10.9.08

O monstro que mora em mim



Outro dia deixei escapar o monstro. Foi com meu filho caçula. O monstro saiu raivoso, colérico, cruel. A expressão de medo no rostinho dele (essa doeu!) me fez imediatamente acordar e lutar para recolher o monstro. Mas era tarde. O estrago já havia sido feito e foi um episódio muito difícil para nós dois.

Decidi que já era tempo de dar um jeito neste monstro. Ficou óbvio neste dia, que o método que usei até hoje de trancá-lo em um quartinho escuro e secreto, não estava mais funcionando. E não havia mais cadeados que o segurassem. Precisava de outra estratégia. Entendê-lo era um princípio. Que monstro é esse? Por que ele mora em mim? Só eu que o tenho? Por que não o controlo? Perguntas e mais perguntas foram brotando.

Uma coincidência me fez entender melhor o monstro. Fui ao cinema ver o filme "Piaf". Saí de lá convencida que meu monstro é um Pikachu perto do dela. Você olha para a mulher e consegue enxergar o tamanho do bicho que mora lá dentro. É preciso um furacão de furia e dor para alguém tão pequena e mirrada cantar daquele jeito. Mas um monstro daquele tamanho é duro demais de carregar. A Piaf tentou acalmá-lo com doses cada vez maiores de morfina e heroína. Acabou matando-o e morrendo junto.

Janis Joplin, Billy Holliday, Elis Regina, Rita Lee, Frida Kahlo, Derci Gonçalves, Maria Callas, Fernanda Montenegro, Amy Winehouse, Madona, Cassia Eller, todas elas e muitas, muitas outras são mulheres monstro. Algumas, conseguem lidar melhor com isso. Outras não aguentam o peso. E sucumbem como Nova Orleans diante do Katrina.

Com elas aprendi que ter um monstro pode ser pesado, difícil, quase insuportável, mas é preferível mil vezes viver com ele do que levar uma vida beje de comercial de margarina. Será uma longa jornada, mas eu e ele ainda vamos nos dar bem.

P.S.: A sorte me fez conhecer algumas anônimas tão monstruosas quanto qualquer uma das famosas citadas. Qualquer dia, elas virarão texto.

P.S.2: Coloquei um link para quem quiser conferir ao vivo e a cores a Piaf cantando. Neste vídeo, de 1962, ela já está no final da vida, bem acabadinha (aos 47 anos!), mas quando canta, ainda consegue fazer a platéia comovida aplaudir de pé.

6 comentários:

Silvia disse...

Eu acho que o monstro mora em todas nós. E como a gente põe pra fora do jeito certo?

Regina disse...

Alguém tem alguma sugestão de o que fazer com o monstro da ex-mulher do marido?
Ele está tirando o meu monstro do sério!

Taís disse...

Gente, que honra receber comentários de duas verdadeiras mulheres-monstras! Sil, eu acho que o melhor é tentar usar a energia dele pra algo que não machuque os outros e nem a nós mesmas. Correr, socar (almofada), sair andando sem rumo, pintar um quadro, escrever uma carta enfurecida, são formas de dar vazão no momento da explosão. Agora o melhor é canalizar a energia dele para coisas que precisamos de fúria e paixão pra realizar, como num trabalho, num projeto, numa ideologia. Acho que esta é a grande diferença entre as monstras e as outras.

Japa, mostra pra ela que seu monstro é ninja! Que mulher agarrada ao passado, não? Cruz credo, esse monstro ninguém merece. Bota um vaso das 7 ervas na porta e joga sal grosso nos cantos da casa.

Telma disse...

Puxa, tais, esse pegou fundo.
Tô atrasada, mas precisava comentar um pouquinho... Aliás queria tanto comentar das escolas e outros, porém não consegui ainda parar para escrever!
Acho que todas temos monstros (lembra-se do livrinho "mamãe virou um monstro"?), até mesmo a "mamãe-margarina-feliz" (pena que ela talvez não seja sequer capaz de se permitir perceber que tem monstros reais apesar da vida de comercial irreal, coitadinha).
O difícil é essa sensibilidade de perceber que o monstro "escapou"... Ainda mais perceber nos olhinhos de uma criança (mesmo travessa)...
Saber do monstro, refletir porque ele anda escapando e mais, trabalhar para tentar transformá-lo e mudar aquilo que está deixando-o fora de controle, creio ser essa a sacada.
beijos, minha irmã querida
A monstra-telma

Ana Cláudia Bessa disse...

Ih...você não está só...
Mas nem sempre me sinto culpada porque tem hora que eles sugam toda a paciência da gente.
Costumo dizer que na próxima encarnação quero ser passarinha...já viu filhote negar minhoca, responder malcriação?...rs...

Taís Vinha disse...

hahaha, Mãe ursa também é bom. Dorme seis meses por ano e quando acorda os filhos já estão praticamente criados. Bjs