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Mostrando postagens com o rótulo mulheres

O topo da montanha

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Dario a chama para ir ao topo da montanha. Ela aceita. Na cidade nova, ela não conhecia quase ninguém e queria muito fazer amigos. Dario é casado. Se conheceram num bar. Tomaram um aperitivo e se despediram com gentilezas habituais. A mensagem com o convite veio dois dias depois. No texto, ele deixou claro que não tinha nenhum interesse nela, além de fazer uma nova amiga: “não se preocupe, você não estará em perigo”, concluiu. Ela achou graça. Dario é um viajante, uma pessoa que coleciona países e amigos de diferentes culturas. É, além de tudo, um cavalheiro. Uma das pessoas mais gentis e simpáticas que ela havia conhecido. Almoçam em um pequeno restaurante no bosque e a conversa flui sem esforço, em mais de três horas de vinho, entradinhas, pratos principais, doces e licores servidos no passo do tempo. Quando acabam, ele diz tranquilo que a levará para ver a vista mais espetacular da região. Entram no carro e sobem uma estradinha sinuosa e deserta. Chegam ao topo e, de repente,...

A maquiadora de defuntos

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A maquiadora de defuntos. A mulher baixinha me conta que maquia defuntos e explica que não chegou ali por acaso. É daquelas que sempre se viraram e nunca tiveram vergonha de trabalhar. Tinha filhos pra criar, qualquer trocado lhe servia. Fazia pão, unha, olhava criança. Arrumou um bico num salão de beleza e lá aprendeu a maquiar. Um dia, uma amiga muito querida lhe chamou e, sem graça, lhe pediu que maquiasse sua mãe que havia acabado de morrer. "Ela sempre foi muito vaidosa, tenho certeza que gostaria de ser enterrada bem arrumadinha." O que não se faz por uma amiga. Pegou seu kit make e foi pra funerária. Conta que cuidou da mãe da amiga como se ela ainda vivesse. Penteou, passou laquê, blush, rímel, batonzinho com sua cor preferida. Disse que envolveu aquele corpo já sem vida com muito amor e quando a família a viu, choraram agradecidos. A mãe estava linda e muito digna. Depois desse vieram outros pedidos, inclusive das funerárias. Foi se especializand...

Blind date

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Blind date Hj tenho um blind date Blind que? Encontro as cegas...deer…vou sair pela primeira vez com um cara que conheci num site Jura?! Vc não tem medo? Morro! Mas ele parece legal Bom…tb…na nossa idade se não for assim vai ser como? kkkk Pois é…no supermercado não consigo pegar ninguém…rs Ele é gato? Não sei. Não tem foto no perfil Ih…então deve ser feio ou é bandido querendo se esconder Ai, para! Ele tem bom gosto, escolheu um restaurante bem legal Então deve ser gay, flor. É ruim hetero com bom gosto dando sopa por aí kkkkkkk  Que horas vai ser? Meio dia. Se eu não te mandar msg até às cinco é porque foi muito bom ou eu tô morta Cruzes! Qq coisa vai no banheiro e me manda uma msg com aquele emoji do pânico Boa! Aí vc me liga fingindo que é minha filha no hospital precisando de mim Combinado! Manda também o contato dele e o perfil Mando, pera aí que não sei fazer isso no meio do chat Assim que vc ...

Mães reais - Teca

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\ Mães Reais - Teca Grávida de uma produção independente e 100% acidental, ela me pergunta se eu poderia acompanhá-la durante o parto. Me senti profundamente emocionada e aguardei ansiosamente o telefonema me avisando para ir para a maternidade. Seria um parto humanizado e ela preparou-se cuidadosamente para isso. Leu tudo que podia, peitou palpites e parentes, escolheu médico figurão, gastou dinheiro além do que podia com consultas.  No dia que o bebê escolheu para nascer, encontrei-a já no quarto, mergulhada em dores, literalmente. Entrava e saía da banheira, inquieta, suportando com muita dificuldade o que estava por vir. De repente começa a gritar: “Eu quero anestesia! Chamem o doutor! Quero anestesia!!!” O médico vem, mas se nega a anestesiá-la. Diz que ela estava a pouquíssimos milímetros da dilatação completa e que se ele a anestesiasse agora ela iria se arrepender, pergunta se era aquilo mesmo que queria etc etc. Ela pareceu aceitar e segue firme...

