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Faltam culhões

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Faltam culhões Aurora, a bionda, é uma calabresa baixinha, de pele bronzeada que contrasta com o forte descolorido dos cabelos. Adora usar vestidos curtos, saias rendadas e sapatos de salto bem alto, que a fazem caminhar com uma certa dificuldade pelas ruas de pedra do centro histórico de Spoleto, na Itália central. É minha vizinha de porta e toda as vezes que nos encontramos, deixa claro como sente falta do sul do país. É raivosamente infeliz aqui. Não gosta do povo que acha frio e esnobe, e diz isso empinando o nariz e alisando-o de baixo para cima com o indicador. Também não gosta do pão, do clima e sente falta dos peixes comprados diretamente dos pescadores que aportam nas praias de sua Catanzaro. Convidou-me para um café. Mostrou-me fotos da família e do marido falecido há seis anos. Era um homem belo. Acende um cigarro para contar que foi um câncer de pulmão que o levou tão cedo. Depois dele, nunca mais teve outro homem: “Sou fiel!”.  Com a morte do pai, os...

O naná esquecido

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O naná esquecido Quando pequeno, o irmão tinha um “naná”. Um cobertor de berço que ele carregava pra todo o canto desde que nasceu. Tinha um tom encardido e um cheirinho azedo, mistura de sujeira, xixi, suor, suco de fruta, biscoito e outros nojinhos que compunham o aroma que o menino adorava sentir enquanto chupava o dedo e alisava as bordas puídas. Lavar o naná era proibido. Nas poucas vezes que o fizeram escondido, o resultado era um furioso ataque de indignação diante da traição revelada através do perfume do sabão Minerva. O jeito era dar banhos de sol e torcer para que o calor escaldante do interior paulista desse uma amortecida nos germes.  Eram os anos 70 e, um dia, o pai anuncia uma ida pra longínqua cidade de Caraguatatuba. “Vamos ao mar!” Mil preparativos para enfiar a família de cinco filhos na Caravan. Malas, despesa de supermercado pra vinte dias, boias, pranchas de isopor e 7 horas de estrada. Chegam exaustos e na hora de dormir, bat...

A xota na TV

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A xota na TV Lado A O menino assiste TV. De repente, sua série preferida é interrompida por uma xoxota gigante, 42 polegadas, em close ginecológico. Ele pula do sofá e sai gritando pela casa: “Tem uma xoxota na TV! Tem uma xoxota na TV! Mãe, mano…quem tá vendo pornô?” A mãe e o irmão mais velho chegam rapidamente. O irmão é o primeiro a falar: “Nossa, é mesmo! Tem uma xoxota na TV! Você tava vendo pornô, Fulaninho?” “Eu não! Tava vendo uma série. De repente essa xoxota aí apareceu na frente da TV”. A mãe faz expressão de brava: “Se não foi o Fulaninho, foi você, Beltrano. Você tava vendo pornô?” “Não, né. Tava estudando pro vestibular. Nossa, como será que isso aconteceu? Será que foi o vizinho?” O pequeno olha pra tela intrigado: “Olha, ela está deitada em cima de uma toalha cor de rosa. Epa, pera aí…Mãe! Você está enrolada na mesma toalha! ESSA XOXOTA É SUA!!!!!” “Que absurdo! Claro que não! Como minha xoxota ia aparecer na TV?! Você...

Largo da Batata

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Largo da Batata Conheci Rafael no busão. Gato.  Eu tinha pouco mais que 20 anos, recém separada, com um filhote pequeno e trabalhando de babá. Uma hora e meia de condução pra ir pro serviço. Duas horas pra voltar.  Rafael era a parte mais legal do meu dia. Minha mão suava e meu coração disparava quando aqueles olhos verdes safados sorriam pra mim. Casei com 18 anos, virgem. Conheci meu marido na igreja.  Nossa grana era pouca, então mantive meu emprego de babá que pousava na casa dos patrões e folgava a cada 15 dias. Demorou pouco pra descobrir que nos dias que eu estava no serviço, meu marido trepava com outra na nossa cama. Arrumei outro serviço de ir e voltar todo dia, assim mesmo não deu certo com a gente. Separamos. Mas o pastor disse que meu casamento era eterno.  Tentei me manter fiel, mesmo depois da separação.  Daí o busão me trouxe o Rafael. Gato. Transamos pela primeira vez num quartinho de pensão no Lar...

