18.4.07

Grupo de pais



Aqui em São José dos Campos, estamos organizando um grupo de pais e mães pra discutirmos e trocarmos experiências sobre a árdua tarefa de criar filhos em tempos modernos. Como diz a Rosely Sayão, antigamente, os padrões educativos eram bem estabelecidos e os pais, pra bem ou pra mal, sabiam como agir. Hoje em dia, tudo é questionado, o mundo e as relações humanas mudaram muito. Estamos no meio de uma era de muita confusão. Eu pessoalmente acho que o resultado de tanta ebulição será positivo. Discutir e questionar padrões estabelecidos é sempre benéfico e necessário pra nossa evolução. Mas estar no olho do furacão é complicado e desgastante.

Daí a necessidade de fazermos trocas. De apoiarmos uns aos outros. Nosso grupo vai se reunir semanalmente na casa de uma amiga e contará com a mediação de uma psicóloga, especializada nas relações familiares. Iniciaremos lendo "Pais liberados, filhos liberados", um livro muito bom sobre a comunicação entre pais e filhos. De texto leve e cheio de exemplos corriqueiros (já me enxerguei em vários deles) o livro mostra que a convivência diária não precisa ser uma "guerra". Com técnicas simples e muito eficientes, podemos resolver de forma amistosa e produtiva os pequenos embates do cotidiano.

Nossa primeira reunião foi muito boa e deu para sentir a ansiedade e a necessidade que todos os presentes tinham em colocar para fora suas angústias e dúvidas. Torço muito pro nosso grupo dar certo. E para que melhoremos a nossa performance a cada dia.

13.4.07

Alfabetização precoce


A Ana Paula fez um comentário da maior importância. O que leva tantas escolas a alfabetizarem e “numerarizarem” tão cedo nossas crianças? Já presenciei uma professora dizendo com orgulho que todos os seus alunos de 2 anos terminam o ano sabendo “escrever” o nome! Coloco o verbo entre aspas pois não acredito que uma criatura ainda de fraldas, que mal consegue segurar o lápis, saiba que as formas que copia no papel sejam parte de algo muito maior que é a escrita. Daí vem a explicação chavão “os pais exigem”. Sinceramente, uma escola dizer isso é colocar um atestado de incompetência na porta. Pai e mãe não são educadores. Eles podem ter suas angústias e neuroses (quem não as tem?), mas um educador formado, conhecedor do desenvolvimento infantil e ciente de seu papel na construção do conhecimento, ser conivente com esse comportamento – e até estimulá-lo - é mais do que adaptar-se ao mercado. É irresponsabilidade. Imaginem um pediatra dizendo: “a criança está bem, mas a mãe quer que eu a opere então, farei a cirurgia”.

Ensinar os pequenos a ler e a escrever precocemente, dar-lhes livros didáticos na pré-infância, não é acelerar nada, nem proporcionar um ensino “forte”. Muito pelo contrário. É muito pouco! É bitolar e massificar. O conhecimento vai muito além dos números e das letras. De que adianta saber escrever se não se sabe pensar! A escola precisa, antes de tudo, fomentar a curiosidade e a investigação. Conduzir estes pequenos grandes seres na descoberta de um mundo fantástico, cheio de texturas, sons, sabores, cores e cheiros. Incentivar a vontade de aprender e de conviver. Fazê-los misturar, amassar, correr, fantasiar. Tirar as crianças da mesmice e da passividade. E isso não se faz dando folhinhas onde se deve copiar 20 vezes a letra A.

Concluo tentanto responder à pergunta final da Ana Paula “O que fazer?”. Essa é uma pergunta que também faço. Mas eu diria que, primeiramente, devemos escolher com muito cuidado a escola. Também sou fã e admiradora do construtivismo “autêntico”, como ela coloca, mas conto nos dedos as escolas que desenvolvem um trabalho sério dentro desta proposta. O restante se diz construtivista por modismo, ou sei lá o quê. Piaget deve estar muito constrangido. Segundo, vamos ficar atentos ao que acontece na escola e nos unir a outros pais que pensam como nós. A idéia é fazer pressão contrária. Há muitos professores, coordenadores e diretores competentes, criativos e interessados, que concordam conosco e que precisam apenas de um apoio para implementar mudanças. Eles precisam sentir que há pais que pensam de outra forma e que eles podem contar conosco. Se os pais ansiosos conseguem impor sua marca, nós também podemos, concorda?

