Santa Rita de Sampa me salvou



Santa Rita de Sampa me salvou
Por Taís Vinha

Nasci e fui criada no interior de São Paulo durante a ditadura, coração da pátria amada salve salve, paraíso do cidadão de bem. Estudei em escola estadual, cantávamos o hino vestidos em uniformes de tergal e sapato de lacinho e ia todos os sábados à evangelização espírita.

Sexo era só depois do casamento e na casa com quatro meninas e um menino, isso era repetido como um mantra - "não ser fácil e esperar" era a chave para uma vida matrimonial plena e feliz. Na minha infância, a maior proximidade que tive com alguma sacanagem foi o livro "De onde vem os bebês", que mamãe nos fez ler, porque era enfermeira e tinha sua veia científica. Esse clássico da minha geração usava plantas, galinhas, cachorrinhos transando e, uau, um casal na cama coberto por um lençol, para ensinar às crianças que um esperma + um óvulo faz um bebezinho. E o assunto se encerrava aí.

Uma vez ganhei de aniversário um compacto. Era meu primeiro disco fora da coleção Disquinho. No capa vinha escrito Help. Ao vê-lo, mamãe virou os olhos dizendo: "Ah, não! Aqueles rapazes gritando rééééééup eu não vou aguentar!". Mas logo respirou aliviada, "Help, vem me ajudar" era o lado B do disco "Ta-Hi", de Celly Campello e não tinha nada a ver com os tais mocinhos "estridentes" da Inglaterra que mamãe odiava e eu nem sabia quem eram.

Fui matriculada em curso de prendas domésticas, datilografia, mas devo agradecer aos meus pais por nunca seguirem a recomendação das minhas tias e me colocar no balé para salvar minha feminilidade. Como saco de batata oficial da família, teria sido um vexame traumático a ser carregado pelo resto da vida.

A vida seguia assim, na caixinha, até que um dia uma bomba atômica chega num comercial da Ellus que mostrava uma galera se pegando debaixo d'água ao som de "Mania de Você", de uma tal Rita Lee. Aqui faço um aparte: Santa Rita já tinha entrado na minha vida uns anos antes, quando era ainda bem novinha e tinha um problema pra pronunciar o R. Vira e mexe me pediam para cantar "Meu bom José", o primeiro grande hit da diva, principalmente na parte "casar com Déborrra ou com Sarrra, meu bom José, você podia...". Mas terminada a onda hippie gospel, voltei pra coleção Disquinho, Estúpido Cupido e alguns hits de Roberto Carlos que nos punham pra cantar no centro espírita, como Jesus Cristo e a Montanha. Rita Lee, com sua loucura mutante, não passava mais nem perto desse interior caretésimo. "Mania de você" mudou tudo. De repente, em plena ditadura, as rádios repetiam à exaustão uma música que era puro tesão, que falava em sentir água na boca quando vê o outro, de tirar a roupa e ficar banhada de suor de tanto se beijar e, no país da ordem e do progresso, no Brasil que vai pra frente, cantarolávamos que nada era melhor do que não fazer nada só pra deitar e rolar com o boy.

Aquele momento não foi uma janela que se abriu para mim. Foi mesmo a porta do armário de Nárnia que me sugou e me situou num mundo de ovelhas negras que vêem disco voador e comem o fruto proibido, de mutantes seguindo seu caminho, de gente que fica de quatro no ato e se enche de amor, de mocinhas que não sabem mais se continuam uma tradição e ou se modificam uma geração, de filhas que viram caso sério e querem modificar o mundo, de pessoas que preferiam bailar na tribo do que ficar abanando bandeirinha pra ditador.

Comprei todos os discos, fui a todos os shows, vi Rita tocar, dançar, pirar, beijar, voar...e quando dei por mim, tinha virado uma outra pessoa que olhava para aquele velho mundo sem saber se vai ou se fica. Fui.

Obrigada Santa Rita pela graça alcançada. A graça de rir disso tudo enquanto nos jogamos no palco da vida, mostramos a bunda e deitamos e rolamos com você. De cabelo loiro, vermelho ou grisalho - mas sempre com você. Se isso é ser muito louca, não vou me curar. Já não sou a única que encontrou a paz, mais louco é quem me diz e não é feliz...eu sou feliz.

Ave Ritinha!

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Comentários

Luis disse…
Você é demais, Taís! Saudades