Uma espírita a favor da legalização do aborto

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Sou espírita de berço. Nasci numa numerosa e maravilhosa família de seguidores do Kardecismo e nunca, nem por um momento, pensei em ter outra religião. A filosofia espirita me satisfaz plenamente e tem um significado muito grande na minha vida. Cresci fazendo culto no lar, frequentando evangelização em centro espírita, mocidade, participando de trabalhos de cura e mediúnicos. Aprendi ainda muito nova que o aborto deve ser proibido pois o espírito que está reencarnando se conecta ao embrião no momento da concepção. Abortar é negar ao espírito a chance de reencarnar. Não apenas aceitei essa máxima como, durante anos, a tive como cláusula pétrea no meu sistema de valores. Me tornei mãe e procuro transmitir aos meus filhos essa doutrina que sempre me segurou nos piores perrengues da vida. Um dia, conversava com um dos meus filhos sobre o aborto e ele me disse que era a favor. Aquilo me chocou. “Como assim a favor do assassinato de inocentes? Como assim tirar do espírito a...

Caixa de Pandora

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Caixa de Pandora Tia Lourdes era solteira, funcionária pública, baixinha, cabelos curtos e grisalhos. Tinha tudo para ser a mais previsível das criaturas. Mas, vira e mexe, nos surpreendia. Éramos criança quando ela nos visitou pela primeira vez. Antes de sair para dar uma volta, perguntou qual brinquedo gostaríamos de ganhar. Foi minha primeira arregalada de olhos. Nunca um adulto tinha nos feito essa pergunta fora do Natal. Fizemos os pedidos e não acreditei quando ela tirou da sacola o jogo Detetive. Era exatamente o que eu havia pedido. Nem Papai Noel, que nos trouxe Monark ao invés da Caloi, atendia à risca nossos desejos.  Fui morar com ela quando tinha 17 anos. Eu era uma adolescente difícil. Saí um ano depois, brigada. Ficamos um tempo sem nos falar e, de repente, estávamos de volta às boas, como se nada tivesse acontecido. Ela me tirou do apartamento dela, mas nunca me tirou de sua vida. Desse período, tenho algumas lembranças. Uma delas é que nem um grão...

Dois pais

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Dois pais.  A filha de um deles tinha cinco anos e desenhava na mesa da copa. No calor tórrido do noroeste paulista, ela usava uma calcinha de crochê vermelho. O filho do outro já era adulto e consertava o fogão da residência. Tinha tocado a campainha e perguntado se tinha fogão pra arrumar. Na boa fé das gentes do interior, ele foi colocado pra dentro e levado pra cozinha. A menina não suspeitou quando o rapaz se aproximou por trás e pediu pra ver seus desenhos. Ficou feliz quando ele começou a elogiá-los. Só achou estranho quando, em meio aos elogios, sentiu os dedos dele entrarem por dentro da sua calcinha.  Ele era tão simpático, mas aquilo era entranho. E, ao mesmo tempo que uma voz lhe dizia: “Isso não é nada, é só carinho", a outra incomodava: “O papai te faz carinho assim? Seus tios te fazem carinho assim?" A menina resolveu afastar-se. Correu para o quarto da mãe, encolheu-se num canto e botou na boca o dedão que há anos não chupava. Qu...

"Pai meteu bebida na filha pra f... gostoso"

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"Pai meteu bebida na filha pra f... gostoso" Se você nunca entrou num site de filmes pornô amador, entre. Eu fortemente recomendo, especialmente se você tem filhos. Estes sites hoje são os principais responsáveis pela educação sexual das nossas crianças e adolescentes. Foi conhecendo esses sites que entendi a reação dos meninos do Piauí que, ao serem pegos após o estupro de uma garota, disseram que não haviam feito “nada de mais”. Eles estão certos. Pela educação recebida através desses sites, violar uma garota não é nada de mais. Pelo contrário, é gostoso, divertido e pura safadeza pegar meninas bêbadas na balada, arregaçar novinhas, expor garotas dormindo e todo um cardápio de abuso que vai além de qualquer imaginação. E não são só as imagens que chocam pela crueza e pela realidade com que a sexualidade é mostrada, cada vez mais distorcida. Os textos que descrevem os filmes são grotescos: “Pai meteu bebida na filha pra fuder gostoso”, “Acariciando a amiga bêbada”,...

