6.3.12

Todos unidos pela educação.


O casamento não ia bem e ela pediu o divórcio. Depois de uma longa e desgastante negociação, ele aceitou se mudar. Mas só sairia quando ficasse pronto o imóvel que eles estavam construindo em outra cidade.

Resignada, ela decidiu aguardar. Nesse meio tempo, foi chamada para a reunião de pais da escola da filha mais velha. Segundo ano do fundamental, professora nova, regras novas.

"Mãe, agora são aulas de 45 minutos com intervalo de 5 minutos para ir ao banheiro. Pedimos a ajuda de vocês para conscientizá-los a usar o banheiro só no intervalo. Eles terão aulas de ciências, português, matemática, geografia, artes, blá, blá, blá, ética e empreendedorismo. As provas provas são bimestrais e a tarefa diária. Se eles adoecerem, passem aqui para pegar a tarefinha. Temos que ensiná-los a ter disciplina. Ah, a partir de agora cada um tem seu lugar e o recreio diminuiu para 20 minutos.

Exasperada a mãe ergue a mão e argumenta: "Mas eles só tem 7 anos! Por que as aulas tem que ser tão fragmentadas? Por que uma grade tão rígida? Por que não pode fazer xixi quando tem vontade? Por que só 20 minutos de parque? Por que eles precisam ficar sem se movimentar a maior parte do tempo? Prova bimestral no segundo ano? Tarefa quando eles estão doentes? Professora, o ano mudou, mas as crianças continuam pequenas. E PELO AMOR DE DEUS...AULA DE ÉTICA E EMPREENDEDORISMO AOS 7 ANOS?!!!"

A professora solta o argumento número um para momentos de saia justa escolar: "É política da escola."

Inicia-se uma discussão. Parte dos pais apoia a mãe rebelde. Outros apoiam a escola.

Acuada, a professora coloca a cereja no bolo que havia se transformado a reunião: "Precisamos cultivar desde cedo a sementinha do vestibular."

A mãe sai da sala enfurecida. Ao chegar em casa, joga a bolsa no canto e fala pro marido: "Chega, não dá mais. Se essa é a melhor escola da cidade, tô fora. Eu vou pra qualquer lugar do mundo, mas nessa escola nossas filhas não ficam mais. Eu topo qualquer coisa pra elas poderem estudar num lugar melhor. Até ficar com você. Assim que a casa ficar pronta, mudamos juntos.

Todos unidos pela educação.






13 comentários:

Adriana Spacca Olivares Rodopoulos disse...

Difícil, né. Prá gente que não procura o "adestramento escolar", mas um aliado na construção de cidadãos de verdade, as opções são poucas e raras.

Agora, eu queria muito saber como é uma aula de Ética e de Empreendorismo? Me esforcei muito quando li o post, mas não consigo ver esses dois grandes assuntos tratados como disciplina, especialmente no fundamental.

Tais Vinha disse...

Oi Adriana, é surreal. Eles adotam um livro didático e dão aula com ele! Aula de ética e empreendedorismo. E oferecem como diferencial para crianças do EF1. A garota do texto tem 6 livros didáticos. Seis, no 2 ano!

E vc tem razão. Se a gente às vezes fica sem escolha em grandes centros, imagina quem vive em cidade pequena, onde imperam os sistemas de ensino e nas públicas o prefeito trata educação como um lugar pra mãe deixar o filho enquanto trabalha. Bjs!

Silvia - Faça a sua parte disse...

Mãe é mãe. Faz qualquer coisa pelos filhos.

Bia Mello disse...

Adorei o post, principalmente porque tenho vivido um momento desse. Meu filho tem 2 anos e nao fala muito, entao resolvi(maldita hora) colocá-lo num programa terapeutico para ajuda-lo nesse quesito. Foi só dor de cabeca. Um processo pra la de burocratico, metodologia exigente e rigida para um crianca dessa idade. Acabamos de pular fora. Nao rolou. COncordo com essa mae, tudo tem seu tempo. E haja paciencia pra esta modernidade toda!
Bjs,

Hegli disse...

