28.2.08

Escola pública x particular


Como dizia o pedreiro Seu Arnaldo: “É o pensativo que acaba com a pessoa.”. Pois é, um pensativo que tem me assombrado, ultimamente, é o fato dos meus filhos estudarem em escola particular. Mantive mais esta neura minha em segredo, até que li um artigo da Rosely Sayão que cita o senhor Vernor Muños Villa-Lobos, costa-riquenho, relator especial da Organização das Nações Unidas pelo Direito à Educação. Ele defende que a educação é um direito a ser garantido a todas as crianças e que não poderia jamais ser uma prestação de serviço. (Artigo: Educação como produto, http://blogdaroselysayao.blog.uol.com.br )

Concordo. E sofro muito com isso. A gente escolhe escola particular para proporcionar aos nossos pimpolhos uma educação mais sólida, humanizada, coerente com coisas que a gente acredita como autonomia, construção do conhecimento e etc. Mas tem muitas coisas tão importantes quanto as teorias educativas, que a escola particular dificilmente vai conseguir proporcionar. Por exemplo: não sei qual o índice de crianças com deficiências mentais na nossa sociedade. Mas certamente, é muito abaixo do número de negros e pardos. Então por que nas salas de aula de qualquer escola particular é mais fácil ver uma criança especial que um negro? Porque quase não vemos professoras negras, mulatas ou orientais?

Este contato com a diversidade, com gente de várias raças, culturas e classes sociais, não existe no ambiente da imensa maioria de escolas particulares. Então vamos criando filhos que só convivem com os iguais. Porque moram em condomínios onde todos são iguais, estudam em escolas em que todos são iguais, brincam com filhos de amigos que são todos iguais. Mas lá fora, o mundo não é igual. E essa é a graça da vida!

Além disso, tem outro aspecto que me tortura. Sou informada, batalhadora pelos meus direitos, contribuinte, pentelha, e estou aqui, sentadinha na frente do computador, quando poderia estar acompanhando a escola pública dos meus filhos e ajudando a torná-la melhor para os filhos de todos os brasileiros. Enquanto nossa única atitude for matricular os filhos em escolas particulares, a escola pública não vai mudar nunca. Daí, seguimos, pagando caro por uma educação que nossos filhos deveriam ter gratuitamente, por direito. Aumentando as desigualdades. Criando nossos filhos num mundo que só existe atrás de muros. Perpetuando a vergonhosa situação da educação brasileira.

Outro dia conversava com uma mãe sobre este assunto e conclui: “mas o problema é que neste caso, são nossos filhos que estão na berlinda.” E ela me calou dizendo: “Mas a vida é uma berlinda!”. Talvez, o maior ensinamento que podemos proporcionar aos nossos filhos seja deixá-los viver.

É mesmo o pensativo que acaba com a pessoa.

8 comentários:

Cristiane Fetter disse...

Esta mãe disse uma coisa certa "a vida é uma berlinda", mas enquanto as crias estiverem sob nossas asas tentaremos fazer este caminho mais fácil não é?
Eu fiz um post para o O Futuro do presente falando da minha preocupação com a violência nas escolas americanas, depois vai lá dar uma olhadinha.
Não conheço uma mãe que não se preocupe, que não procure o melhor (tá, existem aquelas que só vieram para colocar o ser no mundo e nada mais), e que principalmente não divida esta preocupação com outros.
Abraços

Telma disse...

Sabe, concordo com a perda que todos os nossos filhos de classe média tem pelo fato de perderem a riqueza da convivência com uma maior diversidade de outras crianças...
Todavia, discordo do fato de vc estar sem fazer nada pela escola pública no computador... só de escrever sobre isso e gerar discussão já está contribuindo. O problema é muuuuiiito maior e precisaríamos de muuiiitos pais conscientes e forte pressão se quisermos de fato mudar a escola pública nesse país.
Vc lutaria com dragões imensos que não estão nem um pouco dispostos a mudar e, aos poucos, desanimaria... Qtas vezes não "lutou" com a escola particular que tem tantas condições de mudanças e sentiu-se indignada ou desestimulada diante das justificativas e ao constatar que tudo permaneceu como era antes ou que só foi feita uma "maquiagem"...
O duro é que, como qualquer professora, "falo" muito, então se permitir, colocarei alguns dados que ilustram o que quis dizer sobre a escola pública no Brasil.

telma disse...

Alguns dados da qualidade de nossa educação - Veja se é essa escola que queremos que nossos filhos estudem...

Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional (Inaf), do Instituto Paulo Montenegro:
Apenas 26% da população brasileira de 15 a 64 anos é plenamente alfabetizada – ou seja conseguem ler e entender algo maior do que uma notinha ou texto curto e simples.
74% da nossa população não seria capaz de ler e compreender um texto ou artigo de revista - funcionalmente analfabeta
Na matemática só 23% conseguem resolver um problema matemático que envolva mais de uma operação e apenas esse mesmo grupo tem capacidade para entender gráficos e tabelas
No ensino básico, nossos pares em termos de estatística são os países da África Subsaariana

Unesco (2006)
De 125 países o Brasil fica em 72º em ranking de educação devido as altas taxas de repetência e evasão no ensino fundamental (deixam país atrás do Paraguai)
Dos 5,8 milhões de alunos que entram na 1ª série somente 466 mil concluem o ensino superior.
Estados Unidos, Finlândia e Coréia do Sul possuem taxas de matrícula no ensino universitário beirando os 90%.
30% de nossos alunos da 1ª série do ensino fundamental são repetentes. Piores do que a gente só mesmo: Gabão, Guiné, Nepal, Haiti, Ruanda, Madagáscar, Laos, Camboja e São Tomé e Príncipe.
Na 2ª série, temos mais 20% de repetentes
Se não conseguimos nem sequer fazer nossas crianças aprenderem a ler e a raciocinar com lógica,é claro que não desenvolveremos a autonomia ou a cidadania (até pq estas dependem das anteriores)

telma disse...