Chão de estrelas

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Iara apanhava do marido. A porrada não vinha sempre, era mais quando ele bebia. Difícil entender…ele era homem bom, trabalhador, mas bastava tomar uns goles pra cabeça virar e ele descarregar toda a raiva que tinha da vida na cara dela. E a vida lhe dava muita raiva. Ela o conheceu no baile. Viúvo charmoso, com três filhos pequenininhos e aquela pele grossa de homem que ganha a vida com as mãos. A paixão veio forte e logo estavam os cinco morando juntos numa casinha velha de chão batido e telhado alto cheio de furos. Quando chovia molhava tudo, mas quando tinha luar, a casa se enchia de raios de luz. Parecia que estavam num palco, num chão de estrelas. Iara achava lindo. O tempo foi passando, vieram mais duas crianças e quanto mais o dinheiro encurtava, mais as porradas aumentavam. Um dia, quando desceu do ônibus, ela o viu na esquina do bar, dando uma mijada no poste. Mal parava em pé. Ela correu pra casa resolvida a não mais apanhar. Arrumou um pedaço de pau e tranco...

Mulher de fé

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Sebastiana era vidente. Não que gostasse. Sebastiana odiava aquelas imagens que apareciam na sua cabeça dizendo o que ia acontecer com a gente que conhecia. Era casa pegando fogo, era vaca seca no pasto, era parente de bucho virado. Visão boa nunca vinha. Sebastiana era mulher de muita fé. E todas as noites antes de dormir, pedia ao Menino Jesus para ter uma noite só de sono, sem vistorias. Às vezes ele ouvia e ela dormia aquele sono largado de neném depois de mamar nas tetas da mãe. Mas era achar que já estava curada daquela maldição pra coisa voltar piorada.  Um dia, Sebastiana nem precisou fechar os olhos para começar a suar frio e ter pavor. Estava na beira do fogão fritando torresmo, quando viu como numa fotografia, a filhinha bebê atropelada no meio da pista que passava na entrada do rancho. Caiu de joelhos ali mesmo e enquanto a gordura da pele do porco chiava, implorou pra Nossa Senhora, Mãe de todas as mães que, se tivesse que levar sua menininha, que não fo...

A moça do trem

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A moça do trem As moças sentadas à minha frente no trem falam português. Evito contato visual e finjo não entender a língua. Mas presto atenção. Sou voyeur confessa de conversas alheias me trazidas pelo ar. Elas acertam detalhes de uma mudança para a Itália para obter a cidadania: arredores de Firenze...apartamento dividido com outras pessoas…registrar residência...comprar uma motinho.  Pelo canto do olho, as observo. Uma delas é nova, ativa e parece liderar os movimentos da dupla. Tem longos cabelos pretos e é bonita. A outra parece ter mais de trinta anos, tem profundas olheiras, um visual meio judiado e olhar melancólico. Concorda com quase tudo que a outra diz e de vez em quando expressa preocupação por não falar italiano, o que pode prejudicá-la na busca por emprego de costureira industrial. Penso com aquela atitude perdedora ela terá mesmo dificuldade. Sigo com meus julgamentos superficiais quando a ouço dizer: “Assim que conseguir a cidadania italiana, nunca mais volt...

O caçador de vagalumes

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O caçador de vagalumes Depois do sexo, os dois trocam lentas carícias iluminadas pela luz da claraboia. Um vagalume voa pelo lado de fora. Ela sorri. Ele acende um cigarro e lhe conta que quando tinha oito ou nove anos precisou ser internado por muitos dias. A ala infantil estava lotada e o colocaram num quarto com adultos. Era a única criança ali e seus pais vinham visitá-lo duas vezes ao dia, pois eram pobres e não tinham como parar de trabalhar. Ele dá uma tragada e, por trás da fumaça, ela vê os olhos dele embaçarem. Ele fala do tédio, do bumbum todo furado de injeção, das enfermeiras nem sempre gentis. Acabou virando o mascote da ala e, de vez em quando, alguém lhe dava um gibi. Para aquele garotinho pobre, um gibi era mais que um presente de valor incalculável, era também uma companhia, que ele saboreava lentamente página por página, quadrinho por quadrinho. O vagalume continua tentando entrar pelo vidro. Ele se lembra da vez que uma paciente o acordou no meio da n...

