12.4.16

Solo pobre



O aluno de 12 anos sente-se profundamente injustiçado pela reprimenda da professora e, diante da recusa dela em ouvi-lo, deixa escapar toda sua indignação: “Ah, vai se fuder, Fulana…não fui eu que fiz isso!”

O palavrão dispara a indignação da professora que começa a berrar. Seus gritos ecoam pela escola e são ouvidos até do segundo andar do prédio - punição número 1.

O garoto é mandado para a coordenação - punição número 2.

Lá, tenta se explicar em vão. Aparentemente, nessa escola, dizer um palavrão ao professor é o mais grave delito. Tão grave que lhe priva o direito de ser ouvido - punição número 3.

Ele é mantido na coordenação durante toda a aula e recreio - punição número 4.

Recebe uma advertência para levar para casa - punição número 5.

É encontrado tempos depois pelos colegas, sozinho num canto, chorando convulsivamente. As crianças se solidarizam com o amigo. Na vergonha. No excesso das punições. Na perda do intervalo. No berros da professora. No palavrão que podia ter escapado da boca de qualquer um deles.

Temem que ele seja suspenso. Querem fazer uma camiseta “Resiste Beltrano”. 

Mesmo com tanta aridez, a meninada ainda é capaz de fazer brotar algo lindo. Imagino o que seriam capazes se o terreno fosse fértil, generoso, acolhedor.

E quando olho pra esse solo pobre, empedernido que tem a pretensão de colher gente melhor, adubando com bronca, bilhete e berro, só uma expressão me vem à mente:

“Ah, vai se fuder.”




8 comentários:

Tais Vinha disse...

Fuder com U em homenagem ao autor da frase. Resiste, Beltrano!

Anônimo disse...

Muito poético quando não se vive uma realidade de violência ao professor.
Nada justifica um xingamento desse e a criança deve sim ser punida, mas pelo seu próprio bem, antes de tudo.
Reduzir um problema tão grave e generalizado a um texto pueril e de tão pobre vocabulário pode ser problemático dentro de uma situação onde crianças e adolescentes com os miolos fervendo podem ter acesso e reproduzir ao limite estressado dos seus hormônios em ebulição.
Cuidado com o que diz.
Palavras têm poder.
Não aja levianamente.
Pode se voltar contra você.

Katia Campos disse...

Fiquei muito apreensiva com esse texto!
Evidentemente, ninguém gosta de ser xingado ou de ter sua autoridade em sala abalada. Sinceramente, acho que nenhum educador que vive um dia a dia corrido, que é mal valorizado e, na grande maioria das vezes, mal remunerado, merece passar por tamanho desconforto.
Mas, em contrapartida, enxergar essa situação como sendo digna de PUNIÇÃO a um pré-adolescente de 12 anos... preocupa-me sobremaneira. Será que não seria o caso de ao invés de puni-lo (como foi defendido no comentário passado), instruí-lo ou orientá-lo? E se a resposta for sim, escutá-lo torna-se imperioso!
Não sei se o caso que foi abordado é verídico e se foi, em qual instituição ocorreu! Para mim, até agora, a postagem feita se restringe ao campo hipotético. Por isso, não entendi o final do comentário apócrifo acima postado: "Palavras têm poder. Não aja levianamente.Pode se voltar contra você". Posso estar enganada, mas, a mim soou como uma ameaça! Dessa maneira, sugiro ao autor do referido comentário que se explique melhor, para que, se acaso ocorra algo ou algum desfortúnio contra a autora do blog, não restem nenhuma suspeitas contra ninguém! Assim, caríssimo ou caríssima, a situação não terá o condão de "poder se voltar contra contra você"
Kátia Campos

Taís Vinha disse...

Oi Kátia, concordo inteiramente com você. Ninguém quer ser ofendido. Mas estamos falando de educandos e não de criminosos. Mesmo assim, até um bandido tem direito a ser ouvido. É um princípio básico da justiça e da democracia.

Como ensinar respeito, sem praticá-lo? Que autoridade é essa que não escuta e, uma vez desafiada, reage aos berros e terceiriza sua autoridade repassando o problema para o coordenador (e que por sua vez terceirizou para a família)? É uma sequência de erros, que traduzem um ambiente autoritário e pouco aberto para a troca, para o acolhimento, para o olhar do outro. A meta é controlar, enquadrar e submeter. Jamais educar.