Outros
Dados do Aneb (antigo Saeb ), Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica, teste bienal do MEC que mede a qualidade da educação da 4ª e 8ª séries e da 3ª série do ensino médio :
Na 4ª série 55% dos alunos estavam em situação crítica ou muito crítica na área de leitura, são praticamente analfabetos - só 5% tinham desempenho adequado
Desde a primeira edição do SAEB, em 1995, os resultados médios só caem, tanto em português quanto em matemática
Os alunos do ensino médio apresentaram praticamente a mesma média dos alunos da 8ª série, ou seja, o que aprenderam nos 3 anos de "colegial"?

Com relação à formação de professores, 47% dos professores até 4ª série não têm diploma universitário

O famoso Teste de Pisa - Programa Internacional de Avaliação de Alunos - compara o desempenho de estudantes (15 anos) de 57 países a cada 3 anos - mede o conhecimento de ciências, a capacidade de leitura, inclui noções de matemática e avalia como os estudantes aplicam esses conhecimentos para resolver problemas do dia-a-dia.
Nossos estudantes ficaram em último lugar em matemática (qdo participaram 40 países)
37º em leitura (40 países)
52° com relação ao aprendizado em ciências
Ficou à frente apenas de Colômbia, Tunísia, Azerbaijão, Qatar e Quirguistão. E empatou com Indonésia, Argentina, Colômbia e Tunísia.
Os dados mostram que um brasileiro, em média, sabe o mesmo que um finlandês com cinco anos e meio de escolaridade a menos (A finlândia é, em geral, quem possui as melhores notas no pisa)

telma disse...

Prometo que é a última:

Vejam só:
77% dos professores declararam ser o desinteresse do aluno a razão de sua repetência!!!!! Apenas 5% identificam a má qualidade do ensino como causa do fracasso.
A maioria dos professores não percebe que o desinteresse do aluno é conseqüência, e não causa.
Ao serem avaliados - professores e alunos de 4ª série - constatou-se que o nível de conhecimento dos primeiros era muito parecido com os dos alunos e que poucos dominavam o conteúdo que ensinavam.
Pesquisa do banco mundial mostra que o professor no Brasil gasta de 25 a 47% do tempoe screvendo no quadro, os alunos copiando e respondendo perguntas desinteressantes em vez de terem desafios que os levem a raciocinar, leituras, projetos...
O pior é que em uma pesquisa feita pelo INEP com pais no Brasil mostra que eles estão satisfeitos com a educação oferecida aos filhos!!!!
Essas informações não são minhas, são amplamente divulgadas pelos meios de comunicação (revistas, jornais, internet, etc).
Peço desculpas pelo grande espaço que utilizei, que deveria ser para comentários curtos... É que seu artigo tocou num enorme sentimento de indignação com relação ao descaso de nossas escolas tanto públicas quanto particulares, porque as pesquisas indicam que estas últimas não apresentam resultados muito melhores, com exceção de algumas poucas...
Acredito que esses dados precisam continuar sendo divulgados e discutidos. É preciso que façamos algo, mais do que ações individuais.
Que futuro poderemos esperar desse país?

Andrea disse...

Concordo com o que você disse sobre não devermos matricular nossos filhos em escolas particulares, pelos mesmos motivos.
Mas, por outro lado, é fato que as particulares, hoje, são muito melhores que as públicas... e quando penso que o futuro do meu filho, hoje com 5 anos, depende de sua formação, tanto em casa, quanto na escola; e na imensa competitividade do mercado de trabalho, perco a coragem de colocá-lo em uma escola pública, pois sei que depois ele será esmagado por pessoas melhores preparadas...
Este é o meu maior dilema neste momento!

Ombudsmãe disse...

Oi Andrea,

Concordo com tudo o que você escreveu. A cruel realidade nos leva a escolher o que é melhor para nossos filhos e deixar o lado social de lado. É uma pena. A formação das escolas públicas deixa muito a desejar, aliás, chega a deseducar. Leia os outros textos sobre este tema e verá que este drama aflige muitos pais.

Márcia de Paula disse...

Estudei em colégio particular toda a minha vida, porém o ensino médio foi em um colégio publico federal (cefet). Foi uma das experiências mais enriquecedoras que tive. Foi muito construtivo, me preparou bastante para o futuro... qto a diversidade social, sem comentários. Vc convive com td tipo de gente e 'se toca' que a vida não é cor-de-rosa. Fora que vc já convive com problemas que vai encontrar qd chegar nas universidades públicas e aprende a superá-los desde já.

A escola pública foi a melhor que tive, não no sentido da educação formal, mas ensinou o principal: quem faz a escola é o aluno! ;)

abraços!