12.8.16

Dois pais



Dois pais. 

A filha de um deles tinha cinco anos e desenhava na mesa da copa. No calor tórrido do noroeste paulista, ela usava uma calcinha de crochê vermelho.

O filho do outro já era adulto e consertava o fogão da residência. Tinha tocado a campainha e perguntado se tinha fogão pra arrumar. Na boa fé das gentes do interior, ele foi colocado pra dentro e levado pra cozinha.

A menina não suspeitou quando o rapaz se aproximou por trás e pediu pra ver seus desenhos. Ficou feliz quando ele começou a elogiá-los. Só achou estranho quando, em meio aos elogios, sentiu os dedos dele entrarem por dentro da sua calcinha. 

Ele era tão simpático, mas aquilo era entranho. E, ao mesmo tempo que uma voz lhe dizia: “Isso não é nada, é só carinho", a outra incomodava: “O papai te faz carinho assim? Seus tios te fazem carinho assim?"

A menina resolveu afastar-se. Correu para o quarto da mãe, encolheu-se num canto e botou na boca o dedão que há anos não chupava.

Quando a empregada entrou pra guardar a roupa, olhou para a menina com olhos de ver. 

Minutos depois, a mãe correu pra vizinha e pediu pra usar o telefone. Ligou para o marido, tenente da polícia militar, e contou o que ouviu da empregada.

A radio patrulha chegou rápido e levou o moço algemado, diante do olhar curioso dos vizinhos e da molecada da rua.

O pai veio na sequência, pegou a menina e seguiu pra delegacia. Na sala do delegado, ele segurou-a no colo com carinho e ajudou-a a contar o que houve. Quando o delegado lhe perguntou onde o moço a tocou, a menina, envergonhada demais para falar, apenas olhou para baixo e apontou a virilha. O dedão não saía da boca.

O abuso ainda foi comentado por algumas semanas entre parentes, vizinhos e amigos, até que se perdeu na lembrança de quase todos. E a menina cresceu sem nunca saber o que houve com o reparador de fogão.

Quarenta anos depois, após o enterro do pai, ela caminha em direção ao carro quando a madrasta se aproxima.

“Tem uma coisa que seu pai me contou que não esqueço. É sobre o moço que abusou de você”

A filha se surpreende: apesar de nunca mais ter tocado no assunto, o pai não havia se esquecido. Ela escuta curiosa.

"Ele disse que na cadeia bateram muito no rapaz. Imagina! Em plena ditadura militar o cara faz uma coisa dessas com a filha de um tenente! Nunca iam deixar ele sair de lá vivo. Mas quando seu pai soube que estavam espancando o rapaz, ele correu para lá e pediu pra eles pararem.”

Os olhos da filha se enchem de lágrimas. A madrasta continua:

“Eu quis saber como ele conseguiu fazer aquilo, afinal o que o moço fez com você era imperdoável. Mas ele me disse que um crime não justifica outro. Seu pai era assim. E você acredita que, tempos depois, o pai do rapaz foi na sua casa agradecer seu pai por ter poupado a vida do filho dele. Olha que situação o encontro desses dois!”

A filha não consegue conter o choro. Abraça forte a madrasta que, sem saber, ajudou-a colocar um ponto final surpreendente numa história que há quarenta anos permanecia inacabada. 

Elas partem. Uma sem o pai, a outra sem o companheiro. Ambas com a certeza de que estavam se separando de um gigante.


Ilustração de Snezhana Soosh

2 comentários:

Raquel Marques disse...

Obrigada

Adriana Perassolo da Silva Vinha disse...

Lindo como sempre um presente!