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Mundo cão

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Mundo cão

Ler notícias ainda é um prazer (ultimamente bem pouco prazeroso, confesso) que me permito todas as manhãs. Antigamente, as notícias me chegavam via folhas de jornal que eram passadas uma a uma, até as pontas dos meus dedos ficarem manchadas de tinta. Hoje, leio em formato eletrônico, não tão charmoso, mas que me permite acessar, naquela telinha tão pequena, um universo imensamente maior e mais veloz que o das grandes folhas de jornal.

Pois foi no site do The Guardian que leio duas notícias aparentemente sem conexão alguma, mas profundamente conectadas e que explicam muito do que estamos vivendo.

Uma é sobre o boom do mercado de hotéis de luxo para animais domésticos na Inglaterra. A matéria descreve quartos com vista para a piscina, poltronas na frente da lareira, refeições onde são servidas lagosta, bacalhau e caviar, cinema com mantinha, snacks e sorvete, desenhos animados na TV, máscaras faciais veganas, comida orgânica, chás descafeinados, creminhos para aliviar os efeit…

Contos de fodas

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Branca de Neve tinha um toc tão profundo, pobrezinha, que logo depois de sofrer uma tentativa de assassinato, a primeira coisa que faz é uma faxina. Pra piorar, depois de envenenada, arruma um príncipe necrófilo porque só isso explica essa tara por beijar defuntas desconhecidas que surgem no seu caminho.

Cinderela sofria abuso da madrasta, depois arruma uma fada madrinha sádica que a faz usar sapatos de vidro e a obriga a voltar pra casa à meia-noite, quando o baile estava começando a ficar bom. E, como desgraça pouca é bobagem, na balada do sapato de vidro, pega um playboyzinho que jura que se apaixonou mas no dia seguinte sequer se lembra como é o rosto dela.

Ariel deixou de ser quem é e abandona os seus pra agradar macho. Fim da história.

Rapunzel sofre abuso não só da bruxa, mas também do príncipe, porque o safado sabe que ela é prisioneira na torre mas, ao invés de ajudá-la a fugir, sobe lá, furunfa e vaza. Cretino.

O pai da Bela faz merda e pra se livrar entrega a filha pra um …

O topo da montanha

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Dario a chama para ir ao topo da montanha. Ela aceita.

Na cidade nova, ela não conhecia quase ninguém e queria muito fazer amigos. Dario é casado. Se conheceram num bar. Tomaram um aperitivo e se despediram com gentilezas habituais. A mensagem com o convite veio dois dias depois. No texto, ele deixou claro que não tinha nenhum interesse nela, além de fazer uma nova amiga: “não se preocupe, você não estará em perigo”, concluiu. Ela achou graça. Dario é um viajante, uma pessoa que coleciona países e amigos de diferentes culturas. É, além de tudo, um cavalheiro. Uma das pessoas mais gentis e simpáticas que ela havia conhecido.

Almoçam em um pequeno restaurante no bosque e a conversa flui sem esforço, em mais de três horas de vinho, entradinhas, pratos principais, doces e licores servidos no passo do tempo. Quando acabam, ele diz tranquilo que a levará para ver a vista mais espetacular da região. Entram no carro e sobem uma estradinha sinuosa e deserta. Chegam ao topo e, de repente, ela …

Churrasco à italiana

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Churrasco à italiana 
A chuva cai torrencial. As pessoas vão chegando e sentando ao redor da mesa que ocupa a maior parte de um puxadinho na frente da piscina. 
Acendem inúmeros cigarros e abrem um vinho que é servido em copos comuns e xícaras de chá. A minha está com a alça quebrada.
A conversa vai ficando animada. Não há nada pra comer.
Uma mulher faz um spinello, que é como os italianos chamam o baseado. Fuma um pouco e bota pra girar. O próximo da roda reclama que ela botou haxixe só na ponta, porque ele só fumou tabaco.
Ela manda ele se ferrar e o spinello segue girando. Tabaco ou haxixe, todo mundo fuma. Menos uma italiana querida, de uns 70 anos, que delicadamente passa o beque adiante explicando que desenvolveu uma coceira na garganta quando fuma, que a faz tossir muito. E é só quando fuma. Ela me explica que o problema é o tabaco. Se fosse erva pura não tinha problema, porque erva não lhe faz tossir. 
A converse segue. Mais cigarros são acesos, mais garrafas vão sendo abertas…

A maquiadora de defuntos

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A maquiadora de defuntos.

