11.9.10

O consumismo infantil na (dis)versão da Veja.



O consumismo infantil na (dis)versão da Veja.

Parei de assinar a Veja quando me dei conta que me aborrecia muito com o "jornalismo" tendencioso de tal revista. Pagar para ser irritada semanalmente pela Abril, chama-se masoquismo e esta prática ainda não faz parte do meu repertório de esquisitices.

De lá pra cá, só leio a Veja nos consultórios odontológicos e no banheiro de algum parente. Não compro nem na banca, pois a irritação geralmente já vem com a capa.

Nessas lidas eventuais, a Veja nunca decepciona. Sempre defende abertamente seu peixe. Foi assim quando detonaram o construtivismo. Alguém me diga se uma empresa que VENDE um sistema de ensino apostilado (o Sistema Ser de Ensino) tem a isenção necessária para criticar outra proposta educacional? Ainda mais uma proposta educacional que não convive bem com apostilas.

Agora eles publicam uma matéria sobre o consumismo infantil. Dizendo que é tudo balela, é claro. Opa! Folheiem a Veja e me digam: quem mantém a revista? Os anunciantes. Os publicitários. E os otários (nós que lemos). Alguém acha que a Veja iria fazer uma matéria isenta sobre este tema? Claro que não!

O texto detona abertamente os movimentos em favor de um maior controle da publicidade para crianças. E para isso coloca as opiniões de vários "especialistas": anunciantes, publicitários, um governante, pais e crianças escolhidas a dedo para confirmar a opinião da Veja sobre o assunto. Mas em nenhum momento, coloca a opinião do especialista do outro lado! Cadê o Alana? Cadê os pesquisadores das universidades, cadê os educadores e os pais que borbulham na internet preocupadíssimos com esse assunto. Não aparece ninguém. É a modalidade "jornalismo de um lado só".

A única pesquisa citada é a do grupo Turner, que também é um conglomerado de mídia que vive de anúncios. Uia!

Mas o que mais irrita são os clichês, que abundam no texto. A tal da frase: "não se pode criar os filhos numa redoma" é repetida por todos os entrevistados. É muita pretensão dessa turma achar que controlar a lixarada que eles despejam diariamente sobre nossas crianças é querer criá-los numa bolha. Relô senhores e senhora Veja! Redoma é onde as crianças estão hoje. Uma redoma onde eles ficam presos e são submetidos diariamente ao bombardeio de mensagens de consumo. Compre, tenha, peça, implore, faça regime, transe, seja descolado, compre mais um pouco...afastá-los o mínimo que seja disso é botar na redoma?! Ou deixar entrar ar fresco na mente?

Outro clichezão irritante é dizer que o melhor controle é o dos pais. Então, senhores, proponho que vocês criem um fundo para a manutenção de um dos pais na residência. Pois com os pais lá fora, jambrando pra pagar o cartão de crédito, quem controla o que as crianças assistem é o Sílvio Santos, o Cartoon Network e sabe-se lá quem.

Na minha opinião de mãe irritadinha, na mão dessa turma é que não dá pros nossos filhos ficarem. É tudo lobo mau disfarçado de quebradores de redoma.

Veja, por enquanto, continuaremos a nos ver só no dentista.



Clique aqui para ler a carta enviada pelo Alana à Veja em protesto pelo teor da matéria.


Foto: richard.heeks

27 comentários:

Maria Tereza disse...

o que mais me irrita não são as reportagens tendenciosas da Veja, e sim aqueles que "acreditam" na revista. Para o bem dos nossos filhos, fujamos das apostilas! E Viva o Construtivismo.
Parabéns pelo texto!

Vanessa disse...

Minha filha chegou em casa ontem toda feliz, falando sobre algo que eu "tinha que deixar". Achei que era algum passeio da escola, mas era um panfleto todo colorida de uma peça da pequena sereia, ingresso 40,00. Estou super sem dinheiro, e ainda tenho prova de concurso esse fim-de-semana, impossível levá-la. Mas a propaganda tinha sido feita em sala-de-aula, foi difícil convencê-la... Será que só pq é uma peça de teatro eles acham que não tem problema???

