O topo da montanha


Dario a chama para ir ao topo da montanha. Ela aceita.

Na cidade nova, ela não conhecia quase ninguém e queria muito fazer amigos. Dario é casado. Se conheceram num bar. Tomaram um aperitivo e se despediram com gentilezas habituais. A mensagem com o convite veio dois dias depois. No texto, ele deixou claro que não tinha nenhum interesse nela, além de fazer uma nova amiga: “não se preocupe, você não estará em perigo”, concluiu. Ela achou graça. Dario é um viajante, uma pessoa que coleciona países e amigos de diferentes culturas. É, além de tudo, um cavalheiro. Uma das pessoas mais gentis e simpáticas que ela havia conhecido.

Almoçam em um pequeno restaurante no bosque e a conversa flui sem esforço, em mais de três horas de vinho, entradinhas, pratos principais, doces e licores servidos no passo do tempo. Quando acabam, ele diz tranquilo que a levará para ver a vista mais espetacular da região. Entram no carro e sobem uma estradinha sinuosa e deserta. Chegam ao topo e, de repente, ela se vê diante de um cenário indescritível de céu azul, rochedos, oliveiras e colinas pontuadas por longínquos vilarejos de casas de pedra. Estacionam e saem para uma caminhada. É primavera e pequenas flores forram o chão. Eles se sentam na relva e Dario acende um cigarro de haxixe.

Diante daquela paisagem, embalados pela brisa suave do haxixe, continuam uma conversa quase sem fim sobre a vida, política, filosofia e, principalmente, viagens, ponto em comum de suas paixões. Um vento suave sopra.

O toque do celular interrompe essa pequena viagem nas alturas. Dario verifica quem está ligando e diz que não vai atender. “É minha esposa. Ela está na cidade do pai falecido, resolvendo assuntos de herança. Não quero falar com ela agora. Vai ficar me contando sobre cartório, mudança, advogado, que parente visitou, que providência tomou…”, e deixa escapar meio sem graça, “agora não dá...esses assuntos me fariam descer daqui da montanha”.

Ela olha para o horizonte e deixa que o vento cubra parte do seu rosto com uma mecha de cabelo. Precisa de um pouco de introspecção para lidar com a invasão de uma súbita ternura pela esposa de Dario. Não a conhecia, mas naquele instante compreende que, por melhor que fosse a relação dos dois, aquela mulher resolvendo as inevitáveis burocracias da vida não tinha como competir com o alto da montanha. Coloca-se no lugar dela, pensa nos inúmeros telefonemas com relatos automáticos dados para o ex-marido e rende-se melancólica à impossibilidade de manter-se uma relação só de altitudes.

Ao mesmo tempo, compreende Dario. Muito. Também é velho conhecido seu esse desejo de, de vez em quando, escapar das cotidianices que dominam a vida. Afasta a mecha de cabelo do rosto e quando seus olhares se cruzam, sorri meio rendida.

Ficam ali por mais um tempo e quando Dario finalmente a deixa na porta de casa, a abraça enternecido e agradece por aquele dia mágico.

Enquanto ele se afasta, ela o vê pegando o celular. Estavam de volta à planura.

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