17.9.10

Meu filho vai pra guerra.


Meu filho vai pra guerra.

Houve um tempo em que os filhos eram tirados novinhos da proteção dos pais e criados para virar guerreiros.

Crescidos e bem treinados eram enviados para as guerras sem fim, de uma antiguidade onde tudo se resolvia a golpe de espadas.

Muitos não retornavam. Os que conseguiam, traziam nas bolsas os prêmios da vitória. E no corpo as marcas das luta: cicatrizes, mãos amputadas, pernas mancas.

Hoje em dia, para a alívio das mães, nossos filhos não são mais confiscados no berço em defesa da pátria. Mas nem por isso deixarão de guerrear. E com nosso apoio e estímulo.

Preparamos nossos filhos desde a mais tenra idade para a batalha da vida moderna. Queremos que eles sejam bilingues, que estudem nas melhores escolas, que façam esportes, informática, música, artes, kumon, simulados etc. Para quê? Para terem mais chances de vencer uma outra guerra. A guerra do mercado. Onde só sobrevivem os mais preparados. E dá-lhes preparação. Não queremos criar perdedores!

Daí, um dia, eles partem pra luta. Enfrentam competição desumana, superiores autoritários, convivem com o facão do RH dia e noite nos seus pescoços, comem mal, dormem pouco, sofrem com as explosões na bolsa de valores e com os tiroteios da vida corporativa, não tem tempo para ver os amigos.

Os anos passam e quem vence exibe o carrão lustroso, a parafernália raitéc, o quiosque do churrasco, a cozinha de aço inox, o armário repleto de roupas que não dá pra se usar numa vida. Trazem nas carteiras os cartões de crédito que financiam os prêmios da vitória. E no corpo, as marcas da luta: sobrepeso, estresse, pressão alta, diabetes, insônia, inapetência sexual, tabagismo, alcoolismo, dependência química, solidão, consumo compulsivo, filhos carentes...só para citar alguns dos males dos guerreiros e guerreiras de hoje.

Como as mães de antigamente, os receberemos sempre de braços abertos, cheias de alegria e festa. E no fundo do peito a agonia de quem sabe que o preço da luta é alto demais.

Me pergunto se as mães da antiguidade de vez em quando também questionavam: "Filho meu, essa guerra à qual você tanto se dedica, é mesmo em benefício de quem?"

24 comentários:

Anônimo disse...

Tais, como sempre um lindo post!
Sempre consegue nos encurralar na missão de educar um pequeno ser e questionar para que mesmo que trabalhamos tanto... Eu mesmo vivo na dúvida quanto a isso, mas vamos indo tentando dar mais atenção para o pequeno filhote, enquanto ele aceita e tentando achar um sutil equilíbrio com a vida profissional para que ela não atrapalhe tanto meu convívio com a família... Mas sempre fica aquela voz lá dentro que me pergunta:
E aí, não vai dar mais tempo para mim?
Sempre acho que quem me chama é meu filho...
Beijos Dri

Leonardo Xavier disse...

Tais, dessa vez mesmo eu acho que você tem toda razão. Eu acho que há uma inversão de valores muito grande.

Ana Carla Benet disse...

Uau ! É isso ...

Patricia disse...

Incrível, Tais. Me fez refletir, mais em relação a mim e à minha mãe do que comigo em relação à minha filha. Quem sabe essa reflexão não evite que minha pequena entre nessa guerra um dia no futuro?

Silvia disse...

Bem devagarinho (mesmo), acho que os "pensadores" e a sociedade estão acordando para o fato de que felicidade e tempo têm mais valor do que qualquer dinheiro ou bem material. Que vale a pena lutar pra ter conforto, mas sem se matar.

Já falam em incluir alguma medida do uso do tempo e da felicidade humana nos principais indicadores econômicos, já se questiona bastante se o ter é mesmo tão importante quanto o curtir. E, aos pouquinhos, a gente vai fazendo a nossa parte, ensinando pras crianças que dinheiro e posses (olha aí o assunto do outro post) não fazem a felicidade da gente. Que bom mesmo é brincar de pular corda descalça na rua (apesar dos protestos da mamãe!), esconde-esconde, pique-pega, bicicleta.

O duro é que, hoje em dia, pra podermos deixar as crianças soltas na rua, precisamos nos cercar num condomínio fechado, morar em vilas ou ruas-sem-saída... Porque as pessoas ainda não desaceleraram o suficiente, em todos os sentidos, para deixar as ruas seguras pros nossos pequenos.

Lia disse...

Lindo post, Taís. Tenho pensado muito nisso. E começa pelo nosso exemplo. Se nossos filhos nos veem o tempo todo correndo, cansados, trabalhando sem parar, e justificamos que "é pra comprar as coisas", eles vão acabar achando que isso é o certo.
Parabéns, mais uma vez.

Juliana Dalzoto disse...

Uauuu!
Que texto bem escrito!
Adorei o post!!

É bem isso mesmo, sempre haverá uma luta, mas podemos intervir muito quando ainda há tempo...

Beijocas
Ju

Ana Maria disse...

Taís muito bom seu texto... é para refletir, refletir... eu e meu marido pensamos assim e tentamos passar e discutir valores do que é importante aos meninos... mas nós mesmos vivemos uma roda, uma onda de trabalhar, trabalhar, correria que toda vez penso onde tudo isso vai nos levar... Parabéns mais uma vez pelo excelente texto!!!

Iramaia Figueiredo disse...

Adorei o post!
Parabéns!
abs!

Pimenta disse...

