18.2.09

Consumismo: o tamanho da encrenca.



A Sílvia Tabarelli me enviou este vídeo do Fantástico sobre o Lixão do Pacífico. Uma enorme área, entre a Califórnia e o Havai, onde o lixo se acumula de de forma desesperadora. São toneladas e toneladas de embalagens, sacolas de supermercado, brinquedos e todo o tipo de detrito plástico, flutuando em uma área do tamanho dos estados de São Paulo, Rio de Janeiro, Minas e Goiás juntos. A tartaruga que cresceu com um anel de plástico na cintura é apenas um exemplo da ação devastadora deste lixo no meio ambiente.

O programa também mostra uma ilha de lixo que está sendo formada no Oceano Índico, nas Ilhas Maldivas, onde não se vê mais o solo, só o lixo que vai se acumulando em montanhas que avançam pelo mar.

O lixo é internacional. Vem da Ásia, da América, do primeiro, terceiro e quinto mundo. E, apesar da reportagem mostrar apenas o Pacífico, há lixões em todos os oceanos. Somos todos responsáveis e co-autores. A matéria acaba com a doce ilusão de que é só colocar o lixo na rua que alguém vai cuidar desse assunto para nós. Não estão cuidando. E não vão cuidar. Porque o lixo que produzimos é maior, imensamente maior, que nossa capacidade de processá-lo.

Confesso que vivi até há bem pouco tempo, sem a mínima noção da minha responsabilidade nisso tudo. Achava que a devastação estava longe e que, a não ser que virasse ativista do Green Peace e descesse nua de rapel por usinas nucleares, não havia muito que eu pudesse fazer.

Hoje, tenho uma visão completamente diferente. Eu sei que a forma com que encho meu carrinho no supermercado, a forma com que eu como, visto e circulo tem um impacto direto no lixo que entope o planeta. Me sinto tão responsável pelo destino das latas de Leite Moça do brigadeiro dos meus filhos, como a Nestlé que as fabrica e o Governo que deveria processá-las após o descarte.

Não consigo mais apontar o dedo para ninguém, a não ser eu mesma. Por isso, tenho buscado rever a forma com que vivo. Não é fácil. Cresci numa sociedade irresponsavelmente consumista. Mas a cada dia aprendo algo novo e estas descobertas me empolgam como criança diante de uma novidade. Acabei descobrindo que cuidar da generosa Terra, me faz sentir muito bem. É desafiador, empolgante e econômico (incrível como o consumo consciente estica o dinheiro!), mas isso é assunto para outro texto. Por enquanto, fiquem com o alerta da Globo.

16.2.09

O consumo, a aposentadoria e a crise.


Quando a marolinha da crise chegou ao Brasil, o presidente foi enfático: "Consumam". Era hora de gastar as economias e não ter medo do futuro.

Poucos meses depois, este mesmo governo - que quer que gastemos sem temer o dia de amanhã - reajusta a aposentadoria em quase a metade do valor do reajuste do salário mínimo.

Agora eu pergunto: como não temer o amanhã, se com o dinheiro da aposentadoria mal dá para pagar o plano de saúde, comer e morar? Se hoje eu sair por aí realizando todos os meus "sonhos" de consumo para ajudar o Brasil a sair da crise e os especuladores financeiros a reabastecerem suas adegas climatizadas, quando me aposentar, quem vai me ajudar a pagar a tv a cabo da minha TV LCD? Ou estarei condenada a passar a velhice assistindo Zorra Total em 50 polegadas? Qual medida econômica vai garantir carne para o meu freezer frost free de inox? Vai sobrar algum para encher o tanque e tirar o carro da garagem?

Pois é, presidente...o amanhã é sombrio. E justamente para não temê-lo, que vou guardar bem guardadinha uma parte do meu dinheiro e me acostumar desde já a viver com menos. Assim, quando a minguada aposentadoria chegar, terei minhas economias e poderei continuar consumindo. Pouco. Mas o suficiente para ter o mínimo de dignidade e prazer que qualquer ser humano tem direito. Seja ele aposentado, trabalhador, governante ou especulador.

