O monstro que mora em mim

Outro dia deixei escapar o monstro. Foi com meu filho caçula. O monstro saiu raivoso, colérico, cruel. A expressão de medo no rostinho dele (essa doeu!) me fez imediatamente acordar e lutar para recolher o monstro. Mas era tarde. O estrago já havia sido feito e foi um episódio muito difícil para nós dois.
Decidi que já era tempo de dar um jeito neste monstro. Ficou óbvio neste dia, que o método que usei até hoje de trancá-lo em um quartinho escuro e secreto, não estava mais funcionando. E não havia mais cadeados que o segurassem. Precisava de outra estratégia. Entendê-lo era um princípio. Que monstro é esse? Por que ele mora em mim? Só eu que o tenho? Por que não o controlo? Perguntas e mais perguntas foram brotando.
Uma coincidência me fez entender melhor o monstro. Fui ao cinema ver o filme "Piaf". Saí de lá convencida que meu monstro é um Pikachu perto do dela. Você olha para a mulher e consegue enxergar o tamanho do bicho que mora lá dentro. É preciso um furacão de furia e dor para alguém tão pequena e mirrada cantar daquele jeito. Mas um monstro daquele tamanho é duro demais de carregar. A Piaf tentou acalmá-lo com doses cada vez maiores de morfina e heroína. Acabou matando-o e morrendo junto.
Janis Joplin, Billy Holliday, Elis Regina, Rita Lee, Frida Kahlo, Derci Gonçalves, Maria Callas, Fernanda Montenegro, Amy Winehouse, Madona, Cassia Eller, todas elas e muitas, muitas outras são mulheres monstro. Algumas, conseguem lidar melhor com isso. Outras não aguentam o peso. E sucumbem como Nova Orleans diante do Katrina.
Com elas aprendi que ter um monstro pode ser pesado, difícil, quase insuportável, mas é preferível mil vezes viver com ele do que levar uma vida beje de comercial de margarina. Será uma longa jornada, mas eu e ele ainda vamos nos dar bem.
P.S.: A sorte me fez conhecer algumas anônimas tão monstruosas quanto qualquer uma das famosas citadas. Qualquer dia, elas virarão texto.
P.S.2: Coloquei um link para quem quiser conferir ao vivo e a cores a Piaf cantando. Neste vídeo, de 1962, ela já está no final da vida, bem acabadinha (aos 47 anos!), mas quando canta, ainda consegue fazer a platéia comovida aplaudir de pé.
Comentários
Ele está tirando o meu monstro do sério!
Japa, mostra pra ela que seu monstro é ninja! Que mulher agarrada ao passado, não? Cruz credo, esse monstro ninguém merece. Bota um vaso das 7 ervas na porta e joga sal grosso nos cantos da casa.
Tô atrasada, mas precisava comentar um pouquinho... Aliás queria tanto comentar das escolas e outros, porém não consegui ainda parar para escrever!
Acho que todas temos monstros (lembra-se do livrinho "mamãe virou um monstro"?), até mesmo a "mamãe-margarina-feliz" (pena que ela talvez não seja sequer capaz de se permitir perceber que tem monstros reais apesar da vida de comercial irreal, coitadinha).
O difícil é essa sensibilidade de perceber que o monstro "escapou"... Ainda mais perceber nos olhinhos de uma criança (mesmo travessa)...
Saber do monstro, refletir porque ele anda escapando e mais, trabalhar para tentar transformá-lo e mudar aquilo que está deixando-o fora de controle, creio ser essa a sacada.
beijos, minha irmã querida
A monstra-telma
Mas nem sempre me sinto culpada porque tem hora que eles sugam toda a paciência da gente.
Costumo dizer que na próxima encarnação quero ser passarinha...já viu filhote negar minhoca, responder malcriação?...rs...