A mulher baixinha me conta que maquia defuntos e explica que não chegou ali por acaso. É daquelas que sempre se viraram e nunca tiveram vergonha de trabalhar. Tinha filhos pra criar, qualquer trocado lhe servia. Fazia pão, unha, olhava criança. Arrumou um bico num salão de beleza e lá aprendeu a maquiar.
Um dia, uma amiga muito querida lhe chamou e, sem graça, lhe pediu que maquiasse sua mãe que havia acabado de morrer. "Ela sempre foi muito vaidosa, tenho certeza que gostaria de ser enterrada bem arrumadinha."
O que não se faz por uma amiga. Pegou seu kit make e foi pra funerária. Conta que cuidou da mãe da amiga como se ela ainda vivesse. Penteou, passou laquê, blush, rímel, batonzinho com sua cor preferida. Disse que envolveu aquele corpo já sem vida com muito amor e quando a família a viu, choraram agradecidos. A mãe estava linda e muito digna.
Depois desse vieram outros pedidos, inclusive das funerárias. Foi se especializando e esse virou seu t…

Blind date

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Blind date

Hj tenho um blind date
Blind que?
Encontro as cegas...deer…vou sair pela primeira vez com um cara que conheci num site
Jura?! Vc não tem medo?
Morro! Mas ele parece legal
Bom…tb…na nossa idade se não for assim vai ser como? kkkk
Pois é…no supermercado não consigo pegar ninguém…rs
Ele é gato?
Não sei. Não tem foto no perfil
Ih…então deve ser feio ou é bandido querendo se esconder
Ai, para! Ele tem bom gosto, escolheu um restaurante bem legal
Então deve ser gay, flor. É ruim hetero com bom gosto dando sopa por aí
kkkkkkk 
Que horas vai ser?
Meio dia. Se eu não te mandar msg até às cinco é porque foi muito bom ou eu tô morta
Cruzes! Qq coisa vai no banheiro e me manda uma msg com aquele emoji do pânico
Boa! Aí vc me liga fingindo que é minha filha no hospital precisando de mim
Combinado! Manda também o contato dele e o perfil
Mando, pera aí que não sei fazer isso no meio do chat
Assim que vc chegar, já vai avisando…seu perfil está com uma amiga que é da polícia. Não tente nada…

Mães reais - Teca

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Mães Reais - Teca
Grávida de uma produção independente e 100% acidental, ela me pergunta se eu poderia acompanhá-la durante o parto. Me senti profundamente emocionada e aguardei ansiosamente o telefonema me avisando para ir para a maternidade.
Seria um parto humanizado e ela preparou-se cuidadosamente para isso. Leu tudo que podia, peitou palpites e parentes, escolheu médico figurão, gastou dinheiro além do que podia com consultas. 
No dia que o bebê escolheu para nascer, encontrei-a já no quarto, mergulhada em dores, literalmente. Entrava e saía da banheira, inquieta, suportando com muita dificuldade o que estava por vir.
De repente começa a gritar: “Eu quero anestesia! Chamem o doutor! Quero anestesia!!!”
O médico vem, mas se nega a anestesiá-la. Diz que ela estava a pouquíssimos milímetros da dilatação completa e que se ele a anestesiasse agora ela iria se arrepender, pergunta se era aquilo mesmo que queria etc etc.
Ela pareceu aceitar e segue firme no plano original, traçado com…

Chão de estrelas

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Iara apanhava do marido. A porrada não vinha sempre, era mais quando ele bebia. Difícil entender…ele era homem bom, trabalhador, mas bastava tomar uns goles pra cabeça virar e ele descarregar toda a raiva que tinha da vida na cara dela. E a vida lhe dava muita raiva.
Ela o conheceu no baile. Viúvo charmoso, com três filhos pequenininhos e aquela pele grossa de homem que ganha a vida com as mãos. A paixão veio forte e logo estavam os cinco morando juntos numa casinha velha de chão batido e telhado alto cheio de furos. Quando chovia molhava tudo, mas quando tinha luar, a casa se enchia de raios de luz. Parecia que estavam num palco, num chão de estrelas. Iara achava lindo.
O tempo foi passando, vieram mais duas crianças e quanto mais o dinheiro encurtava, mais as porradas aumentavam. Um dia, quando desceu do ônibus, ela o viu na esquina do bar, dando uma mijada no poste. Mal parava em pé. Ela correu pra casa resolvida a não mais apanhar.
Arrumou um pedaço de pau e trancou a porta. O ho…

Mulher de fé

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Sebastiana era vidente. Não que gostasse. Sebastiana odiava aquelas imagens que apareciam na sua cabeça dizendo o que ia acontecer com a gente que conhecia. Era casa pegando fogo, era vaca seca no pasto, era parente de bucho virado. Visão boa nunca vinha.

