26.8.14

Não me convidem para a reunião de Pais e Mestres.





Não me convidem para a reunião de Pais e Mestres.


Queridos educadores,

Vocês vivem nos dizendo que a relação escola família é fundamental para o aprendizado dos nossos filhos. Eu também acredito nisso. Por isso lhes peço, na próxima reunião de Pais e Mestres, não me convidem.

Prefiro não mais comparecer, pois todas as vezes que vou a esses encontros, saio achando que vocês não fazem questão alguma de se relacionar comigo.

Não me levem a mal, mas acho que a reunião de pais e mestres é um momento precioso. Compareço a todas, buscando entender melhor a proposta educacional da escola, os projetos que vocês estão desenvolvendo, a avaliação dos caminhos trilhados e saber dos planos futuros. Gosto também de escutar os desafios, as dificuldades que o grupo enfrentou, os conflitos, ouvir relatos de como os nossos filhos estão aprendendo a viver no coletivo, com todas as suas dores e delícias.

É muito legal quando a escola usa este tempo que passamos juntos para se aproximar da gente. 

Mas nossas reuniões não tem sido assim. Na verdade, tenho saído delas me perguntando o que realmente fomos fazer ali. 

Porque, vejam bem, faz sentido nos tirar de casa numa noite de semana para ficarmos sentados escutando recados que poderiam ser eficientemente transmitidos por bilhete ou email? Eu preciso ir até aí para saber que tenho que levar meu filho no horário, que ele tem que ir de uniforme e que quinta-feira é o dia da fruta? E que pesem os argumentos que alguns pais não leem bilhetes - esse momento “recadão” tem que tomar tanto tempo da reunião?

Depois vem o momento “broncão”. E grande parte da reunião é desperdiçada com broncas aos pais “coniventes” com atrasos, com celular em sala, com os filhos adolescentes que não nos entregam os bilhetes (!). 

E assim, nosso encontro se aproxima do fim. E termina sem sermos informados de quase nada da tal vida escolar que vocês querem tanto que acompanhemos.

Saio sem saber que projetos estão desenvolvendo, e assim, não consigo assistir com meu filho aquele filme que tinha tudo a ver com o tema. Não sei como está sendo o aprendizado da matemática, então acho estranho ele ainda não fazer conta armada. Desconheço que estão estudando o sistema solar e perco a oportunidade de levá-lo àquela exposição tão bacana sobre Galileu.

Entendam, professores, que vejo minha participação como algo que vai muito além de mera cumpridora das determinações da escola. Esse pai submisso que escuta o monólogo dessa instituição, anota certinho no papel e obriga o filho a devolver o livro da biblioteca no prazo, é o pai que facilita a vida de vocês. Mas não é o pai que vai fazer a diferença na vida escolar do seu aluno. 

O familiar que faz a diferença é aquele que se entusiasma com o aprendizado. Que acha muito legal o foguete de garrafa pet da aula de física e pede pra ver uma demonstração no quintal. Que dá risada de uma crônica do livro da Ciranda de Leitura. Que discute a desigualdade e as injustiças, quando o filho lê os Sertões. Que lê uma redação, sem ficar chocado que está escrito trajetória com G e sim, encantado pelo filho estar usando uma palavra difícil e ampliando seu vocabulário. 

É o familiar que compra a proposta da escola e apoia os professores, não por respeito à “autoridade escolar” e sim, porque conhece, valoriza e confia no trabalho de vocês.

Mas tudo isso, professor, só é possível se houver comunicação. Diálogo. Vocês precisam compartilhar conosco as propostas, as metas de aprendizagem, o andamento das atividades, as intervenções nos conflitos, os sucessos e as dificuldades coletivas que estão encontrando. 

Precisam nos ensinar também. Muitas coisas mudaram na didática e um tempo da reunião poderia ser usado para nos mostrar como são as novas práticas. Podem até passar um vídeo que ilustre o que estão dizendo. Desde que seja um complemento ao assunto, um exemplo de como os alunos elaboram hipóteses matemáticas ou de como trabalham em grupo, se esse é o assunto que estamos conversando. Nada de vídeos de 20 minutos de crianças sorridentes e saltitantes, porque isso é encher linguiça e não contribui em nada para a minha formação de mãe participativa.

Enquanto essa reunião não acontece, não me convide mais. Prefiro não ir e seguir na doce ilusão que a escola quer muito se relacionar comigo mas, infelizmente, não me sobra tempo.

Melhor assim.

12 comentários:

Maria Tereza disse...

A reunião de escola dos meus filhos é uma sessão de publicidade da escola e autopromoção dos professores. Fala-se do passado. Conta-se do que foi feito, mostra fotos das crianças felizes, comendo frutas ou brincando em dias ensolarados. Nao ocorreram problemas, adversidade se acriançada se portaram lindamente.
O futuro, o próximo trimestre, fica guardado para a passado, a próxima reunião. Resumindo, não temos debates, não temos problemas e vivemos numa mundo cor de rosa. Compra quem não quer se incomodar.

Maria Tereza disse...

Te deixo um link:
http://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2014/08/1499810-os-pais-e-a-escola.shtml

Tais Vinha disse...

Maria Tereza, imagino sua cara nas reuniões. Queria muito entender esse medo que os educadores tem de ser gente de verdade e de inserir a escola na vida real. Já tinha lido o texto do Contardo e adorei! Desconstrói paradigmas. Bjs!

