20.3.09

Sobre mães e bruxas.


Quando fiz 14 anos, fui matriculada no Anglo, para fazer o colegial. Minha única exigência foi: lentes de contato. Ia entrar oficialmente no maravilhoso mundo da adolescência e me recusava a ir de óculos.

Minha mãe entendeu e logo eu estava usando um par de lentes rígidas, de acrílico, daquelas que, quando entrava poeira, era só tirar, lamber e colocar de novo no olho. Eca!

Primeiro dia de aula, lá vou eu toda orgulhosa com minhas lentes, ainda em adaptação. Tudo para mim era novidade e eu estava bem intimidada. Última aula, entra um cisco nos meus olhos. Esfrego e uma das lentes cai no chão! Pânico total e absoluto. Tive vergonha de interromper a aula e pedir ajuda. Toca o sinal, aquele bando de adolescentes caminha por onde minha lente possívelmente estava. Desisto de encontrá-la. Vou para casa arrasada, pensando na grana desperdiçada, na bronca e, pior, no dia seguinte ter que ir para a escola de óculos. Meus óculos eram medonhos.

Chego em casa chorando e explico o que houve para minha mãe. A reação dela foi a mais inesperada:

"Vamos lá encontrá-la."

"Mãe, sem chance. A esta hora, já limparam a sala".

"Tenho certeza que nós vamos achá-la".

Partimos eu e ela para o Anglo. Chegando lá, ela chama as faxineiras e explica o problema. Elas levam os sacos de lixo para minha sala e começamos a vasculhá-los. Era óbvio que seria impossível encontrar um círculo de acrílico minúsculo no meio de toda aquela sujeira, mas a confiança de minha mãe era absoluta. E não é que depois de muito vasculhar, alguém grita: "Achei!".

No meio do pó de giz, encontramos a lente.

Até hoje não consigo acreditar nessa história. E ela aconteceu comigo. Exatamente da forma como conto. Quando penso nela, acho que é uma daquelas mágicas que só as mães têm o poder de fazer. E me dá uma saudade imensa da minha bruxa querida. Que já se foi, mas deixou nas crias o poder de beijar qualquer ferida pra dor passar. E de nunca aceitar um "não" sem antes tentar o que for possível para transformá-lo em "sim".

15 comentários:

Clarice disse...

Taís, voltei a sentir o ardor das tais lentes de acrílico. Tortura!

Mãe é assim, muitas vezes investe em coisas que parecem não ter sentido, porque sabem que lá adiante é que fará sentido. Fez, né?
Além de bruxas, muitas são milagreiras.
Beijos.

Renata Rainho disse...

Mãe tudo resolve!

silkelita disse...

E você seguiu à risca a lição, hein?
Lembra ..."fuçar o lixo da feira para achar o aparelho do filho?
Parabéns.
VovóMadô, que não é mãe, mas é bruxa.

Vanessa disse...

Boas mães criam boas mães, não é mesmo?

Abraço

Vanessa disse...

Taís, deixei um presente para vc no Fio , postagem de hoje. Não é um selo para passar adiante, é pra vc mesma. :-)Um abraço e bom fim de semana

Renata disse...

Olá! Visito o Blog Fio de Ariadne e cheguei até aqui pelo post de hoje de lá. Adorei o post e todos os outros que (até agora) consegui ler. Acho o máximo esse cotidiano presente e passado que você expõe com tanta delicadeza e verdade.

Virei mais vezes, se me permitires...

Beijo grande,

Renata.

Ariane Rodrigues disse...

Olá! Cheguei através do blog da Vanessa e me aconcheguei por aqui. As mães têm mesmo um feitiço irresistível. Eu acho que não vivo sem a minha. Abraço!

Diego? Glommer? disse...

Sei que sou uma espécie de intruso aqui, mas não poderia deixar de expressar o quanto achei belo o seu blog.

Essa história em particular é linda... Acho que com isso ela te ensinou a acreditar em coisas que parecem ser muito difíceis de ocorrer. Uma grande lição de vida. Agradeço por compartilhar aqui com a gente.

Abraços
.

Tudo de bom. E parabéns pelo blog.

http://solucomental.blogspot.com

Isadora disse...

Oi! Também vim seguindo os fios da Vanessa e adorei!
Temos um perfil parecido: sou jornalista, mãe e professora universitária.
Beijos

Compulsão Diária disse...

Taís, segui os fios de Ariadne e ao chegar aqui, neste final de domingo, um tanto melancólico leio seu texto que me emociona. Lembrei da mãe que fui (meus filhos cresceram e sou a bruxa delse) e de minha mãe que falece no meu colo ano passado. Assim, agradeço a vc e a Vanessa pelo momento de forte emoção.

Descobri este lugar delicado, aconchegante, diversificado e merecedor de todos os premios e elogios.

Voltarei.

Abraço carinhoso

Nadia Gal Stabile disse...

OI TAIS!! sei bem como é isso de mãe nunca desistir!! acho que tenho muito disso!! sua mãe devia ser mesmo demais!! que lindo texto!! adorei! abração
(o Anglo que vc estudou é o daqui de São Paulo!? da Aclimação?se for, meu filho estudou lá também, só que agora a escola faliu graças ao filho herdeiro....)
Nadia

Anônimo disse...

Tais sua bruxa!
Que saudades dela! é de encher os olhos de lágrimas. Adorei! Verdade, alma e coração em cada gesto que fazia.
beijocas Dri

Helena disse...

Olá, Taís!
Adorei sua história... só mãe mesmo pra transformar um "não" em "sim". Tentarei ser uma guerreira e super mãe como a sua, a minha e outras mães maravilhosas e especiais deste mundo.
Super Beijo! Parabéns pelo Blog
Helena (sua prima postiça)

Taís Vinha disse...

Helena Darling, amei a visita - à minha casa e ao blog. Sua barriguinha de grávida ovinho de páscoa tá linda! Daqui a alguns meses, vc ganhará a surpresinha. E com certeza vc será uma supermamãe.

Bjs!

Thaís Rosa disse...

que história bacana, me emocionei! acabei de conhecer o blog, e adorei.