11.2.09

Mamãe e a cobra


Foi uma chuva de granizo daquelas. A garagem amanheceu coberta de gelo e lama. Empunhando uma pá e uma xícara de café bem quente, ela enfrenta o frio e começa a limpeza. A filhota também dá suas vassouradas enquanto se diverte deslizando os pés na lama. Quando estavam terminando e o último montinho de gelo e lama se acumula sobre o ralo, a filha avisa: "mamãe, olha uma cobrinha!". Ela dá um salto. No meio da sujeira, havia uma pequena cobra, toda enroladinha.

Com o coração disparado, ela afasta a menina e cutuca a cobra com a vassoura. Nada. Provavelmente a coitadinha morreu congelada depois de passar a noite no gelo. Mesmo assim, era bom ficar esperta. No melhor estilo supermamãe "xácomigo" em ação, ela pega um vidro de palmito, empurra a cobrinha pra dentro, ao mesmo tempo em que mantém a filha a uma distância segura. Um pouco de álcool para conservar, uma tampa e feito!

Agora as duas tinham um lindo exemplar de cobrinha, capturado por elas mesmas e pronto para ser exibido para os coleguinhas, vizinhos e o incrédulo marido. A empregada, muito entendida de cobras e lagartos, deu o alerta: "É um filhote de coral. E se tem filhote, a mãe deve estar por aí. A senhora tem que achar o ninho.".

O quintal era grande. O medo maior ainda. Melhor agora se concentrar em dar almoço para a filha e levá-la para a escola.

Na escola, a cobra é exibida com orgulho. O vidro de palmito passa de mãozinha em mãozinha. Professora e coleguinhas, todos ficam admirados do feito e da coragem das duas.

Na saída, a mamãe caçadora de cobras encontra a mãe de um amiguinho, muito entendida de bichos estranhos. Conta a história e pergunta se ela poderia ajudá-la a identificar que tipo de cobra era aquela. A outra mãe pega o vidro, chacoalha, ergue, olha contra a luz e dá o veredito: "É uma cobra do tipo China. "

"China?!"

"É esse sinalzinho é muito característico...tá vendo aqui, perto do rabinho, tá escrito 'made in china'".

Quem passou por ali no momento, se admirou ao ver duas mães histéricas, quase rolando no chão do estacionamento, de tanto rir.

9.2.09

Melô da Adaptação

Para começar uma segundona cheia de glória, o "Melô da Adaptação", dedicado a todas as mamães aflitas, inseguras e ansiosas com a adaptação de seus pimpolhos na escola. Lembrem-se dela todas as vezes que vocês estiverem com um pequeno esgoelando, agarrado ao seu pescoço. E relaxem: em breve eles não darão nem "tchau". Beijos e boa semana!

6.2.09

Dicas para um retorno às aulas mais consciente.


Prometi publicar algumas sugestões de atitudes mais limpas e conscientes para a volta às aulas. Esta lista é apenas um princípio. Idéias que ajudem a ampliá-la serão superbenvindas (é assim na nova ortografia? Cruzes!). Este texto tem a colaboração da Silvia Schiros.

1. Bazares de troca ou venda de uniformes usados. A idéia, comum na Inglaterra, é montar um local na própria escola, onde os pais podem comprar ou trocar uniformes usados, mochilas, lancheiras e livros didáticos e paradidáticos em bom estado. Pais e escola decidem o que fazer com o dinheiro arrecadado. Pode-se também incluir a venda de roupas usadas (criança perde roupa novinha), brinquedos, jogos e material escolar.

2. Estímulo à carona. Incentivar os pais a trocarem roteiros e contatos de carona. Facilitar esta troca através de uma lista onde os pais interessados colocam roteiro e contato. É uma medida simples que reduz o número de carros na rua, poluentes e pais estressados. (Atenção escolas: pais menos estressados dão menos trabalho. Invistam nisso!).

3. Potão para troca de lanches. Uma gamela onde as crianças colocam os lanches que não vão comer, para que outro interessado (aluno ou funcionário) coma. Uma forma de compartilhar e reduzir as sobras.