Apenas como curiosidade: conheço uma escola que trabalha com muita segurança. É fiel à proposta construtivista, não alfabetiza cedo, estimula a criatividade e tudo o mais que sonhamos para nossos pequerruchos. O irônico é que os pais, mesmo os mais tradicionais, acham a escola excelente e a respeitam muito. É uma escola caríssima e, em tempos bicudos como os de hoje, tem fila de espera. A moral da história é que os pais são ansiosos, medrosos e até neuróticos, mas não são bobos. Eles sabem reconhecer quem realmente entende do assunto. Diante de uma proposta séria e coerente, eles se acalmam, aceitam e aplaudem. É tudo uma questão de confiança. Certo, doutor?

2.4.07

Professor especialista - necessidade ou piroctecnia?





Hoje levanto uma questão que tem me proporcionado muitas dúvidas e que tem se tornado rotina em muitas escolas de educação infantil. Meu caçula tem 3 anos e…6 professores na pré-escola - duas de sala e 4 especialistas –música, inglês, biblioteca e educação física. O meu outro menino, tem 6 anos e…8 professores – 2 de sala e 6 especialistas – os mesmos do caçula, mais o professor de artes e a de informática.
Minha pergunta é: precisa? Quais os ganhos de expormos crianças tão pequenas a uma rotina de troca de professores, antes exclusiva aos alunos mais velhos?

Pode-se argumentar que o professor especialista sabe mais da disciplina e, portanto, estaria mais apto pra ministrá-la. Concordo. Mas estaria ele apto para enxergar a plenitude da criança e seu processo individual de aprendizado, como um professor generalista competente e bem treinado? Não acredito. O professor especialista trabalha com muitas turmas e horários pré-determinados. As atividades têm hora para iniciar e acabar, o que, por si só já contraria um dos princípios básicos da educação construtivista que é administrar o tempo da atividade de acordo com o rendimento e o interesse das crianças. Além disso, o especialista lida com inúmeras crianças, de inúmeras turmas. Certamente, uma ou outra acaba se perdendo no entra e sai de alunos. E, geralmente, os que se perdem são sempre aqueles alunos mais quietos, tímidos ou os mais desinteressados, justamente os que precisariam de uma atenção especial.

Lanço ainda outras perguntas: como fica a rotina na sala de aula, com tantos horários? É hora da roda, do lanche, da profa de música, da biblioteca, do parque. Uma agendinha quase que de executivo. Como faz a professora de sala se uma atividade rende além do esperado e está no horário do outro professor? Interrompe-a, simplesmente? E como fica a caçada ao lobo mau ou a pintura coletiva nas quais as crianças trabalhavam com afinco e interesse? São interrompidas no meio, bem quando estava legal?

E os projetos – são discutidos com os professores especialistas para que todos falem a mesma língua? Nem sempre – já aconteceu de um dos meus filhos estudar os índios com a professora de sala e arte egípcia com a professora de artes. Temas interessantíssimos. Mas que juntos, não fazem sentido algum.

Penso que deveríamos repensar muitas das inovações feitas no ensino nos últimos anos. Dispensar um pouco a pirotecnia “impressiona pais” e voltar para o básico. Um professor generalista, bem treinado e competente, é plenamente capaz de contar histórias, proporcionar atividades físicas de forma lúdica e trabalhar a música, sem que seja necessário o entra e sai de especialistas e a rigidez de horários. E com um olhar na individualidade da criança que só aqueles que convivem no dia-a-dia conseguem obter. Perde-se um pouco da técnica? Talvez sim, mas os ganhos por outro lado são imensos. Aulas mais adaptadas ao ritmo de cada turma, intimidade nas relações professor aluno, agendas mais flexíveis, menos correria, menos estresse, mais liberdade para o professor trabalhar, mais comprometimento com os projetos. Enfim, um ensino mais calmo, aprofundado e menos “executivado”.

O tempo se encarregará de segmentar a vida e enchê-la de atividades e múltiplas tarefas. Temos que colocar nossos pequenos nesta roda viva tão cedo?