Alfabetização precoce

A Ana Paula fez um comentário da maior importância. O que leva tantas escolas a alfabetizarem e “numerarizarem” tão cedo nossas crianças? Já presenciei uma professora dizendo com orgulho que todos os seus alunos de 2 anos terminam o ano sabendo “escrever” o nome! Coloco o verbo entre aspas pois não acredito que uma criatura ainda de fraldas, que mal consegue segurar o lápis, saiba que as formas que copia no papel sejam parte de algo muito maior que é a escrita. Daí vem a explicação chavão “os pais exigem”. Sinceramente, uma escola dizer isso é colocar um atestado de incompetência na porta. Pai e mãe não são educadores. Eles podem ter suas angústias e neuroses (quem não as tem?), mas um educador formado, conhecedor do desenvolvimento infantil e ciente de seu papel na construção do conhecimento, ser conivente com esse comportamento – e até estimulá-lo - é mais do que adaptar-se ao mercado. É irresponsabilidade. Imaginem um pediatra dizendo: “a criança está bem, mas a mãe quer que eu a opere então, farei a cirurgia”.
Ensinar os pequenos a ler e a escrever precocemente, dar-lhes livros didáticos na pré-infância, não é acelerar nada, nem proporcionar um ensino “forte”. Muito pelo contrário. É muito pouco! É bitolar e massificar. O conhecimento vai muito além dos números e das letras. De que adianta saber escrever se não se sabe pensar! A escola precisa, antes de tudo, fomentar a curiosidade e a investigação. Conduzir estes pequenos grandes seres na descoberta de um mundo fantástico, cheio de texturas, sons, sabores, cores e cheiros. Incentivar a vontade de aprender e de conviver. Fazê-los misturar, amassar, correr, fantasiar. Tirar as crianças da mesmice e da passividade. E isso não se faz dando folhinhas onde se deve copiar 20 vezes a letra A.
Concluo tentanto responder à pergunta final da Ana Paula “O que fazer?”. Essa é uma pergunta que também faço. Mas eu diria que, primeiramente, devemos escolher com muito cuidado a escola. Também sou fã e admiradora do construtivismo “autêntico”, como ela coloca, mas conto nos dedos as escolas que desenvolvem um trabalho sério dentro desta proposta. O restante se diz construtivista por modismo, ou sei lá o quê. Piaget deve estar muito constrangido. Segundo, vamos ficar atentos ao que acontece na escola e nos unir a outros pais que pensam como nós. A idéia é fazer pressão contrária. Há muitos professores, coordenadores e diretores competentes, criativos e interessados, que concordam conosco e que precisam apenas de um apoio para implementar mudanças. Eles precisam sentir que há pais que pensam de outra forma e que eles podem contar conosco. Se os pais ansiosos conseguem impor sua marca, nós também podemos, concorda?
Apenas como curiosidade: conheço uma escola que trabalha com muita segurança. É fiel à proposta construtivista, não alfabetiza cedo, estimula a criatividade e tudo o mais que sonhamos para nossos pequerruchos. O irônico é que os pais, mesmo os mais tradicionais, acham a escola excelente e a respeitam muito. É uma escola caríssima e, em tempos bicudos como os de hoje, tem fila de espera. A moral da história é que os pais são ansiosos, medrosos e até neuróticos, mas não são bobos. Eles sabem reconhecer quem realmente entende do assunto. Diante de uma proposta séria e coerente, eles se acalmam, aceitam e aplaudem. É tudo uma questão de confiança. Certo, doutor?
Comentários
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Muito bom querida professora.
Abração
A instituição escolar constituiu-se em um espaço especialmente organizado para que a criança seja educada e possui em seus quadros profissionais em educação, que estudaram e estudam continuamente essa questão (ou deveriam). Quando os problemas e dificuldades que ocorrem no espaço escolar são transferidos para a família resolver ou mesmo, quando as solicitações dos pais são acatadas, sem reflexão crítica ou esclarecimento, os profissionais da escola expõe seu despreparo e sua incompetência.