4. Compostagem para as sobras de lanche. Feita pelas próprias crianças e que depois servirá de adubo para as árvores, horta e jardim da escola. Se houver excesso, pode ser doado para os pais ou entidades.

5. Lancheira sem embalagens. Opte por frutas, lanches e sucos caseiros, embalados em potes plásticos retornáveis (o bom e velho "tapuér") e em garrafinhas térmicas. Se precisar enviar um alimento industrializado e a escola do seu filho não tem um programa sério de reciclagem, tire-o da embalagem, mande no pote plástico e encaminhe você mesma a embalagem para a reciclagem. Dica: se você quiser sugestões de como montar lancheira saudável, entre no blog da Pat Feldman "Crianças na Cozinha".

6. Duas (ou mais) lixeiras em TODOS os ambientes. Uma para o lixo útil, outra para o lixo comum e, nos locais onde as crianças e profissionais se alimentam, uma terceira para as sobras de alimentos que irão para a compostagem.

Observe que, em várias escolas, a reciclagem faz parte da grade curricular, mas na prática ela não funciona. As lixeiras de reciclagem são normalmente colocadas em apenas um ou dois pontos do páteo, mas ninguém pode esperar que uma criança (ou adulto) atravesse toda a escola, com uma embalagem vazia de suco na mão, em busca da lixeira correta. Descartar o lixo útil deve ser tão fácil como descartar o lixo comum. Quando as lixeiras estão posicionadas e sinalizadas em todos os ambientes, a seleção é feita automaticamente. Depois é só recolher e encaminhar para os programas de reciclagem locais, cooperativas de catadores ou para a compostagem. Esta é uma forma muito simples e imediata de reduzir significamente a quantidade de lixo produzida.

7. Reutilização do material escolar. Muito material que sobra ainda pode ser reutilizado. Lápis de cor, estojos, borrachas, marcadores de texto, pastas, fichários, apontadores, réguas, mochilas e lancheiras muitas vezes voltam em boas condições, bastando uma limpeza. Outra coisa que tenho reaproveitado são os cadernos que voltam com menos da metade das páginas preenchidas. Arranco as usadas, crio com meus filhos uma nova capa com imagens recortadas de revistas ou da internet e ele retorna novinho pra mais um ano de uso.

8. Olho vivo na cantina. As cantinas não devem ser apenas saudáveis, evitando comida porcaria, frituras e refris. Deve-se também buscar a redução de embalagens descartáveis, oferecendo frutas, sucos feitos na hora servidos em copos retornáveis, lanches caseiros, fatias de bolos, tortas, tapiocas fresquinhas etc. Quanto menos alimentos industrializados, melhor para a saúde das crianças e do planeta. E é claro, tem que ter três lixeiras bem pertinho, para as crianças descartarem o lixo reciclável, os restos de alimentos e o lixo comum.

9. Reutilização de livros. Antes de sair comprando qualquer livro, tente consegui-lo usado. Uma boa maneira é consultar os pais dos alunos que fizeram a mesma série no ano anterior e a escola pode facilitar este contato. Outra forma é procurar em sebos. O site Estante Virtual reune mais de mil sebos por todo o país. O processo de compra é simples e os preços muito mais baratos que nas livrarias. Sempre vale uma consulta.

10. Banir os descartáveis do dia-a-dia. Copos, xícaras reutilizáveis e squeezes (eta palavra metida para garrafinha) são funcionais e evitam uma montanha de lixo. Podem ser lavados na escola ou devolvidos diariamente na mochila. O bom e velho bebedouro também funciona, mesmo para quem esqueceu o copo. Nas festinhas escolares, os pais devem ser estimulados (leia-se educados) a enviar utensílios retornáveis. Ou a própria escola pode disponibilizar tais objetos, bastando os pais enviarem os alimentos e bebidas (de preferência, sucos que serão servidos em jarras).

