24.8.16

Caixa de Pandora



Caixa de Pandora

Tia Lourdes era solteira, funcionária pública, baixinha, cabelos curtos e grisalhos. Tinha tudo para ser a mais previsível das criaturas. Mas, vira e mexe, nos surpreendia.

Éramos criança quando ela nos visitou pela primeira vez. Antes de sair para dar uma volta, perguntou qual brinquedo gostaríamos de ganhar. Foi minha primeira arregalada de olhos. Nunca um adulto tinha nos feito essa pergunta fora do Natal. Fizemos os pedidos e não acreditei quando ela tirou da sacola o jogo Detetive. Era exatamente o que eu havia pedido. Nem Papai Noel, que nos trouxe Monark ao invés da Caloi, atendia à risca nossos desejos. 

Fui morar com ela quando tinha 17 anos. Eu era uma adolescente difícil. Saí um ano depois, brigada. Ficamos um tempo sem nos falar e, de repente, estávamos de volta às boas, como se nada tivesse acontecido. Ela me tirou do apartamento dela, mas nunca me tirou de sua vida. Desse período, tenho algumas lembranças. Uma delas é que nem um grão de arroz lavado podia ficar no escorredor e a bucha tinha que ser colocada embaixo do sabão, nunca em cima, para não derretê-lo. Não admitia desperdício. Foi ela quem me ensinou que pizza fria com café, logo cedo, é um dos melhores desjejuns do mundo. E que Cynar é um ótimo substituto quando você não tem grana para comprar Campari.

Era marrenta como um burro velho. Além da eterna desconfiança às viagens aéreas, que a fazia enfrentar estoicamente horas de ônibus quando queria ir a um local mais afastado, nunca se reunia conosco no Natal, porque “é uma data triste”. Quando tinha uma opinião, nem tortura, nem estatísticas, nem o muxoxo dos parentes a faziam mudar de ideia.

Deu aulas de português a vida toda em escolas estaduais. Era a norma culta ambulante. Falava e escrevia perfeitamente, com todos os pronomes, hifens, tremas e aspas. Um dia conversávamos sobre o livro recomendado pelo MEC para a Educação de Jovens e Adultos que valorizava a forma não culta de falar e que havia sido grande polêmica na época. Logo de início me posicionei contra: “Imagina! Como pode o Ministério da Educação questionar a norma culta, tia?!”. Pois não é que ela me diz que havia achado sen-sa-cio-nal! Que estava mais do que na hora do país valorizar o jeito do povo simples de falar e que as pessoas que falam o português padrão eram muito preconceituosas. Ainda tentei defender meu ponto de vista arrogante de redatora publicitária, mas ela foi incisiva: “Língua é cultura. E todo modo de falar de um povo tem que ser valorizado. Dei aula na zona rural durante anos e nunca disse para um aluno que falar “nóis vai” era errado. Quem sou eu pra dizer que meu jeito é melhor que o dele? Além disso, se eu falasse isso, perderia aquele aluno, pois ele não sabe falar de outra maneira. O pai, a mãe, os avós, todos falam assim. Primeiro, você tem que acolher e valorizar a fala da pessoa, para só depois, aos poucos, ir introduzindo outro jeito de falar e escrever.” Meus olhos foram arregalando enquanto ela continuava: “Quando adotei a leitura do livro 'Meu Pé de Laranja Lima' fui muito criticada, inclusive pelos colegas, justamente porque o livro traz frases escritas fora da norma culta. Mas eles queriam formar leitores dando José de Alencar logo de cara para as crianças!”

Soube que ela era júri da justiça criminal. Quando era convocada, passava horas e até dias à disposição do tribunal. “Tia, que saco!” E a caixinha de Pandora da Tia Lourdes continuava nos surpreendendo: “Não acho. É cansativo, mas faço com prazer. Alguém tem que olhar para que essas pessoas tenham um julgamento justo. A maioria dos que estão ali quer vê-los massacrados. Jogam esses rapazes na cadeia sem nem pensar no que isso significa. Eu tento sempre ver os dois lados e garantir que seja feita justiça e não vingança.”

Eterna moradora do centro de São Paulo e fumante inveterada, se indignava com as pioneiras leis anti-fumo da cidade: “Onde já se viu proibir o cigarro?! O mesmo direito que você tem de não gostar de fumaça, eu tenho de fazer fumaça".

