2.6.09

A escola dos meninos felizes.


Duas mães, com filhos na mesma classe, conversam ao telefone:

"O que você está achando da professora?"

"Gosto dela. É doce e trata as crianças de maneira muito acolhedora."

"Pois é, acho que este é o problema, ela é terna demais."

"E isso é problema? Nossas crianças parecem estar aprendendo bastante com ela. No vídeo que mostraram na reunião de pais, seu menino apresentou uma solução para um cálculo que até agora estou tentando acompanhar. Eu jamais teria resolvido aquele problema daquele jeito. É avançado demais para mim."

As duas começam a rir. A mãe insatisfeita com a professora insiste:

"Do aprendizado não posso me queixar. Mas parece que para ele é tudo fácil. Ele faz tudo rapidamente, se livra das tarefas, não se dedica, parece que não tá nem aí. Acho que falta pulso por parte da professora."

"Escuta, mas se o importante é o aprendizado e ele está aprendendo, o que está pegando?"

"Eu queria vê-lo sofrer mais com os estudos."

"Você já procurou terapia?"

"Para ele? Você acha que é o caso?"

"Não, flor. Para você."

A conversa, que acabou em risos, me fez ver como é difícil para nós, pais e mães, rompermos com os modelos que tivemos no passado. A gente vem de uma realidade em que estudar é chato. Tem que sofrer, decorar, ter branco em dia de prova, chorar diante de tarefas imensas e cópias sem fim, porque foi assim que aprendemos. Qualquer modelo que fuja desse padrão gera insegurança. É natural. Mas, se queremos mais para a educação dos nossos filhos precisamos, antes de tudo, trabalhar nossos medos. As escolas poderiam ajudar neste processo "ensinando" aos pais novos conceitos educacionais. Ao invés de reuniões em que se discute a necessidade de usar tênis e chegar no horário (facilmente comunicados através de bilhetes), que tal breves aulas sobre propostas educacionais, indicações de leitura e de textos bacanas?

Outro dia participei de uma reunião em que se discutiu como é o processo de construção da escrita e por que aquela escola não adotava o método "Eva viu a uva". No final, uma das mães comentou aliviada que gostaria de ter tido aquela reunião antes, pois já havia criticado muito sua filha e agora via que os "risquinhos" que ela produzia (ao invés de letras) eram perfeitamente normais naquela fase da vidinha dela. Entende o peso que saiu dos ombros daquela mãe? E da sua filhota, por tabela?

O conhecimento transforma e isso vale também para os pais.

Para encerrar este assunto com alegria, publico um link para um livro chamado "A escola dos meninos felizes." Clique aqui para abri-lo. Demora um pouco para carregar, mas vale a pena. Em tempos de auto-estima educacional tão em baixa, este livro ao menos nos faz sonhar.
(Dedico este link à Clarice e seu inspirado comentário no texto sobre "Escolas fortes". Obrigada!)

13 comentários:

Renata disse...

Tais, me lembrei do menino que carregava água com a peneira, do manoel de Barros. E tb do que ouvi outro dia, numa palestra sobre pedagogia: "os artistas brincaram muito quando crianças".E vamos combinar que o mundo tá precisando mais de artistas do que engenheiros, né? Mas, falando sério, pra desenvolver o pensamento, a linguagem, a sensibilidade, a empatia, a capacidade de se comunicar, e muitos outras habilidades importantíssimas, o ser humano precisa ter as fases do seu desenvolvimento respeitadas desde o nascimento. Brincar não é algo sme propósito, ao brincar, ao s emovimentar, sempre tendo seu tempo respeitado, a criança vai construindo uma base sólida para o desenvolvimento do que nós, pais modernos, tanto ansiamos: os skills para que sejam um dia CEO's de uma grande corporação. No meu caso, bastam os skills pra que a Pipoca seja treinadora da baleia Shamu ou bailarina, como ela mesma diz.
Beijoca!
Re

Taís Vinha disse...

Renata, acho que nós pais que pensamos dessa forma, temos que botar a boca no trombone. Falar em reuniões, colar textos em mural, fazer lobby em festinhas de aniversário (com jeitinho e sem ser chata, é claro!) Estou cansada de conversar com educadores e ouvir jutificativas como: "os pais não entendem", "os pais exigem"...com isso ninguém experimenta mais nada, ninguém acredita em mais nada e o mercado de apostilas cresce na velocidade da luz. Nunca vi um grupo de profissionais com a auto-estima mais em baixa que os educadores. Vivem na defensiva, acuados. Eles parecem não se dar conta que são estratégicos para qualquer nação que quer fazer bonito nas reuniões do G8! Deveriam ser a elite do sistema.