A esposa que falava com espíritos

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A esposa que falava com espíritos Bonelinha falava com os espíritos. Era um dom que tinha desde muito nova. Eles se aproximavam de mansinho e diziam coisas em seu ouvido. Às vezes confidências, às vezes auxílio, por vezes um desesperado pedido de ajuda. Uma noite, quando ia colocar a filha pra dormir, um espírito lhe cochicha que o marido, Batista, que havia saído já há algum tempo, todo bem vestido e perfumado, não tinha ido “cobrar verdura de uns fregueses” como ele lhe havia dito. E completou: “Se quiser, te mostro onde ele está." Bonela bota um casaquinho, calça uma sandália, pega a filha nos braços e sai na noite vazia, seguindo as direções do GPS do além. “Vira aqui, passa ali, atravessa lá, anda, anda, anda e bata palma nessa porta iluminada por um candeeiro com luz vermelha." Atende uma senhora de maquiagem e vestido que mulher direita nenhuma usaria. Pelo menos não naqueles tempos. A dona da casa arregala os olhos diante da visitante in...

Comida de astronauta

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Comida de astronauta “Mãe, essa sopa tá esquisita. É sopa de que?” A mãe não sabia. Nem a assistente social soube dizer o que tinha naquele granulado esquisito que ganhou da Prefeitura.  A assistente ainda tentou animá-la: “É comida de astronauta, olha que chique!” “Moça, num precisa ir tão longe pra encher nossa barriga, não. Eu fui criada na roça. A gente era pobre, muito pobre, mas sempre tinha um cará, um aipim, uma taioba pra refogar, uma banana amassadinha pra dar pros bebês. Comida é o que vem do chão que a gente pisa, não da lua.”  “Mãe! Ô mãe! Que que tem nessa sopa?” O resmungo dos filhos a trouxe de volta dos pensativos.  Continuava sem saber o que responder. Misturou a ração da Prefeitura na água quente, colocou o miojo pra dar uma alegrada, uma pitadinha de sal. Sabe lá o que tinha na sopa. Lembrou-se da música que uma das patroas tocava na hora de dar papinha pro nenê. Começou a cantarolar: "Que que tem na sopa do nené...

O beijo do fuzil

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O beijo do fuzil Tem gente que nasce em berço esplêndido. Tem gente que nasce virada pra lua. Marisa nasceu preta e favelada. Virou doméstica, diarista, ambulante e foi se virando que conseguiu dar pro filho um casaco e um boné de marca.  Tem menino que quer ir pra Disney.  Tem menino que quer ir num jogo da Champions.  O dela queria vestir o boné e o casaco da vitrine.  Foi o vizinho que acordou Marisa. Corre lá que os PMs tão dando um esculacho no seu filho e na sua filha.  Marisa salta da cama e chega na cena de pijama. Meus filhos não são traficantes, não senhor. Essas roupas de marca eu comprei na prestação. Sou trabalhadora, aqui não tem nenhum bandido. A roupa é do shopping, mas e o radiocomunicador, heim? Tem rádio aqui não, senhor. O PM resolve aplicar sua própria justiça. Manda Marisa bater nos filhos. Senta mão neles, mas senta forte, que senão batemos nós. Marisa nega. Nunca bati em f...

Maconheira do Cristo

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Maconheira do Cristo Conheci Suzi em um bar em Perúgia e logo no primeiro parágrafo ela conta que é evangélica e toma antidepressivos porque tem uma forte depressão desde a adolescência. Talvez quisesse justificar seu simpático jeito meio atrapalhado falar, emendando uma história na outra e, muitas vezes, perdendo o fio da meada. Nessas horas, ela dá um suspiro, olha pra cima e diz: “Nem lembro mais o que eu estava falando.” Eu também não lembro, mas a gente logo engata noutro assunto e a prosa flui non stop. Mora na Itália há dois anos e no início tinha muito medo de se tratar com os médicos locais: “Aqui não tem muita gente deprimida, então eles não tem muita experiência com essa doença…não é como no Brasil que qualquer psiquiatra é super especialista nisso”. Enquanto pede outra cerveja, diz que quer parar com os remédios porque gosta de beber. “Bebo muito, sou cachaceira mesmo”.  “Mas Suzi, e a Igreja?” “Eu sei que não devia, mas pago meu dízimo e qual o proble...

