9.3.12

Mulheres que me fizeram. Sônia.



Mulheres que me fizeram. 

Sônia

Quando todas eram normalistas, tia Sônia era bailarina.

Vestia roupas chamativas, usava muita maquiagem e sabia de cor a coreografia das dançarinas da abertura do Fantástico.

Casou-se com um primo, contrariando a parentada que dizia que primo com primo não podia casar.

Era um casal descolado. Ela linda, decotada, chamativa. Ele cabeludo, cinto de couro gasto, chinelo preso só no dedão. Namoravam em público, coisa esquisita na época. Íamos todo ano para a praia e enquanto meus pais ficavam na areia distribuindo sanduíches de mortadela e bananas, eles ficavam abraçadinhos, se curtindo dentro d'água.

Os parentes tinham lá sua razão. A filhinha deles nasceu com um problema nas pernas que podia ser corrigido, mas a menina teria que ficar engessada dos pezinhos ao quadril por muitos meses. A única abertura era um buraco para sair o xixi e o cocô.

O marido trabalhava fora e para cuidar melhor da nenê, tia Sônia veio morar conosco. Minha mãe também tinha dado à luz recentemente e nossa casa virou uma farra de fraldas e gente.

Os seios de tia Sônia faziam jus à fartura. Era, como ela mesma se chamava, uma "vaca leiteira". Além da filha, amamentava também a minha irmã, complementando o  leite que faltava nos peitos de minha mãe.

Briguenta, comprava nossas brigas de rua. Nos ajudou a botar muito moleque para correr. Até que um dia nos viu provocando um deles e nunca mais se meteu nas nossas confusões. "Se defender, sim. Arrumar encrenca, não."

O dia que foi ao pediatra tirar o gesso da nossa prima, voltou chorosa.  As pernas não estavam boas ainda. Para uma bailarina, era difícil lidar com uma bebezinha que crescia sem poder se movimentar. Choramos todas juntas.

Depois que ela já havia se mudado de casa, passei mal na escola. Tentaram em vão localizar meus pais e acabaram ligando para a tia Sônia. Ela não tinha carro e estava com algum problema muscular. Assim mesmo, foi na mesma hora me buscar, mancando pelo caminho.

Me lembro de ter passado aquele dia na casa dela. Fui cuidada com sopa e carinho. Para a garota mais velha de uma casa com muitos irmãos, aquele dia ficou gravado na minha memória como meu dia de filha única. Me senti amada e importante.

Não eram só os seios de tia Sônia que eram generosos.







2 comentários:

Hegli disse...

Tais,
Simplesmente emocionante esses dois textos! Lindo!
Bjus

Adriana Spacca Olivares Rodopoulos disse...

Adoro ler você, Tais.