Por outro lado, o ensino construtivista é muito difícil. A teoria piagetiana, por exemplo, é muito extensa e complexa e não há como simplificá-la ou transformá-la em uma série de procedimentos ou receitas. Se pretendermos trabalhar seguindo essa orientação é necessário realmente conhecê-la, refletir sobre seus pressupostos, sobre a concepção do sujeito cognoscente, o processo de construção dos valores, o papel do meio, analisar os princípios, as implicações pedagógicas, etc. Muitos professores consideram-se “construtivistas” sem sequer conhecer parte dessa teoria e de outros pesquisadores, cujos trabalhos são referências fundamentais para quem pretende atuar segundo essa perspectiva. Talvez, em virtude da complexidade dessas idéias, alguns educadores restrinjam o construtivismo apenas a certas áreas, como, por exemplo, à somente alfabetização (ainda de forma rudimentar) ou ao trabalho em grupo. Constatam-se, com freqüência, interpretações reducionistas e distorcidas da teoria construtivista, como crer que “não se deva ensinar mais nada aos alunos”; que “agora não se podem mais dar provas”; que “não se pode elogiar ou incentivar” ou ainda “não se deve mais colocar os limites”.
Os educadores também tendem a tomar decisões sobre o “fazer pedagógico”, fundamentadas, principalmente, no senso comum, ou seja, inclinam-se a basear as suas ações na própria experiência, em práticas que conheceram de seus colegas (sem reflexão sobre a coerência teórica) e em argumentações do senso comum, o que dificulta a sua interpretação do que ocorre em classe e do contexto da aprendizagem dos alunos. Talvez, se os professores compreendessem a aprendizagem ou a construção do conhecimento e o desenvolvimento cientificamente, a pedagogia poderia sair do atual estágio rudimentar do decidir e do agir pedagógico embasados no senso comum.
Com relação a questão se deve ou não alfabetizar as crianças na pré-escola, responde a própria Emília Ferreiro: “Não se trata de mantê-las assepticamente isoladas da linguagem escrita. Também não se trata de ensinar-lhes nas classes pré-escolares o modo de sonorizar as letras, nem de introduzir exercícios de repetição escritos e de repetição em coro. É necessário imaginação pedagógica para dar às crianças oportunidades ricas e variadas de interagir com a linguagem escrita. É necessário formação psicológica para compreender as respostas e as perguntas das crianças. É necessário entender que a aprendizagem da linguagem escrita é muito mais que a aprendizagem de um código de transcrição: é a construção de um sistema de representação.” (função social da escrita).
Com conhecimento e criatividade, essa aprendizagem é divertida e natural. Pode-se criar na classe um ambiente alfabetizador, com letras, frases e palavras espalhadas pela classe, livros, revistas, gibis, jornais, cartazes, painéis, murais, etiquetas, “escritas” de todos os tipos, etc. estimulando a criança a interagir prazerosamente com o universo escrito, criando situações em que há a necessidade de utilizar a escrita. Oferecer cantinhos da culinária, biblioteca, produção de livros (escritor), escolinha, jogos da escolinha, desafios, supermercado, hospital, gráfica, correio, banco, confecção de roupas, jornal, farmácia, leitura, jogos com letras, palavras e frases, etc. Enfim, ricos e divertidos!
Infelizmente, assim como na maior parte de nossa sociedade, o conceito educacional está prostituido. Eu entrei nessa minha primeiroa busca por escola ano passado. Não encontrei nenhuma escola fiel à metodologia construtivista. A grande maioria não sabe sequer definir sua metodologia.
Escolhi uma escola fiel á proposta montessoriana e estou confiante que fiz uma boa escolha. Mesmo assim, é necessário muita observação de nossa parte para saber se de fato, o que foi apresentado, é seguido, se os conceitos são aplicados. Encontrei escola "conceituadíssimas" que não só alfabetizam precocemente. Numa delas, meu menino com 3 anos e meio teria que levar o dinheiro e comprar o próprio lanche na cantina. E ainda ouvi que eu não deveria me preocupar pois os lanches servidos lá eram muito saudáveis, sem nenhuma fritura. Ora, ora, ora...fiquei com pena de revelar á ela meus sentimentos e medos mais profundos que vieram bem antes da fritura do lanche!