O cornuto

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O cornuto Quando saio bicicleta, volta e meia passo numa esquina onde há sempre um velhinho sentado em uma cadeira de rodas, tomando sol e olhando o movimento. Numa dessas vezes ele acenou para eu me aproximar. Sinal verde. Velhinho fofo, italianíssimo, carismático e eu desesperada por uma socialização. Bora parlar. Mal me aproximo e ele começa a falar sem parar numa voz rouca e baixa. Explico que ele precisa falar mais devagar pois não falo bem o italiano. Ele abre um sorrisão, que eu diria até safado, se tivesse todos os dentes. Diz que logo viu que eu era gringa e que sou belíssima! Elogio na minha idade não importa de quem, quando e onde vem. Aceito, obrigada! Nos apresentamos com um aperto de mão. Ele me diz que se chama Vitório.  Gentileza daqui, gentileza de lá, eu já ia dando arrivederci, quando ele diz que na Itália amigos se abraçam. Sinal amarelo. O abraço não é tão comum por essas bandas onde estou, sendo que até as mulheres se ape...

Contém zoofilia, adultério e degeneração familiar

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Contém zoofilia, adultério e degeneração familiar  Era uma vez uma princesa, chamada Leda. Ela era tão linda, mas tão linda, que logo apareceu um rei querendo esposá-la. Leda aceitou e eles foram viver no Reino de Esparta. Todos os dias, depois de tomar seu café da manhã de rainha, Leda deitava-se na grama para um delicioso banho de sol. Naquele tempo não tinha biquini, então Leda ia nua mesmo.  Esse arreganhamento todo chamou a atenção de um cara do andar de cima, chamado Zeus. Zeus pirou no corpão da moça e fez um plano para possuí-la. Transformou-se num cisne e assim conseguiu entrar no jardim da rainha. Ao ver aquela ave com aquele pescoção, Leda não resistiu. Voou pena pra todo lado.  Naquela noite, Leda ainda transou com o rei Tíndaro. O resultado desse dia muito louco foi uma gravidez que deu a luz a dois ovos. De um dos ovos nasceram as gêmeas Helena e Clitemnestra e do outro, Castor e Pólux. Naquele tempo também não tinha DNA, então não se sabe ...

Faltam culhões

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Faltam culhões Aurora, a bionda, é uma calabresa baixinha, de pele bronzeada que contrasta com o forte descolorido dos cabelos. Adora usar vestidos curtos, saias rendadas e sapatos de salto bem alto, que a fazem caminhar com uma certa dificuldade pelas ruas de pedra do centro histórico de Spoleto, na Itália central. É minha vizinha de porta e toda as vezes que nos encontramos, deixa claro como sente falta do sul do país. É raivosamente infeliz aqui. Não gosta do povo que acha frio e esnobe, e diz isso empinando o nariz e alisando-o de baixo para cima com o indicador. Também não gosta do pão, do clima e sente falta dos peixes comprados diretamente dos pescadores que aportam nas praias de sua Catanzaro. Convidou-me para um café. Mostrou-me fotos da família e do marido falecido há seis anos. Era um homem belo. Acende um cigarro para contar que foi um câncer de pulmão que o levou tão cedo. Depois dele, nunca mais teve outro homem: “Sou fiel!”.  Com a morte do pai, os...

Largo da Batata

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Largo da Batata Conheci Rafael no busão. Gato.  Eu tinha pouco mais que 20 anos, recém separada, com um filhote pequeno e trabalhando de babá. Uma hora e meia de condução pra ir pro serviço. Duas horas pra voltar.  Rafael era a parte mais legal do meu dia. Minha mão suava e meu coração disparava quando aqueles olhos verdes safados sorriam pra mim. Casei com 18 anos, virgem. Conheci meu marido na igreja.  Nossa grana era pouca, então mantive meu emprego de babá que pousava na casa dos patrões e folgava a cada 15 dias. Demorou pouco pra descobrir que nos dias que eu estava no serviço, meu marido trepava com outra na nossa cama. Arrumei outro serviço de ir e voltar todo dia, assim mesmo não deu certo com a gente. Separamos. Mas o pastor disse que meu casamento era eterno.  Tentei me manter fiel, mesmo depois da separação.  Daí o busão me trouxe o Rafael. Gato. Transamos pela primeira vez num quartinho de pensão no Lar...

