Perola e Janis




Perola e Janis

Perola me liga pra saber como estamos indo de quarentena. Ela tinha acabado de chegar do Quênia, país quente para onde escapa todos os anos, assim que chega o inverno na Europa. A conheci no bar onde ela vai todos os finais de tarde tomar um aperitivo e, logo de cara, ela se tornou uma dessas mulheres que me fascinam.

Perola nasceu em Roma e teve uma adolescência como a de todas as meninas da época. Até que um dia, como ela mesma conta, escutou Janis Joplin e sua vida nunca mais foi a mesma (cada um tem a sua Rita Lee). Mudou tudo. O modo de pensar, vestir, os planos. Virou hippie, casou-se e montou com o marido um restaurante macrô no bairro do Trastevere, na Roma dos anos 60.

A relação era aberta. Tão aberta que, um dia, ela se deu conta que estava fora. No mesmo dia, empacotou o que tinha, pegou a filha e tomou o rumo de uma cidadezinha no interior da Itália, onde um amante vivia. Ficaram juntos até a morte dele, há 15 anos. Foram felizes.

Ao telefone, Perola me pergunta do Brasil e eu gaguejo. Me constranjo sempre que tento explicar o que está acontecendo por aí. Solto duas ou três palavras...muitos mortos...política... Perola percebe meu constrangimento e conclui com um de seus pensamentos de quem já viu e ouviu de tudo nesta vida: "A verdade, minha cara, é que somos humanos e estamos respondendo a esta pandemia como humanos que somos...olhe pra trás, veja a história: Roma, as cruzadas, as colônias, a escravidão... veja como podemos ser cruéis. Então, quem vem com essa conversa de que vamos sair melhores dessa, pelo amor de Deus! O ser humano é ser humano e vai ser sempre assim. Um lixo! O importante é a gente se cuidar para estarmos vivas para nosso próximo aperitivo. O resto é esperança de viver num mundo irreal, que eu não tenho."

Quinze dias depois, entramos na fase dois pós-confinamento e meu primeiro brinde foi com Perola. Fiz questão.

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“There isn't going to be any turning point. ... There isn't going to be any next-month-it'll-be-better, next fucking year, next fucking life. You don't have any time to wait for. You just got to look around you and say, "So this is it. This is really all there is to it. This little thing."...

September 1969, Janis Joplin

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