Sebastiana era mulher de muita fé. E todas as noites antes de dormir, pedia ao Menino Jesus para ter uma noite só de sono, sem vistorias. Às vezes ele ouvia e ela dormia aquele sono largado de neném depois de mamar nas tetas da mãe. Mas era achar que já estava curada daquela maldição pra coisa voltar piorada. 
Um dia, Sebastiana nem precisou fechar os olhos para começar a suar frio e ter pavor. Estava na beira do fogão fritando torresmo, quando viu como numa fotografia, a filhinha bebê atropelada no meio da pista que passava na entrada do rancho. Caiu de joelhos ali mesmo e enquanto a gordura da pele do porco chiava, implorou pra Nossa Senhora, Mãe de todas as mães que, se tivesse que levar sua menininha, que não fosse daquele jeito…

Sommelier di cazzo!

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As feiras de vinho italianas são eventos imperdíveis. A última que fui custava dez euros e você ganhava uma taça que dava direito, durante dois dias, a provar a produção de cerca de 20 vinícolas. Numa delas, conheci um simpático enólogo. Perguntei o que exatamente faz um enólogo e ele me explicou que é um especialista que cuida de todo o processo de produção do vinho, desde o preparo do solo onde serão plantadas as videiras até o vinho pronto, engarrafado e armazenado. Enologia, aqui na Itália, é curso superior. Comentei que deve ser uma profissão difícil, pois envolve inúmeros saberes e está sujeita a variáveis que fogem do controle. Ele confirmou sorrindo, mas disse que é uma profissão apaixonante. E como todo bom italiano, brincou: “O mais difícil da profissão é aguentar as asneiras de alguns sommeliers”. Olhei para ele intrigada. Achava que enólogo e sommeliers andavam de mãos dadas saltitantes pelos vinhedos. Ele explicou: “Mà non…é cada besteira que volta e meia escuto nas deg…

A moça do trem

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A moça do trem

As moças sentadas à minha frente no trem falam português. Evito contato visual e finjo não entender a língua. Mas presto atenção. Sou voyeur confessa de conversas alheias me trazidas pelo ar. Elas acertam detalhes de uma mudança para a Itália para obter a cidadania: arredores de Firenze...apartamento dividido com outras pessoas…registrar residência...comprar uma motinho.  Pelo canto do olho, as observo. Uma delas é nova, ativa e parece liderar os movimentos da dupla. Tem longos cabelos pretos e é bonita. A outra parece ter mais de trinta anos, tem profundas olheiras, um visual meio judiado e olhar melancólico. Concorda com quase tudo que a outra diz e de vez em quando expressa preocupação por não falar italiano, o que pode prejudicá-la na busca por emprego de costureira industrial. Penso com aquela atitude perdedora ela terá mesmo dificuldade. Sigo com meus julgamentos superficiais quando a ouço dizer: “Assim que conseguir a cidadania italiana, nunca mais volto praquele …

O caçador de vagalumes

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O caçador de vagalumes

Depois do sexo, os dois trocam lentas carícias iluminadas pela luz da claraboia. Um vagalume voa pelo lado de fora. Ela sorri. Ele acende um cigarro e lhe conta que quando tinha oito ou nove anos precisou ser internado por muitos dias. A ala infantil estava lotada e o colocaram num quarto com adultos. Era a única criança ali e seus pais vinham visitá-lo duas vezes ao dia, pois eram pobres e não tinham como parar de trabalhar.

Ele dá uma tragada e, por trás da fumaça, ela vê os olhos dele embaçarem. Ele fala do tédio, do bumbum todo furado de injeção, das enfermeiras nem sempre gentis. Acabou virando o mascote da ala e, de vez em quando, alguém lhe dava um gibi. Para aquele garotinho pobre, um gibi era mais que um presente de valor incalculável, era também uma companhia, que ele saboreava lentamente página por página, quadrinho por quadrinho.
O vagalume continua tentando entrar pelo vidro. Ele se lembra da vez que uma paciente o acordou no meio da noite e o levou…