Mas voltando ao lobby, tem muito educador consciente que só precisa de um pequeno apoio dos pais para promover transformações. A gente precisa acreditar nisso e fazer pressão contrária aos pais que querem formar "adultos produtivos". Seja lá o que isso significa. Parece coisa de granja, não?

Ah...treinadora de baleia Shamu é o par perfeito para o meu subidor de árvore. Nossos filhos ainda darão muita risada destas mães malucas. Antes eles se rebelavam para ser artistas. Talvez amanhã tenham que se rebelar pra trabalhar em um banco. Mas uma coisa eu garanto: o direito deles usarem Havaianas está garantido. Bjs! E força na dieta.

Telma disse...

Que texto lindo e a imagem é tão significativa... porque é tão difícil sair de velhos padrões e modelos formatados.
Lembrei-me da história da “abobrinha engarrafada” do Ruben Alves. Você conhece? Ele conta que qdo criança colocava a pequena abobrinha (na planta) dentro de garrafas para que, qdo crescessem, ficassem com a forma da garrafa. Depois quebrava a garrafa e ficava igualzinha. Sinto que é isso que a escola almeja num mundo complexo demais para essas pobres “abobrinhas engarrafadas”... Pobres professores engarrafados...

Vanessa disse...

Olha Taís, há alguns dias atras eu li, não pergunte onde, num lembro, que os pais atualmente andam exibindo filhos como troféu. Pais gostam de mostrar como os filhos executam tarefas antes do que é esperado . Acho isso tão triste.
Lembro de ter conversado com o pediatra sobre qual seria a melhor hora para colocar meu filho na escola. Ele respondeu," aos dois anos pq o mundo anda muito competitivo. " Aquelas palavras me doeram. Competitivo para quem? A vida é para ser vivida não para ser competida 24 horas por dia. Optei por uma creche em período parcial para o meu filho em experiência por um mês. O método é construtivista e as crianças estão bem a vontade. O meu nem olhou para trás qdo viu tanta coisa diferente para fazer. Está feliz e isso é o que importa, não é?

bjs

Anônimo disse...

Taís, ótimo post! Eu sempre questiono se meus filhos estão felizes na escola. Felicidade de criança, pura e desprendida. Tenho pânico dessas mães que se vangloriam das inúmeras tarefas realizadas antes da hora....esta semana recebi um convite de uma festinha de um amiguinho que fará 3aninhos, sua festa será sexta, das 19 as 23 horas num buffet paulistano....é normal isso? ou eu que sou uma careta, por fora total?? nesse horario meus filhos já estão na cama no trigésimo soninho....deixem nossos filhos serem crianças!!!!!!!

Anônimo disse...

Taís, ótimo post! Eu sempre questiono se meus filhos estão felizes na escola. Felicidade de criança, pura e desprendida. Tenho pânico dessas mães que se vangloriam das inúmeras tarefas realizadas antes da hora....esta semana recebi um convite de uma festinha de um amiguinho que fará 3aninhos, sua festa será sexta, das 19 as 23 horas num buffet paulistano....é normal isso? ou eu que sou uma careta, por fora total?? nesse horario meus filhos já estão na cama no trigésimo soninho....deixem nossos filhos serem crianças!!!!!!! beijos, Neca.

Taís Vinha disse...

Oi Vanessa e Neca, sabe que eu já caí algumas vezes nessa armadilha de exibir meus filhos como troféus. Claro que não me dava conta disso. Imaturidade. Hoje vejo que muito do que achava que eles eram "capazes" era mais uma exigência minha do que algo que eles realmente queriam estar fazendo. E é tão engraçado como a relação muda quando diminuímos nossas expectativas para com o outro. Agora, esse argumento do mundo competitivo é mesmo de doer. Me faz lembrar da piada do executivo que encontrou um caipira pescando à beira do riacho e perguntou-lhe porque não fazia isso, aquilo e aquilo outro no seu sítio. E o caipira perguntou-lhe: "Para quê?" E o executivo respondeu: "Para você conseguir juntar dinheiro, ter estabilidade e um dia, quando se aposentar, poder ficar sossegado, pescando na beira do riacho." Nós, pais e mães, precisamos fazer constantemente este exercício de perguntar: "para quê?".

Bjs!

Anônimo disse...

