20.3.16

“Professora, e seu eu te chamasse de vadia?”



A sala do sétimo ano estava dispersa e, no meio da confusão, um garoto chama um grupo de alunas de vadias. Elas ficam muito indignadas e procuram a autoridade presente: a professora.

A professora não dá bola. Negócio de criança, coisa da idade.

A indignação aumenta. As meninas ficam ainda mais exaltadas e alguns garotos resolvem sair em defesa delas: “Ô profa, o moleque chamou elas aqui de vadias! Você não vai falar nada?!”

A professora olha com cara de quem está cansada daquilo tudo e diz: “Depois vocês resolvem isso...lá fora no intervalo.”

É quando um dos meninos a interrompe dizendo: “Profa, depois?! E se fosse eu que te chamasse de vadia? Você ia querer resolver agora ou depois?”

O episódio ilustra bem como a construção da ética e do respeito nas relações ainda é uma realidade distante nas nossas salas de aula. E como a indignação do adulto é tratada com muito mais atenção do que a infantil ou juvenil.

Na visão de muitos educadores, um conflito só é digno de ser trabalhado quando envolve o educando e a autoridade. Conflitos entre os pares, isto é, entre crianças da mesma idade, é visto como coisa da idade. Mesmo quando trata-se de algo que, se não trabalhado, o educando pode levar para a vida, como nesse caso, o desrespeito às mulheres. 

Trabalhar o problema não é culpar o menino ou castigá-lo, com as costumeiras broncas e advertências que não servem pra nada. Um conflito bem elaborado é quando ele é visto como uma oportunidade valiosa de aprendizado, para todos os envolvidos. Tem coisa mais rica que flagrar um momento de desrespeito, quando o autor ainda tem idade para refletir sobre seu ato e se transformar? Tem algo mais precioso do que valorizar a indignação das vítimas e empoderá-las, para que procurem sim uma retratação? Tem momento mais imperdível do que apoiar os que saíram em defesa dos agredidos e valorizar essa postura tão rara de se ver no mundo adulto? Tem reação mais importante do que deixar claro para todos que estão na sala de aula que determinadas atitudes não são aceitáveis em hipótese alguma na vida em sociedade?

Mas a professora preferiu ignorar. E as meninas seguem vadias. E os garotos seguem vazios.

Termino narrando um episódio testemunhado na Espanha, onde, por lei obriga-se as escolas a trabalharem a moralidade e as questões de gênero. Houve um conflito durante a aula de matemática, curiosamente, a mesma disciplina da professora citada nesse texto. O professor interrompe a aula e discute com a sala o ocorrido. A visitante brasileira que observava o episódio dirige-se mais tarde ao educador e pergunta o motivo dele ter parado a aula só para resolver uma briga de criança. E o professor responde: “Sempre que temos um conflito, interrompemos a aula e conversamos. Porque aprender a se relacionar é mais importante do que aprender matemática.”


2 comentários:

Bel disse...

Que demais....muito bom Tais...espero q os envolvidos tenham oportunidade de ler sua reflexão. ..
Bjss

Luis disse...

E assim a escola que já é a mais cara da cidade, cada vez mais adere ao modelinho tradicional e vai deixando passar por entre os dedos a postura outrora vanguardista. Meu filho ama muito a escola, mas ele mesmo já sacou que algo está errado por lá