Bota Bee Gees na vitrola

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Bota Bee Gees na vitrola

Semana passada fui ao cinema assistir a versão remasterizada dos “Embalos de Sábado à Noite”. Homenagem aos 40 anos do filme que foi um dos mais marcantes da minha geração.
A gente morava no interior de São Paulo e queria muito ver esse filme, em cartaz no Cine Bristol, da rua General Osório. Mas eram os tempos da ditadura (a primeira, dos milicos) e, depois do curta metragem nacional e do futebol do Canal 100, entrava a famigerada cartela da censura dizendo que o filme era proibido pra menor de 18 anos.
Eu era dimenor e necas de poder ir. Então, nossas tardes eram sentadas ao redor das meninas mais velhas ou das destemidas, que tinham carteirinha de estudante falsificada, pra escutar de novo e de novo, como num disco riscado, todos os detalhes das história de amor do Tony Manero com a Stephanie. Amávamos John Travolta e odiávamos a rival da Stephanie, Annette, porque era abusada e oferecida (mal sabíamos então que as abusadas e oferecidas ainda virariam nossa…

Balcão de golpes

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Balcão de golpes

- Oi, aqui é o balcão de golpes de estado?
- Sim. Posso ajudá-lo?
- Eu quero tirar esse maldito governo eleito pelo povinho ignorante do meu país.
- Uhmmm…governo democraticamente eleito? 
- Sim, mas é claro que a eleição foi fraudada.
- Fraude comprovada?
- Não, mas a burra que eles botaram no poder nunca se elegeria sem trapaça.
- Certo. Ela cometeu algum crime?
- Claro, roubou pra caramba! Está acabando com o país.
- Aí é mais fácil. Quais os crimes que ela está sendo acusada?
- Pedaladas fiscais.
- Como?
- Pedaladas fiscais. 
- Pedaladas fiscais? Entendo. Bom, eu vou olhar aqui a tabela, um minuto por favor…Item 21: ”Presidente democraticamente eleita sem fraude comprovada e sem crime de responsabilidade”. Ihh…vai custar caro. Bem caro. Não quer esperar pra trocar de governo na próxima eleição? 
- Esperar?! Tá louco? Não aguento esperar nem mais uma semana! Caro quanto?
- Deixa eu ver…Item 21 da tabela de preço…um bom pedaço das áreas de proteção da Amazônia.
- Í…

Ditadores e merenda, história antiga.

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Ditadores e merenda, história antiga.
Durante a ditadura militar, no governo João Figueiredo, houve muita propaganda sobre os fantásticos benefícios da soja, grão estranho à população, cujo plantio estava sendo introduzido em nossos campos.
Me lembro que minha mãe comprou o discurso e eis que, um belo dia, ela aparece em casa com uma saca de 60 quilos de soja.
Tuba, nossa cozinheira*, reinava absoluta no fogão e decidiu que aquele grão desbotado seria preparado de duas maneiras: em forma de salada ou cozida como feijão. Minha mãe bem que tentou introduzir outras variações, mas, basicamente, na nossa mesa, o cardápio era inovado com um rodízio diário de soja em salada ou soja em feijão.
Estudávamos na escola pública e, um dia, recebemos a notícia que o Governo Federal iria introduzir leite de soja na merenda escolar, fabricado por uma máquina que se tornou conhecida na época como “vaca mecânica”.
Nosso paladar infantil entrou em colapso. Não conseguíamos lidar com a notícia de mais soj…

A esposa que falava com espíritos

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A esposa que falava com espíritos
Bonelinha falava com os espíritos. Era um dom que tinha desde muito nova. Eles se aproximavam de mansinho e diziam coisas em seu ouvido. Às vezes confidências, às vezes auxílio, por vezes um desesperado pedido de ajuda.
Uma noite, quando ia colocar a filha pra dormir, um espírito lhe cochicha que o marido, Batista, que havia saído já há algum tempo, todo bem vestido e perfumado, não tinha ido “cobrar verdura de uns fregueses” como ele lhe havia dito. E completou: “Se quiser, te mostro onde ele está."
Bonela bota um casaquinho, calça uma sandália, pega a filha nos braços e sai na noite vazia, seguindo as direções do GPS do além.
“Vira aqui, passa ali, atravessa lá, anda, anda, anda e bata palma nessa porta iluminada por um candeeiro com luz vermelha."
Atende uma senhora de maquiagem e vestido que mulher direita nenhuma usaria. Pelo menos não naqueles tempos. A dona da casa arregala os olhos diante da visitante inesperada: “Dona, pelo amor de …

Comida de astronauta

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Comida de astronauta

“Mãe, essa sopa tá esquisita. É sopa de que?”

