23.3.16

A escola na sala de jantar.



Ontem, só ontem, enquanto assistia ao filme Hannah Arendt, um pensamento me invadiu fino e fundo, como uma agulha de tricô e me virou o estômago e a mente: eu sei pouco, muito pouco ou quase nada sobre o nazismo.

Um dos maiores crimes da atualidade contra a humanidade, com 6 milhões de pessoas sistematicamente assassinadas, e o que sei sobre o processo que levou uma sociedade dita civilizada a cometer tamanha atrocidade? Nada.

O pensamento é talvez o mais rápido download que existe. Na mesma hora me conectei com a escravidão. Milhões de seres humanos arrancados de suas vidas e transportados como gado para servir de mercadoria. E o que sei realmente sobre esse fato, suas causas e consequências no mundo em que vivo? Praticamente só o que aprendi nas novelas das seis da Globo.

Foi difícil continuar prestando atenção no filme. Vendo Hannah dar aula, refletindo de maneira tão aprofundada com os alunos sobre a natureza humana, me ocorreu que estudei numa escola estadual durante a ditadura militar. Só 30 anos pós Segunda Guerra - ontem, em termos de história - e nunca um professor conversou conosco sobre esse conflito. Todos os esforços educacionais eram concentrados em nos fazer decorar capitais, datas e nomes de pessoas importantes. Eram aulas estéreis, emburrecedoras, a serviço dos generais.

A escravidão me foi ensinada como algo banal, coisa da vida, que aconteceu no passado e acabou graças a uma princesa branca, cheia de bondade. 

O holocausto indígena nas Américas, nunca ouvi falar. 

Nem de Getúlio Vargas, JK, Che Guevara, Mussolini. Pouco aprendi sobre a revolução francesa e menos ainda da revolução chinesa. Sei lá porque tem duas Coréias e mal entendo como podia ter um muro bem no meio de Berlim.

Sem minimizar de forma alguma o horror das torturas, hoje considero que um dos principais crimes da ditadura foi nos tornar rasos. Somos uma geração de humanos que sabe nada sobre a nossa própria natureza. Refletimos muito pouco sobre o que somos capazes, tanto para o bem como para o mal. Somos arrogantemente vazios e desprovidos de empatia.

A ditadura acabou, mas nossa escola até hoje não conseguiu se livrar desse modelo. Reconheço que há um movimento ainda incipiente de reflexão sobre causa e consequência das ações humanas e de desconstrução de heróis duvidosos, principalmente nas disciplinas da área de humanas. Mas, em geral, a maioria das escolas permanece congelada nos tempos da ditadura, onde toda e qualquer discussão de natureza “polêmica” é evitada. Como se o debate, num local de aprendizagem, fosse ruim! Classifica-se agora como "esquerdista" qualquer reflexão que se evita na sala de jantar e a escola acaba se tornando uma extensão das famílias e não um ambiente distinto de aprendizado. 

Assim continuamos a formar gente que não sabe o que dizer diante de um tema como a violência contra a mulher. Que se escandaliza quando escuta que o trabalhador doméstico deve ter direitos. Que é descendente de imigrante e é contra a imigração, como se seu antepassado tivesse aportado aqui de férias e resolvido ficar por conta do sol tropical. 

Qualquer guru chinfrim de autoajuda sabe que só conseguimos nos transformar quando olhamos para nossos próprios atos, refletimos e aprendemos com eles. Se um dos papéis da escola é transmitir às próximas gerações o conhecimento humano adquirido até aqui, como impedir a reflexão sobre os erros e acertos do nosso passado coletivo? 

Quando um determinado tema dói, irrita, choca, é sinal que o assunto ainda precisa ser debatido. E esse debate tem que ser feito na sala de aula. Os generais se foram. E a escola vai sair quando da ditadura?

5 comentários:

Beatriz Lobato de Moraes disse...

Esta brincando com meu irmão. Como ele gosta de armas, fomos inventando a história até que liberamos Judeus. Foi quando percebi o quão raso era meu conhecimento do tema. Não era o suficiente pra basear uma brincadeira com detalhes.

E isto que tenho 20 anos. Minha formação é mais atual.

Lia disse...

Taís, arrepiei.
Quem sabe a literatura é uma porta? É o único de subversão que se deixa entrar na escola.
Há livros sobre guerra para crianças ainda bem pequenas, como O inimigo, de Davide Cali e Serge Bloch, e A cruzada das crianças, poema de Brecht ilustrado pela catalã Carme Solé Vendrell.
Difícil saber por onde começar. Mas tentemos.

Tais Vinha disse...

Eu vejo pela dos meus filhos. O mais velho teve dois projetos bárbaros, de análise da cidade (regionalização), onde pesquisou, visitou e estudou bairros nobres e os periféricos, diferença de classes e etc.E leram os Sertões e estudaram Canudos, fazendo um paralelo com a desocupação do Pinheirinho. Foi emocionante. Trocou a coordenação, os professores envolvidos nesses projetos saíram e os dois caçulas ficaram sem. Triste demais que projetos desse tipo sejam iniciativas individuais de professores. Deveria ser política da instituição, independente do Professor.

Tais Vinha disse...

Lia, sim. Os dois projetos acima foram apoiados pela literatura. Muito boa as dicas de livros que vc postou. O cinema e a música tb contribuem muito. Mas tudo depende do professor. E aí fica na sorte, né?

Anônimo disse...

Depende do professor porque a relação da escola com os pais é de mercado e, para a maioria deles, o questionamento da ordem das coisas não ajuda em nada na manutenção da ordem, dos privilégios. Nossa cultura (brasileira) é autoritarista, carola (mesmo quando se diz laica), machista e capitalista. E tem que continuar sendo para que os privilegiados continuem assim. A escola particular é apenas parte desse sistema, aliás, a própria existência e persistência da escola particular é graças a todo um sistema de injustiça e não lhe interessa mudá-lo – imagine escola pública gratuita de qualidade para todos, o que farão as escolas particulares!
Os professores, cara Taís, são parte desse sistema e, quando, por alguma falha deste (ou ingenuidade ou idealismo da parte do docente), são diferentes e ousam tentar modificá-los, são silenciados ou, você já viu, demitidos.