjinho adormecido, rodeado de flores brancas de laranjeira sopradas pela brisa. Sebastiana ajoelhou-se. Dessa vez para agradecer a Deus, Maria e Jesus por terem ouvido suas súplicas. Sebastiana era mulher de muita fé.

Ilustração: Amendoeira em flor, Van Gogh - Van Gogh Museum

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