Uma espírita a favor da legalização do aborto

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Sou espírita de berço. Nasci numa numerosa e maravilhosa família de seguidores do Kardecismo e nunca, nem por um momento, pensei em ter outra religião. A filosofia espirita me satisfaz plenamente e tem um significado muito grande na minha vida. Cresci fazendo culto no lar, frequentando evangelização em centro espírita, mocidade, participando de trabalhos de cura e mediúnicos. Aprendi ainda muito nova que o aborto deve ser proibido pois o espírito que está reencarnando se conecta ao embrião no momento da concepção. Abortar é negar ao espírito a chance de reencarnar. Não apenas aceitei essa máxima como, durante anos, a tive como cláusula pétrea no meu sistema de valores. Me tornei mãe e procuro transmitir aos meus filhos essa doutrina que sempre me segurou nos piores perrengues da vida. Um dia, conversava com um dos meus filhos sobre o aborto e ele me disse que era a favor. Aquilo me chocou. “Como assim a favor do assassinato de inocentes? Como assim tirar do espírito a...

Caixa de Pandora

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Caixa de Pandora Tia Lourdes era solteira, funcionária pública, baixinha, cabelos curtos e grisalhos. Tinha tudo para ser a mais previsível das criaturas. Mas, vira e mexe, nos surpreendia. Éramos criança quando ela nos visitou pela primeira vez. Antes de sair para dar uma volta, perguntou qual brinquedo gostaríamos de ganhar. Foi minha primeira arregalada de olhos. Nunca um adulto tinha nos feito essa pergunta fora do Natal. Fizemos os pedidos e não acreditei quando ela tirou da sacola o jogo Detetive. Era exatamente o que eu havia pedido. Nem Papai Noel, que nos trouxe Monark ao invés da Caloi, atendia à risca nossos desejos.  Fui morar com ela quando tinha 17 anos. Eu era uma adolescente difícil. Saí um ano depois, brigada. Ficamos um tempo sem nos falar e, de repente, estávamos de volta às boas, como se nada tivesse acontecido. Ela me tirou do apartamento dela, mas nunca me tirou de sua vida. Desse período, tenho algumas lembranças. Uma delas é que nem um grão...

Pré-esposa

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Mozão, Eu sei que você até hoje não entende porque fico tão brava quando você dá uma “pré” nas tarefas que dividimos na casa. Imagino que realmente seja difícil lidar com meus surtos toda vez que você encara uma pia cheia de louça suja e, vinte minutos depois afasta-se, deixando-a ainda repleta de louça para lavar: “Dei uma pré-lavada”. “COMO ASSIM PRÉ-LAVADA?!”. “Ué, dei uma enxaguada pra depois ficar mais fácil.” “FÁCIL PRA QUEM? ”. Você engasga e a louça começa a voar. Ou quando você tira a roupa lavada da máquina e ao invés de pendurá-la, faz uma pilha de roupa molhada sobre o varal de chão, no inovador módulo pré-pendurada. Espano também com as pré-varridas. As varridinhas onde passa o padre, “um quebra galho até alguém dar uma varrida mais profissa.” Mas reconheço que meus pitis pré e pós-arrumação fazem um mal danado ao nosso casamento. Você fica magoado, achando que eu não reconheço sua participação. Eu fico irada, me sentindo uma otária. Então, para acabarmos ...

Linda

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Ela era feia.  Tinha um rosto judiado e pernas curtas e finas que pareciam mal encaixadas sob a barriga larga. O sorriso exibia dentes escurecidos, talvez por café ou cigarro. O cabelo preso atrás mostrava a raiz pedindo tinta. A pele exibia vincos do tempo e da vida. Conversamos rapidamente no intervalo de um curso de pães caseiros. Me contou que fazia o curso para começar a vender pães e aumentar a renda. Disse animada que fazia de tudo para viver. Artesanato com bisqui, lembrancinha para batizados e casamentos, arte em feltro, bijuteria e até unha e cabelo no pequeno salão de beleza montado na garagem de casa. Contou que também costurava roupinhas de boneca e nessa hora seus olhos brilharam…adorava recuperar as bonecas que as amigas e vizinhas lhe traziam. Dava banho, passava condicionador no cabelo, maquiava, punha roupa nova, sapatinho, tirava manchas de caneta. Sua última restauração foi uma Dorminhoca linda, que agora fica em cima de sua cama e ni...