Tais Vinha disse...

Oi Maria Tereza, concordo com vc! Viva o Construtivismo. Meu filho estudou 6 meses com o tal Sistema Ser da Abril. Desastre absoluto. Não deu nem para esperar o ano acabar pra mudá-lo de escola.

Vanessa, eu tb não gosto desses "convites" de teatro que as escolas distribuem. Geralmente são peças caras e "industrializadas". R$40,00!!!! Meu filho veio com uma assim do Garfield e foi a mesma situação chata. Talvez devêssemos conversar com a escola sobre isso, algo que não tinha me ocorrido antes de ler sua mensagem.

Bjs!

Desconstruindo a Mãe disse...

Oi,

Super concordo contigo. Já fui assinante e hoje sou ferrenha contra, porque a VEJA é uma revista que é sempre do contra o que não lhe interessa e sem noção quando é a favor de alguma coisa, chegando a dizer muitas besteiras pra te convencer de que aquilo é a 8ª maravilha do universo.

Pior ainda é ver que tem gente que acredita em qualquer coisa que "saiu na revista" ou "deu no Jornal Nacional"... Como se a mídia fosse isenta.

Ter criticidade ajuda a educarmos pessoas com critérios... Parabéns!

Beijo,
Ingrid

Paloma, a mãe disse...

Claro que não me surpreendo. Como jornalista, me irrito é com quem tem acesso à educação e ainda assim lê revistas e jornais em busca da 'verdade', gente sem filtro algum. Dá vontade de morrer, porque isso devia ser ensinado no ensino fundamental...
Beijos

Ana Maria disse...

Taís não li a reportagem da Veja e tb deixei de ser assinante há uns 2 anos... a manifestação da Alana foi sensacional, pena que não publicaram nenhuma linha... duro ser "diferente", cansa mas é o caminho que escolhemos... na escola dos meus filhos várias situações são irritantes e haja conversa com os meninos de ir "contra a corrente"... a última foi um "acampamento", na verdade um hotel fazenda que "inventaram" para as crianças se "socializarem" e ficarem "mais independentes", em um final de semana sozinhos com as professoras... Claro que é caro, as professoras não dizem, mas estão indo na "faixa"... não acho que é papel da escola promover passeios recreativos e não educativos, ainda mais para a primeira fase do ensino fundamental... conversei, falei com a direção para fazer passeios a museus, zoológicos, ou asilos... isso dá trabalho não? Precisa trabalhar o assunto, tomar conta deles... hotel não, tem monitor... Mas por enquanto, os meninos entendem e espero que cresçam entendendo o que é "mercado", "moda", "supérfulo" e o que é importante para a vida deles e do mundo que vivemos! Um abraço!

Vanessa disse...

Taís, não assino a veja desde aquela capa do Cazuza. " Uma vítima da Aids agoniza em praça pública" Lembra? Não é , decididamente , algo que valha a pena ler. No máximo folhear, como faço com a caras no salão de beleza.

bjs

Pimenta disse...

Ontem eu estava espumando aqui, por causa de uma matéria sobre economia no Brasil, rsrsrsr.
E olha, a redoma é o mundo limitado pela necessidade do consumo como formador identidade pessoal e social.
Esse é o nome do veneno que nos empuram.
bjo

Michelle disse...

Também não gosto nenhum um pouco da postura da Veja, e de outras publicações do grupo Abril, são totalmente parciais.Assinei quando eu tinha 19 anos, por um ano, e até hoje (10 anos depois) ainda me enchem o saco p/ renovar. Mesmo eu dizendo que não gosto e o porquê.
Como educadora, deveríamos usar mais livros e menos apostilas, abolir o saber fragmentado. Mas alerto que, como pais, devemos tomar cuidado com aquilo que escolas (especialmente as privadas) nos vendem como "construtivismo". Este termo é muito usado para dar a idéia de uma educação progressista, e isso nem sempre condiz com a realidade.

Andréa disse...