O dia das mães é uma merda!

via GIPHY O dia das mães é uma merda! As tias contam que sua mãe, já falecida, havia sido uma menina “terrível”. Os causos que justificam tal adjetivo são muitos. Desde pequena, a mãe nunca gostou de usar roupas. A vó teve que costurar suspensórios nas suas calçolas para ela não conseguir arrancá-las e sair peladinha por aí. Era briguenta como o cão. Uma vez, voltando da escola, ao ser perseguida por um bando de moleques, pegou um ramo de primavera que encontrou numa pilha de podas e foi pra cima deles, botando todos pra correr.  Contam também que ela amava plantas. A ponto de transformar qualquer lata de Parquetina, óleo, banha, sabão, em vasinho de flor. Um dia, para provocá-la, o irmão mais velho destruiu todos os vasinhos. Irada, ela atirou-lhe uma chave, que naquele tempo eram imensas, e quebrou-lhe um dente. Adorava brincar de trapezista e uma de suas brincadeiras preferidas era rodopiar no varal, até que um dia caiu e quebrou o coccyx. A filha se lembra...

Solo pobre

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O aluno de 12 anos sente-se profundamente injustiçado pela reprimenda da professora e, diante da recusa dela em ouvi-lo, deixa escapar toda sua indignação: “Ah, vai se fuder, Fulana…não fui eu que fiz isso!” O palavrão dispara a indignação da professora que começa a berrar. Seus gritos ecoam pela escola e são ouvidos até do segundo andar do prédio - punição número 1. O garoto é mandado para a coordenação - punição número 2. Lá, tenta se explicar em vão. Aparentemente, nessa escola, dizer um palavrão ao professor é o mais grave delito. Tão grave que lhe priva o direito de ser ouvido - punição número 3. Ele é mantido na coordenação durante toda a aula e recreio - punição número 4. Recebe uma advertência para levar para casa - punição número 5. É encontrado tempos depois pelos colegas, sozinho num canto, chorando convulsivamente. As crianças se solidarizam com o amigo. Na vergonha. No excesso das punições. Na perda do intervalo. No berros da professora. No p...

Chá de Revelação

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“Amoras, fui convidada para um Chá de Revelação.” “Chá de Revelação? Qué isso?” “Tentem adivinhar?” “Já sei…o garoto ou a garota convida a família: vó, vô, pai, mãe, tio, primos, babá, vizinhos. Senta todo mundo na sala e, de repente, sai de dentro do armário. Revela que é gay. E as pessoas tem que levar presentes pra montar o novo guarda-roupa.” “Ai, eu já pensei outra coisa…você convida família, amigos, galera, senta todo mundo em círculo e serve um chá tipo lírio, sei lá, desses de erva que abre a mente, sabe? Daí o chá vai circulando enquanto as pessoas compartilham suas revelações.” “Não, gente. É uma piração beeem maior.” “Maior? Então só pode ser reunir todo mundo pra tomar o chá revelador e, quando tá todo mundo locão, o fulano ou a fulana pula de dentro do armário.” “Não, pior ainda. Chá de Revelação é convidar os parentes e amigos pra revelar o sexo do bebê depois do ultrassom.” “Sério! Existe isso?! Que bizarro!” “Menina, as pessoas...

O criado-mudo.

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A mãe mexe no celular quando o filho, rapazola, se aproxima: “Mãe, o que é isso?” Ela responde sem olhar: “Isso o quê?” O moleque bufa: “Isso! O que é isso que achei na gaveta do seu criado-mudo?!” A mãe levanta os olhos e vê o garoto lhe apontando um objeto. Ela responde calmamente, sem mudar de expressão: “Um vibrador. Você sabe o que é isso.” O menino arregala os olhos: “E o que isso está fazendo na sua cabeceira?" A mãe ergue uma sobrancelha e, incorporando a diva de cinema mudo, devolve calmamente: “Você quer mesmo que eu te explique?” O adolescente franze o rosto com asco: “Ai...que nojo! Você é minha mãe! Eu não estou pronto para saber dessas coisas.” A mãe estica a cabeça e faz cara de quem não está entendendo: “Bom, se você não está pronto, por que mexeu no meu criado-mudo? Não sabe que em criado-mudo de mãe não se mexe? Criado-mudo é zona proibida. Você procurou e achou. Agora seja mocinho e lide com esse ...