E quanto à ameaça do anônimo, não espero outra coisa de alguém que afirma que deve-se punir uma criança "para o bem dela". Triste é saber que pessoas assim estão por aí ocupando espaço nas escolas.

Obrigada pelo apoio!

Isa Bulgarelli disse...

Thais, seu texto me fez lembrar quando estava ainda estudando. As vezes, os alunos agiam de formas horríveis com os professores, mas porque estavam tendo problemas com a familia, com os amigos, com a escola e consigo mesmos. Muitas vezes eles não conseguiam se expressar. Ai eles recebiam ordem, pouco para mandarem 'se fuder'. O 'ninguém me escuta, ninguém me entende' era bem constante. Era punição atrás de punição. Claro, as vezes, o professor tentava escutar os alunos (quando, claro, não colocavam na cabeça que esse não era seu papel). Mas eles, já tão cansados, não queriam escutar. Queriam agredir. Tirar toda a raiva. Quando podemos dar razão aos lados?

O que eu vejo agora é uma luta de vítimas e agressores, e não é no preto e branco. Mas alguns ainda preferem enxergar assim. O problema, é que no fim, ninguém se escuta.

Gostei bastante do seu texto! Adoro seu blog! :)

Anônimo disse...

Interessante o fato.
Porém, a falha começa logo no primeiro parágrafo, pois já começa sem expor os dois lados, partindo da premissa que o aluno contou TODOS os fatos, e que o professor que está cansado e não quer ouvir. Será?
Pais, não se iludam: seus filhos deixam sim de mencionar que estavam ignorando o professor, que recebeu várias chances, que foi alertado de maneira que não o expusesse, que ouviu vários "por favor, pare com isso", e por aí vai.
De maneira nenhuma quero dizer que eles mentem, mas que, por receio das consequencias, deixam de admitir sua parcela de culpa.
Será mesmo que o professor virou do nada e deu berros que davam para ouvir do segundo andar? Crianças e pré-adolescentes enxergam o mundo de uma maneira mais centralizada neles, tendem a acreditar que tudo acontece devido a e por eles. Por isso as falas em casa são: "o professor não me ouve", "eu não estava fazendo nada de mais", " eles estão me perseguindo" e assim por diante.
Em outro post desse mesmo blog, sobre um assunto completamente diferente, você mesma diz que eles dizem isso por acreditarem realmente que não estão fazendo nada de errado.
"Afinal, eu estava frustrado, qual o problema de falar esse palavrão? Qual o problema de eu conversar com meu colega enquanto há outra pessoa falando comigo? Qual o problema em dar risada no meio da aula?"
Pelo visto, nenhum, não é mesmo? Você acha OK seu filho te interromper durante sua fala? É ok ele falar alto do seu lado enquanto você está no meio de uma ligação, por exemplo? É ok ele achar graça e fazer piada do que você está tentando mostrar para ele?
Se for OK em casa, na escola também será.
É fácil jogar para a escola e para o professor, e esquecer de ver o ser humano que VOCÊ molda. Sim, você. Na escola, trabalha-se o social. Em casa, com a família, trabalham-se valores. Que valores são demontrados na escola? Professor não é profissão digna, (des)respeito ao próximo, você tem mais dinheiro então você tem mais voz, etc.

E sobre as punições, especialmente a 3 e 4, calma lá: quantos alunos há nessa escola? Quantas funções a coordenação precisa cumprir diariamente? (especialmente a escola em questão) Foi "mantido na coordenação" é questionável. Você estava lá para saber se ele realmente não foi ouvido? Duvido muito, principalmente na escola em questão. O que mais se faz lá é ouvir. E você, T(h)ais, sabe bem disso.

Não seja hipócrita.

Ah, não sou o autor do comentário anônimo acima, mas concordo quando disse que as palavras podem virar contra nós. Podem mesmo, as minhas palavras podem virar contra mim. Não é ameaça, constatação de fato. Se você sentiu isso, é porque tem algo que serviu...

Tais disse...

Cara anônima, meu email pessoal está logo acima, no início do blog. Sugiro mandar-me uma mensagem pessoal. Esse excesso de justificativas e de ameaças, apesar de não surpreender, está pegando mal para a "escola em questão".

Anônimo disse...

Cara Ombudsmãe,

Não sou funcionário da escola em questão. Sou pai.

Não adianta falar com quem não quer ouvir, não é mesmo?

Boa vida para vocês!