Concordo com a Michelle: há muitas escolas que se dizem construtivistas, mas não o são verdadeiramente. Aqui mesmo em SJC, outro dia fui até uma escola pra conhecer o método "construtivista" deles e eles me informaram que utilizam as apostilas do Grupo Positivo de Ensino. Vai entender...

Ainda prefiro o conhecimento adquirido através de bons livros e não esse conhecimento "maceteado" e compactado das apostilas.

Taís Vinha disse...

Concordo com ambas. Tem muita escola se dizendo construtivista sem ter noção do que é esta proposta pedagógica. Aliás, é a maioria. E isso tem feito muito mal ao construtivismo.

Se os pais querem matricular o filho numa escola que siga esta proposta, tem que ter muito cuidado na escolha.

Apostila não tem nada a ver com construtivismo. Fujam de quem aposta nesta proposta. Outra coisa é que os professores tem que ter formação continuada e tem que ser muito bons.

Bjs!

Taís Vinha disse...

Andréa, visitei uma escola assim em SJC e achei muito ruim. Pseudo-construtivista. Boa análise a sua.

Taís Vinha disse...

PImenta, vamos combinar: espuma só se for de champanhe. E sua frase ganhou o prêmio "inspiração para uma segundona braba":

"a redoma é o mundo limitado pela necessidade do consumo como formador identidade pessoal e social."

Abalou, garota!

Lia disse...

A Veja e o Demo pra mim são a mesma entidade.

Luciana disse...

Oi Tais,

Amei seu blog e sua forma de escrever, pensar e analisar. Concordo plenamente contigo. Muitas vezes temos mania de engolir tudo o que nos oferecem, mas desde que me tornei mãe tenho me tornado cada vez mais crítica e desconfiada do que consumo (pra mente e corpo). Eu não moro no Brasil e pra mim tem sido mais fácil levar minhas escolhas à vante assim. Mas no momento estou visitando o Brasil e me dou conta como é dificil convencer a todos que quem está numa redoma não sou eu. Dificil mes-mo.

E abaixo a Veja e o jornalismo do tipo!

Abraços com admiração pelo seu blog,

Luciana

Letícia disse...

Sem comentários....

Há muito não VEJO a VEJA...rs

Nem no salão. Prefiro folhear a caras ou qualquer outra revista de banalidades do que ver uma pseudo-revista-informativa.

Argh!

Silvia disse...

Taís, esse assunto do consumismo deu pano pra manga aqui em casa hoje. Chega a Gio em casa falando do celular da colega, que tinha levado pra mostrar foto dos filhotes que nasceram... E começa a ladainha outra vez: eu quero celular! A Fulana, Sicrana e Beltrana têm! E saem lágrimas dos olhos. E vem malcriação.

E, veja bem: eu não digo que não pode porque não pode. Eu digo que não pode porque (1) ela não anda sozinha por aí, tem sempre algum responsável junto, (2) não há estudos conclusivos que comprovem que as ondas do celular não afetam em nada o cérebro, principalmente o cérebro em formação das crianças e (3) custa dinheiro e não é bem necessário. Pergunto se ela é uma pobre coitada que não tem nada. Mostro que ela tem qualidade de vida, e que isso é mais importante do que um celular. Depois de muitas lágrimas e protestos, consigo contornar a questão e ver a criança concordar comigo, mas falei pro pai: caramba, vai ficar cada vez mais difícil. Porque os pais estão dando celular pras crianças! E cada vez mais crianças vão pedir e vão ganhar. E vai chegar a hora em que só uns gatos pingados não vão ter.

Taí uma conversa séria pra ter com a escola: não seria o caso de proibir? Levou pra escola? Então entrega pro monitor, que só vai entregar diretamente pro responsável, na hora da saída. Tem hora em que eu acho que democracia demais não pode.

Mudando de assunto, a cantina agora vende chocolate, você viu? Aos poucos, os lanches menos saudáveis vão dominando tudo, porque é mais fácil. Eu fico cansada de fazer o mais difícil. Hoje a Ca comeu o lanche dela + um bolo de chocolate recheado sei lá das quantas. E, no caso dela, a grande questão não é comer ou não comer um lanche saudável. É comer ou não comer demais, porque falta limite. É duro ser mãe, viu?