11. Uso inteligente de papel . Incentivar a comunicação e a cobranca eletrônica. Imprimir relatórios, contratos e apostilas utilizando a frente e o verso das folhas. Usar papel reciclado sempre que possível. Educar as crianças para preencherem toda a folha, frente e verso, antes de iniciar uma página nova.

No site da Sus School, há uma página interativa divertida e com dicas maravilhosas para uma escola sustentável. O texto está em inglês.

Mande sua dica e ajude a ampliar esta lista. E que este retorno às aulas seja um período de muito aprendizado. Para os alunos, pais e educadores.

3.2.09

Ombudsmãe volta na volta às aulas.


É hora de sacudir o sal, a areia do mar, a preguiça e voltar a teclar. Momento ansiado, sabia? Mas a escrita não perdoa as pessoas que a abandonam, mesmo que só por um mês. As idéias na cabeça e os dedos no teclado parecem não se entender.

Decido pelo óbvio. A conversa mais comum entre mães, neste mês, é a volta às aulas. Tumulto nas papelarias, listas de materiais infindáveis, preços abusivos de livros e apostilas. Todo ano a mesma coisa. Com a diferença que nos últimos anos, a consciência das pessoas aumentou. E a crise fez o "hellôô!" ecoar ainda mais alto.

Só falta as escolas escutarem. Uma mãe disse: "Se eu soubesse que a lista seria assim, não teria matriculado meu filho nesta escola". A lista de material está virando fator de escolha da escola. Não apenas pelo preço. Por uma questão também de sensação de respeito e parceria com os pais. As pessoas estão finalmente mais atentas ao consumo. Escutam por todos os lados apelos para consumirem com mais critério. Sentem que precisam se reeducar para viver com menos. E quando se trata de educação (ou reeducação), nada mais lógico do que esperar que as escolas sejam as primeiras a adotar uma postura consciente, solidária, educadora.

Para mim, a primeira mudança deveria ser nos livros didáticos, hoje feitos para serem descartados após um ano de uso. ABSURDO! Fora do Brasil existem os livros texto e os livros de exercício. Os livros textos, coloridos e bem elaborados, passam de aluno para aluno ao longo dos anos. Os livros de exercícios, impressos em preto e branco e bem mais baratos, são os únicos trocados anualmente. Faz todo sentido. Mas por aqui, eles são montados em um único volume, de forma a serem inutilizados após um ano de uso. Desperdiçando-se uma montanha de dinheiro e de papel. Livro reutilizável deveria ser lei!

Outra mãe reclama que a escola pediu 8 tubos de cola. Fala sério! Se é para usar tanta cola, porque a escola não compra logo tubões de 1kg, de uso coletivo e muito mais baratos. Ó o "Hellô" não sendo escutado. A outra reclama que a apostila produzida pela própria escola só imprime as folhas na frente. "Hellô again!" Hoje em dia qualquer copiadora que se preze imprime frente e verso. O custo de papel cai pela metade e também o desperdício.

E por aí vai. De tubinho de guache em tubinho de cola, o que se espera é parceria e respeito. Ninguém quer que falte material. Queremos é sentir que estão respeitando nosso bolso e o momento que o planeta vive. Escola tem que dar exemplo. E nada mais exemplar do que uma lista bem calculada, apenas com o necessário e até mesmo com um acordo entre pais e escola de reposição dos materiais que forem acabando ao longo do ano. Assim nada estraga, nada se perde. É uma postura mais razoável e consciente.

Em tempo, não ouvi só críticas. Algumas mães elogiaram escolas que simplificaram suas listas, optaram por comprar materiais coletivos, reduziram ou mudaram os livros didáticos, trabalham com sucata, doações de livros de literatura e rodas de leitura onde cada aluno compra apenas um livro e é feito um rodízio. Nenhuma delas comentou que a qualidade do ensino caiu. Muito pelo contrário. Elogiam a sensibilidade das escolas e a rica experiência proporcionada aos alunos em compartilhar materiais.

Amanhã, listarei algumas ações práticas que podem ser adotadas por pais e escolas para o um retorno às aulas mais sustentável e menos aborrecido.