Maria Tereza disse...

Taís, eu só participo da primeira e da última reunião do ano. Uma vez tentei conversar com alguns pais sobre o que pensava das reuniões e quase me vaiaram. Vi que ninguém quer se incomodar e que a escola trata melhor os filhos de quem não reclama. O que não é meu caso.
Isto numa escola construtivista, aberta ao "diálogo".

Minha filha mais velha foi para uma escola tradicional grande, do tipo empresa. Não temos reuniões, exibicionismo e nem conheço os professores. Ela está no quinto ano. Tudo funciona lindamente. Meu pequeno da educação infantil será transferido para esta escola também. Chega de alimentar ego de professores e bancar viagens de coordenadores para Refgio Emília.

Beijo

Hellen Silva Tobaldini disse...

Olá, Tais!
Sou uma leitora assidua do seu blog, mas é a primeira vez que escrevo. Aproveitei o assunto sobre reuniões escolares para te fazer algumas perguntas, já que sou de SJCampos também e estou começando a procurar uma escola para minha filha de dois anos. Percebi pelos seus posts antigos que seu filhos estudam no Moppe, eles continuam por lá? Você está feliz com a escola? Eu vou precisar escolher a escola da minha filha a distância, pois não estou no Brasil e só volto no começo do ano. Você foi uma das pessoas que me fizeram considerar o Moppe como a melhor opção, você ainda acha uma boa opção?
Obrigada!
Hellen

Tais Vinha disse...

Maria Tereza, me lembrei de uma mãe que tem muito a ver com você. Aliás, é uma mãe que amo muito! Divirta-se com ela:

http://ombudsmae.blogspot.com.br/search?q=mamãe+muçarela

Tais Vinha disse...

Helen, vamos nos falar por email? taisvinha@terra.com.br ou inbox pelo Face: Tais Vinha.

Bjs!

Maria Tereza disse...

Taís, sua danada!!!! Agora que percebi que a mãe muçarela é vc!!!
Me conte, está gostando da escola tradicional? É outro papo, né?
Eu era super contra este tipo de escola, agora sou fã...
Beijo

Andrea disse...

Taís, a escola da minha filha de 8 anos tem exatamente esta linha que você falou: são super acessíveis, falam dodesenvolvimento, dos projetos, e inclusive aboliram estas reuniões coletivas! Rsrsrs. Datas e avisos vêm na agenda e no email. Temos encontros individuais com os professores pra saber do andamento de tudo. Fora isso, há os eventos para reunir as famílias e mostrar o que os alunos estão produzindo. Hoje teremos uma Mostra Cultural, e ontem recebemos o mapa e roteiro da Mostra por email. Tudo muito organizado!

É uma escola pequena e relativamente nova em SJC. Escolhi pq conheço o trabalho de alta qualidade da equipe e a visão de futuro dos donos. A escola agora é bilingue. Escolhi também porque lá eles respeitam o tempo, o ritmo e o modo de aprender de cada criança. Estou bem satisfeita, sinto sempre que a escola está super em sintonia com minha visão de mundo e meu modo de pensar.

Tenho um filho de 6 anos também e na escola dele (ed. Infantil) é exatamente isso que você falou: reuniões burocráticas só pra cumprir tabela, que nos fazem perder um tempo precioso, que poderia ser aproveitado com informações muito mais ricas! Parei de ir nas reuniões de lá também porque só estava me estressando... Ainda bem que em 2015 ele vai pra mesma escola que a irmã. :-)

Tarsila Leão disse...

Que linda reflexão, Taís! Tive a sorte de encontrar na minha cidade uma escola q segue a abordagem da Reggio Emilia e lá o diálogo entre educadores e pais é constante, as reuniões são ricos encontros tão diferentes dessas reuniões de escolas tradicionais. A participação dos pais é super estimulada e constante no dia a dia da escola. Espero q vcs possam viver isso um dia e tb espero poder continuar vivendo quando minha filha tiver q trocar de escola! Acho q precisamos estar atentos a estas questões quando fizermos escolhas como essa, tão importante, pq a escola será uma "segunda casa" p nossa família!

Tais Vinha disse...

Andrea, sua menina está na Eccos? Gosto muito da proposta. E a Andrea, coordenadora, deu aula para meus meninos na Moppe. Muito competente.

Tais Vinha disse...

Blogger Tais Vinha disse...
Maria Tereza, não...não sou a Mamãe Muçarela, mas é uma mãe que admiro e amo muito. Meus filhos sempre estudaram em escolas construtuvistas e não me arrependo da escolha. O meu mais velho já está no segundo do ensino médio e vai muito bem. A escola anterior lhe deu uma ótima base. Eu entendo muito bem suas críticas à escola construtivista, porque existem muitas por aí que prometem mas não entregam. O construtivismo é algo difícil de ser praticado e exige treinamento e acompanhamento constante da equipe. A escola tem que investir nisso. Ou fica mesmo largado. E tem essa coisa do mkt, que vc tem toda razão de ficar injuriada. Eu não digo que minha relação com as escolas sempre foi tranquila, mas fomos construindo uma relação de respeito e hj tenho confiança e tranquilidade que eles fazem um ótimo trabalho. Não devemos generalizar. Assim como tem ótimas escolas tradicionais, há algumas que só por Deus. Rs! Bjs!