Acho que não Thais, pois a maioria nem voltava, e as mães no fundo queriam acreditar que havia uma chance deles não terem morrido, mas fugido da guerra estupida para criar carneiros com uma mulher da outra tribo, escondidos do mundo.
O mais amargo é que as mães dos vencedores gastaram a vida para faze-los assim, e nào podem admitir,por um segundo, que desperdiçaram suas(delas e dos filhos) vidas nessa busca.
E no fim, apenas aqueles que aceitam as derrotas conseguem enxergar novos caminhos, mais saudáveis, mais felizes.
E nossos grilhões quanto aos filhos estão geralmente linkados ao que virá, ao desconhecido, que não se pode adivinhar, o futuro ,e o que será quando não estivermos mais por perto..
Enfim, as coisas são o que são por nossas escolhas.E de nada adiantaria questionar um filho treinado por você mesmo quanto ao que ele está fazendo.
bjo

Letícia disse...

Incrivel. Falei disso hoje aqui, numa reunião da família e quase me mataram.

Me chamaram de louca porque eu disse que, eu não iria dizer o que minhas filhas devem fazer, mas que eu torço e me esforço atráves de exemplos pra que não seja algo mortifero, super concorrente do mercado de trabalho.

Não é que não se deva trabalhar muito ou pouco. A questão é pra que?

Pra que se trabalha hoje?

Quero que minhas filhas encontrem o prazer no trabalho, assim como eu encontrei. Eu sai dessa guerra e fui para a paz. Até hoje sou crucificada por isso e me acham louca e dizem que sempre quero fazer diferente.

Bom, algum problema em ser um ser pensante e não ir com a massa toda?

Eu digo sempre: filhas minhas, o que vocês gostam de fazer? O seu trabalho precisa ser prazeroso. Existem muitas coisas para fazer neste mundo e não só o que você vê por ai. Existe mais que correria, dinheiro, competição, carro novo.

E começa pelo nosso estilo de vida!

Paloma disse...

Lindo texto! Eu também fico me perguntando pra quê tudo isso. E venho tentando educar a mim mesma, e a Isa, pra não cairmos tanto nesse loucura toda. bjo
Paloma e Isa

ReSilver disse...

Pois é, eu não sou competitiva e acho que meu filho não deve ser estimulado a ser sempre campeão em tudo. Mas, por outro lado, penso que EU sou assim e, se impedi-lo de ser e se tornar competitivo, posso estar errando feio.
É, filha, e a gente se preocupava com a parte operacional de dar banho e trocar fraldas. Eu sempre achei que cuidar era mole, criar é que são elas.
Belo blog, a propósito!

Dani disse...

Nossa, que texto!!!
Parabéns por essa analogia tão genial: guerra de ontem x competitividade de hoje!!!

Dani disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anita disse...

Extremamente pertinente o texto:carregado de verdades e simples, como tudo deveria ser.
Venho há uns tempos "desacelerando".É difícil, eu sei, mas tenho tentado dar uma caminhada com os filhos no fim da tarde, um sorvete nos sábados, uma chegadinha na livraria com eles, que amam ler como eu.Parece pouco, mas acho que podemos ir diminuindo o ritmo e mostrar a eles, pobres pequenos, que as suas companhias também são importantes e prezadas por nós!
Parabéns pela forma clara de escrever.E bela, como sempre.

Beta, a mãe disse...

Tais, nem sei o que dizer, seu texto está completo e só digo que eu me esforço um monte pra que meus filhos sejam criados de maneira diferente do que vem sendo feito hoje em dia. Beijos e parabéns pelo otimo post

Hegli disse...

Oi Taís,
Hj fui no encontro de 20 anos do ECA (estatuto da criança e do adolescente) e definitivamente vc deveria estar lá... foi muito bom.
Em muitos momentos foi emocionante.
Mas senti falta da parte que nós lutamos aqui, por um direito a infância por parte das crianças que não se encontram em situação de vulnerabilidade social, pq de qualquer forma, são crianças que muitas das vezes tem seus direitos negados.
Enfim, acabei de chegar e ainda estou absorvendo boa parte do que foi dito e debatido. No geral, foi um dia produtivo para refletir por muito tempo.
Bjs

Nine disse...

Taís, texto maravilhoso, como sempre! Consegue nos fazer parar para refletir um pouco, ao menos.

Beijos!
Nine

Hegli disse...

Ah! E AMEI o texto!!!!
Vivo aflita em tentar achar o meio termo, para nem prepará-lo demais, nem de menos...
E me pego direto preocupada em imaginar como será a vida dele daqui uns 10 ou 15 anos.
Se hj já é essa loucura...
Bjus

Hegli disse...

Ah! E AMEI o texto!!!!
Vivo aflita em tentar achar o meio termo, para nem prepará-lo demais, nem de menos...
E me pego direto preocupada em imaginar como será a vida dele daqui uns 10 ou 15 anos.
Se hj já é essa loucura...
Bjus

Lulu disse...

Adorei a comparação, perfeita!
Vc falou de coisas que me preocupam sempre, como achar o equilíbrio na educação dos filhos, o que é importante realmente na vida das pessoas, etc.
Bjo.

Dicas da Amélia disse...

Oi Taís,

Seu blog está profissional ! Só matérias conscientizadoras! Realmente a guerra de hoje é bem mais "sangrenta". Excelente comparação. Parabéns !

Beijos
Hilda

Joana disse...

É maravilhosa a sensação de alívio e deslumbramento quando alguém que não conhecemos e com quem nunca falamos consegue descrever exatamente o que pensamos de forma tão bonita e muito mais organizada do que nossas "loucas" reflexões. Seu texto é muito libertador, pelo menos para mim que sou uma dessas guerreiras que já começa a reconhecer as primeiras marcas da guerra. Parabens pelo talento!