Ai Tais, que saudade dos seus textos... faz eu me sentir melhor, ou uma mãe "menos pior".
Eu não tenho muita opção de escola e a que o Lucas está me deixa em alerta diariamente.
Lá eles tem aula de empreendedorismo (?) e bilhetes e mais bilhetes pq não fez a parte b da parte 2 da tarefa não sei de que. E tem que assinar e mandar para a escola de volta. Mesmo que falte, lá vem a porcaria do bilhete por mais ífima que seja a falha.
O pior? Ir na escola conversar e sair com a sensação que te tratam como um estúpida idealista.

Obrigada pelos seus textos reconfortantes.
Bjus

Hegli disse...

* ínfima

Roberta Lippi disse...

Soube ontem uma história que fiquei indignada. Uma amiga conseguiu vaga em uma escola internacional super disputada. Daí ontem descobri que o menino foi reprovado no teste da escola e não vai poder estudar lá. Simplesmente porque o garoto, de TRÊS anos, não respondia quando eles pediam em inglês coisas básicas como pra ele levantar a perna.
Detalhe: o menino é filho de brasileiros mas até agora morava nos EUA e fala e entende inglês muito bem. Não reagiu simplesmente porque tem três anos e ficou tímido, sei lá. E assim foi reprovado pela escola.
Eu e meu marido, que chegamos a inscrever a Luísa pra tentar uma vaga lá, acabamos de desistir da ideia.
Um horror, né?
(AMO seus textos, leio todos apesar de nem sempre ter tempo pra comentar. Sou sua fã fã fã).
Beijos,
Roberta

Tais Vinha disse...

Oi Bia, dá mesmo um tempo para ele. O meu mais velho só foi falar com 2 anos e meio. Entrar na escola ajudou-o neste processo, pois ele precisou se virar mais para se fazer entender. Hoje fala sem parar, rs!

Bjs!

Tais Vinha disse...

Hegli, até conversar com a mãe do texto, nunca tinha ouvido falar em aula de empreendedorismo. Achei mais uma invenção pra dourar a grade curricular. Ou estou sendo uma estúpida idealista? Bjs!

Tais Vinha disse...

Oi Roberta, só na admissão já dá sentir o nível de tolerância da escola, que coisa nazista! Escuta, mas eles só pegam quem já é bilíngue? Porque aos 3 anos a criança tem todo o tempo do mundo para aprender o inglês. Aparentemente não entendem nada de psicologia e desenvolvimento infantil. E pedir para levantar a perna?! Isso é coisa que a gente pede pra papagaio. Dá o pé, louro! O menino deve ter achado todo mundo muito esquisito. Fez bem de não responder. Virei fã deste pequeno! Acho que sua filhota vai ser mais feliz em outro lugar. Bjs!

Hegli disse...

Tais,
Vc disse tudo, a escola quer passar a imagem de moderna e os pais "normais" acham o máximo.
Eu acho absolutamente desnecessária a aula de empreendedorismo no ensino fundamental I, mas sou minoria... além de idealista, rs.
Beijão
Hegli

(Mamãe) ~Pinel disse...

Nossa... que absurdo!
Eu sou do grupo das rebeldes!
Como assim???? 7 anos e as CRIANÇAS têm essa rigidez??? Colégio Militar???

Triste mesmo é pensar que por ter essa "política" elas são consideradas as "melhores escolas"! pf...

Eu passo... prefiro educar em casa se for pra transformarem minha filha num robô!

Adriana Spacca Olivares Rodopoulos disse...

Meninas,

Precisa ficar muito atento a essas aulas de empreendedorismo e educação financeira. O negócio tende a piorar, pq a partir de 2014 a educação básica da rede pública vai começar a oferecer a área. Só que (pasmem!) os caras estão fazendo um trabalho de primeiríssima qualidade e a nossa educação financeira na escola é considerada a melhor iniciativa mundialmente falando (e eu acredito que seja mesmo). Só que a idéia é trabalhar com o assunto como tema transversal (não tem matéria, nem livro, nem "aula" de Edc Financ.) E tb não inclui o EF1, só o EF2 e o médio.

Tem que questionar e saber qual é o objetivo dessas aulas, quem é o coordenador responsável, quem é o professor.