Anônimo disse...

Taís essa história de celular é dura... os meus meninos tb querem pois todos da classe tem e bato nas mesmas teclas que vc diz aos seus... mas na escola deles não pode levar e claro, muito menos usar... Como é duro ser mãe mesmo! Abçs!Ana Maria

piscardeolhos disse...

daqueles textos pra ler, reler, concordar, e ganhar o dia.
"lobo mau disfarçado de quebrador de redoma" - posso adotar pra sempre?
bjs

Hegli disse...

Frase de um amigo no Facebook: Veja: Não compre; se comprar, não abra; se abrir, não leia; se ler, não acredite e se acreditar, RELINCHE.
Bjus

Iramaia Figueiredo disse...

Por isso educação é tão importante, não é mesmo? Para conseguirmos ter uma visão crítica dos fatos.
Uma colega defendeu mestrado recentemente e mostrou que as propagandas de salgadinhos e biscoitos recheados ficam gravados na memória das crianças (http://iramaiafigueiredo.blogspot.com/2010/09/para-quem-tem-filhos-salgadinhos-e.html). Além desta pesquisa, quantas outras não existem constatando algo similar?
abs!

Taís Vinha disse...

Meninas, obrigada pelos comentários! E bem vinda, Luciana!

Já passei com meu primeiro pela fase celular. Dissemos "não" e o motivo era sempre "porque vc ainda não precisa". Ele esperneava, é claro, mas a gente não dava bola. Qdo. ele tinha 11 anos ganhou um usado de uma tia. Foi a conquista do Everest. Colocou uma foto dele na tela e saiu se exibindo. Em breve percebeu que tinha que ter grana pra fazer o bicho funcionar e não queria gastar a mesada pra comprar crédito. Fez isso umas 2 vezes e hj o celular está abandonado no fundo de uma gaveta. Nunca mais pediu. Agora estamos enfrentando o mesmo problema com o segundo. Mas ele é mais tranquilo. Essas insistências e questionamentos fazem parte e ajudam a criarmos filhos mais conscientes. Só o fato de não cedermos já é para eles uma grande lição de postura de vida. Bjs!

Mamma Mini disse...

Também super concordo que não faz sentido pagar pra ser irritada semanalmente... mas a capa ás vezes já irrita mesmo....rs
esse assunto de publicidade é super delicado, agora falar que é balela é o fim do mundo.

Neda disse...

A parcialidade da Veja nao precisa ser comentada, apenas lamentar que ainda tem gente que acredita nela.

Quanto a publicidade voltada para as criancas, bom, confesso que as propagandas de brinquedos sao as que menos me incomodam, me tiram do serio sao as propagadas de produtos aliemticios voltadas para os pequenos. Passei um aperto danado por conta de um publicidade de leite, ate hoje quando ve a caixa de leite ele pergunta se 'e da tal marca, mudamos de pais e agora, na Argentina, a coisa parece ser ainda pior, o cumulo pra mim e propaganda de maionese, particularmente eu gosto de maionese, mas dai a fazer uma propaganda que estimula o consumo diario da dita cuja por que torna a refeicao divertida e demais.

A Julia disse...

Thaís,
Parece que temos um bocado em comum. Deixei de assinar VEJA (desde aquela reportagem sobre os transgênicos),não compro nada sem ler o rótulo, evito alimentos industrializados, não acredito nesse papo de que não se pode viver sem leite de vaca - não sou bezerro!, nem que Danoninho é nutritivo.
Ah, e faço pão integral em casa!

Parabéns por tua clareza de pensamento e por teu blog.

Abraços

A Julia disse...

E claro que odeio clichês!

Anônimo disse...

Fiquei curiosa para ler esta matéria e utilizá-la em uma pesquisa sobre a temática. Podes me passar o número da edicação em que esta matéria foi publicada? Agradecida!