30.5.12

Nossos filhos e a avaliação escolar - Parte I



Nossos filhos e a avaliação escolar - Parte I

Uma vez ouvi de um estudante sueco que lá eles não colam nas provas. Na época revirei os olhos. Para uma universitária como eu, nascida em um país da turma do fundão, não colar soava como o cúmulo da inocência escolar.

O estudante completou: "Colar é enganar a si mesmo. Por que você faria isso?"

Essa frase ecoou anos na minha cabeça até que eu pudesse entendê-la. Mais ainda, pudesse entender porque lá eles pensam assim e aqui achamos que estamos apenas enganando o professor ou o sistema.

Para compreendê-la, precisei primeiro de abrir mão de alguns conceitos errôneos e preconcebidos. Confesso que levei anos para entender que não se trata de um povo puro, correto, íntegro versus a malandragem gersoniana brasileira. Não somos coladores natos, nem enganadores desde a mais tenra idade. Somos muito mal avaliados! O sistema de avaliação da maioria das nossas escolas nos estimula a tentar burlá-lo.

Explico: avaliar é diagnosticar. Pensando assim, o estudante sueco tinha razão: quem enganaria um diagnóstico? Não colamos no exame de sangue ou na chapa do pulmão. Não sabotamos um exame de ultrassom. Sabemos que se tratam apenas de ferramentas para o médico descobrir se estamos em boa saúde ou nos prescrever o que fazer para recuperá-la. Servem também de indicadores para estabelecer o antes e o depois e visualizar a  evolução do tratamento.

A avaliação escolar deveria ser isso. Uma forma de professores e alunos identificarem pontos positivos e fracos no aprendizado de cada estudante e, assim, planejar intervenções e acompanhar o desenvolvimento.

Um aluno bem avaliado, fica sabendo com clareza seus méritos, conquistas e o que precisa melhorar. E da mesma forma que um doente não sai do consultório do médico só com a notícia que anda mal do estômago, ficando para si próprio a tarefa de curar-se, o aluno com uma dificuldade de aprendizagem tem que saber, ao final da avaliação, o que ele e a escola farão para recuperar os problemas identificados e manter as conquistas positivas.

Assim, a avaliação deixa de ser uma mera classificação, uma ferramenta para passar ou não de ano, ou mesmo um instrumento de controle comportamental e se torna algo fundamental na vida escolar. Algo tranquilo, que não precisa ser temido, nem é motivo de sabotagem. Porque não serve para "ferrar", apontar quem são os "Yes!", os "Ufa!" e os "Top, Top, Top" da sala. O saber do professor é valioso e restringir sua avaliação a isso, é muito, muito pouco!

Outra coisa muito interessante - neste novo paradigma de avaliação, erros não são vistos como fracasso, burrice, desatenção ou preguiça. Erros são indicadores valiosos de pontos que precisam ser melhor trabalhados, não só pelo aluno, mas também pelo professor. É o colesterol alto que exige uma dieta mais saudável por parte do paciente e um acompanhamento mais próximo por parte do médico, inclusive, com a revisão das práticas que não estão funcionando. Ponto. Sem dramas, sem terrorismo, visando a promoção da saúde e não a derrocada do paciente. 

Aí entra o segundo ponto - quais instrumentos são usados para avaliar nossos filhos? Quais os ultrassons, os exames de sangue, as ergométricas do ensino? O mais comum no Brasil é a prova.
Mas, será que somente através da prova, o professor consegue ter um diagnóstico preciso do aprendizado?

O que você acha? Se preferir, comente e escreveremos juntos a continuação dessa conversa.

11.5.12

Onde, senão na escola?



Onde, senão na escola? 

O "paraíba vagabundo" vira um brasileiro como eu

A "bicha que merece uns tapas" se transforma apenas num cara diferente de mim

O "neguinho safado" vira ser humano e meu mano

Perco o medo de quem é diferente e com isso viramos todos iguais



Onde, senão na escola? 

Deixo de temer quem não teme o meu Deus

A palavra "nosso" ganha um significado muito além do que ensina a gramática

Descubro que nem toda mulher apanha como a minha mãe

Aprendo outras formas de resolver problemas sem ser "enfiando a mão na fuça daquele filho da puta"



Onde, senão na escola?

Entendo que escutar é tão importante como falar

Descubro que tenho uma voz e aprendo a usá-la

Deixo de ser o filho especial e passo a ser só mais um aluno

Observo que o comportamento que tenho em casa nem sempre funciona com meus colegas e professores e com isso mudo.



Se não é na escola, onde é? 

Alguém sabe responder?







9.5.12

Meu filho come com as mãos.


Meu filho come com as mãos.


Meu filho adora botar os dedinhos na comida. Catar os grãozinhos de arroz, os pedacinhos de bife, as florzinhas de couve-flor, a poeirinha da farofa.



Já tentei fazê-lo usar os talheres, mas vi que ele não sentia tanto prazer e nem comia tão bem como quando se alimentava com as mãos.



Decidi então jogar fora o manual da mãe aplicada e deixei-o seguir comendo no módulo um, dois, três indiozinhos.



Mais tarde descobri que uma das maiores especialistas em desvio alimentar infantil, a Dra. Gill Harris, recomenda deixar que os pequenos comam com as mãos desde o primeiro momento em que se introduz os alimentos, para que sintam a textura, a temperatura, se dessensibilizem e percam o medo dos alimentos.



Os talheres estão sempre ali pertinho sobre a mesa. Mas é com os dedinhos que ele vai esvaziando o prato e enchendo a barriguinha.



O curioso é que aos poucos, ele foi entendendo por si próprio que há lugares em que esse ato não é apropriado. Em restaurantes, por exemplo, ele usa os talheres. E outro dia voltou da casa do amigo contando:



"Na casa do meu amigo tem uma regra que não pode comer com a mão".



"Nossa, e como você fez?"



"Usei o garfo". 
E fez silêncio para logo em seguida despejar: 



"Mas, mãe, que tortura! Eles só serviram comida que é uma delícia de comer com a mão!"



Caímos na risada. E fomos para a cozinha fazer um lanchinho. Que foi devidamente devorado com os dedos da mão, senhor capitão!



E que as vovós não nos vejam!






*imagem: http://www.calvin-and-hobbes.org/