A mãe não sabia. Nem a assistente social soube dizer o que tinha naquele granulado esquisito que ganhou da Prefeitura. 
A assistente ainda tentou animá-la: “É comida de astronauta, olha que chique!”
“Moça, num precisa ir tão longe pra encher nossa barriga, não. Eu fui criada na roça. A gente era pobre, muito pobre, mas sempre tinha um cará, um aipim, uma taioba pra refogar, uma banana amassadinha pra dar pros bebês. Comida é o que vem do chão que a gente pisa, não da lua.” 
“Mãe! Ô mãe! Que que tem nessa sopa?”
O resmungo dos filhos a trouxe de volta dos pensativos. 
Continuava sem saber o que responder. Misturou a ração da Prefeitura na água quente, colocou o miojo pra dar uma alegrada, uma pitadinha de sal. Sabe lá o que tinha na sopa.
Lembrou-se da música que uma das patroas tocava na hora de dar papinha pro nenê. Começou a cantarolar:
"Que que tem na sopa do neném?
Que que tem na sopa do neném?
Será que tem fa…

O beijo do fuzil

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O beijo do fuzil
Tem gente que nasce em berço esplêndido.

Tem gente que nasce virada pra lua.
Marisa nasceu preta e favelada.
Virou doméstica, diarista, ambulante e foi se virando que conseguiu dar pro filho um casaco e um boné de marca. 
Tem menino que quer ir pra Disney. 
Tem menino que quer ir num jogo da Champions. 
O dela queria vestir o boné e o casaco da vitrine. 
Foi o vizinho que acordou Marisa. Corre lá que os PMs tão dando um esculacho no seu filho e na sua filha. 
Marisa salta da cama e chega na cena de pijama. Meus filhos não são traficantes, não senhor. Essas roupas de marca eu comprei na prestação. Sou trabalhadora, aqui não tem nenhum bandido.
A roupa é do shopping, mas e o radiocomunicador, heim?
Tem rádio aqui não, senhor.
O PM resolve aplicar sua própria justiça. Manda Marisa bater nos filhos. Senta mão neles, mas senta forte, que senão batemos nós.
Marisa nega. Nunca bati em filho meu, não vai ser agora, senhor. Eles não fizeram nada.
Os PMs ficam putos. Um deles v…

Maconheira do Cristo

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Maconheira do Cristo

Conheci Suzi em um bar em Perúgia e logo no primeiro parágrafo ela conta que é evangélica e toma antidepressivos porque tem uma forte depressão desde a adolescência. Talvez quisesse justificar seu simpático jeito meio atrapalhado falar, emendando uma história na outra e, muitas vezes, perdendo o fio da meada. Nessas horas, ela dá um suspiro, olha pra cima e diz: “Nem lembro mais o que eu estava falando.” Eu também não lembro, mas a gente logo engata noutro assunto e a prosa flui non stop.
Mora na Itália há dois anos e no início tinha muito medo de se tratar com os médicos locais: “Aqui não tem muita gente deprimida, então eles não tem muita experiência com essa doença…não é como no Brasil que qualquer psiquiatra é super especialista nisso”.
Enquanto pede outra cerveja, diz que quer parar com os remédios porque gosta de beber. “Bebo muito, sou cachaceira mesmo”. 
“Mas Suzi, e a Igreja?”
“Eu sei que não devia, mas pago meu dízimo e qual o problema da gente se diverti…

O cornuto

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O cornuto
Quando saio bicicleta, volta e meia passo numa esquina onde há sempre um velhinho sentado em uma cadeira de rodas, tomando sol e olhando o movimento.
Numa dessas vezes ele acenou para eu me aproximar.
Sinal verde. Velhinho fofo, italianíssimo, carismático e eu desesperada por uma socialização. Bora parlar.
Mal me aproximo e ele começa a falar sem parar numa voz rouca e baixa. Explico que ele precisa falar mais devagar pois não falo bem o italiano. Ele abre um sorrisão, que eu diria até safado, se tivesse todos os dentes. Diz que logo viu que eu era gringa e que sou belíssima!
Elogio na minha idade não importa de quem, quando e onde vem. Aceito, obrigada! Nos apresentamos com um aperto de mão. Ele me diz que se chama Vitório. 
Gentileza daqui, gentileza de lá, eu já ia dando arrivederci, quando ele diz que na Itália amigos se abraçam.
Sinal amarelo. O abraço não é tão comum por essas bandas onde estou, sendo que até as mulheres se apertam as mãos. Também não é incomum, mas na…