11.4.14

TDAM - Transtorno de Déficit de Atenção de Mãe


TDAM - Transtorno de Déficit de Atenção de Mãe

O menino sempre foi muito esperto e inteligente. Mas não tinha uma relação tranquila com a escola. Apesar de mais velho da turma, foi um dos últimos a ser alfabetizado. Era distraído, irrequieto, ao mesmo tempo participativo, do tipo que sempre se destaca na classe, mas quando chegavam as notas, estava sempre na média, ou abaixo dela.

Em casa, só parava quieto pra jogar videogame. A tarefa era um transtorno. Levava horas para fazer um exercício facilmente solucionável em 15 minutos. E sempre a pulso. 

Os pais e a escola conversaram algumas vezes. A conversa sempre muito boa. O menino é mesmo desatento, nada fora do normal, mas é preciso sempre “buscá-lo”. Traçaram combinados de ações conjuntas. E tudo caminhou relativamente bem, respeitando-se o ritmo e o jeito do menino, até que veio o famigerado quarto ano.

A escola construtivista não aplicava provas até o terceiro ano. Esse processo de avaliação iniciava-se apenas no quarto. Foi quando as notas começaram a despencar. E o clima em casa pesou mais ainda na hora da tarefa. 

A mãe insistia para que ele estudasse mais. Ele esperneava, jogava livros longe, fazia birra, chorava, gritava. A mãe tentava se manter tranquila, mas de vez em quando explodia. O pai intervinha. Deixa comigo, eu estudo com ele. Mas no final, vinha mais um bilhete avisando que o menino estava de recuperação.

O padrão se repetia. Escândalos em casa, má vontade, provas mal resolvidas, conversas com a professora, indicação para ele ler mais e outra recuperação.

Até que um dia, a mãe sentou-se com as provas na mão e começou a analisá-las. Algo lhe chamou a atenção. Em todas elas, respostas “viajandonas”. Criativas, mas nada a ver com o que estava sendo pedido.

Percebeu que ele interpretava textos sem lê-los, respondia sem prestar atenção na pergunta, pulava introduções e cabeçalhos.

Teve um clique. O menino sabe a matéria. Ele não sabe é fazer prova!

A partir daí, mudou sua postura nas tarefas. Deixou de querer que ele aprendesse a matéria, isso era com a professora. Começou a ensiná-lo como se faz prova: leia o texto antes de responder. Preste atenção na pergunta. Só responda depois de entender o que está sendo pedido. Releia o que escreveu. Não, não é para escrever sua opinião. É para responder o que está no texto...sim, eu sei que você sabe a resposta. Mas é para dar a resposta do texto e não a sua. 

No começo foi um sofrimento! O menino se enfureceu ainda mais. Berrava que não precisava ler os textos porque a professora explicava em sala. Ficava bravo a cada resposta apagada que precisava ser refeita. Mais ainda quando a mãe se recusava a ajudá-lo e o fazia procurar no livro, dessa forma, obrigando-o a ler.

A mãe entendeu que a fúria aumentou porque finalmente eles tinham acertado a abordagem. O menino estava confortável na estratégia que o tinha levado até ali. Não queria mudá-la. Lutava para ninguém mexer no seu queijo.

Mantiveram-se firmes e aos poucos, bem aos poucos, ele foi entendendo e se acalmando. “Essa resposta eu posso falar o que eu acho, né mãe? Está perguntando a minha opinião. Ai, que saco, tem que justificar também?!"

E foi depois de muita resposta apagada, muito texto relido, que o menino chega excitado da escola. “Tirei a nota mais alta da classe em português!!!! Eu sou o cara!!!”

A mãe quase não acredita. Mais do que feliz pela nota, ficou feliz pelo efeito na auto-estima do menino. Ele estava radiante. Foi só então que percebeu como ele se ressentia dos maus resultados anteriores.

Abraçou-o e comemoraram o resultado de tanto esforço. Enquanto o menino corria para mostrar a prova ao pai, a mãe pensou que bastou prestar atenção de verdade nele para entender melhor o problema. Seu filho não era desatento. Desatentos tinham sido os adultos responsáveis pela educação dele. 

Sabia que a luta não estava ganha. Mas pelo menos agora sabiam que rumo tomar.


5 comentários:

Nine disse...

Nossa, muito bom! Prestar atenção de verdade é sempre muito difícil por aqui. Sempre tive fama de "viajona" na escola, mas minhas notas eram boas, sempre soube fazer a prova. Essas provas não tem razão de ser, na minha opinião, e o seu texto só reforçou essa minha ideia! Que bom que neste caso o menino obteve ajuda! Beijos!

Maria Tereza disse...

São poucas as escolas que ensinam a fazer provas, organizar a lição, separar o material, etc. Principalmente as escolas construtivistas que vão levando levando e de uma hora para outra começam a cobrar provas bem feitas, ortografias sem erro (que nunca tinham corrigido), separação em sílabas, etc...
Muito bom o texto.

Mariana disse...

Acho que 70% dos diagnósticos recentes de TDAH na verdade são de TDAM!
Ah se todas as mães se conscientizassem disso...

Anônimo disse...

Incrível como que 'olhar seu filho' talvez seja a maior demonstração de amor e o melhor exercício da maternagem que existe. O melhor de todos os conselhos... parabéns! Pelo olhar acurado e pelo texto... Cariny

Casadim disse...

Amei o texto. Posso copiar? Sou educadora e preciso mostra lo para muitas maes.
Parabens!