Um infarto precoce agravado por uma doença pulmonar obstrutiva crônica limitaram muito sua vida, mas nem assim abriu mão de morar sozinha. Criou entre os zeladores, entregadores e guardadores de carro, uma rede de colaboradores que a ajudavam com sacolas e a apoiavam quando precisava parar para descansar, o que acontecia a cada poucos passos. Viveu os demais anos quase sem sair de casa, precisando dormir ligada à uma máquina que lhe bombava oxigênio.

Quando morreu, encontramos escondido pelo apartamento 17 pacotes de cigarro. Mesmo contrariando todas as ordens médicas e familiares, a danada continuou fazendo o que queria.

Tia Lourdes foi a tia Lourdes até morrer.


12.8.16

Dois pais



Dois pais. 

A filha de um deles tinha cinco anos e desenhava na mesa da copa. No calor tórrido do noroeste paulista, ela usava uma calcinha de crochê vermelho.

O filho do outro já era adulto e consertava o fogão da residência. Tinha tocado a campainha e perguntado se tinha fogão pra arrumar. Na boa fé das gentes do interior, ele foi colocado pra dentro e levado pra cozinha.

A menina não suspeitou quando o rapaz se aproximou por trás e pediu pra ver seus desenhos. Ficou feliz quando ele começou a elogiá-los. Só achou estranho quando, em meio aos elogios, sentiu os dedos dele entrarem por dentro da sua calcinha. 

Ele era tão simpático, mas aquilo era entranho. E, ao mesmo tempo que uma voz lhe dizia: “Isso não é nada, é só carinho", a outra incomodava: “O papai te faz carinho assim? Seus tios te fazem carinho assim?"

A menina resolveu afastar-se. Correu para o quarto da mãe, encolheu-se num canto e botou na boca o dedão que há anos não chupava.

Quando a empregada entrou pra guardar a roupa, olhou para a menina com olhos de ver. 

Minutos depois, a mãe correu pra vizinha e pediu pra usar o telefone. Ligou para o marido, tenente da polícia militar, e contou o que ouviu da empregada.

A radio patrulha chegou rápido e levou o moço algemado, diante do olhar curioso dos vizinhos e da molecada da rua.

O pai veio na sequência, pegou a menina e seguiu pra delegacia. Na sala do delegado, ele segurou-a no colo com carinho e ajudou-a a contar o que houve. Quando o delegado lhe perguntou onde o moço a tocou, a menina, envergonhada demais para falar, apenas olhou para baixo e apontou a virilha. O dedão não saía da boca.

O abuso ainda foi comentado por algumas semanas entre parentes, vizinhos e amigos, até que se perdeu na lembrança de quase todos. E a menina cresceu sem nunca saber o que houve com o reparador de fogão.

Quarenta anos depois, após o enterro do pai, ela caminha em direção ao carro quando a madrasta se aproxima.

“Tem uma coisa que seu pai me contou que não esqueço. É sobre o moço que abusou de você”

A filha se surpreende: apesar de nunca mais ter tocado no assunto, o pai não havia se esquecido. Ela escuta curiosa.

"Ele disse que na cadeia bateram muito no rapaz. Imagina! Em plena ditadura militar o cara faz uma coisa dessas com a filha de um tenente! Nunca iam deixar ele sair de lá vivo. Mas quando seu pai soube que estavam espancando o rapaz, ele correu para lá e pediu pra eles pararem.”

Os olhos da filha se enchem de lágrimas. A madrasta continua:

“Eu quis saber como ele conseguiu fazer aquilo, afinal o que o moço fez com você era imperdoável. Mas ele me disse que um crime não justifica outro. Seu pai era assim. E você acredita que, tempos depois, o pai do rapaz foi na sua casa agradecer seu pai por ter poupado a vida do filho dele. Olha que situação o encontro desses dois!”

A filha não consegue conter o choro. Abraça forte a madrasta que, sem saber, ajudou-a colocar um ponto final surpreendente numa história que há quarenta anos permanecia inacabada. 

Elas partem. Uma sem o pai, a outra sem o companheiro. Ambas com a certeza de que estavam se separando de um gigante.


Ilustração de Snezhana Soosh