Para quê?
Nós temos piscina em casa e desde então queremos que nossos filhos saibam nadar mais cedo possível. Eu coloquei minha filha de 2 anos na natação. Terceira tentativa, qdo bebê fez baby hidro. Uma escola de natação somente para crianças e gestantes, onde os professores são especializados de baby até 5 anos. Dia de natação, puro stress, ela já ia no carro me dizendo que não queria, chegava e era um dilema para convencer de ver como a água era quentinha... Eu tentei ao máximo, conversei, conversei, comecei entrar junto na água todas as aulas. Não adiantou, ela só queria ficar brincando fora da piscina. Tive que tirar, fiquei super frustrada pq queria me minha filha saísse mergulhando como os outros bebês de 1 ano que vi fazerem isso sozinhos....mas é isso....Para quê???? Para quem???
bj, Neca.

Renata disse...

Sabe, Tais, meu marido costuma falar que tudo que ele quer é que Pipoca não escolha ser advogada de uma grande corporação - como ele. Eu tb sonho com coisas diferentes pra ela, mas a verdade é que quem vai escolher é ela. E estamos nos esforçando pra criá-la de forma que ela possa escolher, com o maximo de liberdade e o minimo de condicionamentos, e com isso ser feliz. Aliás, isso resume bem o que desejo: que ela seja capaz de ser feliz e de fazer a diferença no futuro, não importa o que ela escolha fazer da vida...o planeta e a humanidade precisam muito dos meninos subidores de árvores, das meninas treinadoras de baleia e de todos os que carregam água com a peneira na infância, pois são os que, acredito, farão essa diferença. E que riam da gente! rs
Beijo!
Re

Ana Maria disse...

Taís sempre dou uma entradinha no seu blog e gostaria de dizer que são muito bons os seus "posts"! Os últimos sobre escolas e aquele sobre o risoto são ótimos! Parabéns! E o livro que vc enviou o link é lindo! Valeu! Um abraço, Ana Maria

Taís Vinha disse...

Oi Ana, bem vinda e obrigada pelo comentário. Este livrinho realmente é especial. A versão em papel é ainda mais legal, pois os desenhos são em página dupla (as páginas sem texto foram cortadas na versão digital). Um dia, quem sabe, teremos escolas assim. Bjs!

Hegli disse...

Oláááááá, voltei! Amei seu post!
Então, ando muito angustiada com esse assunto e até estou me tornando rabugenta. Ando com mil questionamentos, dúvidas e me sinto sem saída. Sexta meu filho veio com uma pancada de tarefas (1 serie/ 2 ano). Eram 3 páginas da apostila, uma pesquisa, uma redação... E O FINAL DE SEMANA? Não seria para descansar? Mas acho que nem posso mais mandar bilhete, senão vou acabar virando aquela mãe que a escola odeia pq questiona tudo... Porém, isso me mata. Ele fez parte das tarefas na sexta e nem sei se vou obrigá-lo a fazer amanhã, que é domingo e é dia de ficar com o pai dele (e irão a uma festa). Não falei que estou amarga... mas passa!

Taís Vinha disse...

Hegli, eu já perdi muito sono com dilemas escolares. Angústia é pouco. Mas acho que é nosso dever de mãe ir atrás. Conversar, questionar, sugerir. Temos também que reconhecer quando boas coisas estão acontecendo - e elogiar - porque os educadores passam o tempo todo atendendo pais e mães insatisfeitos e se colocam sempre na defensiva. Eles precisam sacar que somos exigentes, atentas, informadas, mas estamos do lado deles. Queremos que eles implementem as coisas que acreditam (primeiro temos que escolher uma escola que acredita no mesmo que a gente). Eu já fui muito "mãe chata". Hoje pego mais leve, mas nunca deixo passar algo que acho importante.

Vc mora aonde no ABC? Talvez, se a angústia for muita, vc deva procurar uma outra escola, além do Anglo. Já ouvi falar bem do Pueri Domus, mas não sei se fica perto de você. É uma questão de ir procurando com calma. Mas sei o drama que é mudar filho de escola, portanto pondere bem. Mas acho que uma escola com o fomatão do Anglo dificilmente implementará mudanças (é uma boa escola. Mas, se não me engano, é estilo franquia e não sei se isso compromete a autonomia para se promover mudanças).

P.S: tarefa em excesso realmente ninguém merece. E na sexta-feira! No segundo ano! Depois dizem que as crianças não gostam de estudar. A culpa é sempre delas...